quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um outro Santos


Com um pouco de boa vontade é possível enxergar o atual Corinthians como o sucessor daquele Santos que foi capaz de voltar a vencer a Libertadores depois de quase cinquenta anos. Um time que estava na crista da onda, onde agora se vê a equipe dirigida por Tite. Os mais azedos dirão que o Corinthians de hoje está longe de ter a pulsação daquele que bateu o Boca e o Chelsea. É verdade. Mas isso não lhe tira ainda o título de time do momento. 
 
Aquele Santos que reconquistou a América e começou a desenhar essa hegemonia no futebol paulista além de verdadeiramente competitivo, qualidade muito citada ultimamente por Muricy, era um time afinado com a história do clube. Ou é ilusão deste que vos escreve o compromisso do time da Vila com o futebol bem jogado?
 
Até bem pouco tempo atrás quando se falava do Barcelona alguém sempre fazia questão de lembrar que o clube catalão há muito tempo se mostra fiel a uma maneira encarar o jogo. Resgato esses detalhes porque o Santos que tenho visto em campo me dá a impressão de fazer pouco caso disso tudo. Acho que é algo a se pensar. O Corinthians de Tite nunca foi chamado de brilhante. Ao contrário, enfiou goela abaixo de muita gente adjetivos até então pouco enaltecidos. Mas alguém aí duvida da eficiência do seu jogo? Jogadores, comissão técnica, ali tudo parece, ou não parece, reforçar um estilo?
 
Uma filosofia de trabalho é também uma estratégia. É perfeitamente compreensível que a fase mude, que o treinador encontre desafios pela frente, mas é difícil aceitar que em tão pouco tempo nenhum vestígio dessa antiga vocação santista seja visto. Outro dia ouvi Muricy e Neymar desdenharem da beleza. Entendo a intenção deles quando dizem que não estão nem aí, que não querem dar show.
 
No caso de Neymar chega a soar como uma heresia, pois foi justamente a beleza de seu futebol que o transformou nesse cara cortejado. Pra mim a falta de beleza é um sintoma. Onde existe beleza o futebol bem jogado é mais provável. Onde existe beleza há encanto. Sem a beleza tudo se iguala, no pior sentido possível.
 
Nem sei se beleza é o nome. Talvez fosse só o caso de se jogar futebol com alguma graça. Ou de dar ao jogo alguma alma. Afinal, Drummond não disse um dia que é na alma que se joga futebol? E mais, se ser competitivo é o grande objetivo o Corinthians com seu futebol maduro parece muito mais do que o Santos, ainda que o futebol esteja aí sempre pronto pra nos desmentir. Na minha modesta opinião o Santos tem uma chance no domingo: ser um pouco aquele outro Santos.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Veríssimo de hoje


Impossível ler o artigo do Veríssimo no Estadão de hoje (02/05) e não lembrar
do nosso Doutor Sócrates.Vá até o fim e verá que o nobre escritor colorado
descobriu mais um motivo para explicar porque é que o Magrão não sai do
nosso imaginário.


O melhor

02 de maio de 2013 | 2h 06

Luis Fernando Veríssimo - O Estado de S.Paulo


Era uma época cheia de perigos. Sarampo, caxumba, catapora, bicho do pé. Engolir chiclete era perigoso porque colava nas tripas. Fazer careta era perigoso porque se batesse um vento você ficaria com o rosto deformado pelo resto da vida. Pé descalço em ladrilho: pneumonia. Melancia com leite: morte certa. Banho depois de comer: congestão.

Um dia fizeram uma cabana num terreno baldio. Ainda havia terrenos baldios. A cabana era o mundo secreto deles, da turma. Ganhou um nome: Clube da Sacanagem. Ninguém precisava saber o que acontecia lá dentro. Os cigarros roubados de casa. As revistinhas. Mas a primeira coisa que o menino fez dentro da cabana foi comer melancia com leite e não morrer.

Com o tempo, os perigos mudavam. Desatenção na escola, falta de estudo, notas baixas: fracasso, nenhum futuro, ruína. Sexo sem camisinha: doença, gravidez indesejada, ruína. Amizades perigosas: drogas, dependência, nenhum futuro, ruína, morte.

- E banho depois da comida?

A ironia não era entendida.

- Pode.

