sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O novo técnico do Palmeiras

Foto: Antônio Carneiro/Pernambuco Press

Assumir um dos grandes times do país. Sob o vapor da euforia causada pela conquista de um título de Campeonato Brasileiro. Coisa que o clube não vivia há mais de meia década. Assumir o posto que era ocupado até alguns dias atrás por um treinador que, talvez, só não seja visto como páreo para o atual técnico da seleção brasileira. O desafio aceito por Eduardo Baptista e proposto a ele pelo Palmeiras é imenso.

Eduardo chegou lá trilhando um longo caminho como preparador físico. Nessa condição, tendo como suporte toda a vivência do pai, Nelsinho Baptista, conheceu o cotidiano profissional de clubes como Flamengo, Santos, Corinthians. Ao se tornar treinador no Sport, do Recife, conseguiu algo que costuma ser raro aos treinadores: tempo para trabalhar. Foi reconhecido na qualidade de campeão estadual e da Copa do Nordeste.  

Mas pelo que disse na época sentiu que o tempo no Sport estava pra terminar. Fez, então, o  quase óbvio caminho de quem se mostra capaz, acertou com um time de ponta, o Fluminense. Com ele, que tinha chegado no início de setembro, o Flu não caiu, mas foi eliminado na Copa do Brasil. O que sobrou de fôlego o estadual do ano seguinte consumiu e Eduardo se despediu das Laranjeiras antes de fevereiro deste ano terminar.

O capítulo seguinte vivido pelo ex-zagueiro, de carreira breve, que chegou a ser Campeão da Copa São paulo de Futebol Júnior com o Juventus, foi comandar a Ponte Preta, que como o torcedor deve lembrar deu caldo. Com ele o time de Campinas encerrou o Brasileirão em oitavo lugar. Ainda não tenho uma opinião formada a respeito de como o torcedor palmeirense o vê, Sob o ponto de vista do clube, me pareceu uma escolha diferenciada, que driblou o óbvio em matéria de contratação de treinadores. E isso não é pouco quando se trata de futebol brasileiro.   

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Enfim... o recurso eletrônico !

Foto: Reuters

O mais triste no fato de o juiz da partida entre o Kashima Antlers e o Atlético Nacional não ter tentado - no primeiro lance da história do futebol "oficialmente" analisado de modo eletrônico - que o jogador em questão estava impedido é dar margem para que o erro seja apontado como decisivo para o resultado do jogo. Verdade? Exagero?

Mas a lição que fica é uma que todos os simpatizantes do "recurso" não fizeram questão de levar muito em conta: ele não terá capacidade pra diminuir expressivamente a presença das intituladas polêmicas na hora de interpretar os lances. A complexidade do futebol - ou talvez a do olhar do homem sobre ele - não permite. Usá-lo pra dizer se uma bola ultrapassou, ou não , a linha do gol é uma coisa. Imaginar que armado de tal recurso a interpretação do jogo será simples, quase inocência.

De qualquer modo, o Kashima tá de parabéns!

E o Atlético Nacional também por tudo o que fez
e que sabemos...não foi pouco.       

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O Cuca e o Osvaldo

Foto: Agência Palmeiras
Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Os dois treinadores citados acima podem ser vistos, sob certa ótica, como as notícias do dia. Cuca está de peito aberto em entrevista que abre o caderno de esporte da FOLHA. E os navegantes do mundo virtual também encontrarão o homem que levou o Palmeiras ao título do Brasileiro em entrevista concedida à ESPN nos bastidores da premiação do Troféu Bola de Prata. Dias atrás já tinha considerado muita precisa a resposta dada por ele ao ser questionado sobre o que disse Renato Gaúcho sobre a necessidade de um treinador estudar.

Cuca driblou a polêmica fazendo o entrevistador ver o óbvio. Em linhas gerais, afirmou ser bem diferente do colega. Disse que se ele dá tudo pra não entrar em polêmica, Renato, por sua vez, quase não consegue falar sem criar uma. Cuca foi além, afirmou que " se não sentir falta, talvez nem volte ao futebol".Sugeriu ainda querer notar se o futebol sentirá a falta dele. Confessou cansaço mental. Falkou da dificuldade que é lidar com todo um elenco. Da relação que mantém com os bichos. E fez ver também o quanto o rótulo de supersticioso lhe foi imposto pela mídia, ao comentar sobre a calça vinho que gosta de vestir.  ão é só o campo que revela as razões de um sucesso.

Sucesso que Osvaldo de Oliveira esteve longe alcançar no breve tempo em que esteve no comando do Corinthians neste final de temporada. E quando digo sucesso é porque considero que se tivesse conseguido colocar o time na Libertadores de alguma forma teria sido bem sucedido. Fosse qual  fosse o futebol apresentado. A pressão sobre o presidente do clube é grande. E se o mandatário realmente disse ao treinador que ele seguiria no comando independentemente do que acontecesse este ano, a situação é mais delicada ainda. Osvaldo ficará? A pergunta deve ser respondida logo.

Mas seja qual for o ofício, trabalhar em ambiente hostil nunca é o ideal. Mas quando se trata de técnicos de futebol talvez isso venha a ser comum. Pode ser. Sendo assim é até possível que resida aí um dos muitos motivos para o grande número de demissões que vemos a cada temporada. Diante disso não descarto a possibilidade de que não continuar no cargo seja uma decisão acertada até mesmo para Osvaldo de Oliveira. De outro modo, terá deixado transparecer uma certa queda por desafios do tipo tudo ou nada.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A hora é de Cristiano Ronaldo ?

Foto: AP

Cristiano Ronaldo acaba de ser eleito o "Bola de ouro" da France Football. Repete, portanto, o feito de 2008 quando foi eleito pela primeira vez. O português também ganhou o prêmio em 2013 e 2014, período em que a revista francesa se uniu à FIFA na premiação. Não é o mais laureado, Façanha que pertence ao preciso Lionel Messi que até hoje já desfrutou do momento cinco vezes. Cruyff, Platini e Van Basten foram eleitos três vezes cada.

Para quem viu o argentino levar a melhor na última vez deve ter sido um alento. E vale lembrar que Cristiano Ronaldo está também entre os três que disputam o prêmio de melhor do mundo da FIFA, ao lado de Messi e Antoine Griezmann. O vencedor será anunciado no início do mês que vem. Campeão da Copa dos campeões da Europa e da Eurocopa, até então inédita para Portugal, difícil dizer que não é a hora dele.

Muito se diz do gajo, que tem uma história de vida daquelas e uma vaidade que parece maior que o mundo. Mas não dá pra não  reconhecer o alto nível físico e técnico que atingiu e que , incrivelmente, vem mantendo há muito tempo. E por isso os que não escondem de ninguém que querem chegar lá devem o ter como personagem no qual se espelhar. 

Diria que a hora é dele, sim. Mas sabe como é... temos aí um detalhe: uma vez separados, o Bola de Ouro é escolhido apenas por jornalistas, e o Melhor do Mundo da FIFA por votação popular, por jornalistas e pelos capitães e técnicos de seleções. O que pode revelar que a preferência de alguns não seja a mesma de outros. Mas se não fizerem disso uma simples questão de gosto...dará Cristiano Ronaldo! Não acham?

sábado, 10 de dezembro de 2016

Essa é do Brasil pós-Copa


Não que o CADE seja rápido pra resolver grandes questões. Os mais atentos irão lembrar que o órgão demorou quase uma década e meia para decidir sobre como deveriam ser negociados os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. E, ainda assim, quando decidiu levou um drible daqueles e nada fez para que o que tinha sido decidido fosse respeitado. 

