quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A arte da intuição

Em matéria de futebol há uma coisa que sempre me deixou intrigado.E agora que a temporada chegou ao fim vou aproveitar a deixa pra colocar o assunto em campo. A bola não está rolando mesmo. Os que me conhecem podem ficar até com a impressão de que este é um texto feito em causa própria. Não lhes tiro a razão.

O fato é que sempre percebi entre os profissionais que me cercam uma certa falta de habilidade para adivinhar resultados de jogos. Não falo da capacidade de análise. Conheço figuras que fazem um raio x de um time de futebol com uma profundidade e com um embasamento de arrepiar. Mas na hora de cravar o resultado do jogo a teoria não se comprova.

De minha parte, inclusive, conheço muitos jornalistas que jogam na loteria esportiva, mas não tenho notícia de que algum deles tenha faturado algo. Compreendo que o segredo nesses casos convém, mas duvido que o sujeito iria perder a chance de contar o feito para, secretamente, se deliciar com o fato de ter sido capaz de antever o que iria acontecer nos quatorze jogos listados. Não teria sido uma simples sequência de chutes. Jamais.

Por outro lado, conheço algumas figuras que nada têm a ver com o futebol e que causam assombro com essa capacidade. Conheço um sujeito, por exemplo, que certa vez fez todo mundo rir quando disse que o Flamengo, apesar da vantagem, não iria segurar o América do México em pleno Maracanã. E não é que o Mengo levou um tremendo de um chocolate e os rubro-negros ainda hoje se lembram bem de um tal Cabañas? Os descrentes dirão se tratar de uma obra do acaso. Pois fiquem sabendo que o cara, um engenheiro, antes disso, já tinha acertado umas três ou quatro do mesmo tipo. Onde estava este fatídico salto alto que nenhum dos especialistas que conheço foi capaz de enxergar?

Fico cada vez mais com a impressão de que muita teoria, muita informação, anula o nosso sexto sentido ludopédico. Sei que esse "nosso" será combatido, pois muitos não terão coragem de se irmanar comigo nessa deficiência interpretativa do que estará estampado no placar quando a partida chegar ao fim. Não é de hoje que o time dos humildes tem elenco menos numeroso do que o time dos metidos a visionários do score.

Vale dizer também que o que me levou a escolher este tema foi uma matéria que li dias atrás na internet. Ela dizia que os capitães dos times brasileiros da primeira divisão, como videntes, tinham se revelado ótimos jogadores. Dos vinte atletas ouvidos no início do Campeonato nenhum deles foi capaz de apontar o Fluminense como campeão. E apenas um, o zagueiro William do Corinthians, apontou o Jonas, do Grêmio, como artilheiro do torneio.

Tá certo que nesse caso o grau de dificuldade é muito maior. Mas se trata de gente que vive o futebol, de gente que conhece bem os seus meandros, e que mesmo assim parece não ter sido capaz nem ter de desconfiar do que o futebol reservava. É por essas e outras que eu acredito que, muitas vezes, só a intuição pura decifra o jogo. Vai apostar?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A bola está com os astros

Foi antes da penúltima rodada. Ele passou por mim, quando todo mundo já dava como certo que o Palmeiras não faria o menor esforço pra complicar a vida do Flu e, com o olhar limpo de quem se ampara nos astros, fez a profecia de que o Felipão era de escorpião, tipo de gente que leva a moral em conta. Disfarçadamente garantia ali que o duelo não seria a moleza que muitos previam.

Alguns dirão que está aí um belo exemplo de que até os astros podem ser driblados. Ou não? Estaria mesmo traçado o nosso destino? E aquele chute em curva do Dinei? Seria prova disso, ou prova de que essa coisa de entregar o jogo é história pra boi dormir? Cada um com sua crença. O fato é que o papo me deixou curioso pra saber o que o cara podia tirar dos astros.

O cara é o Silviano, companheiro de redação, torcedor do São Paulo e místico por natureza. Não resisti. Resolvi convidar o sujeito para fazer uma prévia leitura da derradeira rodada do Brasileirão. Escrevi num pedaço de papel o nome e a data de nascimento de alguns personagens. Sugeri, não uma previsão, mas um perfil rápido. E não é que o sujeito topou?

Voltou no dia seguinte com o papel todo rabiscado. Ao me ver, abriu o sorriso e avisou que o Muricy estava com tudo. Sagitário e cabra - no horóscopo chinês - o técnico do Fluminense estaria vivendo um ano de dádivas, ainda que confusas. De início cravou que seria o campeão, depois pensou melhor e disse que o escorpião (Mancini ) é o inferno astral do sagitário ( Muricy). Completou dizendo que o treinador do tricolor das laranjeiras poderá num futuro breve acabar na seleção. Foi assim que ele interpretou a possibilidade de novos e proveitosos contatos ditados pela astrologia.

Sobre o duelo entre Grêmio e Botafogo vislumbrou que o quarto lugar do Brasileirão ficará com o virginiano Renato Gaúcho. Não sem antes avisar que o cara é tigre no horóscopo chinês. E de acordo com o nosso astrólogo convocado, o capricorniano Joel Santana, rato no chinês, é um cara muito sensível e, apesar de viver um ano bom, será afetado por um ambiente que não é dos melhores.

Sobre Vagner Mancini e Arthur Neto, técnicos do Guarani e do Goiás, fez questão de dizer que os dois estão sob muita pressão. Mas traduziu o sinal de progresso no lado técnico da profissão como uma possibilidade de triunfo goiano na Sulamericana. Será?

Tite? Claro! Classificou o treinador corintiano, que é boi no chinês, como um visionário, que atravessará um período difícil mas será capaz de perseverar.

Aproveitei também pra pedir alguma luz sobre a partida que irá revelar o último rebaixado da série A, Vitória e Atlético Goianiense. A sentença foi de que Antonio Lopes, técnico do time baiano, tem a qualidade de saber esperar e não ficar nervoso nunca. Mas como se trata de um duelo com Renê Simões, ou seja, um duelo entre dois dragões o jogo terminará empatado, o que salvará os goianos.

Agora, preparem-se, porque a notícia mais bombástica de todas ele deixou pro fim: Washington voltará a marcar! Diz ele que os astros reservam um lucro pro atacante do Flu no final do ano. E esse lucro, segundo o místico, seria o reencontro com alegria do gol. Acredite se quiser.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pontos (e corações) corridos

Evitar um campeão de ocasião, neutralizar a alta dose de surpresa que o futebol traz no ventre. Não vamos nos iludir, esses foram alguns, mas estão longe de serem os únicos interesses que fizeram a cartolagem aceitar a fórmula de disputa que por hora decide o nosso principal campeonato nacional.

Durante muito tempo os entendidos no assunto clamaram por ela. Anunciada como a mais justa, a que premia a regularidade, a que enaltece o planejamento. A fórmula em questão, ao ser eleita, foi recebida com honras. Demos adeus a era dos mata-matas de nariz um tanto empinado, com o ar sisudo de quem carrega consigo a certeza de fazer jus a alcunha de moderno.

Mas agora que os interessados em outros detalhes do jogo já não têm vergonha de confessar sua saudade dos tempos que ficaram pra trás e o nosso jeito original de encarar as coisas se manifestou, os pontos corridos parecem despidos de qualquer nobreza, de algo que o faça melhor que os outros. Convenhamos, não tardou para que o nosso jeitinho brasileiro desse um colorido todo especial a esse tipo de disputa.

O Campeonato Brasileiro de 2010 representa, expressa, o amadurecimento entre nós desse jeito de decretar um campeão. Nele torcemos diferente. Os sãopaulinos, por exemplo, descobriram que nem só a vitória do próprio time é capaz de trazer alegria. E no auge da descoberta nem tiveram receio de externar essa euforia, esse entusiasmo pelo triunfo do outro, o que deixou o presidente Lula, digamos, insatisfeito. E não é tudo.

No domingo que vem os são paulinos ainda terão a possibilidade de tirar uma casquinha ao ver o Palmeiras executar sua missão diante do líder Fluminense. Mas não se deixem enganar. Nada disso brota da bendita fórmula eleita. Brota é da gente esse jeito perverso e gostoso de torcer.

Carregamos as mesmas mazelas e vícios, seja diante dos pontos corridos ou dos mata-matas. A cada campeonato ficamos mais na cara do gol da nossa personalidade. A cada campeonato nos revelamos mais a nós mesmos. No fundo todo torcedor sabe que essa pretensão da fórmula exata não existe. O futebol não a permite.

Azar de quem um dia acreditou que seria possível neutralizar uma fatia qualquer que fosse dessa capacidade de surpreender que faz parte do bate-bola. Restam duas rodadas. Mas quem será capaz de prever tudo o que elas reservam? Aí está a graça.

Senhores, enquanto o futebol respira o improvável nos ronda. Creiam. Nesta hora não há um só corintiano convencido de que o centenário foi um ano que passou sem título. E também não há nesse mundo torcedor do Fluminense que secretamente não leve em conta essa veia fatal do jogo.