O grande amor deixava olhar, mas estabelecera um ponto nas suas coxas do qual era proibido passar. Como o Paralelo 38, que dividia as duas Coreias. E ela era rigorosa. No caso de transgressão, soavam os alarmes e havia o perigo até de intervenção americana.

Mas bom, bom mesmo, era o orgulho de um pião bem lançado, o prazer de abrir um envelope e dar com a figurinha rara que faltava no álbum, o volume voluptuoso de uma bola de gude daquelas boas entre os dedos, o cheiro de terra úmida, o cheiro de caderno novo, o cheiro inesquecível de Vick Vaporub. Mas melhor do que tudo, melhor do que acordar com febre e não precisar ir à aula, melhor até do que fazer xixi em piscina, era passe de calcanhar que dava certo.
É ou não é?



 

O Neymar, o tetra e as caxirolas



Abro os jornais e vejo que a maré está mudando. Foi-se o tempo em que o coro pela permanência de Neymar era vigoroso. Os defensores vão claramente perdendo os argumentos. Sou levado a concluir, cruelmente, que todo esse fica-não-fica ao menos serviu para nos mostrar como o futebol brasileiro estava - e está - despreparado para lidar com esse tipo de situação. Mas Neymar só deve se preocupar pra valer se no íntimo tiver alguma dúvida de que será capaz de dar conta de tudo que se espera dele.

Ostentando uma invencibilidade de treze jogos a única coisa que se pode cobrar do time santista é aquele futebol encantador levado a campo em torneios recentes. Logo, na condição de grande espelho da equipe comandada por Muricy normal que Neymar também não esteja refletindo o brilho de outros tempos. Autógrafos comercializados à parte, em campo quem tem feito mais pelo Santos do que ele?

Aos desatentos não custa lembrar que nos acréscimos do clássico contra o Palmeiras foi visto indo buscar a bola junto à linha lateral para depois sair driblando, passar por alguns adversários, até mandar a bola precisamente na direção do gol.

A oportunidade que se apresenta ao elenco santista é rara, muito rara. O Campeonato Paulista pode não ser a menina dos olhos dos boleiros profissionais mas esse, em especial para os santistas, é a garantia de entrar de vez não só para a a história do clube. É preciso pensar um pouco para tomar noção do que significará conquistar o primeiro tetracampeonato da história do futebol paulista na era profissional. Pelé e seus nobres companheiros certamente gostariam de trazer mais essa no currículo.

Dizer que o Santos está perto da façanha seria quase leviano. O Mogi Mirim - e seus quarenta e dois gols -impõe respeito. Isso sem falar que numa suposta final o Santos teria pela frente um dos seus maiores rivais, se não o maior. E pelo menos até aqui a pegada do time santista dá a impressão de ser menor do que o momento exige.


Agora, permitam-me mudar de assunto, porque não dá pra deixar de falar dessa tal caxirola, o instrumento criado por Carlinhos Brown para fazer barulho na Copa do Mundo. As vuvuzelas do Mundial da África do Sul eram uma tradição por lá. Mas e a caxirola o que é? Um instrumento nascido de oportunidades? Protestar na arquibancada a torcida não pode, mas fazer o papel de animador de auditório pode? É isso? Ora, se for pra tocar alguma coisa por lá que se resgate as velhas charangas. Elas, ao menos, têm a ver com a história dos nossos estádios e do nosso futebol.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Essa nossa seleção



Yes, nós temos estádio. Mas e futebol?

O primeiro jogo da seleção num estádio da futura Copa teve olé...

para enaltecer o jogo do adversário. Aos donos da casa... vaias.

Se hoje sonhamos com um grandioso triunfo parece ser só porque

quando se trata de futebol ele é sempre possível, até para os mais fracos.

O que isso tudo está querendo nos dizer?




quinta-feira, 18 de abril de 2013

A questão já não é ganhar

 
O ranking da FIFA nos reservou mais um golpe no orgulho ludopédico. Foi preciso correr os olhos sobre a lista por algum tempo até encontrar o nome do Brasil. Quem fez o exercício exatamente desta forma até dar de cara com o nosso país passou antes por países como o Equador, Costa do Marfim, Grécia e Suiça. Por mais que o ranking seja contestável não dá pra negar que tenha a virtude de nos enfiar goela abaixo a realidade atual do escrete nacional.
 
