quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O Brasileirão já tem dono?

Ale Frata/Folha press

Não me entendam mal. Não se trata de papo de secador. Mas pode acontecer de tudo neste Brasileirão, menos o Corinthians deixar escapar o título. Seria um mico monumental. Andei provocando o assunto por aí, assim como quem não quer nada, e o que senti foi que uma considerável maioria acredita piamente que não tem pra ninguém, que os fiéis corintianos - discretamente, por favor - podem ir pensando na festa. Entendo perfeitamente a avaliação, mas depois de tudo que já vi o futebol aprontar prefiro dizer que mais arrazoado é ficar na miúda. 

Tudo quanto é motivo já foi apontado como ameaça ao Corinthians e o escrete de Fábio Carille nem arranhão sofreu. E se o time conseguiu seguir impávido mesmo na ausência de Jadson, fica difícil crer que uns dias de descanso poderiam se transformar em ameaça real a esse semi-reinado alvinegro. O jogo contra o Vitória no próximo sábado, em Itaquera, marcará a volta a campo do time que anda dando nó na cabeça de muita gente. Haja dialética pra elucidar as façanhas dessa equipe que tem encarnado como poucas a capacidade que o jogo de bola tem de desafiar conceitos.

No meu modesto modo de ver as coisas não é o aproveitamento quixotesco, nem o surreal número de faltas cometidas a marca registrada desse time. É na lucidez e na capacidade do treinador de manter os pés no chão - os dele e os de quem ele comanda - que mora o segredo do sucesso. Na última coletiva antes do descanso, Carille foi informado de que o time dele apesar de estar distante de ser o time que mais fica com a bola no campeonato era, ao mesmo tempo, o que ostentava o maior número de passes certos. Um deslumbrado certamente não teria resistido e teria tentado explicar a razão de ter alcançado a proeza. 

Mas o que fez Carille? Confessou ao interlocutor que os números apresentados eram uma surpresa pra ele e que não tinha ali uma explicação, mas que aquilo o intrigava também e que, nos dias que teria sem jogos pela frente, tentaria estudar o que o Corinthians andou fazendo pra, quem sabe, elucidar a razão que tem levado o time a ostentar mais esse feito. Sensacional ou não? Torço pra que hora dessas algum repórter lembre disso e lhe questione a respeito. Tenha ele o encontrado o motivo ou não. Os que tratam o futebol com o devido respeito não se sentiriam desapontados se a resposta depois de uma investigação fosse um sincero: não sei como explicar. Se tem uma coisa que o futebol adora driblar é a razão. E o Corinthians de agora é prova viva disso. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Quando um drible traz a alegria de um gol


Veja o link abaixo. O elástico do garoto do Feynoord não é coisa assim " do outro mundo"
embora aplicado com maestria. O legal é ver a alegria do companheiro que o ajuda a se levantar
do gramado ( e a dele mesmo). Porque depois do lance, claro, deram um jeito de parar o rapaz.

Elástico do juvenil do Feynooord

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A magia da camisa 10

Christian Hartmann?Reuters

As gordas cifras da transação que tirou Neymar do Barcelona podem, de certa forma, representar o apogeu do que os mais ácidos têm chamado de futebol-gourmet. É bem provável que tenha sido. Mas eis que sou surpreendido pelo entusiasmo de um colega de redação que viu naquele " mis en scene" todo um detalhe do futebol de raiz. No começo considerei o entusiasmo exagerado. Mas não era. Ele falava da devoção à camisa 10, que mesmo que tenha sido por vias tortas deu as caras na festa armada no Parque dos Príncipes, em Paris. Permanece viva! 

Incrível que vá sobrevivendo a uma época em que, para se ter um apelo mercadológico e diante da limitação que se impõe de se poder ter apenas um dez em cada time, jogadores de todo o mundo trataram de abraçar os mais variados números. Mais justo seria até alguns times não terem direito a ela. Talvez nem fosse exagero implantar um exame fundamentado em técnica e elegância pra que um jogador obtivesse esse direito. Isso mesmo, penso que de tão grande a camisa dez só deveria ser dada a alguém por puro merecimento. 

Neymar chegou ao PSG e tomou pra si a 10. Vejam só, tanta gente andou dizendo que ele se foi porque no Barcelona não tinha o protagonismo, porque fulano lhe fazia sombra. Pode ser tudo especulação, mas a 10 é algo que no Barcelona, sem dúvida, Neymar não teria direito. A menos que esperasse a vez. Isso por mais gente fina que Messi seja. Fiquei, então, imaginando o que não passou na cabeça do argentino Pastore, que até então envergava a tal camisa no PSG e depois de cede-la foi visto no último sábado jogando com a vinte e sete. 

Não li nada sobre, mas estou certo de que o número não foi escolhido à toa. Como já disse, hoje toda camisa necessita ter um significado atrelado ao número. Sem isso perde-se um apelo de marketing. Bom, o futebol pode gourmetizar, pode se transformar seja lá como for, mas jamais enxergaremos a camisa 10 como uma qualquer. Eu pelo menos estou convencido de que jamais conseguirei. 

Provavelmente pelo fato de ter escrito alguns anos atrás com o amigo jornalista André Ribeiro um livro sobre o tema. O que com certeza me deixou mais sensível ao discurso do amigo aqui da redação que viu na exigência da 10 a sobrevida do futebol com uma dose de romantismo. Sim, foi Pelé que a fez diferente de todas as outras. E pode parecer incrível mas foi levado a ela por inúmeras coincidências. Talvez a predileção, a exigência, fosse, em última instância, do deus do futebol. Se Neymar queria um desafio, está posto: honrar com todas as letras a camisa 10. Futebol pra executar a tarefa o rapaz tem de sobra. Passaria no teste.  
 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Fernando Diniz: um olhar nobre sobre o " jogo de bola"

Pensando o futebol !

video

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O Santos, a Vila, o Pacaembu

Conheço torcedores de tudo quanto é tipo, de tudo quanto é time, mas não conheço um que não tenha se rendido ao charme do Pacaembu. De onde concluo que não se trata de sedução histórica porque não nos faltam estádios dignos de duelar com o distinto Paulo Machado de Carvalho. Ainda que a última Copa tenha roubado a alma de boa parte deles. O Pacaembu nos últimos tempos parece aquela moça que deixou passar demais o tempo e agora semeia entre a família a preocupação de arrumá-la um par. E o Santos há tempos é tido como pretendente. 

Ocorre que o time santista se portou como alguém mais inclinado à solteirice e os responsáveis pelo estádio decidiram buscar um par no exterior. Todo cuidado com o tema é pouco, de outro modo é a Vila Belmiro que pode acabar em situação similar a do Pacaembu. Não ignoro seu apelo monetário. Mas pensar só no dinheiro joga contra a razão de ser de um time de futebol. Hoje falta sensibilidade até para perceber quais são os jogos que devem ser jogados em casa e quais não. E, como ouvi outro dia, essa é uma estratégia que bem feita teria a capacidade de engrandecer as partidas disputadas na Vila. Há quem diga que quando os atletas deixam no ar a preferência por atuar ali estão levando em consideração o fato de não precisarem se deslocar e tal. Mas não quero crer que uma viagem de menos de cem quilômetros, quando se faz outras tão mais longas, seria razão. Acredito na mística da Vila. 