A possibilidade do triunfo é que nos acelera coração. O título só o inunda de alegria, euforia. São coisas diferentes. Emoções outras. Poeticamente falando, nos pontos corridos os times aceitam o critério de construir uma obra. No mata-mata também, mas aceitam no fim de tudo colocá-la em jogo. Aceitam provocar a sorte, se expor às surpresas das quais tratamos aqui. Mas a fórmula que nos revira e nos revela como torcida é a mesma sempre.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

É vencer ou vencer

Ainda que o encontro no início da semana entre o governador do Estado, o prefeito de São Paulo e o todo-poderoso Ricardo Teixeira não tenha revelado de onde virão os milhões que farão a capacidade do futuro estádio do Corinthians saltar dos atuais 47 mil lugares para algum número além dos 60 mil, a minha impressão é a de que será muito mais difícil e trabalhoso o Timão ganhar o Campeonato Brasileiro do que faturar a abertura da próxima Copa do Mundo.

Bastaria uma ou outra conquista para o alvinegro salvar este tão cultuado ano centenário. No caso das duas virarem realidade aí a alma corintiana estará lavada. Uma alegria tão grande que promete fazer os fiéis do Parque São Jorge esquecerem, ao menos por enquanto, essa ausência sofrida de uma conquista continental libertadora.

Em campo, como se não bastassem os adversários diretos, o Corinthians ainda terá que lidar com a desconfortável sensação de ver o seu destino sendo decidido pelos pés de alguns dos maiores rivais. Isso sem falar nas coisas de ar sobrenatural que vez ou outra garantem ao futebol desfechos inesperados.

Logo, muito mais controlada parece andar a coisa no campo político onde o principal adversário tem toda a pinta de já ter sido batido. Além do mais, se Ricardo Teixeira, presidente da CBF e do Comitê Organizador Local há tempos vestiu a camisa do Corinthians, quem será verdadeiramente capaz de endurecer o jogo? Lula? Não creio.

Pra quem não lembra, o anúncio oficial do futuro estádio corintiano foi feito na véspera do centenário do clube. Notícia de precisão cirúrgica. E quando Lula esteve lá pra ser homenageado, muita gente interpretou o silêncio dele sobre o novo estádio alvinegro como uma desaprovação sobre o rumo que a Copa de 2014 na cidade de São Paulo tomava.

Nesse jogo de cartas marcadas o momento ideal para divididas costuma passar rápido, é breve. E agora que o estádio corintiano virou o representante do Estado para a próxima Copa os descontentes têm pouco a fazer.

Muita gente estranhou quando Andrés Sanchez foi anunciado chefe da delegação brasileira na Copa do Mundo da África. Hoje, só estando muito desatento pra não perceber que essa "convocação" deu frutos. Teixeira tinha mesmo um plano pra ele. Não aceitar isso seria defender a versão de que tudo foi uma conquista de Andrés, que com habilidade descomunal convenceu o presidente da CBF a fazer dele o homem que daria um estádio ao Corinthians. Coisa que já frequentou a agenda de muita gente graúda.

Qual será o preço disso tudo? Isso é que realmente deve importar. Posso estar enganado? Posso. Mas estou convicto de que um dia teremos a resposta. Toda a verdade deixa pistas.
Que a imensa nação corintiana desfrute de toda a alegria possível.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Doping! Doping?

Nos últimos tempos os casos de doping têm sido acompanhados de intimidades. Esquisito. Que dizer do nadador francês Fréderick Bousquet, que depois de ter sido flagrado no exame revelou que há oito anos tratava de hemorróidas? Se defendeu dizendo que usava um remédio que não continha o estimulante heptaminol, mas que por conta de uma crise pouco antes de um torneio em seu país entrou na farmácia, comprou uma outra medicação e a usou sem ler a bula.

Há dramas que provocam risos. Querem outro exemplo? O do velocista norte-americano, La Shaw Merritt, medalha de ouro nos quatrocentos metros na ultima olimpíada, que irá amargar uma suspensão muito maior que a de dois meses imposta ao nadador francês. Merritt levou um gancho de quase dois anos. E por que? Segundo ele porque andou ingerindo um remédio para aumentar o pênis. Um remédio que prometia um aumento "natural" do dito cujo de até vinte e sete por cento. Pelo visto, nem todos os músculos de Merritt foram capazes de o levar até onde ele pretendia.

Esta semana até a vitória da Alemanha sobre a lendária Hungria de Puskas na Copa de 54 foi posta em dúvida, depois que um estudo revelou que vários jogadores alemães se doparam com injeções de pervitina, uma metanfetamina dopante. Segundo a pesquisa eles acreditavam que se tratava de vitamina C. Vai saber!

Mas a cena mais explícita de doping eu testemunhei dia desses. E essa ninguém me contou. Eu vi. A pelada corria solta na areia da praia. Próximo de uma das traves um verdadeiro amontoado de jogadores me chamou a atenção. Parei pra ver. Estavam todos ali na ânsia de ter nos pés uma bola que poderia vir da esquerda. Exemplo puro de futebol passional, com todo mundo achando que podia resolver a parada.

Restavam do outro lado do campo, claro, o goleiro do time que não estava sendo atacado e um zagueiro, que vestia uma camisa três azul celeste. Um senhor de bigode imponente e muitos cabelos brancos a sugerir respeito.

Até achei normal quando ele olhou para a barraquinha - que se encontrava pouco depois da linha lateral - e fez um sinal com as mãos. Imaginei, de imediato, que tinha acusado o golpe do calor e pedido uma garrafa de água. Segui, distraído, com os olhos na contenda e quase não acreditei quando o cara da barraca se aproximou com um copo nas mãos. Água? Que nada! Ele tinha mandado era preparar uma batida de maracujá.

Mediu os movimentos da rapaziada atrás da bola, o bolo perto da área adversária estava formado mais uma vez. Enfim, o momento era perfeito para o bote. Apertou o passo. Tomou o copo de plástico das mãos do barraqueiro, dispensou o canudinho e mandou pra dentro um gole robusto. Como percebeu que ainda tinha mais tempo. Tornou a apreciar a bebida. E não me venham falar em isotônicos. Voltou pra posição mais feliz do que nunca.

Não vou perder tempo esmiuçando a atuação dele depois disso, porque a essa altura vocês poderão achar que uma possível falta de classe para tratar a bola poderia ser resultado dessa prática, digamos, liberal. Puro doping? Pode até ser. Mas um doping charmoso. Sem a intenção de vencer ninguém. Pelo contrário, talvez o descompromissado zagueiro saiba muito bem que essa prática pode deixá-lo mais suscetível a derrota. Mas de que vale uma vitória sem prazer? Que vida boa essa do zagueirão lá da praia. Sem ter que dar satisfação pra ninguém. Não é?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Da vida dos Reis

Da vida dos Reis costuma-se exaltar os grandes feitos, o conforto, as facilidades da nobreza, as muitas mordomias. Tudo normal, quando o mundo, de tanto girar, fez desses nobres personagens fáceis. Que Reis nos sobraram? O Juan Carlos, da Espanha?

O que não se fala é que ao longo da história grande parte dos Reis não teve vida fácil. Morriam cedo. Muitos passaram a maior parte da vida em meio a batalhas ferozes, dormindo em camas de campanha, cercado de homens e de uma realidade imunda. Assim, e só assim, conseguiam reafirmar a condição de líderes e manter a honra.

Metaforicamente com o Rei do Futebol não foi diferente. Lembro que dez anos atrás, quando completava sessenta anos, Pelé concedeu uma entrevista a uma rádio. Depois de cumprir o compromisso por lá, se entregou a um bate-papo em clima amistoso, como sempre, com os jornalistas que naquele dia tinham a missão de ouvi-lo e, mais importante, tinham a informação de onde ele estaria.

Recordo também que no final do encontro, quando o pessoal já dispersava, eu, e se não me engano, o Luciano Faccioli, estendemos um pouco a conversa e tomamos a liberdade de brincar com o fato de sua majestade não ter um único fio de cabelo branco. Usaria o rei uma tintura? Nada como estar diante de um Rei "diferente".

Desta vez, perto de completar setenta anos, Pelé decidiu não falar. Quantas perguntas sobre o tema fariam sentido? Sinto, porque por outro lado, a idade costuma dar aos homens uma lucidez impressionante. Além do mais, uma chance a menos de falar com o Rei será sempre uma chance a menos.

Mas queria dizer que parte dessa lucidez percebi na entrevista que Pelé concedeu na última sexta durante o lançamento de um programa educacional-esportivo. Disse, por exemplo, que chegou a dizer pra Neymar que " o dom do futebol a gente ganhou de Deus. Mas o resto é a gente que tem que cuidar. A gente tem que cuidar da condição física".

Como li certa vez, se a gente pudesse aprender com a cabeça dos outros deixaria de dar várias cabeçadas nessa vida. Mas já vivi o suficiente para perceber que, entre aqueles que viram essa lenda dos gramados de perto, a condição física dele, inata ou não, foi um fator que o colocou na frente de todos os outros. Portanto, fica aí a dica, que serve até para os cabeças-de-bagre irem um pouco além.

Acho até que isso pode explicar aquela ausência de cabelos brancos nessa divindade. Há quem diga ainda que Pelé foi muito ajudado pelo fato de ter brilhado em uma época em que a televisão já se fazia presente. Não entro nessa. Se pouco vi Pelé, imagina os que vieram antes dele.

Respeito os homens pela história que deixam. Não é fácil construí-las. Pelé, quem sabe, desta vez, ciente disso decidiu dar um drible nessa invenção maluca que leva tudo de bom e de ruim para dentro da nossa casa. Pobre dos que não sabem usá-la com moderação. O que sei do Rei é que poucas vezes na vida encontrei alguém com tamanha capacidade para lidar com a fama.