Pois o nosso Conselho Administrativo de Defesa Econômica recentemente firmou um acordo de leniência com a Construtora Andrade Gutiérrez. Acordo no qual constam detalhes sobre a formação de cartel entre as empreiteiras para fraudar licitações referentes a construção e reforma de estádios para a Copa do Mundo. 

É dessas leituras que "espantam" por, no fundo, não nos causar espanto. Como tanta coisa que anda sendo revelada sobre nosso futebol e sobre nosso país. Claro, como poderíamos nos espantar?Vivíamos tendo essas revelações como parte da realidade. Só não havia fatos, comprovações. Trata-se da mesma sensação que nos tomou quando grandes dirigentes do mundo da bola acabaram em cana durante uma estada naquele luxuoso hotel da Suíça. 

Ou alguém duvidava que não era assim? Com tudo acertado antes. Com preços turbinados pra poder dar conta de pagar todo mundo. Jamais bastou dizer que era só comparar o preço dos estádios que estavam sendo erguidos por aqui com outros erguidos ao redor do mundo. Isso sem falar em todas as benesses, todas as isenções. Até o aço e o cimento das Arenas os envolvidos quiseram trazer com subsídios. 

E pouco se fala sobre o que está sendo acordado.Seja na esfera esportiva, política, ou outra qualquer. O que foi tratado não teve contestação. Terá sido coisa tão equilibrada e legítima assim? Ou nossos homens de bem estão perto de fazer nosso país, além de tudo, passar a ser visto como o país em que o crime passou a compensar? Ao menos para os que têm bons advogados. Aos que ostentam cacife pra jogar esse jogo.


* Leia matéria de Pedro Lopes e Vinicius Konchinski sobre o assunto:
http://bit.ly/2hjlp5K


    

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Outra do Brasil pós-Olimpíada

Basta ler o primeiro trecho da matéria de Aiuri Rebello e Guilherme Costa, do UOL, São Paulo.
A sensação que fica é a de que tudo é mesmo uma esculhambação.

Trecho:

O TCU (Tribunal de Contas da União) encontrou irregularidades em pelo menos 61% das verbas públicas destinadas ao esporte brasileiro nos últimos três anos, em todos os níveis. Em relatório publicado na última quarta-feira (07), o órgão apontou uma série de problemas em repasses de Lei Agnelo/Piva e Lei Pelé feitos pelo governo federal a COB (Comitê Olímpico do Brasil), CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), CBC (Confederação Brasileira de Clubes) e dez confederações escolhidas por amostragem. Segundo o texto, de um total de R$ 337 milhões, pelo menos R$ 207 milhões são passíveis de devolução à União

A matéria completa pode ser lida aqui:
http://bit.ly/2h8wwOg 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O futebol sobrevive

Estou no meio de uma gravação. Olho da cadeira de onde estou sentado. Tenho à minha frente o ex-goleiro do São Paulo e da Seleção Brasileira, Waldir Peres, e ao lado dele, o ex-ponta-esquerda Zé Sérgio. A conversa segue. E ao mesmo tempo em que ouço o que está sendo dito minha cabeça me transporta pra um tempo em que eu era menino. Repentinamente a imagem do garoto que eu era se forma. O chute vem no alto, do lado direito. Sem pensar muito em atiro em direção à bola. Ao tocá-la a comprimo entre as duas mãos. Quando vem a certeza de que não irá mais me escapar solto o grito: Waldir Peeeres! Isso enquanto meu corpo desaba no chão de cimento da garagem do velho prédio em que morávamos castigando um pouco mais meus cotovelos. Não há dor nisso, nada. 

Quando volto ao papo decido dividir com eles o que em mim se revelou como uma dúvida: será que as crianças hoje em dia ainda gritam o nome de alguém na empolgação inocente que o futebol costuma provocar? Para dar sentido ao que está sendo dito explico a razão da pergunta. Falo da minha mania de moleque de gritar os nomes dos jogadores que eu gostava, e que não era só o nome do Waldir que me saltava da boca. O de Zé Sérgio também. Mas é bem verdade que minhas escapadas pela ponta eram bem menos brilhantes do que eu conseguia ali embaixo da trave, ou na maior parte das vezes entre um chinelo e outro mesmo. 

É, mas o mundo girou e o tempo já não me dá o direito de saber - e muito menos desfrutar - do que podem as crianças hoje com uma bola nos pés. Hoje só me é dado descobrir as emoções de quem flerta, muito de perto, com meio século de vida. E se isso vem à tona agora nesta linhas é em razão de tudo o que vivemos nos últimos dias, em razão de uma tragédia ter inundado de lágrimas a página mais bonita que o futebol brasileiro escreveu nesta temporada. E que ao dilacerá-la revelou uma face do futebol que andava escondida e que eu, com minha descrença, dava até como perdida. A face que faz desse jogo de regras simples um catalisador da nossa emoção. Que nos permite comungar com quem nunca vimos, que nos permite sentir a dor de alguém que sequer conhecemos. 

Um jogo que desde sempre se alimentou de emoções profundas, honestas, e que ao dar de cara com essa combinação já rara, se agiganta. O vivido deixa entre tantas lições a de que o futebol segue entre nós com sua alma intacta. Dependendo, como sempre, do homem, de boa intenção, de ser tratado com nobreza. Oportunistas existirão sempre. Gente que se contenta com o universo medíocre dos resultados idem. Gente que se nega a vestir a cor do rival. Mas enquanto houver aqui, ali e acolá, um menino voando em direção a uma bola, com um sorriso estampado no rosto gritando o nome de alguém que o faça sonhar... o futebol sobreviverá. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Palmeiras: brilhante e regular


É fácil entender a razão que levou o Palmeiras ao título: não ter dado mole para o azar. Ou mais catedraticamente falando,mostrar em campo uma regularidade que passou longe de todos os outros times. Em especial do Santos que, no final das contas, se viu no papel de ser o grande desafiante da esquadra palmeirense. E que se não conseguiu levar às últimas consequências essa possibilidade foi justamente por não ter demonstrado tal virtude, a de ser regular. 

Mas mesmo sem ela a temporada do time da Vila Belmiro obteve o reconhecimento do torcedor, que não costuma fazer isso diante de qualquer situação. E é bem possível que esse contentamento venha do fato de o futebol da equipe santista ter se imposto como dos mais vistosos entre todos os que vimos ao longo desta temporada.  E até pelo time ser dono desse tipo de jogo explicar a falta de brilho de algumas apresentações do Santos se revelou também um desafio. Talvez estejamos diante de um time dono de um tipo de futebol que depende muito da inspiração e quando ela não vem a coisa engrossa. 

Não que eu ache justo o veredicto que anda aí exposto de que o time do Palmeiras não apresentou um futebol de encher os olhos. Digo que aceito tal colocação, mas como um crítica do conjunto. Ainda assim seremos obrigados a reconhecer que só um conjunto que funciona pra valer alcança a tal regularidade. E individualmente, há brilho sim. Afinal, estamos diante do Palmeiras de Gabriel Jesus, que mesmo que não tenha causado o mesmo arroubo depois de um certo momento mostrou-se virtuoso. O Palmeiras de Zé Roberto, que pode já não ter o fôlego ideal em lances que exijam certa explosão mas que sabe das coisas. O Palmeiras de Yerry Mina, Jaílson e por aí vai. 