Fato é que o destino do Pacaembu voltou a ser notícia agora que foi aprovada em primeira votação a sua concessão. O que o coloca, a meu ver, mais perto do destino reservado a boa parte dos nossos grandes estádios. Um tombamento nunca os livrou da descaracterização. Na dúvida, olhe uma foto do Maracanã atual. Torço muito pra que seja dado ao Pacaembu um futuro tão nobre quanto seu passado. O que não é fácil. Entendo os entusiastas dos jogos em São Paulo, por razões já ditas. Mas os números que mostram um Santos tão imbatível lá quanto na Vila são contestáveis. Quem sabe até os que não concordam comigo possam ter visto alguma diferença no jogo contra o Flamengo jogado na Vila e este de ontem que se deu por lá. E não tô falando da bilheteria, claro.              

terça-feira, 25 de julho de 2017

Um mito no gol

Foto: Rubens Chiri

O goleiro parece ocupar no futebol a mais singular das posições. A meta traz embutida no desafio de defende-la algo de único, que não está apenas no fato de quem aceita tal condição poder, ao contrário de todos os outros que estão ali, usar as mãos. E como se não bastasse o nível de regularidade absurdo que costuma se exigir deles o tempo ainda tratou de tornar a missão ainda mais desafiadora, porque como se sabe foi-se o tempo em que se exigia dos arqueiros habilidade apenas pra jogar com as mãos. E reza a lenda  que o gol costuma ser o destino dos que não têm talento suficiente para tratar a bola com os pés. Não era o caso de Waldir Peres, mítico goleiro do São Paulo, falecido no último domingo. 

Para os mais jovens a melhor maneira de explicar de quem se tratava é recorrer à definição dada pelo amigo e jornalista Celso Unzelte: Waldir Peres foi o Rogério Ceni da época dele. E se não fosse o Rogério até hoje seria o jogador que mais vezes vestiu a camisa do tricolor paulista. Foi com Waldir Peres misturando sua técnica apurada com uma dose generosa de malandragem que o São Paulo conquistou o Campeonato Brasileiro de 1977. E isso quando o time do Morumbi não tinha em sua galeria nenhum título de âmbito nacional. Nem Robertão, nem Rio-São Paulo, nada. Aos interessados em maiores detalhes sugiro recorrer à internet. Irão dar de cara com um retrato fiel do futebol brasileiro praticado nos anos 70. 

Waldir Peres esteve em três Copas do Mundo. Na de 1982 não foi perfeito no jogo de estreia, mas seguro e maduro que estava não deixou que um erro - insistentemente lembrado até hoje  - compromete-se seu futebol. Carrego comigo a impressão de que ele trazia nos olhos o desconforto dos homens que se sabem, de certa forma, injustiçados. E não seria sem razão. Para um goleiro de tamanha envergadura aquele detalhe do jogo contra a União Soviética merecia ter sido relevado, mesmo por aqueles que não o consideravam o melhor. 

No nosso último encontro recordo que lhe perguntaram porque sorria depois de levar um gol. E Waldir respondeu que não faria sentido chorar. O que me faz levar em conta que, talvez, o desconforto que citei aqui não passe de um engano. E não pense vocês também que ele acabou no gol por outra razão que não fosse talento. Digo isso, porque naquele dia, Rivellino, abusando da intimidade, depois de dizer que o Babão era terrível, um grande goleiro, afirmou que no dois toques Waldir era gênio, tinha facilidade pra jogar na linha. E eu, de minha parte, se escrevo estas linhas é porque quando era moleque adorava jogar no gol. E quando calhava de fazer uma grande defesa não perdia a chance de gritar bem alto: Waldir Peres!   

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O enredo do Brasileirão


A arrancada do Corinthians nas primeiras rodadas do Brasileirão deixou no ar a possibilidade de o campeonato perder a graça. Não há dúvidas de que um desfecho relâmpago na corrida pelo título esfriaria tudo. Mas prefiro pensar, por hora, que apressado se faz tirar qualquer conclusão do que temos visto. Esse início maluco, desconfio, é apenas o futebol zombando - mais uma vez - da nossa pretensa e equivocada capacidade de prever o que ele nos reserva. Os corintianos nunca estiveram tão orgulhosos de serem tidos tempos atrás como a "quarta força". 

Por outro lado temos nisso um começo de Brasileirão surpreendente. E pra mim é essa uma das virtudes mais nobres desse jogo de bola. Assim, de repente, o Corinthians se revelou o time a ser batido. Um time com a fina capacidade de tirar máximo proveito do conjunto, um time comandado por um treinador que está longe de ser tido estrela. E esses detalhes devem ser levados em conta diante da realidade que temos vivido. Tenho a nítida sensação que a matemática, que tem tornado clara a diferença que separa o Corinthians dos outros, fará também multiplicar a pressão a cada nova rodada. Isso sem falar na secação dos adversários que a esta hora já anda elevada à décima potência. 


Por falar na nobre arte de secar vale aqui fazer alguma reflexão sobre a realidade vivida pelo time do São Paulo. De alguma forma parece existir aí uma prova do quanto os interessados em futebol resistem em concebê-lo como um jogo de alma impiedosa e imprevisível. Nesse sentido, desde que virar a mesa não se fez mais possível, temos visto de tudo. Times que tinham elenco pra não cair, mas caíram. Times que pareciam que jamais iriam cair, mas caíram. E ainda assim sinto pairar no ar certo desdém com relação a essa possibilidade quando se fala do São Paulo. Sou capaz de entender onde se amparam as opiniões, mas acho prudente levar a possibilidade em conta, até para que as atitudes para tirar o time desse limbo em que se encontra sejam mais contundentes. É isso que o momento pede. 

O passado dos pontos corridos tem deixado claro que o calvário do descenso, via de regra, não tem se dado somente pela falta de um time competitivo mas principalmente por uma combinação de fatores que juntos levam ao abismo da degola. E fatores pra formar este caldo não faltam à história recente do time do Morumbi. Corinthians e São Paulo, cuja rivalidade nos últimos anos foi às alturas, provam neste momento que o Brasileirão que andamos testemunhando pode não ser uma maravilha mas tá longe de ter até aqui um enredo banal.                    

terça-feira, 18 de julho de 2017

Brasil ...o país dos impunes!


Na Espanha, Sandro Rosell, ex-presidente do Barcelona está na cadeia. E o presidente da Federação Espanhola, Angel Maria Villar, foi preso na manhã de hoje. A história dele não soaria estranha aos nossos ouvidos. Em maio foi reeleito pela oitava vez, sem ter tido de lidar com oposição alguma.
Villar foi acusado dos crimes de administração desleal, apropriação indébita, corrupção, falsificação de documentos, entre outros, todos relacionados à organização de partidas internacionais.


Enquanto isso, no Brasil...