Mas como se trata de futebol existe no fundo, no fundo, uma sensação de que, de repente, as coisas se encaixam e pimba! Ganhamos mais uma Copa. Paul Breitner, muito comentado, esteve por aqui semana passada e foi duro na análise. E - sem qualquer preconceito - quando um alemão diz que estamos precisando mudar de mentalidade, não de técnico, é porque, definitivamente, as coisas mudaram. Portanto, caros leitores, tenho a impressão que está estabelecido aí um conflito de interesses.
 
Lógico que a Felipão e seus comandados ganhar a Copa representaria o paraíso. Vencer bastaria. Mas o problema é que tenho a sensação de que para boa parte dos torcedores brasileiros já não se trata de ganhar ou não ganhar. Há no nosso imaginário muito mais do que a vontade de um título. Há o desejo de resgatar o papel que um dia exercemos tão bem e que vai se tornando inviável.
 
Já não parece possível que um dia o Brasil entre em campo e o mundo o veja como uma seleção que todos gostariam de ter pra si. Já não parece possível que a nossa seleção volte a representar o que a arte de jogar bola tem de mais refinado. Cadê a ginga? O time que impõe respeito? Cadê o reserva que vira titular e cai nas graças do planeta? O tempo em que o mundo aguardava ansioso o momento do Brasil entrar em campo passou. Mas parece que nos recusamos a aceitar.
 
Hoje se ainda causamos algum frisson é porque muitos se acham capazes de tirar uma casquinha desse nosso passado glorioso. Outrora inventávamos armas. Perdemos o que tínhamos de mais elogiável, perdemos a petulância da ousadia. Resignados, fomos copiar esquemas e prioridades. Antigamente pouco importava se tínhamos, ou não tínhamos, combinado tudo com os adversários, éramos, afinal, surpreendentes.
 
Ou vão querer me convencer que em 58, 62 ou em 70, vimos exatamente o que era esperado? Nada disso, transcendemos um pouco em tudo aquilo. Mas sejamos humildes para entender que fomos mal administrados, que acreditamos em fórmulas que não nos serviam, que perdemos a coragem e que ao se olhar no espelho hoje o tal décimo nono lugar é a nossa mais fiel imagem.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Imaginação tática



Desde muito cedo, profissionalmente falando, ouvi que ao treinador eram poucos os milagres possíveis. Ouvi, de muitos, que uma das maiores qualidades que se deve ou se pode esperar de alguém que comanda um time é que tenha noção exata do elenco que tem para trabalhar. Tentar fazer algo que está além da capacidade do grupo seria quase como abrir as portas para o insucesso.
 
E se levarmos em conta que uma parcela muito pequena dos nossos times pode se gabar de ter um elenco dos sonhos e que mesmo alguns dos nossos maiores clubes estão longe de possuir um grupo de atletas em sua maioria acima da média, chega-se à conclusão de que a missão dos treinadores praticamente já nasce minada.E deve se somar a isso o fato de que boa parte dos jogadores capazes de exercer papéis desafiadores, por conforto ou receio, talvez se mostre resistente a inovações ou adaptações na maneira de atuar.
 
Isso tudo tem ficado na minha cabeça desde que tempos atrás lendo uma coluna do mestre Tostão encontrei por lá a citação de que Felipão é um treinador carente de imaginação tática. Gostei tanto do termo que até agora ele não me abandonou. E mais, provocou tanto o meu pensamento a ponto de me convencer de que só mesmo um artigo sobre o tema fosse capaz de, sei lá, exorcizá-lo.
 
As transformações táticas no futebol têm lá seu tempo de maturação. E tanto no passado quanto no presente não se revelaram e se afirmaram de maneira dinâmica. Exigência do jogo ou cautela de quem tem a missão de pensá-lo? O interessante de tentar enxergar o futebol pela perspectiva tática é que fica muito nítido o quanto fazer gols deixou de ser prioridade. E qual o preço de se render ao dogma do futebol moderno de que conter a criação adversária é mais importante do que criar novos meios para derrotá-lo?
 
O preço talvez seja esse, o de condenar o jogo a um ambiente nada propício ao improviso, à criação. Em ambientes assim a imaginação sempre correrá perigo. Felipão não é o único treinador pouco imaginativo do país, claro que não é, mas infelizmente é dele a missão de comandar o time que, por respeito a própria história, deveria defender esse tipo de futebol mais criativo. Por essas e outras, daqui pra frente, os raros treinadores imaginativos taticamente têm tudo pra ganhar a aura daqueles artistas que ao longo da história se fizeram maiores por exercer seu ofício com boa dose de coragem, sem ligar muito para o que vinha sendo feito pelos mestres até então.
 