E não custa lembrar como esse elenco palmeirense era visto quando Cuca baixou na Academia. Um elenco que de tão grande e diverso afirmavam ser impossível de administrar. Um elenco sem um miolo, sem um time definido. Tarefas que Cuca tomou pra si e cumpriu com louvor. E ao levar em conta o destino do treinador, apresentado no último mês de março, até no tamanho do contrato ele acertou. Seja por uma questão pessoal que o impediu de continuar, ou tivesse sido por uma proposta surreal da China, a verdade é que no lugar dele outros poderiam ter crescido o olho e batido o pé por um contrato maior, já que dinheiro não tem sido há algum tempo o problema do Palmeiras. Mas Cuca ao chegar assinou só até dezembro deste ano. Portanto, se despede sem viver o que é quase uma regra entre aqueles que ocupam esse tipo de cargo: dizer até mais sem ter cumprido o contrato até o fim. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Meus sentimentos...

... a todos os atingidos pelo acidente.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Fidel - por Eduardo Galeano


Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.
E nisso seus inimigos têm razão. seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo. E nisso seus inimigos têm razão.Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes. E nisso seus inimigos têm razão.
Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.
E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.
E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia a la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar.
E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.
E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha.
Do livro "Espelhos, uma história quase universal", tradução de Eric Nepomuceno. Publicado no site Outras Palavras.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Olhando a tabela do Brasileirão!

Tive a impressão de ter ouvido em algum momento que as últimas três rodadas do Brasileirão deste ano teriam todos os jogos disputados no mesmo horário. Recorri ao Google e nada encontrei que amparasse isso. Mas encontrei lá uma notícia de 2010 anunciando que nas das últimas rodadas os jogos do Brasileirão daquele ano seriam todos no mesmo horário. Se foram mesmo...a ver. 

Mas não foi este ano que andamos para trás. Nos anos que se seguiram a 2010 esse cuidado se deu só na derradeira rodada. E, de cara, quando olho a tabela isso me causa incômodo. Botafogo e Corinthians disputam uma vaga na pré-Libertadores, por exemplo. E o que se dará? O time carioca entrará em campo uma hora antes de seu adversário direto. É um detalhe, é! Mas não é certo.

Os menos chatos do que eu dirão que os jogos-chave estão posicionados no mesmo horário. E eu vos digo: o que são exatamente jogos-chave? Dizer uma coisa dessa é como aquela chamada que anuncia o jogo mais importante da rodada. Jogo principal pra quem, ô cara pálida?, seria o caso de perguntar. A importância depende do coração de cada torcedor.

O Internacional, por exemplo, estará em campo às cinco da tarde do domingo. Vai receber o Cruzeiro, no Beira-Rio. O time colorado tem três pontos a menos do que o Vitória, que está uma posição à frente, e neste momento é o primeiro time fora da zona de rebaixamento. Mas o Vitória só entrará em campo ás oito da noite. O que pode significar ter de lidar, além de tudo, com a pressão exercida por uma possível vitória do Inter. Ou com a "tranquilidade" de saber que o Inter não venceu.

E assim vamos. O Grêmio, outro exemplo, só quer saber da Copa do Brasil, certo? Certo. Mas vamos supor que o Botafogo perca e o Corinthians também. Então, uma vitória poderia colocar o time gaúcho entre os seis primeiros, e esse pode não ser o objetivo do time, mas saber que se, de repente, algo der muito errado na Copa do Brasil, ainda haverá a possibilidade de chegar à Libertadores pelo Brasileirão não deixa de ser confortante. E se os resultados de Corinthians e Botafogo por ventura acontecerem o Grêmio estará sabendo, pois só entrará em campo às sete e meia da noite do domingo.

Colocar todos os jogos no mesmo horário seria um problemão para a grade de programação da TV ? Sim, mas nem tanto. Conteúdo para ser exibido existe. Do que não se abre mão nesse caso é da possibilidade de tirar o máximo proveito do produto comprado. Ainda pra que isso seja preciso deixar o futebol brasileiro um pouquinho menos justo.               

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Hoje é dia de Cartão Verde !


E o nosso convidado  é o presidente do Santos FC, Modesto Roma Júnior. Pinta lá na área pra fazer uma tabelinha com o nosso time! Entramos em campo às 22 hs, ao vivo, na TV Cultura.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

São Paulo FC : A vez de Rogério Ceni?

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

De todas as impressões que trago comigo sobre a temporada do São Paulo a que alimento com mais convicção é a de que ela acabou até ofuscando um pouco o belo momento vivido pelo jovem Rodrigo Caio. Mas é só uma observação. Pois o assunto que se impõe no tricolor paulista é a possível chegada do ídolo, Rogério Ceni, para ocupar o lugar deixado por Ricardo Gomes, demitido hoje.

Ouvi gente por aí falar no Rueda, atual treinador do Atlético Nacional. Embora não conheça seus métodos detalhadamente, pela trajetória que vem construindo soa como um ótimo nome. Erro seria fechar as portas para um profissional de fora depois de o clube de ter vivido tudo o que viveu ao optar por Osório, e mais tarde por Bauza. Sigo considerando olhar para além das nossas fronteiras uma virtude. 

Com relação à chegada de Rogério Ceni, considero o momento inoportuno, não só pela rapidez com que se dará a volta, mas principalmente pelo fato de acreditar que, em qualquer profissão, pular etapas envolve um risco considerável. No entanto, Rogério conhece profundamente o universo do futebol, e mais ainda o clube com o qual esteve envolvido desde sempre. 

Diante da mínima possibilidade de ter sido lembrado porque - além de tudo o que sabe - ajudaria a acalmar a torcida, ou porque enxergam nele uma espécie de trunfo político, deveria cair fora. Até nisso o passar do tempo seria bem receitado. Escolhido em outro momento poderia se livrar de qualquer dúvida do tipo e, penso eu, estaria mais propenso a pensar em um São Paulo realmente modificado, que já não tenha nada a ver com o São Paulo que ele deixou ainda há pouco.              

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sobre mídia, representação política e... literatura !



Submissão, o último livro de Michel Houellebecq, já pintou aqui no blog como dica de leitura. É realmente provocadora a sensação que toma o leitor mais atento ao cenário político-cultural francês depois  de percorrer estas páginas. Houellebecq faz uma trama  ficcional, mas a situa tão perto temporalmente que acaba criando em nós uma tensão nascida do fato de nos fazer perceber que toda aquela realidade imaginada é factível. 

É  interessante também como o personagem principal - de início tão refratário aos acontecimentos - vai se deixando seduzir pela nova realidade que se apresenta. E como se não bastasse há o fantasma da direita extrema...tão real. Houellebecq esteve no Brasil dias atrás. Em entrevista para a repórter Úrsula Passos falou sobre a relação que mantém com a mídia e sobre um certo vácuo deixado pelos políticos. Palavras que dão a impressão de refletir uma realidade que parece nossa também. Leia abaixo um pequeno trecho da conversa. 