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Futebol: uma perspectiva histórica














Traçar um panorama histórico do futebol é algo ambicioso. Mas vou correr o risco, assim driblo também a indignação de ter visto tudo que aconteceu no clássico entre Vasco e Flamengo. A teoria que alimento está baseada em sintomas à primeira vista simples, como o desencanto cada vez mais  perceptível nos papos sobre o jogo de bola. Os mais velhos talvez digam que esse ranço sempre existiu. Mas aí eu volto no tempo e recordo o papel que o futebol teve na minha formação, recordo o lugar que o jogo ocupava no coração da meninada. Os da minha geração tiveram o jogo de bola como um grande catalisador, como algo que nos dava uma certa unidade. 

Certamente não foi por acaso que em determinado momento no nosso país verdadeiras multidões tenham tomado o rumo dos estádios que vira e mexe eram vistos pulsando ao ritmo de mais de cem mil corações. Hoje em dia se disseca o futebol, mas nada como mirá-lo sob a perspectiva do tempo para entender o que estamos passando. Visto pelo viés histórico o futebol em nós é um sopro. Com esse jeitão supostamente organizado teria pouco mais de cento e vinte anos. E se levarmos em conta a origem nobre - o que o impedia de ser de todos - e que demorou mais de duas décadas para que pudesse ser praticado por negros e se espalhasse pelas várzeas essa trajetória se encurta ainda mais.

Por essas e outras acredito que o que estamos vivendo hoje em dia é uma espécie de ocaso do futebol como grande expressão de nossa cultura. E não me espanta que seja assim tendo em vista como foi e é tratado ao longo do tempo. O apogeu possivelmente tenha se dado nos anos 70 o que explicaria o surgimento de uma seleção como a que tivemos na primeira Copa do México. O que explica também a insatisfação geral dos que são da geração que antecedeu a minha. Quem viu o futebol em todo o seu esplendor não tem como se contentar com o que está aí. Isso me parece claro. De lá pra cá o corpo lúdico do futebol foi tomado pelo futebol de resultado, pelas Arenas e pelos programas de sócios-torcedores com suas vocações elitistas, aterrorizado pelas torcidas organizadas, cuja violência é fenômeno nascido nos anos 90. 

Não acho por isso que o futebol vai acabar. Seguirá movimentando cifras cada vez  maiores, produzindo celebridades, nos divertindo na medida do possível. Mas jamais voltará a ser o que foi, até porque nosso país e os homens também já não são como foram um dia.  

terça-feira, 11 de julho de 2017

O futebol... esse nosso espelho


"Em 2014 e 2015, apenas 3% de todos os crimes cometidos no futebol, dentro e fora dos estádios, foram levados até as últimas consequências. No mesmo período, apenas 5% dos crimes em geral foram punidos até as últimas consequências. No trânsito, apenas 8% dos delitos foram levados até as últimas consequências. E nas lutas históricas, seculares, da posse da terra entre lavradores e latifundiários, somente 3% dos crimes foram apurados até o fim. Falamos do futebol, mas na realidade estamos falando da impunidade brasileira"


As palavras são do sociólogo, Mauricio Murad, que estuda a violência no futebol há 26 anos.

Uma... de um craque !

Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim – 

Crônica de Rubem Braga


Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo?
O leitor que responder “não sei” a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Alias, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.
Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua.
Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma “página de bom vernáculo, exemplar”. Tive vontade de responder: “Mera coincidência” — mas não o fiz para não entristecer o homem.
Espero que uma velhice tranqüila – no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?).
Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. “Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua”. Mas acho que isso é exagero.
Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinqüenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive essa intenção.
Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a bondade de não me cumprimentar.
Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa unia série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para “pegar” as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da “Última Hora” ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de “O Globo?”.
No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, ruas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros.
Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente — de Cachoeiro de Itapemirim!
Rio, novembro, 1951
Texto extraído do livro “Ai de Ti, Copacabana”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 197.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

1982. A Copa que me pegou em cheio


No dia 05 de julho lá no prédio de três andares em que morávamos as brincadeiras, todas elas, cessaram mais ou menos meia hora antes do jogo entre Brasil e Itália.  A molecada andava numa alegria só.  O feitiço do futebol há tempos havia nos tomado. Mas até ali se materializava, ao menos pra mim, mais nas plásticas defesas do goleiro Manga, no astral dos "Meninos da Vila", no Flamengo do Zico. A Copa de 78 tinha ficado para trás e nossas cabeças frescas não tinham como entender tudo o que ela viria a significar, tudo que ela escondia. A de 82, não! Tinha ares de sonho. Uma espécie de ponte que nos dava a chance de flertar com o motivo que tinha levado a geração dos nossos pais, tios, a afins a falar das seleções anteriores, em especial a de 70, como quem conta uma história de realismo fantástico.

Um tempo em que eu jamais poderia imaginar que um dia a vida me daria a chance de tomar umas e outras com o Dr Sócrates. Eta vida louca! Que falta você faz nesse mundão maltratado, meu velho. E foi bem nessa época que alguém me disse que a melhor imagem daquela derrota tinha sido imaginada pelo escritor Joca Terron. Ele afirmava que começou a assistir ao jogo menino e quando a partida terminou era um homem de barba, maduro. Acho que foi o Xico Sá que contou essa. Quando ouvi achei perfeito, porque lembro bem que, ainda que tenha demorado um pouco, terminada a partida, consumada tão retumbante derrota, voltamos todos às brincadeiras. Mas havia no ar uma sensação que deixava tudo meio turvo e que eu não sabia interpretar. A vida se encarregaria de me mostrar que aquilo era o que se sente toda vez que a vida nos rouba uma alegria ou te tira alguma coisa que você quer muito.

Por falar em imagem. A que ficou mais forte em minha memória, e hoje eu sei que na de muita gente, foi a de Paulo Roberto Falcão, depois de marcar o gol de empate no segundo tempo. Empate que teria permitido a sequência daquele sonho, fosse qual fosse o fim. É a imagem que está aí em cima em plano aberto. Mas na transmissão, lembro bem, era um super close que dava às veias estufadas de Falcão o poder do mais absurdo dos gritos. E o cinegrafista, que gostaria muito de ter como creditar, respeitoso e imbuído por aquela emoção toda foi acompanhando a corrida dele histérica pelo gramado, cravando o momento pra sempre nas nossas cabebças. O Dr Sócrates, vira e mexe, insistia na tese de que a derrota, no final das contas, fez de alguma forma aquela seleção maior. Não é teoria fácil de aceitar, mas o Magrão tampouco era homem de se chegar a teorias simples. É possível. A única certeza que tenho é que eu tinha quinze anos e que aquela Copa me pegou em cheio, como nenhuma outra até hoje foi capaz de fazer. Ê Doutor ! Olha eu aqui na tua onda... desdenhando dos títulos.             

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Rogério Ceni: o preço da aposta

Rubens Chiri/São Paulo

Por mais que a imprensa, às vezes, possa se equivocar a respeito de alguns assuntos sou levado a crer que ela foi muito bem ao interpretar o que significava a chegada de Rogério Ceni ao comando do time do São Paulo. Exageros de avaliação à parte o que se ouviu foi um coro afirmando que aceitar a missão assim de primeira, sem ter passado algum tempo trabalhando em categorias menores não era o ideal. Aliás, está aí também a prova de que a trajetória dele como jogador desde o início lhe propiciou um respaldo sem igual. Poucos são os que se veriam nessa condição sem receber como resposta um imenso descrédito. Mas tendo visto o que Rogério foi capaz de fazer como goleiro mais sensato foi não duvidar. 