Um dia, quando o Santos inaugurava o CT ali perto da Santa Casa de Santos, depois de perceber que o "homem" iria chegar e não havia uma bola no lugar. Sim, o centro de treinamento estava sendo erguido. Perto do desespero, implorei a um guri que se amontoava entre os fotógrafos e cinegrafistas para que arrumasse uma bola. O menino deu conta do recado.

Quando o Rei chegou, olhou aquela multidão de sedentos por imagens e declarações, mirou o sol, e decretou:

_ Quem está com câmeras vai pra lá. A luz tá melhor pra lá!

Ordenou que todos se posicionassem atrás de um dos gols. E com a bola debaixo de um dos braços caminhou lentamente até a linha imaginária do meio de campo, que também não existia. Colocou a bola no chão e veio com ela dominada, narrando sua trajetória até o chute derradeiro. Finalizou dizendo:

_ Lá vai Pelé! É gol!!!

Foi ao fundo da rede, pegou a bola e saiu dizendo:

_ O primeiro gol aqui nesse lugar foi eu que fiz! Isso ninguém vai tirar!

E eu nunca mais esqueci como era diferente de tudo ver Pelé fazer um gol.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Técnico ganha jogo?

Quantas pessoas você conhece que têm um treinador como ídolo? Será que eles são tão importantes assim? Veja, não se trata de diminuir a importância de figuras como Telê Santana e outros. Faço as perguntas tentando dividir com vocês uma reflexão sobre o frenesi que envolveu a chegada de Carpeginai ao São Paulo e, mais recentemente, a saída de Adilson Batista do time do Corinthians.

Não vou correr do lugar comum, até porque se a pergunta soa banal, sua resposta há tempos provoca profundas reflexões em botecos, mesas redondas e afins. Afinal, técnico ganha jogo? Não! Como ouvi certa vez de um pragmático que tinha o cotovelo apoiado no balcão. "Técnico só ganharia jogo se entrasse em campo. Como não entra, não ganha!". Vai discordar?

O fato é que ganhando, ou não, a importância deles é incontestável. Só sendo importante pra receber quase, ou meio, ou mais de um milhão de reais por mês. Não quero com isso dizer que não merecem cada centavo que faturam, mas quero apontar o que considero a grande virtude de um treinador.

Diria que um grande treinador é aquele que sabe como funciona o universo da bola e, principalmente, como os homens lidam e se comportam quando estão dentro dele. Isso explica porque nem sempre grandes jogadores se tornam grandes treinadores e porque pernas-de-pau nacionalmente conhecidos acabam sendo vistos como grandes estrategistas.

Há uma tendência, que me parece cada vez mais forte, de reduzir toda a complexidade do futebol a esquemas táticos. Na última sexta-feira, durante a coletiva que concedia a um grupo considerável de jornalistas, o treinador do São Paulo, Paulo Cesar Carpegiani, enquanto respondia a uma dessas questões táticas, não mediu palavras. Foi enfático ao avisar o autor da pergunta que não era "apegado a esquemas táticos, essas coisas" e que para ele mais importante que isso era o posicionamento do jogador em campo. Mas ninguém se interessou em fazer daquilo uma oportunidade pra mudar o rumo da prosa e o papo seguiu o curso de sempre.

No caso envolvendo Adilson Batista, a questão é outra. Por mais que tentem sinalizar que o problema passava pelo lado inventivo do treinador, muita coisa me faz crer que questões distantes dos esquemas e das teorias táticas levaram Adilson a jogar a toalha. Os desfalques? A necessidade de improvisar? Sim, tudo isso fez parte da receita que o fez durar pouco mais de dois meses no comando do time.

Mas, na minha modesta opinião, foram as questões humanas que provocaram a saída. Adilson se recusou a conversar com a torcida, por exemplo. Dizem que silenciosamente respondeu essa intimidação com uma ousadia disfarçada, colocando em campo todos os jogadores condenados pela voz que dizia falar em nome dos que frequentam a arquibancada. Técnico ganha jogo? Não. Mas na minha opinião valem mais aqueles que uma vez perdido o jogo fazem questão de salvar a honra.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Que jogo é esse?

Nestes tempos de jogo pesado a semana começou com um baita contra-ataque da imprensa, cansada das entradas duras desferidas pelo time que está ganhando. E ganhando bem. Vocês viram? Sabe como é, quando a partida esquenta sempre aparecem aqueles que acreditam que a história de ganhar no grito pode fazer algum sentido. Quase todo time tem esse tipo de sujeito, ou alguém chegado a tramas, a ardis.

Em todo o caso vale destacar que o que pesou mesmo para deixar o ambiente tenso foi a já conhecida rivalidade histórica. Coisa de muitos anos. Trata-se de um clássico mundial. E sempre com um dos lados batendo mais, disso não podemos esquecer. Prestem atenção. Falo de um jogo pra valer, desses de acabar com a ilusão, desses que podem nos imputar derrotas irreparáveis.

Pudera todo o peso da vida ser o da torcida que vê seu time cair, pudera. A vida não é feita de gols. Gols são apenas enfeites desse nosso cotidiano duro. A vida é mais, e o dia da grande decisão se aproxima. Esquentar o clima, nessas horas, sempre vai interessar a alguém. Já sinto no ar aquele burburinho que costuma incendiar as grandes pelejas. Sei que tremularão as bandeiras, que gritarão os mais entusiasmados, os mais fanáticos.

O dia está aí. No domingo, de preferência antes do futebol, terás que escalar um time, meu amigo. Dizer quais são os que você levaria a campo. Pra mim, tarefa das mais difíceis. E pensar que ainda tem técnico por aí reclamando do elenco que tem pra trabalhar. Há tempos olho a lista dos relacionados e nenhuma escalação que imagino me traz a sensação de dar conta do recado.

Por hora, cá estou, com essas seis camisas na mão, imaginando quais seriam os melhores para cada posição, sem saber direito a quem entregá-las. Mais hei de usar o tempo que me resta para pensar numa boa maneira de atuar, numa boa tática. Como se não bastasse tão exigente tarefa, ainda tenho aqui na garganta aquele empate por cinco a cinco.

Como que empate? Aquele em que o juiz não soube o que fazer, não decretou prorrogação, nem o gol de ouro, muito menos uma disputa por penaltis. Nada! Não houve ganhador em tão solene confronto. Ficamos assim, sedentos de uma decisão suprema, com esse intrigante placar rondando nossas cabeças. Com essa possibilidade de vitória em aberto, nos deixando ansiosos, nos frustrando. Talvez não valha a pena esquentar a cabeça. Com o que vale?

É só mais um caso de regulamento mal redigido. Ou mais um descaso. Deveriam ter pensado em chamar o cara que fez o regulamento da Série D. Talvez estranhássemos a proposta, mas ficar sem saber quem ganhou, isso jamais. Vamos pensar que se tratou, ao menos, de um marcador muito sugestivo. Afinal, qual seria o seu placar para um duelo entre fichas sujas e fichas limpas? Empate? É provável!

O futebol será sempre essa eterna caixinha de surpresas, enquanto nessa vida absurda que se desenrola além das quatro linhas nada mais há de nos surpreender. O jogo é duro, sempre foi, quem é do time sabe.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Uma imagem vale mesmo mais do que mil palavras



















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O secretário-geral da FIFA, Jérome Valcke, em sua recente visita ao país afirmou:
" Posso dizer que a FIFA está contente com o trabalho". Precisava?
A foto é de Luiz Mello/O Dia
Na outra imagem Lula tinha acabado de assinar a MP que cria a APO
(Autoridade Pública Olímpica).










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Quem entende o futebol ?

Pobre de quem pensa ser capaz de decifrar o futebol. Vai por mim. Outro dia, nem bem o sol tinha raiado, um sujeito na padaria, ao me ver saboreando um café com leite - ponto de partida pra premeditar uma maneira de encarar o batente - mandou na lata, sem nem mesmo ter o zelo de fazer um singelo "bom dia" de prefácio, nada disso, baixou na área incorporando o melhor estilo beque-de-fazenda e cravou:

_ Como é que você explica o São Paulo, caindo aos pedaços, em crise, empatar com o Fluminense, a sensação do Campeonato?

Acostumado com as armadilhas impostas pelo ofício, contido, respondi a traiçoeira pergunta com um sorriso discreto e, acima de tudo, silencioso. Era cedo demais pra aceitar um desafio teórico dessa magnitude. Mas a tática falhou. O sorriso e o silêncio não bastaram. Apelei, então, para a simplicidade e, colocando na frase um tom de despedida, sugeri:

_ O São Paulo jogou bem e o Fluminense estava longe de ser aquele.

Pra meu alívio o inquisidor matutino se deu por satisfeito e seguiu seu caminho. Hoje, algumas rodadas depois, fico eu aqui tentando adivinhar o que ele anda pensando sobre o time armado por Muricy, principalmente, depois da derrota para o Guarani. Ainda bem que ele não me pediu para decifrar a goleada do Atlético Goianiense, então lanterna, sobre o Palmeiras de Felipão, nem para lhe dizer a razão que faz o Atlético Mineiro de Diego Souza, Ricardinho e Tardelli, patinar nas mãos de Luxemburgo. Ou ainda, esclarecer os tropeços do Barcelona e do Milan diante de adversários modestos muito além das nossas fronteiras. A zebra é uma possibilidade mundial, senhores.

E não é que esta semana nem bem tinha começado e eu me vi, de novo, diante de uma outra "casca de banana" ludopédica? Com o Corinthians na cola do Flu, a charada da vez era a seguinte: Qual deles é o melhor?