 
* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", Santos

quinta-feira, 28 de março de 2013

Perdão?Imperdoável!


A história que você lerá aqui não tem nada de confidencial. Frequentou páginas de jornais. Mas não causou alvoroço algum. No entanto, deveria. Em março de 2011 a Receita Federal abriu um processo para apurar uma suposta sonegação de impostos. Um não recolhimento indevido entre 2006 e 2010. Uma lei que revogou expressamente a isenção fiscal das entidades de desporto profissional teria sido desobedecida e beneficiado Corinthians e Coritiba. Os clubes alegam ser associações sem fins lucrativos e, por isso, se acham no direito de não pagar os impostos.

Só que a Receita - dura como todo contribuinte sabe que ela é - não quis saber do argumento. Disse que, a despeito da forma jurídica que adotam no papel, clubes são como empresas. Vendem jogadores, acumulam dívidas, negociam espaços publicitários, ingressos, ou seja, atuam como empresas comuns e devem estar sujeitos às mesmas regras. Muito óbvio. Menos para o Ministério do Esporte que pediu para que os motivos da cobrança fossem reavaliados.

E pensando assim, enviou para a Advocacia Geral da União um parecer questionando o entendimento da Receita sobre o caso. Isso, lógico, depois do gabiente do Ministro do Esporte ter recebido cópias das autuações aplicadas pelo Fisco ao Corinthians e ao Coritiba. As justificativas adotadas pelo Ministério são de doer. Falam da paixão do brasileiro pelo futebol, de como ele faz parte do nosso patrimônio cultural, de como é reconhecido como elemento constituinte da nossa brasilidade.

Cita até um trecho do discurso feito por Lula em 2008 quando recebeu os campeões de 1958 no Palácio do Planalto. Eu estava lá e ouvi tudo. Mas a frase "quando a gente veste a camisa da seleção, está vestindo a camisa da nossa nação, está representando os milhões de brasileiros e brasileiras", definitivamente, não foi selecionada pela minha memória emocional, apesar de todo talento do nosso ex-presidente para momentos assim.

 A Advocacia Geral da União, por sua vez, pediu à Procuradoria Geral da Fazenda Nacional uma avaliação. E ela não demorou. A Procuradoria afirmou que a autonomia dos clubes para se organizar não os livra de cumprir, como as outras empresas, as obrigações com o Fisco. Sei que se trata de uma história chata, burocrática, mas vi nela duas virtudes. A primeira,  de mostrar que nem tudo está errado no nosso país. E a segunda, a de deixar bem claro em que time joga o nosso Ministério do Esporte.

E por essas e outras, não vai demorar, teremos de engolir mais uma jogada para perdoar a dívida dos clubes brasileiros. E não será essa migalha citada aqui não. Será um papagaio de bilhões de reais. Iria terminar esse texto dizendo que era só esperar. Mas ontem ao abrir pela manhã o primeiro site de esportes dei de cara com uma manchete sobre o assunto avisando que o governo já prepara uma Medida Provisória nesse sentido.

Medida provisória! Que permitirá aos clubes trocar suas dívidas por projetos sociais. Isso quando todo mundo tá cansado de saber como boa parte dos projetos sociais são tocados neste país. Isso quando o principal projeto do Ministério do Esporte, o programa Segundo Tempo - que tinha esse mesmo objetivo social - gerou um mar de escândalos. Chega a ser difícl de acreditar que a gente engula tudo isso sem ir pra rua protestar.


*artigo escrito para o jornal " A Tribuna", Santos

quinta-feira, 21 de março de 2013

O que andam dizendo por aí


É, eu sei. Numa disputa em que todos jogam com o coração querer usar outras armas pode parecer loucura ou soberba. A verdade é que me sinto na obrigação de dizer que quando me vejo diante de impasses como esse que tem colocado o técnico Ney Franco na berlinda, secretamente me cobro uma posição que seja, sob certa ótica, a de tentar livrar o assunto de tudo que é dito sob o peso da emoção. Pretensão insana!