De sua chegada ao comando até ontem Rogério encontrou todo o respaldo que imaginava que teria. E protegido por esse respaldo conseguiu a façanha de emendar uma sequência de eliminações que talvez não deixasse em pé nem mesmo treinadores com uma Copa do Mundo no currículo. Do time com jeitão promissor que levou à campo no início do ano já não havia nem sinal. Rogério pode até dizer que não esperava viver tudo o que viveu, mas a probabilidade de tudo se dar como se deu era grande, e se ele não percebeu não foi por falta de aviso. Rogério tinha dito outro dia, categoricamente, que não desistiria do trabalho que empreendia. Um tipo de declaração que soaria mais valente se dada com o campeonato terminando. 


O futebol proposto por ele não vingou, mas foram nas declarações dadas pelo agora ex-treinador depois de cada revés que o descaminho se fez evidente. Quanto mais a situação complicava mais seu discurso parecia se apartar da realidade. E não podia existir sintoma pior. Rogério Ceni em sua passagem pelo comando do time tricolor criou uma espécie de elegia das derrotas. Ainda tenha sido com a boa intenção de enaltecer o que por ventura estivesse dando certo. Mas a estratégia acabou dando um motivo a mais para a torcida repensar o apoio ao eterno ídolo. 

Na derrota para o Flamengo a situação atingiu o ápice. Dizer que o árbitro tinha inventado uma falta, que a barreira do time dele estava a dez metros da bola, e ver todos esses argumentos caírem por terra quando à noite os programas de esporte colocaram em campo os recursos da tecnologia, tornou tudo muito óbvio. A passagem de Rogério Ceni pelo comando do time pode vir a custar uma temporada. Talvez não seja descabido pagar esse preço em nome de uma história bonita como a construída por ele. Só não era o momento. Como parece ter ficado bem claro.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O requinte de um torcedor comum

Não sou sujeito desses de ficar por aí atazanando os outros por causa de futebol. Sabe aquele cara chato que quando seu time dá uma derrapada sempre aparece pra ressaltar o amargor da hora? Sem se mancar que um papo de futebol com direito a sarro só com intimidade. O tipo que se dá o direito de pintar na área todo zombeteiro sem ter contigo o mínimo de convivência não passa de um deselegante. Não é o caso do Jorjão lá do almoxarifado. Este soube muito bem ir construindo a relação. Sempre educado, sem pontos de vista descabidos. Figura daquelas que preza essa troca de impressões sobre o jogo tanto quanto o próprio jogo. 

Corintiano, como vocês podem imaginar,  o sujeito anda que não se cabe. O que tem me impedido, ao menos por hora, de com ar sacana perguntar para ele - meio de longe - porque é que anda tão escondido atrás do balcão. O que ele costuma fazer quando o Timão dá aquela patinada. É homem simples, prova disso é que antes do embate com o Grêmio, depois de perguntar o que é que eu achava, disse que trazer um pontinho dos pampas estaria de bom tamanho. Também não é desses que costuma fazer desfeita de vitórias magras. Mas jamais caia na besteira de falar bem do Rodriguinho perto dele. Mesmo porque o Jorjão não é que não goste da seleção (ainda mais essa que aí está) mas é que ele quer saber mesmo é do Corinthians. 

Já tentei de tudo quanto é jeito mostrar pra ele que o meia tem sido fundamental pro time dele. E ressaltei que não é de agora não, que bastaria ele fazer uma pesquisa breve e lhe saltaria aos olhos a quantidade de jogos que Rodriguinho ajudou a resolver fazendo gol ou dando passe. Mas o que me impressiona nesse tipo de torcedor é a convicção. Depois do embate em Porto Alegre fui ter com ele e quis saber se continuava pensando o mesmo do goleiro Cássio. Jorjão... não deixou a menor dúvida. 

Com a educação costumeira reconheceu a boa fase do titular, mas em seguida tratou de deixar claro que segue sendo mais o Walter. E não se fala mais nisso. Sobre o Patriotas, adversário de ontem à noite pela Sul-Americana nem quis travar conversa. Tempos atrás pelo teor dos papos saquei que pra ele uma vaga na Libertadores do ano que vem tava de bom tamanho. Mas o sorriso despejado no meio do nosso último colóquio não me engana. Jorjão anda achando que Papai Noel, quem sabe, lhe trará um Brasileirão no final do ano. Guardei silêncio sobre minha dedução, mas pensei comigo: o homem anda cheio de razão pra sonhar isso. É ou não é?

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Demorô

Não se trata exatamente de uma gíria. É, digamos, uma malandragem gramatical. Não sei bem quando começou a ser usada. Mas não é coisa muito antiga. É possível que em meados dos anos noventa, quando  eu ainda podia ser tachado de jovem. De uma hora pra outra passou a ser um tal de demorô pra cá, demoro pra lá. Bastava pintar a deixa. Diante da mínima hesitação o interlocutor mandava um demorô. E a graça era que, bem usado, ele se revelava de um cinismo cortante, já que tornava ainda mais evidente o fato de algum ato tomado com certa lerdeza.

Vou tentar ser mais claro e desvendar a condição que fazia dele algo tão eficaz. Digamos que eu estivesse passeando pelos jardins da orla santista e encontrasse um desses cartolas da CBF pelo caminho. Em tom casual iniciaríamos uma conversa. Falaríamos das agruras do nosso futebol. Ele, fatalmente, diria que essa perseguição da mídia anda tornando tudo mais difícil. E, assim como quem não quer nada, eu lhe diria que é preciso tomar alguma  séria providencia com relação a arbitragem. Ele, sem titubear, responderia que a entidade, lógico, quer resolver essa questão o mais rápido possível. Lembraria do árbitro de vídeo. Aí tchum! Eu, arriscando criar uma enorme inimizade, sem pestanejar mandaria na lata:

_ Demorô !

É verdade que, pouco íntimo do cinismo que a expressão pode conter, ele talvez tomasse a colocação como uma crítica qualquer. Bom, espero que a essa altura os menos íntimos dessa gíria tenham sacado o que ela encerra. É que foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando vi a lambança que o árbitro da partida entre Avaí e Flamengo fez. No dia seguinte cheguei a até a ouvir um comentarista de arbitragem dizer que ele poderia ter feito o que fez já que o pênalti ainda não tinha sido cobrado. O problema é outro. Duvido que tenha voltado atrás movido apenas por reflexões. E se não foram apenas reflexões a regra foi violada e ponto. E olha que o lance é daqueles que nem mesmo o vídeo será capaz de levar à unanimidade. Aliás, triste dos que imaginam que esse recurso será o fim das polêmicas. Alguma coisa precisa ser feita, claro. De minha parte, pelo que aqui vai exposto, me limito a dizer simplesmente:


_ DEMORÔ!