***

Por que a crítica estrangeira lhe tece mais elogios do que a francesa?
Eu reconheço que o ódio entre mim e a quase totalidade da mídia francesa é tão forte que se tornou inexplicável para mim. É um mistério. Bem, não que seja mesmo um mistério, mas quando discutimos há, por vezes, um tal nível de violência que nada se entende. Eu não sei como chegamos a isso, mas nos detestamos, eu e a mídia francesa. De verdade. Sinceramente, isso é muito forte. Talvez haja erros dos dois lados.
Mas do seu lado, por que esse ódio?
Eu já insultei muitos jornalistas e jornais –e fui muito insultado por eles também. Isso foi crescendo e já dura cerca de 20 anos.
E no entanto o senhor continua muito lido na França.
Essa é uma das vantagens de ser insultado pela imprensa, porque a população odeia a imprensa, então as pessoas estão do meu lado. Há uma relação muito ruim entre a mídia e a população.
E por que os franceses odeiam tanto a mídia?
Porque a mídia fala sempre a mesma coisa, é irritante, é tudo formatado, é pura propaganda centrista. Mas os franceses detestam também os políticos, detestam os juízes, detestam, na verdade, o poder. Fala-se muito da Frente Nacional, mas a progressão da Frente Nacional ainda é menor que a das abstenções nas eleições. A primeira escolha é a de se abster.
Os franceses participam cada vez menos da vida política...
Sim, eu não sei desde quando, mas nos últimos tempos se tornou uma coisa impressionante. Os franceses não se sentem representados, não sentem que algum partido os represente. O problema não é a corrupção –claro, quando há um escândalo isso não ajuda–, mas no geral os políticos franceses são menos corruptos do que em muitos outros países. A causa são mesmo os atores políticos e o que eles propõem. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Tite, o encantador de serpentes?


A imagem foi sugerida pelo zagueiro Lugano, do São Paulo, ao falar sobre Tite, o técnico da seleção. O depoimento foi gravado para o programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, que irá ao ar amanhã. Poderia reduzir o que foi dito pelo uruguaio como um erro de avaliação. Fica essa primeira impressão, seguida de outras menos nobres. Mas se levarmos em conta o futebol e o estilo de Lugano dá até pra entender a razão de tal predileção. Reconheço que a primeira passagem de Dunga pelo comando do time nacional merece respeito e que Tite precisará trabalhar muito bem pra conseguir uma igual em matéria de conquistas. Mas, resultados à parte, há muitas outras coisas das quais nosso futebol anda carente e que Tite parece infinitamente mais preparado para proporcionar.  

domingo, 20 de novembro de 2016

Mais uma do Brasil pós-Olimpíada

Vale destacar , além do teor do link abaixo, que uma outra manchete chamou a atenção para o fato de o Ministério do Esporte ignorar o código antidoping na hora de fazer nomeações.

http://m.folha.uol.com.br/esporte/2016/11/1833921-autoridade-brasileira-de-controle-de-dopagem-e-descredenciada-pela-wada.shtml?mobile

sábado, 19 de novembro de 2016

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Nosso Brasil pós-Olimpíada


Durante um bom tempo, na condição de repórter, trabalhei na cobertura do nosso Basquete. Na segunda metade da década de 90 fiz, com uma equipe muito bacana, o programa Basketmania, veiculado pelo canal SporTV. Guardo comigo lembranças de grandes jogos e, posso dizer que poucas vezes na vida vi algo tão vibrante como o ginásio de Franca lotado em uma final de Brasileiro. Como era bonito ver, também, a ligação que a cidade tinha com o Basquete. 

Tempos depois lembro de ter voltado lá pra fazer uma reportagem sobre essa história para o programa" Grandes Momentos do esporte", da TV Cultura. Ao colher o depoimento de Hélio Rubens (pai) sobre o professor Pedroca pude sentir o quanto havia de sentimento nisso tudo. Mas essa é só a minha história. A do basquete brasileiro é bem maior e mais relevante. Uma história abrilhantada por títulos mundiais, pelo talento e pelo suor de tantos grandes atletas.



Uma história que tem sido muito mal gerida, desrespeitada. Ou não é desrespeito deixar a coisa chegar onde chegou? Com o basquete brasileiro suspenso pela Federação Internacional, impedido de disputar torneios. Pouco mais de dez dias atrás a FOLHA publicou uma matéria sobre a dívida da Confederação Brasileira. Mas diria que mais bombástico do que o fato da dívida ter crescido 1350% nos últimos seis anos foi a postura adotada pelo presidente da entidade que disse "Estar trabalhando para resolver uns PROBLEMINHAS".

Uma postura arrogante que em muito se assemelha a tomada semanas antes pela Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, que depois de ter seu presidente, Coaracy Nunes, afastado por suspeita de irregularidades em convênios com o Ministério do Esporte, decidiu suspender o pagamento de salários de funcionários e os torneios. O motivo seriam dificuldades financeiras enfrentadas após a determinação da Justiça Federal. Retaliação? Jamais!

Ou seja, trata-se de um universo em que os homens não parecem ter vergonha de nada, Muito menos do fracasso como dirigente. Nos dois casos, mesmo o dinheiro tendo sido farto como nunca, os resultados foram péssimos. Nosso basquete fez a pior campanha da história nos jogos. E a natação não conquistou uma única medalha. E pensar que havia no ar a esperança de que sediar uma Olimpíada pudesse fazer o nosso país tratar o esporte de maneira mais digna. 



* A matéria da FOLHA citada acima pode ser lida aqui:
http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2016/11/1828853-em-crise-basquete-brasileiro-ve-divida-crescer-1350-em-seis-anos.shtml
                       

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O caldo corintiano


Faz algum tempo brinco com os amigos corintianos dizendo a eles que a roda gira. Diante da cara de espanto, faço logo alusão à uma roda gigante, dizendo que não dá pra querer ficar o tempo todo lá em cima. Uma hora é preciso baixar. Não sem antes lembrar que eles ficaram por cima um período considerável. Devo ter visto alguém fazer a brincadeira e achei que a imagem era boa. No fundo só um jeito mais elaborado de dizer que em matéria de futebol não dá pra ganhar sempre.

Mas o fato é que a situação complicou a tal ponto que nem sei se a brincadeira ainda cabe. Era um sarro justo para aquele hiato entre a saída de Tite e as primeiras oscilações quando o time, apesar de toda a turbulência, ainda mantinha boa posição na tabela. O que já não é o caso, tantos são os ingredientes que foram se misturando. Não se trata mais apenas de certa pobreza técnica, mas também daquela que se descobre ao olhar o cofre do time. E acho que o caldo pode entornar de vez graças as questões que envolvem a Arena Corinthians, vista em outros tempos como a conquista que colocaria o clube em um outro patamar de faturamento e administração. Só que aos poucos o torcedor vai descobrindo da maneira mais amarga possível que, principalmente nas questões referentes ao segundo quesito, não há milagres.

Mas se existe algo a ser comemorado nessa história é a média de público que, ao menos enquanto o futebol apresentado pelo time era promissor, fez o Corinthians faturar como gente grande. Mas aí talvez fosse o caso de enaltecer a torcida, né? Não exatamente aqueles que cuidam da gestão do clube. E que a torcida a essa altura não se mostre mais tão a fim assim de ver o time é compreensível. Como é compreensível que a preocupação com a queda vertiginosa da bilheteria figure na lista de prioridades do clube. Mas não custa lembrar que a projeção de se ter em Itaquera cerca quarenta mil pessoas por jogo, só faz sentido mesmo se for, como era, para temperar o papo com os envolvidos em fazer o estádio sair do papel. É um número gigante pro nosso futebol, apesar de tudo que ele evoluiu nesse sentido. 