Jucilei, volante do timão, já faz algum tempo, ajudou a ecoar o debate ao dizer que o melhor elenco estava no Parque São Jorge. Nessa também não caio. Falar em elenco é amplo demais. Topo a parada, mas me dou o direito de não tornar esse duelo muito pessoal.

No gol, Julio Cesar pode não ter a experiência de Fernando Henrique, mas tem dado conta do recado. Vejo aí certa igualdade. O mesmo serve para a defesa. Willian e Chicão têm entrosamento e maturidade, mas Gum tem mostrado ser um zagueiro acima da média. Se eu fosse montar um time e tivesse que escolher os laterais de um ou de outro, ficaria com os do Corinthians.

No meio de campo a briga é boa. Isso quando se trata da parte criativa. Deco e Conca desequilibram. Já quando se trata de volantes fico com os comandados por Adilson Batista.

No ataque não tem jeito, o time das Laranjeiras leva ampla vantagem. Emerson é, ou foi (quem sabe?) um dos segredos do sucesso do tricolor carioca. Fred, em perfeitas condições de jogo, é respeitável. Assim como é impossível negar em Washington a vocação para o gol.

Mas é bom lembrar que a briga pelo título brasileiro deste ano, a meu ver, está muito além. Não descarto o Cruzeiro, nem mesmo o Inter. Duvido um tanto da capacidade competitiva do Botafogo.

Mas não sou adivinho, nem alimento a arrogância de achar que é possível saber tanto de futebol a ponto de antecipar surpresas. Fosse assim naquele dia, na padaria, estaria com a resposta na ponta da língua.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Torcer é um tipo de esperança

Eu sei que a maioria sempre acha que por trás de cada palavra dita ou escrita por um jornalista esportivo está a paixão dele por um clube. Mas não temo tais acusações e, por isso, voltarei ao assunto. Faço questão de deixar aqui registrada a minha torcida.

Desde o momento em que o presidente santista anunciou que Neymar ficaria torço para que o projeto dê certo. Por puro amor ao futebol. Nada a ver com clubes, distintivos, história pessoal. Penso simplesmente no bem que o sucesso da empreitada poderá nos fazer.

Trata-se do lance mais a favor do nosso futebol desde que o Palmeiras em meados de 2009, inflado pela possibilidade de voltar a ser campeão brasileiro, anunciou que não venderia nem Diego Souza, nem Cleiton Xavier.

O fato é que o tempo passou e os acontecimentos no Parque Antártica fizeram muita gente questionar a atitude. O time alviverde deixou escapar o título e, para trauma geral, até a vaga na Libertadores. A torcida bufou, com razão. O elenco acusou o golpe. A vida seguiu. A prometida volta por cima demorou e a paciência da torcida chegou ao fim.

Diego Souza perdeu a classe, foi afastado, e não é demais dizer que precisou sair pela porta dos fundos nos idos do último mês de junho. Cleiton Xavier, que a essa altura estava longe de ser visto com o respeito e a admiração de antes, acabou vendido para o Metalist, da Ucrânia, pouco mais de duas semanas depois. A dupla, outrora vista como a grande arma do time, acabou numa gelada. O caminho para trazer de volta a euforia e a fé no futuro tem custado muito caro ao Palmeiras.

É por essas e outras que digo que é preciso torcer para que o projeto santista tenha um desdobramento favorável. Caso a coisa não saia como o esperado as acusações de que o Santos rasgou dinheiro serão inevitáveis. E pior, terá ido por água abaixo o sonho de um dia poder lutar contra os milhões disparados constantemente pelas super potências econômicas do futebol.

Sim, o presidente do Clube do 13, Fabio Koff, ligou para elogiar o mandatário santista. Até o Lula, na segunda, deu um jeito de se aproximar e tirar uma casquinha dessa boa imagem tão corajosamente construída. Louvável. Mas pouco restará se o projeto não vingar, se Neymar não for negociado por números que justifiquem tanto sonho, ou se deixar de ser em campo esse menino audacioso, de golas levantadas, como que a avisar que ali está um talento ímpar.

Agora, se Neymar continuar sendo esse que se viu no gramado da Vila no último domingo, à vontade com a sua missão, se os projetos de marketing tiverem suas cifras aumentadas, se o lucro for maior na hora da partida, se o Santos resgatar um pouco daquela imagem de time que um dia perambulou pelo planeta se exibindo, aí não vai faltar quem queira copiar a fórmula.

E, nós, amantes do futebol, com nossas preferências seja lá por que clube for, teremos muito a comemorar. Eu disse, eu disse, torcer é um tipo de esperança.

* Artigo escrito para o jornal " A Tribuna", Santos

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A nossa moeda

Desde que a seleção brasileira recheada de juventude brilhou as páginas dos cadernos de esporte amanhecem ainda mais cheias de cifras retumbantes. Milhões de euros têm sido oferecidos. Nem bem o gramado do bilionário estádio de Nova Jérsey tinha sido colocado às escuras e o quase anônimo zagueiro David Luiz fazia o Chelsea se dispor a tirar dos cofres vinte e sete desses milhões estrangeiros que andam voando por aí.

Tamanho é o desejo de consumo do time de Stamford Bridge que o Santos ameaçou se refugiar na mediação da FIFA. David Luiz ainda não foi, mas a esquadra inglesa do russo Abramovich, cuja trajetória parece saída de um filme holywoodiano sobre mafiosos - subiu a proposta para trinta e cinco milhões, isso depois de torrar outros vinte e dois milhões de euros e levar o "nosso" Ramires.

Os números sugerem que essas transações alimentam um mercado saudável. Pura ilusão! Os clubes espanhóis estão falidos, os clubes ingleses passam de mão em mão, o Campeonato Italiano exibe um módico resquício de glamour. Mas o futebol é sedutor e, mesmo assim, atrai a todo instante um novo bilionário para o jogo.

Olhe pra nós. Sei que não será agradável admitir. A terra brasilis há tempos virou uma espécie de escolinha onde os garotos mais talentosos conquistam o direito de ir buscar fama e fortuna nos "times de cima", leia-se hemisfério norte. Pra sobreviver precisamos vender tantos jogadores por ano. É provável que você já tenha ouvido a frase anterior sair da boca do cartola-mo do seu time. Falam na sobrevivência do futebol mas estão preocupados mesmo é em manter suas benesses. O preço dessa manutenção é a brevidade do seu prazer.

Sabe aquele jogador que você tem em alta conta, aquele que fez a diferença, aquele que te encheu de orgulho durante a temporada ? Aquele que você sempre lembrava na hora de tirar um sarro com os amigos? É justamente ele que seu diretor e seu presidente, cercado por parceiros e agentes, decidirão vender em jantares e encontros regados a tudo que existe do bom e do melhor. Será com ele que os tais irão pagar a conta.

Treinadores com salários astronômicos, craques rodados repatriados como artigos de luxo, tudo isso não passa de um esquema para manter a roda viva. Dela sairá o argumento para deixar tudo mais ou menos como está.

Depois de ter sido informado de que o Palmeiras foi ao banco pedir empréstimo e deu como garantia suas cotas de transmissão do Campeonato Paulista dos próximos anos, acabo de saber que o São Paulo - o time "diferente" do Morumbi - trilhou o mesmo caminho e entregou como garantia aos banqueiros, sempre solícitos, os direitos de TV dos próximos quatro estaduais.

Você conseguiria ser feliz sabendo que suas contas estão cada dia piores, que você anda gastando mais do que ganha? Pois é! Mas os homens do futebol não estão nem aí. A bancarrota nunca lhes foi uma ameaça. Não há código civil ou estatuto que os ponha contra a parede. Seus enormes Centros de Treinamentos construidos em áreas doadas estão isentos de IPTU, não faltam influentes dispostos a ajudar e, além do mais, é sempre possível tramar um refinanciamento, bolar uma timemania.

O talento dos nossos jovens é a moeda que eles têm nas mãos. Moeda que dá a eles a certeza de que a bola e as dívidas continuarão rolando.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Pátria de técnico novo

Relembre aí os bate-papos que você travou nos últimos dias. As conversas no botequim, no banco,na padaria. Fiquei com a nítida impressão de que a estratégia atabalhoada - e arrogante - da CBF para escolher o novo treinador da seleção brasileira conseguiu o improvável, ou melhor, o indesejável.

A condução do negócio transformou o "não" de Muricy Ramalho em algo maior e mais saboroso pra ser discutido do que o "sim" de Mano Menezes. Pelo jeito o assunto foi ouvido até no silêncio das igrejas, entre uma reza e outra.

Você pode pensar o que quiser sobre esses fatos, partilhar da opinião que me parece da maioria, e achar que o Muricy deixou escapar uma chance de ouro, que não teve a noção exata da oportunidade que se apresentava. Mas é preciso dar ao fiel das Laranjeiras, Muricy Ramalho, o direito de cuidar da própria vida. E mais, optar por não conviver com o estilo de Ricardo Teixeira deixa no ar a possibilidade de uma certa sabedoria.

Enfim, mesmo sem aceitar a missão o treinador do Fluminense pôde sentir o gostinho do cargo, afinal, acordou no dia seguinte com o país discutindo uma decisão que era só dele. Dias depois a internet ainda navegava no mar da repercussão.