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O futebol e seus veredictos


Sejamos sinceros. Imagine você na sua profissão tendo que ouvir, muitas vezes dito por pessoas de conhecimento duvidoso, que não é bom o suficiente para trabalhar numa grande empresa. Ou que com o que você tem mostrado poderia, no máximo, ser o reserva do gerente geral. É preciso muita fibra pra lidar com isso, e duvido até que exista nesse mundo alguém que, de um modo ou de outro, seja imune a críticas. Isso sem contar que quando se trata de futebol muitas vezes quem precisa lidar com esse tipo de desafio mal passou dos vinte anos de idade.

Ossos do ofício dirão os mais diretos. E eu nada teria contra esse tipo de discurso se ele fosse usado com certo equilíbrio e em casos onde tal veredicto se apresentasse como inevitável. A verdade pode ser cruel, sabemos. A questão é: quem pode se apresentar como dono dela?  Sempre duvido do que se apresentam nessa linha. Conheço um pouco os mecanismos que movem a crônica e não temo dizer que raciocínios desse tipo costumam ser amparados no argumento de que sem ser taxativo o que resta é apenas erguer um muro de discursos insossos.

Ora, jamais vou concordar com isso, nem apoiar a crença de que apenas a polêmica é capaz de temperar pra valer as conversas sobre o jogo de bola. O embate sobre pontos de vista existirá em qualquer conversa e será por si só a melhor das matérias primas. Tá pra nascer o que supere uma boa reflexão e um olhar interessante. E aí reside a armadilha da polêmica. Quando um sujeito coloca suas fichas nela é inevitável que mais cedo ou mais tarde, para alimentá-la, acabe se vendo obrigado a defender pontos de vista que não seriam exatamente os seus.

Acho intrigante quando a crônica, por exemplo, faz em coro um mea culpa. Como vem fazendo no caso do volante Casemiro, agora campeão da Liga dos campeões da UEFA com o Real Madrid. Mais segura ela talvez chegasse à conclusão de que as críticas, embora exageradas, faziam algum sentido. O jogador é que já não é o mesmo. Se aprimorou, teve a nobre oportunidade de ir trabalhar com quem sabe bem mais do que ele. Ou ser comandado por alguém como Zidane é comum? Sabe-se lá o que é capaz de tirar o melhor de cada um. Vai ver até que esse mar de críticas serviu  como combustível ao talento de Casemiro. O futebol é um enigma.

sábado, 3 de junho de 2017

A Realeza !

Foto: Getty


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Dinheiro não compra felicidade

Faz mais de vinte anos que a grana com grife passou a fazer a diferença no futebol brasileiro. Dos esquadrões marcantes montados pelos chamados grandes de São Paulo o único do qual consigo me lembrar sem que junto não me venha à cabeça o nome do patrocinador, é o São Paulo do início dos anos 90.  Logo depois veio o Palmeiras da Parmalat. E quando a década se fez mais madura foi a vez do Corinthians. Primeiro tabelando com um banco e depois com fundos de investimentos e sua dinheirama desde sempre suspeita. E assim nomes como Excell, Hicks Muse e MSI ficaram tão falados quanto os dos jogadores que eles trouxeram. 

 Atualmente a vez voltou a ser do Palmeiras que tem navegado num mar de dinheiro. Primeiro oriundo de um presidente que muitas vezes mais pareceu um mecenas e depois de um patrocinador de dar inveja a qualquer time da Série A. Os mais radicais poderiam levar essa conversa pro lado do doping financeiro, coisa que eu nem considero descabida de ser discutida. Mas escolhi o assunto porque a primeira manchete que me chamou a atenção neste início de semana foi uma que anunciava que o Palmeiras trabalha para afastar a pressão que veio com o alto investimento. 

O que eu sei é que, muito anos depois, o modelo de negócio travado entre o Palmeiras e a Parmalat era tido pelos entendidos como o exemplo a ser seguido. E isso só mudou, ou se apagou, quando a multinacional viu sua reputação ir por água abaixo. Mas há aí um detalhe histórico que deveria ser lembrado e que tanto o clube quanto o patrocinador deveriam ter em mente sempre: enquanto a parceria foi tida como um sucesso todas as partes envolvidas diziam pra quem quisesse ouvir que os resultados vieram muito antes do previsto, o que tinha facilitado tudo. 


Naquela época voltar a ser campeão brasileiro pareceu justificar o investimento, o que agora não parece ser o caso. Há uma insatisfação geral no ar. Só que ter mais do que os outros nunca foi garantia de satisfação. Existem muitos casos que podem ser usados pra comprovar essa teoria, inclusive, um certo Flamengo, centenário, cheio de talento, mas que virou sinônimo de que o dinheiro nem sempre compra a felicidade. Agora vejam. Nem tudo está perdido porque em matéria de futebol, também não faltam provas de que, às vezes, ele compra sim.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Tite no "El País"


No último post falei da posição adotada pelo técnico da seleção. E na entrevista que concedeu ao "El País", assinada por Breiller Pires, Tite voltou ao tema. E foi mais direto ainda. Bom de ler.

"Na minha atividade, eu posso e quero contribuir com a sociedade. O esporte educa. É a ferramenta de educação mais barata que o Brasil tem à disposição. Se for jogar uma peladinha de dois contra dois, tu tem de respeitar regras. O Sócrates falava muito disso. O futebol é um instrumento de educação. E qual é a contribuição que posso dar ao Brasil? O exemplo. Eu quero vencer por ser mais competente, mais ético e mais leal, com a autoestima elevada. O que significa autoestima elevada? É não precisar de subterfúgio para vencer. Eu posso ganhar tendo orgulho de ser melhor que o meu adversário. Dentro das regras do jogo, sempre. Isso eu acho do c…! Eu não preciso da arbitragem, só que quero que ela seja imparcial. Eu não preciso da malandragem. Eu posso ser melhor que isso".

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Que moral tem o futebol?


Querem saber do que gostei mesmo nos últimos dias? Além de ter visto o Vanderlei fazer mais uma defesa daquelas e Milton Mendes, técnico do Vasco, mostrar pulso e colocar o atacante Nenê no banco? O que eu gostei mesmo foi de ouvir o Tite falar em alto e bom som que a honestidade do garoto Rodrigo Caio pesou pra que ele aparecesse entre os convocados. O comandante do escrete nacional também deixou claro que a conduta tem com ele tratamento parecido com o que dispensa ao desempenho técnico. Rodrigo Caio, como Tite também fez questão de lembrar, fez uma Olimpíada irretocável. Acho até que já disse aqui que, de certa forma, o momento do São Paulo acabou ofuscando o bom rendimento do zagueiro tricolor. 

O bacana de ver o Tite fazer menção à nobreza que o jogador teve ao se mostrar íntegro no gramado é que, a meu ver, corrige um pouco as coisas. Já que o que, na minha opinião, era pra ser motivo de aplausos acabou sendo, antes de tudo, combustível para debates atravessados. E o bem intencionado Rodrigo Caio acabou ficando na mira de gente que está longe de pensar que integridade não rima com o jogo de bola. E não estou falando aqui de comportamentos extracampo. A vida é de cada um. E todo mundo pode fazer dela o que bem entender. Mas a receita exige que cada um tenha coragem para arcar com o preço da atitude que toma. 