Uma torcida descontente é uma torcida descontente e está acabado. Um jogador descontente, idem. Uma torcida que não quer mais um treinador, injusta, ou não, tem lá sua legitimidade. Mas o papel de quem informa é outro. Primeiro, o de ter a humildade de levar em conta que nem tudo é dito. Que fontes, por melhores que sejam, sempre têm lá seus interesses.

Não dá pra não levar em conta que existe ali um profissional a quem cabe administrar um batalhão de homens. Tarefa certamente inglória. Teria mais facilidade em aceitar a versão de que Ney Franco não é o treinador ideal para o São Paulo se o clube não tivesse ao longo da história recente criado o mesmíssimo ambiente para técnicos notadamente muito acima da média, pra não dizer ideais.

Em outras áreas somos mais permissivos. Já aos treinadores de futebol ter convicção com relação a um esquema tático passa facilmente a ser encarado como teimosia. Os supra descontentes tricolores pregam que esperar o jogo com o The Strongest é burrice, terá sido tarde demais para trocar de treinador. Mas onde está a justiça de tirar de Ney Franco essa chance?  Trata-se de um técnico que, acertando ou não, deu conta de todas as missões que lhe foram impostas.

Cobram-lhe um esquema tático não é de hoje. Mas não consigo acreditar que sem um ele tivesse conseguido levar o tricolor à essa liderança do Paulista, ainda que se trate de um estadual em sua fase mais meia boca. E por falar no que andam dizendo por aí. Tendo em vista o adiantado da hora, até compreendi as razões que levaram Pelé a sugerir o Corinthians como base da seleção brasileira que, em breve, terá de disputar a Copa das Confederações na condição de anfitriã.  Considerei o apogeu da valorização do entrosamento. Mas, entre o entrosamento e o talento, fico com o talento. Seria possível? Talvez... se não fossemos tão passionais em relação ao jogo.   

quinta-feira, 14 de março de 2013

Que futebol é esse?


No ano passado quando o São Paulo enfrentou a LDU, de Loja, nas oitavas da Copa Sul-Americana, fiquei impressionado com o que vi. Quando terminou o primeiro tempo eu já estava indignado com o árbitro. E antes mesmo da bola voltar a rolar minha indignação aumentou. Foi quando o narrador da partida decidiu colocar o comentarista de arbitragem no papo. Quase fui à loucura.

Sem mostrar nenhum desapontamento com o festival de entradas duras e empurrões que tínhamos acabado de presenciar, o sujeito elogiou o árbitro. Para ele o homem do apito tinha demonstrado um critério interessante. Como assim critério interessante? Ao ouvir aquilo fiquei com a sensação de estar desatualizado, ultrapassado, sei lá.

Sou do tempo em que juiz não tinha direito de ter critério não. Tinha é que saber o que era falta e ponto. E ai do juiz que não mostrasse competência pra essa avaliação. A probabilidade de ter de sair de campo às pressas era imensa. E para mim o impasse atual é esse. Ou a gente descobre logo o que é e o que não é falta, ou o parecer que era dado por meu velho pai se fará profético.

Seo Ary dizia que boa parte do seu desencanto com o jogo vinha do fato do futebol estar cada vez mais parecido com o rugby. Vendo tudo que tenho visto sou obrigado a lhe dar razão. O futebol está cada vez mais pesado, sofrido, físico ao extremo.

Outro dia foi aquela entrada do argentino Diego Braghieri, do Arsenal, no Ronaldinho Gaúcho. E o que fez o árbitro? Nada! Gostaria muito de saber como se explica aos amigos um sujeito que não tira um cartão do bolso pra um lance que no dia seguinte amanhece estampado pelos jornais do mundo como um atentado.

Nesse final de semana foi o Lucas que sofreu uma entrada desleal de Mangani e deixou o campo... enquanto o seu algoz nem cartão levou. Momento mais dramático ainda viveu o Ferrugem, volante da Ponte Preta, que deixou o gramado com uma fratura no tornozelo e com rompimento de ligamentos depois de levar um carrinho por trás do jogador do São Caetano.

Sou capaz até de absolver o Danielzinho, que justificou o lance dizendo não ter muita intimidade com o ofício de marcador. Mas sou incapaz de absolver um juiz que viu tudo aquilo de perto e decidiu punir um carrinho por trás com um cartão amarelo. A FIFA faz tempo decretou que esse tipo de lance deve ser punido com expulsão imediata.