Na já tardia segunda-feira Zagallo disse que Muricy errou: "O Fluminense tinha que ficar em segundo plano. Em primeiro sempre vem a seleção, o seu país." Com todo o respeito Velho Lobo, por favor, Dunga se foi, viramos a página, vamos aproveitar a oportunidade para deixar de lado essa dose extrema de pátria quando o assunto é futebol. Até porque a pátria também tem suas obrigações, e pátria que se preza não deixa, jamais, seu torcedor sem segurança, saúde, educação e tantas outras coisas. Essa sim a mais verdadeira falta de amor à camisa.

E se o Muricy surpreendeu ao fazer questão de honrar a palavra dada, coisa rara neste nosso país farto de condutas deploráveis, o ex-comandante corintiano tem sido reconhecido não só pelo trabalho técnico, mas pelo comportamento franco, pela transparência. Neste ponto acredito que estamos, então, diante de um empate. Mas também não resta dúvida de que a convocação para o amistoso contra os Estados Unidos foi o primeiro lance de um treinador que saiu em desvantagem. E foi um bom lance. Mais do que nunca Mano tem nas mãos a tarefa de virar o jogo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Em nome da bola

O assunto ficou pingando na área, vocês sabem. De minha parte, penso que a bola deveria ser inatacável. Vê-la na condição de ré me causa certo constrangimento. Tão redonda e desafiadora. Ainda mais quando se trata dessas que têm os gomos cuidadosamente unidos para servir a nata do esporte bretão.

Como se não bastasse maltratá-la com os pés, agora deram para ofendê-la, deram para difamá-la. Sabe-se lá com que interesses. Por pior que seja, a difamada Jabulani deve ter lá suas qualidades, cuidadosamente moldadas em laboratórios de alta tecnologia e última geração.

Pensando bem, e levando em conta a qualidade técnica que temos visto por aí, faz muito sentido que as estrelas, de repente, se vejam ameaçadas por ela. Vou além. Traiçoeira ou não, será a mesma para todos. A bola tem espírito nobre, jamais deixaria alguém em desvantagem.

Estranhar a bola, é quase do jogo. Recordo que quando menino muitas vezes na hora da pelada escolher a bola era motivo de briga. Se fosse jogo contra o time de outra rua, aí nem se fala. A coitada recebia todo tipo de insulto. Era acusada de estar velha, murcha, dura, pingando demais, de menos. Em geral, era o time que estava em casa que decidia qual delas iria rolar. Todo mundo sempre prefere jogar com a bola que está acostumado.

Falando nisso, tempos atrás tive que me desfazer de duas bolas. Uma de vôlei e uma de futebol. Sei que pode soar ridículo, mas não foi fácil. Depois de ter me divertido tanto com elas, me sentia como se estivesse tramando a pior das traições. De tanto adiar o momento encontrei um paliativo: fotografá-las! Seria uma maneira de guardá-las além da memória. E assim o fiz. Ao lembrar de tal fato, neste instante, é inevitável pensar nos pés e mãos de quem terão ido parar. Será que ainda fazem a alegria de alguém? Basta de reminiscências.

A bola, como eu dizia senhores, entre diversas injúrias, foi acusada de parecer ter sido "comprada em supermercado". Pois quando eu era moleque comprei e ganhei muita bola " de supermercado". E elas me deram muito alegria. Como toda a galera da rua, eu não nutria muita simpatia pelas que eram leves demais. Mas não as desprezava, é importante que se diga.

Gostávamos mesmo de uma um pouco mais pesada e resistente, e ela tinha nome: dente-de-leite.Era de plástico, sim, e vendida em supermercado. Toda branca, imitava o desenho clássico das bolas de couro, com os gomos em hexágono pintados em preto. Era o máximo. Um verdadeiro sonho de consumo. E nem vamos aqui falar nas bolas de meia, dos rachões frenéticos disputados com bolinha de tênis. Ah! Que saudade que me deu agora do "capotão" queimando o peito do pé a cada chute.

Pra mim, essa picuinha toda em torno da Jabulani, a bola oficial da Copa da África, vem provar um dos grandes pecados do futebol atual: ter se distanciado da essência do jogo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O menino

Tenho visto esse menino, e seu encanto, muitas vezes, já fez eu me pegar imaginando como seria o futebol jogado em outros tempos. O futebol dos craques que hoje os mais velhos não cansam de lembrar e endeusar. Há nele um ingrediente improvável, aquela elegância que costumamos encontrar apenas nas fotos e vídeos em preto e branco que se encarregaram de eternizar a alma do futebol brasileiro.

Eu, que baixei no mundo depois deles, vi Zico, vi Maradona, vi Romário, vi Ronaldo, e não posso reclamar. Os que virão, talvez vejam muito menos. A modernidade tem lá sua pobreza. Quem sabe se a vida tivesse me dado a chance de apreciar um Ademir da Guia no auge hoje as palavras não tivessem aqui tentando driblar a minha pretensão de fazer esse elogio. O texto fluiria melhor.

Mas é que tenho visto esse menino, tal qual um mágico, a revelar espaços no gramado. Espaços que só se materializam no momento em que ele faz nascer um passe, um lançamento, ou coisa que o valha. Um menino, sim, mas com o olhar altivo de quem enxerga o campo de jogo de um ponto qualquer, superior, calmo, calculado.

Mais do que aprender, descobri, e faz tempo, que há uma certa sabedoria, em seja qual for o ofício, que resulta em estilo, resulta numa plástica apurada. E isso ele tem de sobra, como tem. O corpo e os pés em total sintonia com os movimentos que sua imaginação propõe. E como se não bastasse, o cabelo de corte simples, o olhar sem deslumbre, a lucidez de quem tem um dom.

Por causa do futebol desse menino, no futuro, quando os interessados na memória do nosso futebol revirarem a história do Campeonato Paulista de 2010, irão certamente encontrar, decantado, o requinte das jogadas dele. Conforta saber que o futebol atual tem algo a deixar como legado. Há neste menino o consenso reservado aos grandes artistas, e isso soa justo.

Pouco importa que o treinador da seleção brasileira prefira os outros, ou que alimente uma cegueira própria dos que fazem da vitória o grande objetivo. No escrete que acaba de ser anunciado, ela, a vitória, é muito mais provável do que a beleza. Pensando bem, esse menino merece um outro ambiente. O nome desse menino é Paulo Henrique Chagas de Lima, vulgo "Ganso".

terça-feira, 27 de abril de 2010

As palavras

Do Ministro do Esporte, Orlando Silva, sobre a possibilidade da Copa do Mundo de 2014 ter oito, e não doze sedes.

" Possibilidade de exclusão (de sede) sempre existe. Insisto: O plano da FIFA era construir em oito cidades. Nós é que insistimos para que fossem doze."

De uma vez só deixou transparecer a principal intenção da FIFA... e a "nossa".

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Uma versão dos fatos

À procura de um tema para esse nosso encontro semanal acabei me lembrando de um romance de Luigi Pirandello. O livro do autor italiano que me veio à cabeça é "Um, nenhum e cem mil".

Trata-se da história de um homem que, a partir de um comentário trivial feito por sua mulher, começa a descobrir que é visto pelos outros de uma forma muito diferente da que imaginava. E mais, que essa maneira de encará-lo era única para cada um dos habitantes da pequena cidade em que vive.

Em linhas gerais, o personagem principal da obra, Vitangelo Moscarda, passa a conviver com essa intrigante descoberta de que, ao mesmo tempo em que é apenas um, não é nenhum daqueles que as pessoas imaginam, mas ao mesmo tempo é todos eles.

A essa hora os mais impacientes estarão se perguntando: E daí, e daí? Bom, e daí que o futebol também vive, e sempre viveu, esse choque de versões, essa riqueza filosófica.

Eu aqui com as minhas verdades, nada absolutas, afirmo que o árbitro da primeira partida da semifinal entre São Paulo e Santos, preocupado em não perder o controle da situação optou por uma maneira de agir pouco corajosa e saiu distribuindo cartões amarelos.

Por outro lado, certos jogadores do São Paulo devem ter imaginado, como aqueles que encaravam o Vitangelo Moscarda de Pirandello, que o homem do apito era um cara diferente, e ao forçar uma situação, acabaram provocando uma reação inesperada por eles, e que levou à expulsão de Marlos, o jogador mais estratégico do elenco sãopaulino.

Outra coisa, o time do Morumbi soube tirar proveito da maturidade, porque só tendo maturidade é possível reagir diante da desvantagem de ter um jogador a menos em campo e um placar marcando dois a zero para o adversário.

É certo também que o time do Santos esteve longe de fazer uma apresentação de gala, e pra mim o principal sintoma disso foi ver o talentoso Neymar ir ao chão sozinho ao tentar uma arrancada. Agora, decisivo mesmo pra que eu centrasse a atenção nessa relação "atleta x árbitro" foi ter acompanhado a outra semifinal, entre Grêmio Prudente e Santo André, onde essa tensão praticamente não existiu.

Ali, no tira-teima entre dois times mais modestos, todo mundo parecia mais preocupado em jogar futebol do que em ficar rezando na orelha do juiz a sua versão do que acontecia em campo.

Mas, voltando ao clássico, insisto em dizer que o jogo aproximou as duas torcidas da realidade. Afinal, só se surpreende com o fato de um time formado por garotos titubear diante do peso de uma decisão, os interessados em fabricar super-heróis.