Como disseram alguns o fair play de Rodrigo Caio não irá mudar o futebol, não o fará diferente. Realmente não fará. Mas não consigo imaginar em que mundo estaríamos se cada um se ocupasse de fazer apenas o que acredita ter a capacidade de mudar o mundo. Provavelmente a essa hora ainda estaríamos morando em cavernas. Pra mim o ato em si basta. E ponto. Como em qualquer campo da atividade humana os que apontam algum caminho merecem respeito. 

Não é o caso da Conmebol, por exemplo, que anda dizendo aos quatro ventos que moralizará o futebol sul-americano. Aí pune o Peñarol depois de toda a confusão vista na partida contra o Palmeiras com uma única partida com portões fechados e mais uma multa. Já que arrecadar nunca é demais. Decisão que só torna mais visível o vazio moral que corrói o futebol de dentro pra fora. Não quero acabar com a malandragem no jogo, não espero que ele seja praticado por gente com ar de santo. Apenas gostaria de ver nesse universo os poucos exemplos dignos tratados com a devida importância. E se há gente mesmo lá na Itália a fim de Rodrigo Caio, acho que ele deveria pensar seriamente no assunto.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O futebol no armário

Faz tempo que ele já não é o mesmo. Em outras épocas fazia um homem feliz com um calçado roto, empoeirado e, acreditem, até de pés descalços. Teve, desde sempre, um ar nobre  Mas trazia na alma algo de popular. Era figura fácil. Não foi por acaso que por estas plagas em determinadas gerações veio a ser a brincadeira-mor da garotada. E foi de tamanha simbiose com o nosso povo que, algumas décadas depois de ter chegado, se fez seu retrato, sua cara. Um desavisado qualquer pode até achar que isso não passa de um modo figurativo de expressar essa relação. Não é. Com sua grandeza foi além, muito além. Fez fama planetária. 

Mas a verdade é que o sucesso o transformou. Tornou-o afetado, talvez, não sei. O que eu sei é que a cada dia que passa tentam fazer dele algo mais exclusivo. Normal, portanto, que diante disso acabasse se distanciando de sua essência. Seus trajes andam cada vez mais caros. Uma camisa dele custa o que para muitos seria, e é, uma pequena fortuna. E que não venham lhe falar em camisas de algodão. Essas, faz tempo, deixou de usar. Um sem fim de tecidos sintéticos foram criados só por causa dele. Cujos criadores tiveram a audácia até de bolar algo que não deixasse mais nem o suor lhe pesar sobre o corpo. Graças a esse seu apetite para o requinte as chuteiras pretas, que outrora lhe eram quase uma marca, praticamente foram legadas ao esquecimento. 

Agora vejam, se faço esse relato é para avisá-los que vocês não devem se deixar levar pela aparência. Este senhor, pode ter alcançado um sucesso que nenhum outro semelhante seu ousou alcançar, mas infelizmente está longe de ser um exemplo moral. Sua única desculpa, se é que há uma, é a de refletir a pequenez dos homens que o cercam, a sociedade que o abraçou. Está longe de poder ser considerado transparente, embora insista em trazer consigo um discurso forte que tanta convencer a todos dessa sua intenção. Serve a um dono. E este é um detalhe importante. Juraria que ele é um homem bom, infinitamente bom, mas cruelmente corrompido por aqueles a quem entregou seu destino. Tivesse o mínimo de decência trataria homofobia, como trata o racismo. Mas o que vimos nos últimos dias foi o futebol acovardado diante de um suposto caso do tipo. 

Um jogador ameaçado em sua chegada com bombas. Com todas as instâncias envolvidas fazendo vista grossa ao ocorrido e apenas uns poucos da imprensa fazendo questão de não deixar o fato passar em branco. O alvo de seu preconceito foi um jogador que demonstrou ter confiança em si mesmo avisando que a resposta será dada em campo. Que o ambiente hostil não lhe intimide. O ameaçado não é um qualquer jogando bola. Tem títulos expressivos. Diante do fato a conclusão é óbvia. O futebol, por incrível que pareça, vai deixando evidente que anda mais atrasado do que a nossa própria sociedade. Que está longe ser moralmente moderno, digno do que o nosso tempo pede. Dá a impressão que segue com a capacidade de ser sensível às diferenças trancada em algum armário. Um armário que nem ele abre, e nem permite que seja aberto.               

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Na pressão !



Poucos são os treinadores no Brasil capazes de fazer silenciar a corneta da torcida. Cuca, que acaba de se apresentar, ou reapresentar, ao Palmeiras é um deles. E ainda que tenha construído num passado recente trajetória capaz de justificar sua contratação por qualquer clube do país, muito provavelmente foi por essa qualidade tão rara que ressurgiu como único caminho possível ao atual campeão brasileiro depois da demissão de Eduardo Batptista. E ainda que a escolha do treinador que agora sai de cena tenha sido tremendamente questionada desde o início não dá pra negar o fato de que o Palmeiras na ocasião tenha feito uma escolha que merecia ser reconhecida pois driblou o óbvio. 


Mas uma coisa é ter coragem de fazer a aposta e outra bem diferente é ter coragem para mantê-la. E tão raro quanto um treinador que aplaca a insatisfação da torcida é um dirigente que não se curva diante da pressão. O que não dá é pra se omitir, negar responsabilidades. O presidente do Palmeiras foi eleito no final de novembro e Eduardo Baptista anunciado no início da segunda quinzena de dezembro. Não que a dispensa tenha sido incompreensível. Qualquer um que tivesse gasto algumas dezenas de milhões para montar um time e o visse oscilar tendo pela frente uma fase de mata-mata cada vez mais perto poderia ter tomado atitude semelhante. 

A lição que fica é velha conhecida, a lógica e o sistema fazem do treinador o único penalizado. Para a crueldade do nosso futebol o único antídoto continua sendo uma boa dose de bons resultados. Está aí o técnico corintiano Fábio Carille pra provar. Só ele teve a capacidade mais contestada que a de Eduardo Baptista neste início de temporada. Até porque se imaginava que o elenco estelar montado pelo Palmeiras fosse capaz de esconder certas limitações. E talvez fosse. Mas a direção palmeirense não estava nem um pouco a fim de pagar pra ver. 

Humilde, equilibrado, hábil no trato com a imprensa, Carille fez do Corinthians o rei dos clássicos no Campeonato Paulista. Na verdade fez mais, montou um Corinthians que, a meu ver, foi muito mais competitivo do que o Palmeiras.  É, mas  quando a gente acha que já viu tudo em matéria de futebol, que somos capazes de decifrá-lo, ele trata de nos apresentar um viés intrigante. Ou não é intrigante que um jogador como Cristiano Ronaldo, que anda voando em campo, se veja obrigado a ouvir vaias jogo após jogo? Isso mesmo quando sai de campo depois de marcar três gols diante de um rival como o Atlético de Madrid? 