Os tais critérios estão levando o futebol a uma brutalidade crescente. A falada impunidade, tão citada na hora de explicar o que temos visto por aí também explica o que estamos vendo nos gramados. O futebol não precisa de Vuadens. O futebol não precisa de árbitros que deixem o jogo correr nem de árbitros que marquem tudo. O futebol precisa é de árbitros com talento para aplicar as regras. Só isso.

Até porque de nada nos servirá ter gente talentosa pra jogar se o apito continuar nas mãos de cabeças-de-bagre.   

quinta-feira, 7 de março de 2013

Um clássico brochante

Juro por tudo que há de sagrado nesse mundo que dessa vez queria encontrá-los trazendo para o nosso encontro um assunto que tivesse como ponto de partida o talento. Algo primoroso que tivesse se desenhado nos gramados e provocado prazer. Mas, pensando bem, por saber como anda o nosso futebol chego a me sentir inocente por ter esperado que o clássico entre Santos e Corinthians pudesse ter satisfeito toda essa expectativa.

Uma coisa é ver um jogo e não gostar, outra , mais grave, é ver um jogo que causou descontentamento geral. Não é possível que tenhamos desaprendido a jogar futebol assim. Chego a crer que a explicação pode ser outra. Talvez o que tenhamos visto, sem entender, tenha sido uma brochada ludopédica. Preocupante, como todas elas costumam ser.

Pensem comigo. O psicológico como vocês bem sabem tem nesse tipo de caso importância vital. Eis que o Santos, há tempos devendo uma boa exibição, vai jogar no Morumbi e chegando lá dá de cara com um estádio semi vazio que não reflete em nada a vibração que a história do jogo sugere. Com os corintianos se dá algo parecido. O time que se acostumou a levantar sua torcida no instante em que entra em campo olha para as arquibancadas e quase não a encontra. Os poucos corintianos fazem o que podem para empolgar o time que amam.

Mas lá embaixo na cabeça de cada jogador do timão está a certeza de que terminado o clássico não haverá o conforto de casa nem o abraço dos filhos. Depois dos noventa minutos haverá, isso sim, uma longa viagem até Tijuana. Longas horas dentro de um avião para alcançar um destino que está longe de ser dos sonhos. Uma cidade na fronteira do México com os Estados Unidos onde o Tijuana os espera para um confronto em piso sintético.

Como se não bastasse, no gramado do Morumbi as coisas não dão certo pra ninguém. Os santistas padecem de total falta de entrosamento. E as consequências da falta de entrosamento nesses casos são cruéis. Enquanto isso os outros alvinegros vão fazendo o que podem para dominar o campo de jogo mas - no fundo - estão sendo corroídos pela preocupação extrema com uma possível derrota. E a ausência de tesão pela vitória é por natureza devastadora.

Nem mesmo o apelo de um encontro prestes a se tornar centenário foi capaz de mudar o clima. O que sobrou da última tarde de domingo de Santos e Corinthians foi o desconforto que costuma assombrar o homem quando nada dá certo e uma certa vergonha se faz inevitável.



* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", santos

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Desilusão

 
Hoje vou me permitir pensar o futebol pelo viés da desilusão. E quando me desiludo com ele logo penso: veja só o que fizeram com a nossa mais empolgante brincadeira de criança. Isso porque nada me tira da cabeça que foi por um dia a maior parte das crianças deste país se deixarem encantar pelo jogo que ele virou o que virou pra nós.

Sei que despir o futebol de toda a ilusão é perigoso, pode não sobrar nada. Mas sejamos frios, o que sobra do futebol quando um manto negro se derrama sobre os campos tirando da alegria de um drible ou da possibilidade da vitória seu significado maior? Eu digo o que resta.

Resta um território cercado por flanelinhas, banheiros sujos, um ambiente que está longe de ser civilizado. Restam interesses. Restam confederações comandadas por homens ultrapassados, que mal conseguem sorrir ao ter de cumprir o ritual de assistir a uma partida de futebol. Gente que quando vai até o campo exercer seu papel de autoridade distribui medalhas aos vitoriosos com cara de gerente que cumprimenta o funcionário do mês.