Diante do quadro atual uma vaga na Libertadores do ano que vem está longe de ser remédio pra curar as dores corintianas, mas a ausência dela pode revelar uma palidez medonha. E se a essa altura da temporada a imagem da roda gigante não se mostra mais como o melhor paralelo para explicar a situação do Corinthians, continua servindo para explicar o que separa a realidade dos nossos clubes dos grandes clubes europeus. Não, não é apenas o futebol. É que os grandes de lá quando estão por baixo sabem que voltar a subir é apenas uma questão de tempo. Uma certeza que infelizmente nenhum dos nossos clubes pode, ou deve, se dar ao luxo de ter.    

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Guardiola, o sexo e o futebol!



- Guardiola quer jogadores mais magros, leves. Por conta disso, tive de alterar algumas coisas na minha alimentação. Ele (Guardiola) pediu aos jogadores para não fazer sexo depois da meia-noite nas folgas, porque tínhamos de descansar. Disse que fez isso com Messi, que se livrou das lesões musculares. E também pediu a mesma coisa para Lewandowski - afirmou o jogador ao jornal "L'Equipe". 

A declaração acima foi dada pelo meia francês, Nasri, que graças a relação conturbada com o treinador acabou emprestado ao Sevilla, da Espanha.  Ao menos é o que dizem por aí. Acabei de ler a matéria e foi inevitável lembrar que Messi, antes do jogo contra o Brasil, por causa de lesões, ficou fora das três partidas anteriores da seleção argentina. Será?

Não duvido da eficácia do método sugerido por Guardiola. Mas fiquei pensando aqui comigo: encontrar um time tão a fim assim de ser campeão não deve ser tarefa fácil.    
   

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Leonard Cohen


Cantor, compositor, poeta,romancista... inesquecível!
Esse "Live in London", que ele gravou aos 74 anos,
é uma boa maneira de sentir do que ele era capaz.

https://www.youtube.com/watch?v=8Jrjoqd2YDM

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Diga lá: Brasil x Argentina!


Hoje à noite tem um Brasil e Argentina à vera. É daqueles jogos cuja sonoridade dos nomes envolvidos, mesmo quando ditos apenas mentalmente, basta pra deixar transparecer seu tamanho. O encontro será no Mineirão onde pouco mais de dois anos atrás os alemães nos fizeram ver o quanto nosso futebol e nossos selecionáveis estavam vulneráveis. Imagino que alguém tenha resolvido dar um basta na situação ciente de que um dia a seleção precisaria voltar lá. Talvez até tenha sido ideia de Tite, apresentado dois dias antes da confirmação do jogo no estádio mineiro. 

Mas, seja qual for o enredo que venha a se desenhar por lá na noite de hoje, não terá o poder de livrar a seleção brasileira do que viveu ali. Sinto dizer mas aquilo é pra sempre, e q qualquer discurso no sentido contrário falso. Será também o encontro de dois técnicos em início de trabalho.Tite ao debutar no comando do time brasileiro contou com um Gabriel Jesus inspirado e de lá pra cá não perdeu o embalo. E que embalo, em quatro jogos fez de um Brasil sexto colocado o líder das Eliminatórias.

Não que Edgardo Bauza, o atual técnico argentino, contratado menos de dois meses depois, tenha começado mal quando recebeu o Uruguai, em Mendonza. Outro clássico daqueles ao qual basta sentir a sonoridade dos nomes. Messi estava de volta depois do penalti perdido na Copa América, do vice-campeonato diante do Chile e, num daqueles dias, se encarregou de fazer o gol que deu a vitória e a liderança das Eliminatórias ao time argentino. Mas no futebol as coisas mudam rápido, algo que não devemos deixar de ter em mente mesmo quando o Brasil dá pinta de ter encontrado um rumo. Prova disso é que de lá pra cá a Argentina não venceu mais.

Empatou com a Venezula fora de casa e também fora de casa repetiu o placar de dois a dois diante do Peru. Nesse jogo esteve duas vezes em vantagem, mas viu Cueva - esse mesmo, do São Paulo, que acaba de fazer um belo clássico contra o Corinthians - aos trinta e oito do segundo tempo, de penalti, marcar o segundo gol peruano. Guerrero tinha feito o primeiro. Para completar, na última rodada a Argentina perdeu em casa para o Paraguai. Por essas e outras desembarcaram aqui fora da zona de classificação para a proxima Copa do Mundo, amargando uma nada brilhante sexta posição e tendo de ouvir a torcida se perguntar se a classificação para a Copa virá, isso dois meses após ter batido o Uruguai e assumido a liderança. Algo muito parecido com o que vivíamos antes da chegada de Tite.

Mas Bauza não perdeu a pose, andou dizendo pra quem quisesse ouvir que trabalha pra ser campeão do mundo e que vem ao Brasil pra vencer. Fez questão de justificar a afirmação lembrando aos interessados que o trabalho dele não faria sentido se não acreditasse que pode dar conta disso. Coincidência, ou não, Messi não participou dos últimos três jogos da Argentina, mas estará de volta hoje. 

Ainda assim se o discurso de Bauza soa um tanto pretensioso, pretensiosa também será qualquer análise que venha a sugerir que Tite a essa altura já consertou a seleção brasileira. Mesmo porque os grandes problemas que o futebol brasileiro tem pra resolver não passam exatamente pelo futebol da seleção. Mas o que sem dúvida Tite fez foi resgatar o interesse do torcedor pelo time nacional. Chego a duvidar que algum apaixonado por futebol não mova mundos pra acompanhar esse Brasil e Argentina de hoje a noite. Jogo tão grande que se vencermos nos dará a impressão de que realmente viramos uma página

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Será que ainda dá?

No imaginário dos torcedores dos times que figuram neste momento com sessenta pontos ou mais na tabela de classificação do Brasileirão essa tem sido a grande questão. Menos para os Palmeirenses que, do alto dos seus sessenta e sete pontos, podem se dar ao luxo de formular a questão de maneira diferente. Enquanto os outros pensam se ainda dá o palmeirense sente o coração palpitar quando se pergunta, secretamente: será mesmo que vai dar? 

Claro que a situação do time alviverde é melhor, mas a agrura vivida é muito parecida. E isso muito me diz porque gosto de lembrar sempre que em matéria de futebol a diversão vai muito além dos números.Independentemente de um enxergar o Brasileirão de um ponto mais alto do que o outro há - pairando no ar - uma brutal incerteza que os iguala. Iguala e tempera essa reta final de campeonato. Ou vocês aí precisariam da matemática pra saber que se o Palmeiras deixar o título escapar o acontecido será visto com ares de tragédia e surpresa? 

Que cruzem os dedos os Atleticanos, os Flamenguistas, os Santistas, que esmerem-se ao praticar a vossa melhor mandinga porque, é lógico, ainda dá. Ensaiem sem cessar as velhas manias. Saquem a camisa amuleto, a cueca da sorte, deixem-se afundar naquele canto do sofá que garante a alegria. A rodada promete. O Santos irá ao Moisés Lucarelli encarar a Ponte. O Atlético Mineiro ao Couto Pereira duelar com o Coritiba que ainda tem um tanto perto do pescoço a afiada faca da degola. No Maracanã o Flamengo - que tanto fez os rubro-negros perguntarem se dá - ficará cara a cara com um Botafogo que a essa hora repousa muito além do lugar onde sua sofrida torcida esperava ter chegado. E não é tudo. Porque a pergunta, no fim, não vale só pra quem sonha com a glória. 