Juro, nessa pedi ajuda a um amigo espanhol. Achava que algum detalhe tinha escapado do noticiário por aqui. Eis que ele, então, me rebate com contundência, admitindo que o gajo tem jogado muito, mas muito mesmo, mas que infelizmente é uma figura insuportável. Fiquei a ponto de dizer que os madridistas eram todos uns mal agradecidos. Mas pensei um pouco e cheguei a conclusão que a relação de uma torcida com um time tem algo da relação de marido e mulher e que, portanto, ninguém deve meter a colher. E que peça pra sair aquele que não aguentar a pressão.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Um conselho


Se conselho fosse bom não seria dado de graça. Vixe, olha eu aqui de novo com uma frase dessas que todo mundo já ouviu alguma vez na vida. Mas que o leitor não ache que algo dito insistentemente deva ser tomado como verdade. Há, no entanto, frases que estão mais perto dela. É o caso daquela que diz, por exemplo, que uma mentira dita mil vezes se torna verdade. A vida e o jornalismo estão aí pra provar que se essa precisa ao menos faz muito mais sentido do que outras.

A vida tem me ensinado que, mesmo dado de graça, um conselho pode ser valioso. O segredo é dar uma boa peneirada. Por isso, aconselharia Felipe Melo a seguir o que lhe foi dado pelo ex-jogador Edmundo. Ao se ver obrigado a comentar o comportamento do jogador do Palmeiras, Edmundo, sugeriu que ele tome muito cuidado com o que diz e faz para não ficar marcado. Mesmo se tratando de alguém que passou longe de ter em campo um comportamento exemplar, Edmundo sabe como poucos o preço de ser, como ele mesmo se considerou, um cara intempestivo.

Ganhar a antipatia de quem cobre o futebol não é uma boa, disse ele. O que Edmundo nunca poderá dizer é que a antipatia por ele nasceu à toa. Fosse o mundo do jornalismo um pouco mais exigente provavelmente ele não teria conseguido até hoje um microfone pra chamar de seu. Hoje, mais maduro, menos intempestivo, entrega de bandeja um conhecimento que provavelmente lhe custou caro. Mas, como escreveu certa vez um velho cronista, se pudéssemos aprender com a cabeça dos outros evitaríamos muitas cabeçadas. 

É claro que a imprensa tem um papel fundamental nisso tudo. Sob o pretexto de que o futebol anda carente de personagens diferentes dá a comportamentos desse tipo certa preferência. O risco vem embrulhado com o papel brilhante do sucesso, do protagonismo. O diferente costuma nesses casos acreditar que é capaz de entender profundamente como a mídia se comporta, chega a crer que a domina. A torcida compra a ideia, se alimenta dessa intempestividade, faz dela uma bandeira. Só que lá no fim saem desse circo todos ilesos, menos a figura central de quem se terá pra sempre uma imagem muito bem definida, e da qual o sujeito dificilmente conseguirá se livrar.

Erros não há quem não os cometa em maior ou menor número, mas os desse tipo costumam vir acompanhados por algo mais cruel do que amargar um arrependimento.. O preço a pagar é alto. E há que se levar em conta que não é só com valentia que será possível livrar o futebol dessa chatice que anda reinando. Basta olhar pra história do futebol e ver quantos valentes já não se curvaram diante desse tipo de castigo. O toque dado por Edmundo foi desses que passaria no teste da peneira, entende? Mas pode ter sido dado tarde demais.               

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O passado e o presente do futebol



Somos um povo sem memória. Até os mais esquecidos devem lembrar de ter ouvido essa frase ao menos uma vez na vida. E vou além, digo que como se não bastasse não tê-la, muitas vezes a temos transformada, imprecisa, moldada para vender o peixe de quem tinha mais poder quando foi escrita. O mote me vem agora porque o momento soa propício para defender um ponto de vista que trago comigo faz tempo. Não é de hoje que tenho a sensação de que se tem uma coisa para a qual o amor do brasileiro pelo futebol serviu foi para ajudar a preservar a sua memória. E assim driblar um pouco essa nossa mazela. 

O único temor que alimento ao defender este ponto de vista é ter sido influenciado pelo fato de durante boa parte de minha vida profissional ter andado às voltas com esse tipo de trabalho. O que pode ter me dado uma visão equivocada. Claro que nem todos os esforços realizados nesse sentido tiveram a divulgação ou a metodologia ideal. Mas nas últimas décadas dei de cara com um verdadeiro batalhão se ocupando de escrever sobre desde o mais nobre artilheiro até aquele que nem todos conhecem, mas que para determinado grupo ou autor foi o maioral. E o mesmo vi se dar com a história de times. 

No final de semana que se aproxima uma das páginas mais cantadas do futebol brasileiro estará em evidência e será incansavelmente revisitada. O lendário título paulista de 1977 que, vencido pelo Corinthians pôs fim a um longo jejum de títulos e, dizem, só fez crescer a legião de fiéis do time do Parque São Jorge, hoje pomposamente instalado em Itaquera. Por uma dessas coincidências do destino os dois finalistas daquele torneio, Corinthians e Ponte Preta, praticamente exatos quarenta anos depois, ficarão frente a frente para disputar outra final do mesmo campeonato. Campeonato que muita gente por aí preferia que já nem existisse mais. 

E há ainda uma outra questão que vem junto com essa fixação pelas coisas do futebol, por sua memória e que me incomoda muito. A comparação que, em geral, acaba sendo feita entre o passado e o presente, quando nem sempre uma coisa tem a ver com a outra. Procurar analogias é do jogo, adorna o papo, mas elas precisam, como tudo, de bom senso. A própria importância do futebol hoje é diferente. Basta dizer que a marca de 138 mil torcedores registrada no segundo jogo das finais de 1977 é, simplesmente, até hoje e, provavelmente será pra sempre, a maior da história do Morumbi.  

Quem pegar os jornais daquela época verá que a cidade de São Paulo parou, aulas foram suspensas nas escolas. Houve um verdadeiro frenesi. Ou seja, um passado bem preservado, é rico, necessário e revelador.  Deixa claro, por exemplo, que contestar a arbitragem  foi desde sempre um sintoma do jogo. A Ponte e o Corinthians atuais pouco têm daquele tempo, como o futebol que veremos no Moisés Lucarelli parecerá outro. Mas será um momento perfeito pra desfrutar daquela que, talvez, seja a grande virtude de se ter a memória bem preservada: poder entender e sentir melhor o que o futuro nos trará. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Tite no Cartão Verde! Um convite.


Elogiar Tite neste momento é chover no molhado. Mas se há alguma liberdade permitida ao jornalista, além da informação, é o relato do vivido ao se apurar um fato ou notícia. O que não costuma ser comum. Valoroso nestes dias atuais é ter opinião. Vivemos na era da opinião. Costumo dizer aos amigos de ofício, ou aos que se interessam por ele, que atualmente quando alguém abre o jornal, se é que ainda abre, o sujeito vai primeiro nas linhas onde repousam opiniões... deixando pra depois a própria notícia. 

Mas é justamente um relato do vivido que quero deixar aqui como convite pra que vocês acompanhem o papo que o time do Cartão Verde travou com o técnico da seleção, e que será exibido nesta quinta às 22h30, pela TV Cultura. Tite tem neste momento um sem fim de escudos. Classificou a seleção para a próxima Copa com a rapidez que ninguém ainda tinha feito, caiu nas graças da torcida, inclusive daquela considerada mais azeda, fez o futebol brasileiro voltar a figurar no topo do ranking da FIFA, mas segue sendo o profissional de sempre, que se apresenta pro papo desarmado. 