E na outra ponta desse enredo, os torcedores do São Paulo, sempre tão exigentes, puderam ver que há no Morumbi um elenco capaz de encarar de igual pra igual o time que é a sensação da temporada, e a prova disso é que só os mais empolgados serão capazes de dizer, neste momento, que a vantagem santista já decidiu a vaga na final.

E não fique chateado se, por um acaso, você tiver uma outra versão dos homens e dos fatos. Em se tratando de futebol, somos bem mais de cem mil. .

quarta-feira, 31 de março de 2010

Não é mentira !

Nesta quinta, 1 de Abril, o Cartão Verde terá um novo cenário.
Passa lá pra ver! É na Tv Cultura, ao vivo, às 22 horas.



segunda-feira, 29 de março de 2010

O Mestre

Não, não convivi com Armando Nogueira. Não trabalhei com ele.
Mas o ofício que escolhi me deu o prazer de entrevistá-lo e
também o prazer de hoje comandar o "Cartão Verde", programa criado e batizado por ele.
Transcrevo abaixo um post de tempos atrás que, acredito, deixará transparecer a sua importância...e a minha reverência.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

"Estatístico" ou "Nogueiriano" ?

Ao tomar conhecimento da eleição de Dunga como o melhor técnico de futebol do mundo pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS), imediatamente lembrei de um detalhe interessante.

Convidado a participar de uma reunião do "MEMOFUT" - um grupo que tem como único objetivo zelar pela memória do futebol - ouvi do seu Presidente, o Sr Domingos D'Angelo, que ali os participantes se dividiam em dois grupos. Um formado pelos "estatísticos", e o outro, pelos "Nogueirianos".

Os primeiros, devotos confessos dos números. Os outros, afinados com o mestre Armando Nogueira, adeptos de uma visão mais poética do jogo, pra não dizer mais humana, o que, evidentemente, soaria tendencioso.

Sem titubear me inclui entre os "Nogueirianos", claro.

Não contesto o título dado ao treinador brasileiro. Afinal, uma vez escolhido o método, a matemática se encarrega do resto.

Mas prefiro encarar essa eleição como uma boa prova de que os números, muitas vezes, brigam com a razão.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Futebol, diversão e alegria

" O jogador se diverte e não para de fazer gols". Encontrei essa frase, perdida entre muitas outras, quando lia uma matéria sobre Lionel Messi, o jogador do Barcelona. E ela me bateu como uma iluminação. Clareou um sentimento que eu já havia alimentado. Vou dizer porque. Tempos atrás, quando Ronaldinho Gaúcho vivia uma fase muito parecida com a que o jovem argentino desfruta agora, cheguei a escrever que tão impressionante quanto suas jogadas e seu talento era a alegria que ele deixava transparecer a cada lance.

Seu rosto estava cheio de sorrisos. Sei que diversão e alegria são coisas diferentes, mas não dá pra negar que tenham íntima relação. E se os talentosos acabam com o jogo porque estão alegres, ou se estão alegres porque andam acabando com o jogo, jamais saberemos. Interessa é que o biscoito esteja sempre fresquinho. É ou não é?

Sem susto - e mesmo correndo o risco de beirar a literatura de auto-ajuda - digo mais, essa teoria da diversão e da alegria é capaz de explicar também o brilho do atual time santista. Sinceramente, não consigo imaginar que exista alguém nessa terra capaz de duvidar que o segredo da meninada da Vila, além do talento, é estar imersa em imensa alegria e divertimento. Não seria assim se o nível de cobrança fosse outro. Não mesmo.

E, mandando a humildade de vez pra escanteio, afirmo que essa minha teoria tem ainda a virtude de apontar o mar de interesses, as transações milionárias e a necessidade extrema do sucesso, como os grandes vilões do jogo de bola. Vejam. Será que a ausência da alegria e do divertimento não explicam a dificuldade encontrada pelo Palmeiras, pelo São Paulo, e mais ainda pelo Corinthians?

Não há nada que neutralize mais a possibilidade de se divertir do que ter que lidar com uma cobrança colossal por um título que escapou no ano passado, por um que precisa se repetir, ou por um que nunca veio. Pra completar, há sobre as costas do elenco comandado por Mano Menezes o peso de um século que se fecha. Os mais duros dirão que Ronaldo, Roberto Carlos e seus companheiros ganham bem pra isso. Também é verdade. Como é verdade que a obrigação sempre foi um antídoto para a alegria.

Azedos de todos os cantos não darão o braço a torcer, afinal, a alegria não é o objetivo primeiro de um profissional. Mas quantas profissões nasceram de uma brincadeira? Relembre o cara da sua rua que fazia chover durante as peladas, investigue na memória se os olhos dele não tinham um brilho diferente quando miravam a bola, se não vivia de bem com a vida, sorrindo a todo instante.

Neymar, Ganso, André, mais do que a maioria, conservam parte desse sentimento que, infelizmente, se perde aos poucos. Os chatos vivem a puxar suas orelhas, eu, que achei aquela comemoração da estátua o máximo, me limito a alertar que seja no Camp Nou,em Barcelona, ou na Vila Belmiro, em Santos, nada melhor para coroar essa possibilidade da diversão e da alegria em campo do que um título.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A quem interessar possa

Perdido nesse oceano de gols e dribles, não sei se vocês atentaram pro lance. O governador do Rio de Janeiro chorou. E não foi por nenhuma criança de rua, por nenhum dos inocentes mortos por balas perdidas, não foi por nenhuma das tantas cenas e acontecimentos cruéis que andam a castigar seu povo.

O governador chorou por causa da aprovação da emenda que altera as regras de distribuição dos royalties do petróleo em nosso país. Segundo os interessados a decisão tira do Rio sete bilhões de reais por ano. Uma vez aprovada - ainda precisa passar pelo Senado e pela sanção presidencial - os recursos sobre a exploração de petróleo e gás, incluindo a extração da cobiçada camada pré-sal, seriam distribuidos pela metade entre estados e municípios, sendo os valores estabelecidos de acordo com os percentuais da divisão dos fundos de participação, já existentes.

Interessante foi notar como o ocorrido expôs as vísceras da relação entre o Estado e o esporte. Não tardou e o governador veio a público dizer que, diante da aprovação da emenda, a Copa a e Olimpíada no Rio seriam inviabilizadas. Jogos do Campeonato Carioca de futebol fizeram até um minuto de silêncio antes das partidas no final de semana e, no Engenhão, durante o jogo entre Fluminense e América, o placar eletrônico tratou de convocar a massa para o ato público contra a medida, que seria realizado nesta quarta-feira, na famosa Candelária, no centro do Rio, e do qual não dou mais detalhes porque precisei escrever este artigo antes disso.

Mais impactante ainda foi ver a disposição do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro para entrar na briga, fazer pressão, e justamente contra o governo federal que tanto já lhe deu, e dá. Carlos Arthur Nuzman disse que a "redução da receita...deixará o estado do Rio de Janeiro sem condições de fazer as obras necessárias para os Jogos 2016...representará uma quebra de contrato".

Nosso mais alto mandatário olímpico não incluiu a Copa no discurso, mas o governador o fez, e foi longe: " As prefeituras param. O estado não terá mais recursos. Para tudo, no nosso caso para tudo".

As partes interessadas deveriam aceitar a desistência. Bastaria que a Copa chegasse para deixar claro o equívoco da atitude. Imaginem o Brasil mergulhado na festa do seu segundo mundial da história, e o Rio à margem de tudo. A cidade maravilhosa não merece um futuro assim.

O governador também fez questão de lembrar de uma antiga campanha, encampada pelo Rio, cujo lema era:"O petróleo é nosso". Bom, pelo visto agora o petróleo já tem dono, e esse papo todo me fez lembrar de uma outra campanha vista nestas terras, mas que versava sobre questões diferentes, religião entre elas, e que sugeria o "Brasil para todos". Aí eu pergunto, interessa a quem?

quinta-feira, 11 de março de 2010

Um fato do cotidiano

O assunto estava em todos os lugares. E, de repente, induzido por ele, me peguei pensando no universo de pessoas que podem dar de cara com estas minhas palavras. Gente cuja economia diária permitiu comprar um jornal, ou gente que irá encontrá-las no blog, onde humildemente costumo depositá-las. Gente com computador e com o direito comprado do acesso à internet. Gente com família, com emprego, gente com hora pra chegar e sair. Gente com direito a boa escola, informação. Gente com saneamento básico. Diversão.

Então, me perguntei: que sabemos nós da vida de Adriano? Qual de nós é verdadeiramente capaz de interpretar a trajetória desse homem criado na Vila Cruzeiro?

Pra quem não sabe, se trata de uma das áreas mais violentas do Rio de Janeiro. Um lugar acostumado a ter em suas ruas, dia a após dia, cenas de guerra civil. Sendo assim, quem entre nós poderá saber o que aquele morro significa? Quem? Quem saberá de que maneira a infância e a juventude de Adriano se misturaram às histórias daquele rincão da zona norte carioca.

Trata-se de um imperador criado em uma terra infestada de imperadores macabros. E as teorias vão surgindo, porque o morro é terra fértil pra isso. E ainda tem a bebida, sempre a bebida, e a declaração imbecil do amigo goleiro. Mas a virtude de certos pensamentos é essa mesmo, desnudar o tipo de homem que a proferiu.

Qual de nós será capaz de entender se, um dia, o rapaz - num desses rompantes - se der o direito de mandar uma banana para o futebol e decidir passar o resto de seus dias entre a gente que o viu crescer? Quem aí será capaz de imaginá-lo feliz nessa situação? É tão difícil assim entender que alguém que vem de um lugar desses se veja em conflito ao ser posto cara a cara com o avesso de tudo que viveu?