Que deleite é esse que nos anestesia? Vemos um atleta ter de cobrar um escanteio protegido por escudos de policiais, e é como se não víssemos. Vemos nossa polícia gastar boa parte de seu efetivo aos domingos para escoltar torcidas e em seguida, muitas vezes, ainda usar a força bruta para impedir que certos encontros não se transformem numa verdadeira guerra, numa batalha campal, e não nos revoltamos. E não nos indignamos, como se em nome do futebol se pudesse tudo.

É triste essa crueldade, essa violência que brota das entranhas das arquibancadas. Estamos vendo e vivendo a perversidade de toda nossa impunidade. Essa dor é um pouco a dor da falta de autoridades competentes, a falta dos cadastros daqueles que querem entrar nos estádios na condição de organizados. É a dor de não ter feito os culpados anteriores se apresentarem na delegacia quando o seu time adorado fosse entrar em campo. Falta o castigo aos culpados, o castigo que tem sobrado para os inocentes.

Eu já não suporto ouvir exemplos ingleses. Não somos a Inglaterra! Eu já não suporto ouvir os especialistas dizendo que o futebol precisa ser encarado como produto. Nada, nenhuma teoria mercadológica ou afim parece ter a capacidade de nos tirar desse purgatório ludopédico enquanto os homens que cuidam dele continuarem sendo os mesmos. A impressão que fica depois de ler tantas manchetes negras, depois de ouvir tantas histórias pouco críveis é a de sempre. Só teremos um futebol sadio quando tivermos um país sadio, quando formarmos pessoas capazes de colocar o futebol no seu devido lugar.

Aí, curados dessa chaga aberta em nome de uma paixão espelhada em não sei que cores, poderemos voltar a desfrutar do prazer de se entregar à ilusão do jogo. À ilusão agradável de testemunhar um lance épico, à toda ilusão criada por um talento difícil de descrever, sem o desconforto de saber que para se viver isso é preciso aceitar um imenso risco.



* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O futebol vai mesmo muito mal...



PS - E, para quem não sabe, o zagueiro Diego Braghieri, do Arsenal (ARG),  ao cometer esse atentado contra Ronaldinho Gaúcho ontem, não levou nem cartão.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A companhia certa para o Neymar


Há um jogador atuando no Brasil que a cada dia conquista mais a minha simpatia e que não é o Neymar. Um sujeito cujo futebol e cuja postura teimam em sair do alcance dos meus olhos porque, afinal, ele joga em um clube do Rio. Em julho passado, quando conquistou a primeira vitória vestindo a camisa do Botafogo, foi visto em campo batendo palmas, orientando e incentivando os companheiros. Depois, ao ter sua atuação exaltada por um repórter que o esperava no caminho para o vestiário, humildemente respondeu que tinha feito o que sempre fez e que considerava seu papel.

Quem viu Seedorf no final de semana no clássico entre Flamengo e Botafogo pôde perceber que o que ele disse aquele dia não era um bla-bla-blá de estrela estreante, e mais, quem o viu em campo pôde constatar que de lá pra cá não esmoreceu. Mesmo derrotado foi visto em campo altivo como sempre. E o cara também demonstra atitude fora de campo. Antes do jogo com o rubro-negro saiu em defesa do treinador Osvaldo de Oliveira que muitos consideram - de forma cínica - o treinador mais educado do Brasil. Como se ser educado fosse demérito. E não o fez com um discurso vazio. "É um treinador fora do comum na sua maneira humana... Ele tem uma educação diferente que faz com que ele tenha uma capacidade de comunicação muito boa".

Seedorf tem nos brindado com declarações que estão longe de ocupar o lugar comum. Ao dizer que quando levanta aqui no Brasil está sempre sol e que isso lhe dá uma qualidade de vida muito boa pra treinar, talvez nos ajude a enxergar melhor a nossa condição. Assim como quando afirma que por estas bandas o preparador físico fala mais, interfere mais do que na Europa - onde costuma fazer o trabalho dele e ir embora - está ajudando a gente a descobrir nossas virtudes em meio a tantas mazelas.

No carnaval conheceu Neymar e disse ter ficado encantando com sua energia. Eu, se fosse Neymar ou um dirigente do Santos, ouviria muito bem o que Seedorf tem dito. Para o meia do Botafogo na seleção Neymar precisa de alguém experiente para lhe passar tranquilidade. Donde concluo que o que vale para a seleção vale para o time da Vila. Longe de entrar no oba-oba o jogador do Botafogo faz questão de dizer que não há como comparar Neymar com Messi e Cristiano Ronaldo, que estão há anos jogando em alto nível na Europa.