Estampada no olhar e na fala firme está a segurança de quem venceu todas as etapas. Da segundona do Gaúcho ao degrau que costuma ser visto como sinônimo de glória. E só quem vive o meio do futebol sabe como isso é raro. Tite achava que chegaria lá antes? Achava. Mas mesmo tendo admitido a frustração fez questão de dizer a si mesmo: " agora não vai ficar chorando pelos cantos. vai trabalhar!" E foi !


Na conversa não escondeu o receio que teve de ver a seleção colocar toda a trajetória que ele tinha construído a perder. Pagou pra ver. Figura neste momento num altar de onde os homens inevitavelmente são tirados, ou de onde, passado o tempo, deixam de ser fervorosamente cultuados. Consciente disso afirma sem titubear que está pronto até pra perder uma Copa. Mas evita que a esperança morra em nós quando afirma, por exemplo, que o que ele preza no último terço do campo não é técnico que determina, é o lúdico, o criativo. Confesso que chega a ser difícil de acreditar. E o poder de convencimento de Tite - como é de se supor também - não é pequeno. E como Tite está longe de ser mais do mesmo não ouso duvidar. Chego mesmo a torcer. Espero que gostem do programa.  

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Quando o futebol surpreende

O que se diz é que o futebol, mais do que qualquer outra modalidade, tem uma veia imprevisível. Um jogo em que tudo é possível, por mais que a grana trabalhe dia a após dia no sentido de formar esquadrões imbatíveis, ou de montar uma panelinha de afortunados. O sucesso da empreitada é indiscutível. Não é qualquer um que pode pedir lugar na patota dos abonados Chelsea, City, PSG, Real Madrid, Barcelona e por aí vai. Discutir a origem do dinheiro de cada um, como manda a etiqueta, é coisa que não se faz. Só que não é de acontecimentos dados neste panteão que quero falar, por mais que uma sapecada do PSG ou da Juventus pra cima da nobreza catalã da bola dê muito pano pra manga. 

O normal entre os endinheirados é, em geral, não existir diferenças gritantes. Mas, como se sabe também, isso não impede a ostentação ou a exibição de um invejável poder de compra, arma infalível pra se deixar claro quem se é ou, visto de outra forma, pra deixar claro que se está longe de ser qualquer um. Também não é do chocolate imposto pela Ponte ao poderosíssimo Palmeiras que quero falar. Mas admito que se trata, sim, de uma reflexão provocada pelo time de Campinas e seu placar de respeito pra cima dos palestrinos. 

É que há algo grandioso camuflado em resultados dessa estirpe. Não tenho medo de afirmar que desde os mais remotos tempos um resultado inesperado oxigena o futebol, dá a ele um vigor. É como se nos obrigasse a lembrar, a levar em conta, que ali entre as quatro linhas continua existindo lugar pro sonho, pro triunfo dos que podem menos. Quando um time dito pequeno triunfa sobre um outro cheio de recursos, de histórias e de poderes, deixa pairando no ar a beleza que se esconde no suor do trabalho diário. Dá luz a quem deu um duro danado e no fim de um dia de trabalho teve razão pra acreditar que valeu a pena tanta labuta. Na maior parte das vezes tudo volta a ser como antes depois de uma vitória desse tipo. Mas que a danada é bonita, ô se é.

Esta aí um dos jeitos que o futebol tem de imitar a vida. A vitória do pobre jamais terá a retumbância da vitória dos nobres. Porque diante dela os que tem voz costumam se ocupar mais com a explicação da derrota do que com a exultação do triunfo. E os mais atentos sabem bem a força que se fez, nos regulamentos dos Estaduais, para evitar surpresas do tipo. Mas elas resistem e isso é lindo. O pequeno que vence acordará sempre maior do que era. O resultado surpreendente é uma arma que o futebol tem pra nos avisar - vez ou outra -que também há mais mistérios entre o homem e bola do que pode imaginar nossa vã filosofia. Ah! E aproveito pra deixar aqui os parabéns ao tricolor Rodrigo Caio que teve, em campo, a coragem de remar contra a maré

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Pacaembu: a casa da mãe


A trajetória que o Santos desenhou ao longo dos últimos anos no Campeonato Paulista deve ser levada em conta. Não se trata de uma sequência qualquer, ainda que não sirva para aplacar o descontentamento da torcida com o time neste momento. Ao longo dos últimos oito anos os santistas viveram o início de temporada com direito a um cer to apogeu, mesmo que nem sempre a presença na final - ou a conquista do título - fosse garantia de que o resto do ano seria uma maravilha, o que nem sempre foi. Verdade também que a citada trajetória serve para amplificar o insucesso, ainda mais quando ele se dá com o time fazendo uma das piores campanhas dos últimos anos no torneio estadual. Se o vice no Brasileiro do ano passado foi surpreendente, cair nas quartas do Paulista foi o avesso disso. Por mais que parte da torcida santista, empapuçada de Estadual, não faça questão de esconder que anda querendo é a Libertadores. Desconfio, inclusive, que o desgosto venha exatamente daí, do fato da queda no Paulista sugerir que se não deu no Paulista, na Libertadores é que não vai dar.

Como sempre acontece no futebol brasileiro a queda será intimamente ligada à capacidade de alguns. Se há um álibi pra isso é o fato de o time santista não ter perdido a vaga para uma equipe qualquer. A Ponte Preta - faz tempo - anda se mostrando time capaz de encarar os ditos grandes do nosso futebol. E ainda que eu ache que no segundo jogo, em especial no primeiro tempo, esqueceu um pouco disso, chega às semifinais com méritos. Há números provando isso e nem é o caso citar. Como acho ainda que no primeiro tempo, depois de ter aberto o placar, o Santos não parecia ter urgência de fazer o segundo gol, quando sob certa ótica deveria. Trata-se de um time maduro, seguro, entrosado, mas até esses devem ter, vez ou outra, o ímpeto de um trator. 

E me desculpem se o discurso soa velho e provinciano mas nada me tira da cabeça de que se tem uma coisa que o clima da Vila favorece é essa efervescência que não vi pós primeiro gol. Imagino o quanto um milhão e meio de renda faz diferença, mas quando será que vamos aprender que o dinheiro quase sempre joga contra o futebol? Tá pra nascer o dirigente que leve em conta o que se pode perder, não ganhar. E nesse sentido não só em termos financeiros. A menos que alguém acredite que não conseguir chegar onde os outros chamados grandes chegaram fará bem pra alguém. Dias atrás o volante santista Thiago Maia, esteve no programa Cartão Verde, na TV Cultura, que eu apresento, e diante da velha questão: Vila ou Pacaembu? Se saiu com uma resposta primorosa, dizendo que a Vila era como a casa dele e o Pacaembu como a casa da mãe. Ótima analogia. Concordo que a casa da nossa mãe costuma ser como a nossa, mas a verdade é que depois de algum tempo não existe nada como a casa da gente. Seja pra desfrutar as alegrias, seja pra sarar o que o destino tratou de nos reservar. E, além do mais, diante da dificuldade sempre é possível convidar a mãe pra ir até lá.