Porque é tão difícil assim imaginar que Adriano veja mais graça em um baile funk do que em festas grã-finas regadas a vinhos caros e champagne? Cru, pra ele, é um tipo de realidade. E essa, sim, sem segredos. E se ele te dissesse que encontra mais verdade e beleza na gente de cima do morro, do que nessa aqui de baixo? Você iria duvidar, não iria?

E tem mais, a preocupação com as manchetes, a repercussão, as reflexões morais, as análises de conduta, tudo isso se encaixa na nossa realidade pequeno burguesa, talvez não na dele. E nada pode ser mais injusto e preconceituoso do que julgar alguém pelos milhões que ganhou, ou jamais esquecer o lugar improvável de onde ele veio. Há certos aspectos da vida que jamais vão estar nos jornais.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Joel, Dunga e Dadá

Sou um sujeito desconfiado, minha mulher vive me dizendo. Fazer o quê? Se desconfiar não é virtude também não é pecado. Presumo que seja até um efeito colateral dessa minha profissão. Agora mesmo, no momento em que escrevo estas linhas, Joel Santana tenta explicar em um programa de televisão porque não põe o Caio pra jogar de vez.

Caio é a jovem estrela do time que ele dirige, o Botafogo do Rio. Joel, do alto de sua original simplicidade devolve a pergunta. Educado e muito incisivo, sugere:

_ Você joga carta, não joga?
_ Você tem um coringa. Você começa o jogo com o Coringa? Não, né?

Perfeito... pro jogo de cartas. Futebol é outro papo. Eu poderia acreditar na teoria do rodado e vitorioso treinador, mas desconfio, ah, se desconfio. E desconfiava quando Luxemburgo dizia que o Neymar não estava pronto. Muitos já tentaram me convencer de que ele só amadureceu agora. Nada disso, pra mim um cara que joga a bola que ele joga, um ano atrás podia muito bem já ter aprontado das suas. A única diferença, de lá pra cá, é que agora o colocaram pra cima e, ao invés de questionar seu talento, se renderam a ele.

Desconfianças à parte Joel dá um show. Elucida o futebol como poucos e tempera tudo com uma dose generosa de humanidade. Pouco depois, vejo, em outro canal, o Dunga, comandante em chefe da nossa vitoriosa seleção, explicar seus métodos. Ele deixa transparecer a segurança militar de sempre. Durante uma das respostas afirma que a imprensa não gosta quando ele resgata a história da Copa de 2006. Como assim?

Pelo que me consta não somos nós os mais incomodados com o passado. No mais, o discurso de Dunga faz muito sentido. A exigência do comprometimento, da determinação, da raça, do ambiente. Mas pra mim não tem jeito. Um sujeito como eu não resiste. Começo a desconfiar que Dunga cuidou de tudo, mas é tanta coisa, que o futebol deixou de ser prioridade. Por isso, pouco importa se a seleção que vai à África teria mais brilho de outra forma.

Importa é montar um elenco de homens vitoriosos, cuja honra não seja questionada na derrota. Como se alguma derrota fosse capaz de vencer questionamentos. Imaginem. Começo a desconfiar que o preço dessa estratégia não foi bem avaliado, porque o preço pode ser o de voltar a ser atormentado por um velho fantasma: a acusação de vencer com um futebol sem requinte.

Um sujeito desconfiado é fogo, meus amigos. Bom, aproveito o momento - já que falamos na original simplicidade do Joel - pra lembrar de outra grande figura do nosso futebol, Dadá Maravilha, que fez aniversário ontem e que eu vi dirigir, no final da carreira, o Comercial de Registro, no Vale do Ribeira, diante de uma torcida impiedosa. Desconfio que uma das muitas frases atribuídas a ele vem a calhar. "Bola, flor e mulher, só com carinho". Salve Dadá

terça-feira, 2 de março de 2010

A última exibição

Brasil x Irlanda
02/03/2010


A última partida da seleção de Dunga antes da Copa teve um primeiro tempo que eu defino como um deserto de emoções.
Pra não falar que não se viu nada antes do chute de Robinho, aos quarenta e três minutos, que provocou o gol contra marcado por Andrews,
se viu uma nada perigosa cobrança de falta de Adriano.
Já o segundo tempo deixou evidente que uma certa formação opcional soa muito mais atraente do que a original. Gostaria de acreditar que a bela troca de passes que levou ao segundo gol é "uma típica jogada do futebol brasileiro", como disse Robinho depois do jogo. O Santos, pelo jeito, foi um remédio que fez efeito.
A louvar, a fase do Maicon, a lamentar, o fato de o Brasil ter encarado um adversário incapaz de criar.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Zé da Cuca

















Na vizinhança ele era conhecido apenas como o Zé da Cuca. À primeira vista o apelido parecia óbvio. Mas não era. O sujeito não tinha essa alcunha por causa do seu olhar perdido, do seu jeito amalucado, das risadas repentinas, ou dos papos sem sentido. Ficou conhecido dessa maneira porque todo dia, sem que ninguém soubesse como, lá estava ele, debaixo do tronco do velho Chapéu de Sol que ficava no meio da praça.

Era uma árvore enorme, e a molecada quando não tinha mais o que fazer decidia comer os frutos que ela dava. Frutos arredondados, duros, de gosto duvidoso, conhecidos como cucas. Certo dia o homem sumiu, sem que ninguém tivesse a mínima pista de onde veio ou pra onde foi. Ficou a lembrança.

A qualquer um, que lhe desse atenção, não tardava a dizer que tinha sido jogador de futebol. Falava de campeonatos importantes disputados bem longe dali, cujos nomes não soavam familiares a ninguém. Além do mais, não era fácil enxergar naquele sujeito mal vestido e de chinelos surrados, traços de um campeão. Maluco era perceber a ligação que ele ainda mantinha com o jogo.

Quando a meninada se punha a bater bola por ali, ele passava todo o tempo fitando os movimentos de cada pequeno jogador sem dizer nada. Era como se uma pelada qualquer fosse capaz de transportá-lo para um outro tempo, um outro mundo. Entre todas as histórias que Zé da Cuca insistia em contar, uma se destacava. Falava sobre um gol mirabolante marcado por ele. Mas não pensem vocês que se tratava de um atacante. Zé da Cuca fazia questão de deixar isso bem claro. Sempre foi ponta-de-lança.

Bom, dizia ele que, certa vez, durante um jogo de final de campeonato, percebeu que o companheiro de time insinuava um avanço pela esquerda, o que ele prontamente atendeu. Partiu em velocidade e, mesmo sem diminuir o ritmo, tirou o primeiro marcador da jogada com uma chaleira. A essa altura já estava chegando na linha da grande área. Ao perceber nos olhos do zagueiro que se aproximava a intenção de pará-lo de qualquer jeito, decidiu concluir o lance.

O chute partiu venenoso e explodiu no travessão. Ele, que havia se deslocado na diagonal depois da tentativa, mirou a bola e antes que ela tocasse o chão desferiu uma poderosa bicicleta. Ainda estava deitado no gramado com as costas um tanto doloridas quando os companheiros se amontoaram em cima dele. A vitória por um a zero, depois de três bolas na trave pra cada lado, parou a cidade.

O que mais impressionava era a emoção que demonstrava ao revelar o detalhe mais improvável da façanha. Como não havia câmera nenhuma registrando o jogo, e ele estava de costas pro gol, nunca pôde ver a sua obra prima. Durante muito tempo incomodou os amigos. Pedia encarecidamente que lhe contassem o que tinham visto. Até hoje me recuso a acreditar que tudo não passava de uma bem tramada ficção. Mas ainda que fosse, acredito que o saudoso Zé da Cuca fez mais pelo futebol do que muitos torcedores que andam por aí.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A estréia

24/02/2010 - Pacaembu
Corinthians 2 x 1 Racing (URU)

Tcheco. Quem não gostava pode ter mudado de idéia.
Jorge Henrique abaixo da sua média, que é alta.
Elias,eficiente,o nome do jogo.
Os dois gols mostraram um Corinthians maduro e com potencial.
A cara do Mano.
Ronaldo.Soube bordar a exibição.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O X da questão










Você deve lembrar. Não faz muito tempo. Foi na época em que o Rio de Janeiro se preparava para receber os Jogos Pan-americanos. Os dirigentes do Comitê Olímpico Brasileiro não cansavam de repetir que organizar um evento como aquele iria nos ensinar muita coisa, e que a partir dali o Brasil estaria credenciado para sediar eventos ainda maiores. Era tudo verdade.

Graças ao Pan do Rio aprendi muita coisa. Aprendi, por exemplo, que nada era pensado apenas esportivamente. Durante uma visita ao então inacabado estádio "João Havelange", os secretários e responsáveis pela obra falavam das futuras lojas e centros comercias do entorno com entusiasmo maior do que o usado para descrever o que viria a ser conhecido como Engenhão.

No estádio de Remo da Lagoa, não bastavam raias traçadas com equipamentos de ponta, importados e caros, era preciso espaço para lojas e restaurantes. Na Marina da Glória, sede das competições de vela, a mesma coisa. Nada de se contentar com a estrutura necessária para as provas. Um Shopping Center e um Centro de Convenções também constavam do projeto. E quando reclamaram que tudo aquilo iria alterar a paisagem de um lugar tombado, a estratégia da organização foi a mais óbvia: se tudo não fosse feito da maneira proposta o Pan estaria comprometido, e podíamos pagar um mico de proporções planetárias.