A incerteza não ronda só a cabeça de quem alcançou a trigésima quarta rodada em condição de ser campeão. No Morumbi São Paulo e Corinthians farão o clássico que em matéria de rivalidade mais cresceu nos últimos anos. Os dois já não podem nem imaginar um final de temporada com alguma taça na mão. Mas tão trágico quanto um Palmeiras sem título será um Corinthians sem vaga na Libertadores do ano que vem. Coisa com a qual gostaria de sonhar também o tricolor paulista que deverá encarar o embate com o rival como a derradeira chance de emprestar alguma graça a tão desastrada temporada. 

Será que ainda dá? Pra quem? 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Quando a borracha termina primeiro que o lápis

Desde muito cedo você deve ouvir que errar é humano. E se, por acaso, não ouviu é porque alguém provavelmente errou ao lhe omitir isso ao longo do caminho. Fato é que por conta dessa constatação vira e mexe perdoamos as mais variadas pisadas de bola. Agora, o que talvez ninguém tenha lhe dito, e que me disseram uma vez, é que errar é humano desde que a borracha não termine primeiro que o lápis. Olha, depois de ouvir essa versão do dito nunca mais a esqueci e costumo sacá-la sempre que alguém tenta usar malandramente o argumento que inicia este artigo. Até porque como você também deve saber paciência tem limite. E em matéria de futebol a nossa está chegando ao fim. Tá ou não tá? 

O que resta da de vocês eu não sei, o que eu sei é que a última rodada do Brasileirão pelos acontecimentos quase esgotou de vez a minha. Em especial os erros registrados nos jogos de Palmeiras e Flamengo que foram de doer, pois são daqueles com potencial pra virar do avesso a história de qualquer partida. Fica difícil saber o que pensar. Até porque no caso do Maracanã o apito foi entregue àquele que é tido como o melhor árbitro do país. E quando digo que fico sem saber o que pensar não se trata de figura de linguagem, não. 

Vejam vocês a que ponto chegamos. Outro dia dei de cara com uma dessas enquetes feitas em programas esportivos. Ela questionava os telespectadores e internautas a respeito da confiança que tinham nos árbitros. Tudo bem, não era lá um universo muito representativo. Mas a questão era direta e clara: Você confia na arbitragem?  E não é que oitenta e oito por cento dos votantes disseram que não? E o pior, a essa altura eu já tinha sérias dúvidas sobre se deveria, ou não, me juntar a eles. Fiquei literalmente fora do ar por uns instantes, porque por mais que o tio Nelson Rodrigues tenha nos avisado há tempos de que a mais sórdida pelada é de uma complexidade Shakespeariana isso é pra lá de surreal. 

Será mesmo que enlouquecemos de vez e sem perceber passamos a ver o futebol como quem vê um teatro? É complexidade demais pra minha cabeça. O sujeito gastar seus dias, seus domingos, a torcer por um time sem acreditar que o homem que está ali para arbitrar tudo não é idôneo. Vai entender! Enfim, a última rodada do Brasileirão pode até não ter esgotado a minha paciência, mas que a borracha dos homens do apito acabou de vez, isso acabou.   

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Polêmicas

O que espera e o que diverte o torcedor nos dias atuais? Meio século atrás, suponho, essas seriam questões fáceis. Mas passado meio século e diante do que se apresenta rodada após rodada tais questionamentos tomam ares desafiadores. Ou não? Já não dá pra esperar muita coisa do futebol e, pela exaltação dos ânimos, começo a desconfiar que o torcedor anda se divertindo mais com os debates sobre os jogos do que com os próprios. O que tanto pode ser encarado como um sintoma de algum mal terminal quanto como prenúncio de uma nova maneira de se divertir. 

E não deixa de ser compreensível. Afinal, ali estão os melhores momentos, editados com precisão cirúrgica. Ali estão os filés que sobraram de todo o osso que o torcedor precisou roer durante mais de noventa minutos. E essa é ou não é uma oferta irresistível quando o nosso tempo se faz escasso? O jogo como um todo, como um espetáculo com direito a começo, meio e fim, vai perdendo terreno. 

Na falta de futebol florescem as polêmicas. E acho que elas são do jogo. O que não é do jogo é acreditar que alimentá-las é uma exigência dele. No fundo, o que elas são é uma maneira fácil de emprestar vigor a um futebol de pouco apelo técnico. Façamos um exercício já que entramos na reta final do Brasileirão. Tiremos das nossas conversas a imprecisão dos árbitros, os descontentamentos e os pitis dos cartolas, a surpresa com aquele time de tradição que vai mal das pernas, e o que fica? A imprecisão, a desconfiança. E a imprecisão é dos homens. A história está cheia de registros dela, dentro e fora de campo. 

Do jeito que a coisa anda chega a ser inocência acreditar que um recurso eletrônico vai inocular no futebol um antídoto capaz de tirar dele tudo o que tem de contraditório, de imponderável. O futebol de ontem -  como o de hoje - jamais foi feito só concordâncias, mas daí a reduzi-lo a polêmicas são outros quinhentos. O que tá  mais do que na hora é de fazer valer a regra. Os profissionais de TV e afins à beira do campo se perguntados se foi ou não foi impedimento devem responder que isso não é problema deles. E quanto ao juiz, talvez fosse o caso de fazê-los voltar a entrar em campo contando apenas com o próprio juízo. Mas pelo visto nem no próprio juízo eles acreditam mais. Então, fica o torcedor assim, desse modo pobre, se contentando em defender seu time das polêmicas já que o futebol dele muitas vezes se revela indefensável. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Uma pitada de poesia


Soneto XVII - Pablo Neruda

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma. 

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta a luz daquelas flores, 
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, 
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira, 

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Dylan, o mais novo Nobel de literatura

Pete Seeger and Bob Dylan, Newport Folk Festival, 1964


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Você já foi à Vila?



Não sei se o caro leitor sabe, ou se recorda, que Dorival Caymmi em uma das tantas músicas que fez para cantar seu amor pela Bahia tomou a liberdade de perguntar e, em seguida afirmar: Você já foi à Bahia? Não! Então vá. Pois diante do momento que se aproxima acho que um questionamento semelhante se faz apropriado. Afinal: Você já foi à Vila Belmiro? Não! então vá! É difícil acreditar que alguém que more por perto - ou vez ou outra passe por ali - tenha resistido à tentação, e que se não tiver ido por amor, não tenha ido por pura curiosidade. 

Vá á Vila! Mesmo que não seja santista, mesmo que tenha um certo receio do que costuma rolar no entorno dos nossos estádios, vá mesmo que não goste de futebol. Vá porque a Vila Belmiro - que será merecidamente cortejada nos próximos dias quando cruzará as fronteiras de seu primeiro centenário - é desses lugares que tomam outra dimensão em virtude dos fatos que abrigaram, dos homens que o frequentaram. E se quiserem uma dica, abram mão de um jogo à noite, ainda que seja importante. Escolha um jogo pela manhã ou à tarde, de preferência em um dia ensolarado, quando o azul do céu formará um lindo contraste com o branco e o preto de suas linhas. 

A Vila Belmiro é um lugar desses que merece ser visto à luz natural. Sei que andaram falando aí em construir uma nova Arena coisa e tal. Bom, sou um sujeito atropelado pelo tempo, que ainda compra filmes pra colocar em máquinas fotográficas, que ainda faz questão de ouvir discos de vinil. Em outras palavras, posso ser suspeito para analisar as exigências que o passar do tempo costuma nos impor. Mas nada me tira a certeza de que seria impossível construir um lugar que viesse a ter a aura que a Vila tem. 

Pensando bem, se for possível, vá duas vezes. Uma pra conhecer o seu silêncio, pra olhar distraído e sem pressa suas curvas e notar, quem sabe, que sua elegância também está na sua inadequação. Em ser um signo que atravessou o último século. Mas vá também pra senti-la pulsar, pra ver como o futebol a torna viva. Pra ver como lhe adorna de modo sublime a torrente de sentimentos que brota nas arquibancadas. Talvez a maior reverência que se possa prestar à Vila Belmiro seja reconhecer sua importância. Reconhecer que sem o futebol e a torcida pra lhe estufar as veias ela morreria aos poucos. 

Um estádio não é igreja, não é museu. Mas a Vila!? Ah, a Vila consegue ser ao mesmo tempo um pouco de cada uma dessas coisas. A Bahia, como também disse Caymmi, tem lembranças. Como a Vila Belmiro as têm. Lembranças minhas, de muita gente. Por isso se você ainda foi à Vila, vá! Nem que seja pra um dia ter do que recordar, pra poder dizer por aí que certa vez esteve lá. 

         

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Quanto vale uma Olimpíada ?


Se há uma coisa que faria muito bem para ao esporte mundial seria poder contar com o bom senso dos políticos que, no final das contas, são as engrenagens que fazem a roda megalomaníaca dos grandes eventos continuar girando. O fato de cidades como Estocolmo, na Suécia, por exemplo, terem nos últimos tempos desistido de entrar nessa, entre outras coisas, em virtude do alto custo, alimentou minha esperança de que isso a médio prazo pudesse ser possível. Mas quando na cerimônia de encerramento dos Jogos do Rio vi o primeiro- ministro do Japão surgir lá no meio do campo travestido de Mario Bros, confesso, perdi toda a esperança.

Afinal, o Japão segue no meu imaginário como um país de homens rígidos, um país onde os homens quando têm sua seriedade colocada em xeque muitas vezes preferem a morte do que a vida sem ela. O que, aliás, sempre me deu uma boa ideia sobre a cara de pau de boa parte dos nossos homens. Pra piorar no último final de semana dei de cara com a notícia de que o governo japonês acaba de aprovar a construção do Estádio Olímpico para os jogos de Tóquio em 2020. Um estádio que custará quase cinco bilhões de reais. Obviamente a coisa por lá não se deu como por aqui. O contrato inicial sugeria um gasto de quase nove bilhões.

Mas não foi só o custo que desagradou a população, o design também. Uma boa lição pra nós. Pois aqui um governo que leve em conta as impressões do povo sobre o projeto de um estádio é algo que beira a ficção. E o governo de Tóquio também está revendo o custo total do evento. A previsão é de que os gastos cheguem a noventa e sete bilhões de reais. Ou seja, ainda que seja cortado, permitirá ao COI manter seu padrão de ganho a cada ciclo olímpico. O poder de sedução de uma Olimpíada continua gigante, talvez maior até do que as próprias cifras envolvidas nela. Atitude séria seria admitir que o mundo, ainda que o esporte deva ser encarado como algo nobre, já não comporta gastos desse porte.

Além do mais, a nobreza do esporte nada tem a ver com a pompa que as cifras costumam emprestar, ao contrário. A grandeza do esporte está em ser simples. Despi-lo de todas as posses só tornaria evidente a sua essência. Mas cada vez mais custo a acreditar que um dia os homens irão se despir de suas vaidades e de suas ambições e colocar esse patrimônio de todos nós em um outro rumo. Algo que fica ainda mais difícil de acreditar quando se vive em um país em que a educação física e as artes são encaradas como algo do qual poderíamos abrir mão. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A minha Briosa

Foto: Fernanda Luz

O sangue português me corre nas veias. A paixão pela Briosa me vai na alma. Por isso, no último sábado enquanto dava conta de um plantão trazia comigo, em silêncio, sem contar pra ninguém na redação que a cabeça até estava no texto que batucava sobre a vitória do Barcelona... mas que o coração queria mesmo é saber da Briosa. E quando, enfim, a pesquisa no google trouxe a notícia do acesso com direito a recorde de público no campeonato fui tomado pela nostalgia. A matéria trazia imagens da torcida em festa. Deus do céu, Ulrico Mursa pulsava. Nesse país infame em que a modernidade significa destruir tudo o que é velho é quase um milagre que o velho estádio com sua arquitetura peculiar tenha ficado de pé. 

Não vou ficar aqui lembrando o que vivi naquelas arquibancadas. Mas não resisto a confessar coisas talvez ainda mais íntimas. Como a sensação de orgulho que me invade toda vez que - voltando pra casa - passo em frente a sede da Federação Paulista e vejo estampado lá no portão de entrada o distintivo da Portuguesa Santista, avisando aos mais atentos que ali estão apenas os clubes fundadores da entidade. Entidade que, diga-se de passagem, deveria faz tempo ter jogado uma corda pra salvar a outra Portuguesa do buraco no qual parece se afundar cada vez mais. Ou não é tarefa da Federação zelar pelos clubes ? Do jeito que vamos não tardará o tempo em que o futebol se resumirá aos grandes e, talvez, a um ou outro clube com nome de empresa. 

Mas saibam vocês que minha alegria com a Briosa não é uma alegria nascida da conquista, da possibilidade de reviver uma emoção que remete ao meu tempo de menino ou ao meu tempo de repórter em início de carreira. Por uma questão de história pessoal será ali em Ulrico Mursa que o futebol sempre me soará mais íntimo. Esteja eu na condição de torcedor ou de jornalista. E quis o destino que exercendo o ofício eu fosse presenteado com a possibilidade de testemunhar, de reportar in loco, dois grandes feitos desse time querido. O acesso da terceira pra segunda divisão, e um outro, ainda mais nobre, da segunda pra primeirona. É ou não é um presente divino pra quem tem a cabeça cheia de lembranças colhidas ali entre um tremoço e outro, entre um sorvete e outro?

 E mais, misturado a tudo isso tenho ainda a imagem do meu velho pai, do meu tio Darci, pousando os olhos sobre o gramado, sorrindo ao dar de cara com os lances que o bravo time de Ulrico Mursa ia desenhando em campo. A Briosa, pra mim, é a prova de que a paixão por um time independe de títulos. Olho uma vez mais as imagens da festa e já não tenho tanta certeza de que não é possível voltar no tempo.         
 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Inocentes culpados

Sejamos francos. E se a memória não me trai até já disse isso aqui. Os desmontes aos quais o time corintiano tem sido exposto nos últimos tempos deveriam, antes de qualquer outra coisa, inocentar os seus treinadores a respeito de fracassos posteriores. O detalhe da história é que o consagrado Tite quando se viu em condição parecida, depois de ter perdido jogadores como Guerrero, conseguiu levar o Corinthians a mais um título brasileiro. Com Cristovão Borges aconteceu o mais óbvio: naufragou. E esse papo de que o cara não tem perfil, de que o estilo não casa com o clube, isso não cola pra mim. E vou dizer a razão. 