Mas o Ministério Público bateu o pé. Apesar de toda a choradeira e de todos os movimentos de bastidores, o MP venceu a queda de braço. Fez-se o necessário. E talvez tenha sido essa a vitória relativa ao Pan da qual mais deveríamos nos orgulhar. Não que tenha sido um triunfo definitivo.

No final de setembro do ano passado, poucos dias antes de o Rio de Janeiro ser anunciado como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, o grupo EBX, do empresário Eike Batista, que investiu mais de 23 milhões de reais na candidatura do Rio, o que representa 62% do total, simplesmente comprou a concessão da Marina da Glória. E foi no jato do empresário que o governador e o prefeito do Rio viajaram para Copenhage, cidade onde o Comitê Olímpico Internacional fez o anúncio.

Na época, perguntado sobre o fato, Eike disse o seguinte: "Tudo foi feito de uma maneira tão transparente, tão aberta, que fica praticamente impossível eu pedir qualquer benefício político". Na semana que passou, a mineradora MMX, controlada por ele, recebeu um aporte de 1,2 bilhão de reais de um grupo chinês para aliviar as finanças. O mercado também é um grande jogo.

Daí a deixar que a Marina da Glória, parte integrante de um dos parques mais bonitos do país, o Parque do Flamengo, faça parte dele, são outros quinhentos. Que me desculpe o Caro leitor, por ter proposto um assunto tão sério quando o carnaval mal terminou. Mas cedo ou tarde teremos que deixar as fantasias de lado.



*Para ver imagens do Parque do Flamengo:
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=476338

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ah, moleque!


















Dependemos do gol, mas reverenciamos o drible. Como se fosse um instinto, nosso semblante se altera imediatamente quando vemos alguém levar uma bola entre as pernas. Não há meio de segurar. E tanto faz se a vítima é do nosso ou do outro time.

"Tudo o que eu quero são duas firulas na tarde de domingo". A frase dita uma noite dessas pelo meu amigo Xico Sá, numa mesa de bar, muito antes do clássico entre São Paulo e Santos, agora soa ainda mais perfeita. Em matéria de futebol a felicidade plena não é possível diante de um repertório básico.

E se é com música e poesia que a vida se faz maior. É com graça e ousadia que o jogo de bola ganha a dimensão da fantasia. No mais, que o Deus do futebol cuide das pobres almas dos brucutus e dos retranqueiros, que pensam, equivocadamente, ter compreendido a essência do jogo.

E não me venham com esse papo de que o que vale - e interessa - é bola na rede. Sou mais a coragem de um lançamento longo errado do que a covardia de um toque para o lado. Sem essa de louvar os garotos e depois jogar em cima deles um discurso careta.

Dizer que deveriam se portar como profissionais dentro de campo, que o drible tem de ser objetivo, tudo isso não passa de um sermão disfarçado, em geral proferido por quem se sentiu ferido pela beleza dele. O drible explica a si mesmo. O drible não tem segundas intenções. O drible é futebol em estado puro. Esperar atitudes maduras dentro de campo, sob certa óptica, empobrece o futebol.

Neymar, o elegante Paulo Henrique, que de ganso não tem nada, e Philipe Coutinho, estão aí para provar. Quer saber, não foi a paradinha do Neymar que tirou Rogério Ceni do lance, foi a certeza alimentada pelo arqueiro de que o garoto iria encarar o momento como adulto, e que correria para a bola carregando nas costas o peso da responsabilidade. Mas de nada adiantou.

O futebol tem essa capacidade louvável de tecer armadilhas sublimes. De repente, Neymar partiu pro lance leve como quem disputa uma pelada, deu um breque, e deixou claro que só tinha levado consigo a maturidade da ousadia. Ah, moleque!


* artigo publicado no jornal "A Tribuna", Santos

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Nem a pau, Juvenal !

Qualquer caderno de esportes carrega em si uma porção de notícias que terão suas entranhas reviradas nas bancadas dos programas esportivos e uma outra que não terá esse direito. Dias atrás li uma entrevista do presidente do São Paulo Futebol Clube, Juvenal Juvêncio, e esperei com certa ansiedade, confesso, o momento de comentar as declarações do eloquente cartola tricolor.

Mas as palavras ditas por ele foram engrossar o time das notícias sem direito a maiores reflexões. A conversa girava em torno dos problemas que o clube vem enfrentando com os jogadores da categoria de base. Pra quem não sabe, neste início de temporada alguns deles decidiram deixar o São Paulo, e em meio aos duelos recheados de argumentos jurídicos o clube admitiu ter feito várias emancipações com a intenção de garantir seus privilégios de clube formador.

Isso porque quando se trata de menores a FIFA só permite contratos de até três anos. Com a emancipação, que é assinada pelos pais, o time do Morumbi dribla essa determinação e elabora contratos de cinco anos. Apesar de a entidade máxima do futebol já ter estabelecido como quer que os garotos sejam tratados, o presidente do São Paulo não se dá por satisfeito. Esbanjando segurança, garante que o que eles buscam "...virá pela FIFA ou pelo governo brasileiro".Do jeito que o nosso governo anda refém do futebol, eu nem duvido.

Garboso, vai além, insinua que a FIFA quer o contrato de cinco anos, quando o que a entidade quer já está imposto e o clube deveria acatar. A entrevista trouxe ainda outras pérolas. Uma delas sobre a Copa Sub-15. Diz o presidente:"... estamos pensando em não disputá-la". A intenção, claro, é não exibir os meninos, não atiçar o apetite da concorrência.

Que bela estratégia essa de esconder a gurizada e não deixar que os garotos descubram o gosto de vencer um torneio, não acham? Ora! Por falar em esconder, Juvenal também deu sua versão para os contratos de gaveta. Disse que contrato de gaveta é o contrato escondido, mas que os garotos têm advogados para defender seus interesses, que eles sabem do que se trata, e recheou a conversa com um ardil de fazer inveja, sugerindo que a "eficácia futura é uma tese nova".

Presidente, gaveta é gaveta, e o contrato que se guarda nela para ser usado depois é o tal. O que dirá a justiça no futuro sobre esse tipo de atitude é outra conversa. E se o São Paulo é um clube tão diferente, tão moderno quanto gosta de alardear, ou seus jovens e seus defensores ainda não viveram o bastante pra valorizar o que têm à disposição, ou eles têm considerado o preço a pagar caro demais. Em resumo, uma sequência de argumentos tão pouco convincentes, que lembrar do velho bordão "Nem a pau Juvenal!", foi inevitável.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Nostalgia

O carro seguia a mais de 100 km/h quando percebi o grupo de meninos no alto da passarela. Eram quatro. Beiravam os dez anos. Vestiam apenas shorts. Um deles carregava uma bola debaixo do braço. A visão sugeria que o destino era um campinho qualquer. Uma inveja boa me invadiu e a possibilidade da persistência de um futebol inocente me comoveu. Quisera toda a rivalidade continuasse sendo aquela que alimentávamos com o time da rua de trás.

Disse em outra oportunidade e repito: O futebol dos homens maduros profana aquela que um dia foi a nossa brincadeira preferida. Vejamos o que nos aguarda nesta quinta. Egito e Argélia voltarão a se enfrentar. Dessa vez para saber quem fica com uma das vagas na final da Copa Africana de Nações.

No ano passado quando decidiam uma vaga na próxima Copa do Mundo, o encontro entre as duas seleções, de tão grave, virou incidente diplomático. O ônibus que transportava a delegação argelina foi apedrejado quando chegava à cidade do Cairo. Três dias depois centenas de torcedores tomaram as ruas de Argel para declarar guerra ao Egito "dentro e fora de campo", como destacava uma notícia que eu li na época.

Um dos muitos alvos foi o prédio de uma companhia telefônica egípcia, que ficou destruído. Pra tornar a situação ainda mais espinhosa, os placares das duas primeiras partidas determinaram a necessidade de um terceiro confronto, que foi disputado em campo neutro, no Sudão, e terminou com vitória da Argélia por 1 a 0, num ambiente pra lá de pesado.

Também nesta quinta, em Milão, na Itália, o setor de visitantes do estádio San Ciro ficará fechado durante a partida entre Internazionale e Juventus, válida pela Copa da Itália. A decisão foi tomada pelo Comitê Italiano de segurança em eventos, por causa de manifestações racistas dos torcedores da Juve contra o atacante da Inter, Mário Balotelli, de apenas dezenove anos, que apesar de jogar na Itália tem origem em Gana, país que curiosamente também estará em campo hoje, diante da Nigéria, lutando pela outra vaga na final da Copa Africana.

Balotelli nasceu poucos meses depois dos pais biológicos terem emigrado para a Sicília. Nasceu com uma má formação no intestino que o fez passar os dois primeiros anos de vida no hospital. Entregue à família Balotelli por um tribunal de Brescia, nunca teve a adoção oficializada. Só depois de alcançar a maioridade pôde escolher sua origem.

Balotelli é italiano, e do tipo que não gosta de levar desaforo pra casa. Mas "não há italianos negros", gritava a torcida da Juventus com fervor dias atrás. É por essas e outras que toda imagem que sugere um futebol inocente me contagia. Mesmo quando eu passo por ela a mais de 100 km/h.