A depender do perfil ficamos todos condenados a nos divertir apenas com os que chegaram lá, com os consagrados, com os tidos como durões. Não contesto a eficácia do perfil. O que quero contestar é essa maneira de pensar. Cristovão Borges errou. Mas se tivesse só acertado, notem, teria sido capaz de algo impensável. Tô pra conhecer um corintiano que tivesse, ao menos, considerado essa possibilidade. Que tivesse lhe concedido um voto de confiança. Nessa vibração mesmo Guardiola teria dificuldade pra segurar o rojão. 

A torcida é cruel e a imprensa também. Não pensem que a crônica esportiva em tempo algum conseguiu pensar sem levar em consideração o  veneno que costuma escorrer das arquibancadas. Mas temos de saber ouvir. Ter ouvido seletivo, muito seletivo, sabe? Por falar em Guardiola, lembro bem de uma declaração dada por ele ao se despedir do Bayer de Munique. Estarrecedora porque torna evidente toda a perversão e complexidade envolvida nesse tema. Disse Guardiola naquela despedida que existiam veículos na Alemanha que até aquele momento não haviam lhe feito uma única pergunta sobre futebol, sobre o jogo. 

Diria que foi pelo mais banal dos pecados que costumam levar treinadores ao purgatório que vimos Cristovão arder. Gente que conhece futebol como ele, quero crer, tem conhecimento suficiente para sacar que o momento não era propício, que a sombra de Tite era gigante. E que mesmo Tite não tinha sido tratado com o devido respeito. Mas Cristovão não foi o primeiro e não será o último a sucumbir diante do chamado de um grande clube. Mesmo que nossa história recente esteja recheada de exemplos que deveriam servir de alerta. Um emblemático? Silas. Consagrado no Grêmio, seduzido pelo Flamengo, e que até hoje não voltou a ter do futebol uma chance a altura do que já fez. E juro, ao lembrar dele não procurava uma analogia com Roger Machado. Foi só coincidência.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Mais do que campeões

Foto: Francisco Medeiros/Brasil 2016

O fato do desporto paraolímpico brasileiro ser dono de resultados mais expressivos do que os do desporto olímpico sempre me intrigou. Não faz muito tempo participei de um evento no interior de São Paulo e questionei o nadador André Brasil. Claro, há explicações. Uma delas, o enorme número de pessoas com deficiência em nosso país. Segundo o Censo de 2010 23,9% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. Um universo imenso, quarenta e cinco milhões de pessoas. Mais do que a população de países como a Argentina e o Canadá. 

Há quem diga também que a falta de oportunidade no mercado de trabalho, de certa forma, faz do esporte uma saída. Dados do Ministério do Trabalho de três anos atrás apontavam que menos de trezentos e cinquenta e oito mil deficientes tinham algum vínculo empregatício no nosso país. Ou seja, míseros 0,73% do total de pessoas nessa condição. Há quem credite ainda tal sucesso à qualidade do trabalho feito pelo Comitê Paraolímpico Brasileiro. Tudo deve ser levado em conta. Mas gosto de manter comigo - intacta - uma visão mais poética sobre o tema. Gosto de pensar que o que tempera tudo isso é a fibra desse nosso povo.

Quando vejo um brasileiro campeão paraolímpico não consigo deixar de lembrar como nosso país trata os deficientes. Não sai de mim essa consciência de que o sujeito que chegou lá precisou vencer dificuldades que vão muito além dos adversários. Razão que me faz ver em cada um deles mais do que campeões. E quando falo da fibra do povo é porque desde sempre os que escolheram esse caminho tiveram exemplos, tiveram a quem seguir. E isso é essencial. Lembrem-se que nos idos dos anos 80 Luiz Cláudio entrava escondido no Célio de Barros pra poder usar a pista de atletismo que lhe era negada. Olhe o tamanho que tomaram figuras como Daniel Dias, Clodoaldo Silva, Alan Fonteles, Antônio Tenório. Acredito que o esporte paraolímpico consegue ser o mais exemplar de todos. No sentido estrito da palavra. Pode servir como inspiração, mas antes de tudo serve de exemplo.

Por essas e outras outro dia me emocionei ao ouvir Clodoaldo Silva. Primeiro porque ao falar demonstrou venerar o momento, não a conquista. Depois, porque tinha acabado de conquistar uma prata, poderia ceder ao lamento, teria o direito tão acostumado ao ouro que estava. Mas não. Disse, quase em tom de desculpa, que não entendia como um sujeito falador como ele tinha ficado sem palavras naquela hora. E confessou ao repórter que o entrevistava que nem nos melhores sonhos imaginava que o esporte paraolímpico pudesse estar no patamar que está. Uma alegria repentina me tomou. Pois estou longe de ser um expert no assunto, mas o Clodoaldo sabe tudo. Então, tomara, Clodoaldo, tomara. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A mãe de Jesus


O futebol seria bem menos grandioso não fossem as figuras que orbitam em volta dele. E não falo só daquelas que lhe entregaram a vida. Nesse sentido guardo bem comigo a figura de Hilário, torcedor símbolo do Jabaquara, a quem um dia acompanhei em uma ida ao estádio para extrair dessa breve convivência uma reportagem. A imagem do velho barbeiro refletida nas águas do canal tremulando uma enorme bandeira amarela e vermelha nunca mais me saiu da cabeça. Foi por causa de figuras assim - e de outros tantos anônimos - que o futebol transbordou das quatro linhas e invadiu o nosso cotidiano com tamanha graça. 

Vejam vocês até a Dona Lúcia, aquela que mandou uma carta pro Felipão depois do fatídico sete a um, pedindo anonimato, e que Parreira numa das cenas mais patéticas da história recente do futebol decidiu desavisadamente tirar dele, até a Dona Lúcia contribuiu de alguma forma pra enriquecer o universo do futebol. Pra dar a ele esse verniz  humano que lhe faz tão bem. Mas eu queria falar mesmo era da Dona Vera Lúcia, a mãe do atual menino prodígio do futebol brasileiro, o Gabriel Jesus. Vera Lúcia, pelo que li, foi empregada doméstica e se encarregou de fazer o papel de mãe e o de pai. Criou sozinha os filhos e os netos. E esta semana voltou às manchetes lembrada pelo filho famoso. 

Gabriel contou que Dona Vera Lúcia não entrou nessa de empolgação. Mesmo vendo o filho estrear na seleção principal e virar o destaque da partida mandou ele prestar atenção pra não ficar impedido. Gabriel, abençoado. Não é de hoje que acompanho futebol e te digo, sem pestanejar, que já vi muito marmanjo consagrado por aí que se tivesse recebido um conselho desse em casa - e tivesse obedecido - teria ido além. Dona Vera Lúcia também pôs a maior fé de que a empolgação não lhe subirá à cabeça do menino. Sei que não é fácil segurar a onda. Você mesmo fez questão de lembrar que três anos atrás estava jogando na várzea. Depois de muita grana não é fácil seguir sendo o mesmo, como o próprio Neymar admitiu semanas atrás. Mas a mudança não precisa ser pra pior, entende? 

O futebol com seu paternalismo exagerado já fez muitas vítimas. E continua fazendo. Gabriel, te digo, és um iluminado por ter a mãe que tem. Dê ouvidos a ela. Se eu tivesse sua idade também acharia esse meu papo careta. Mas se você tivesse a minha iria achar um baita toque. O único detalhe é que quando você tiver a minha idade será tarde demais pra você perceber. Lembranças minhas à Dona Vera Lúcia.  


Foto: Rodrigo Faber