O jogador do Botafogo não acha que Neymar deveria ter ido para o velho continente. Acha que quem sabe jogar sabe se adaptar e que " esse será seu grande desafio na Europa, se adaptar". Seedorf quando fala sobre o assunto sempre lembra que Messi joga em um time que tem outros dois ou três atletas entre os melhores do mundo. É tamanha a lucidez pra falar e jogar que eu tenho certeza de que vou parar de escrever agora, mas vou ficar pensando sobre o que poderia o Neymar se tivesse um cara como Seedorf ao lado dele.

* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos   

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

* A vida dos outros


Por mais que as últimas declarações de Pelé sobre Neymar sejam,
digamos, intrometidas. O empresário da "jóia santista" na ânsia
de defender seu cliente produziu uma pérola:

"Se o Pelé jogasse hoje, ele seria inferior ao Neymar."



* "A vida dos outros" - filme alemão produzido em 2006.
    Pra quem não viu, fica a dica

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Nosso futebol surreal


Espero que tenha sobrado dos nobres leitores, depois do carnaval, bem mais do que cinzas. Já do futebol brasileiro, depois de ter passado os olhos em números recém divulgados, tenho grandes dúvidas. A imensidão das dívidas reforçou em mim a sensação de que restou dele apenas uma casquinha, de modo que qualquer cavucada, por mais leve que seja, nos fará descobrir que por dentro está tudo comprometido.

E se continuamos a nos divertir com essa frágil casquinha, não devemos nos enganar pensando que uma hora dessas aparecerá por aí, tal qual um messias, um cartola que mudará o rumo das coisas. Tão ingênuo quanto isso é achar que existe alguém entre todos os que estão aí "muderno" o suficiente para ameaçar o sentido em que a roda inevitavelmente gira.

Chovem velhos bordões. "Aqui não se faz loucura", ou ainda, " aqui não se gasta mais do que se arrecada". Um tipo de discurso que diante dos fatos não merece crédito. Que atire a primeira pedra o cartola que tenha conseguido diminuir a dívida do clube que administra. É claro que não se trata de uma exclusividade nossa, mas não é por isso que a situação deve deixar de ser vista como uma aberração.

Desde 2003 as receitas dos clubes brasileiros aumentaram 235%, mas no mesmo período as dívidas cresceram 306%. A situação financeira é precária. Para Amir Somoggi, um especialista no assunto, só há uma saída para evitar que a situação piore: o governo federal agir. Tá preta a coisa, ou não tá?

Governo Federal que não custa lembrar é credor de quase cinquenta por cento dos 4,7 bilhões de reais que os clubes brasileiros devem. Fica aí uma boa pista de que governo e cartolas jogam no mesmo time. Há outros temas que gostaria de comentar aqui, como a intenção do governo de regulamentar as apostas esportivas no país, mas vou aproveitar as linhas que me restam pra dizer que acabei de ler o novo livro da dupla José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, o " Nove contra o 9".

Poderia tecer aqui muitos elogios. Poderia falar do texto bem destilado, do humor equilibrado, bem sacado, mas o que me impressionou e que considero inestimável contribuição é o fato de a obra nos jogar na cara tudo que há de bizarro no mundo do futebol. A constatação de que tudo de excêntrico e surreal que está ali - de uma forma ou de outra - é perfeitamente possível é algo chocante. Vi no livro de Torero e Pimenta mais do que um humor revestido de inteligência, vi nele um crítica ácida. Louvável.  



* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Inspirado na camisa



Saibam, antes de tudo, que é tomado de certa saudade que teço esse nosso reencontro. Ando com a sensação de que o futebol ainda não começou pra valer, embora o debute de Alexandre Pato com a camisa do Corinthians e o clássico entre Santos e São Paulo tenham dado um bom empurrão. Dias atrás até achei graça num ocorrido. Ao chegar na padaria para a trivial tarefa de comprar alguns pãezinhos percebi que o cidadão ao meu lado se esforçava muito para provocar um papo de bola com o atendente, que se saiu com essa:

_ Futebol? Tá devagar, hein? Ainda não estou sentindo nada!

Mas que o sujeito disse isso com cara de quem tava louco pra começar a sentir algum sintoma, isso disse.Lembrei dessa passagem porque mesmo muito breve pareceu resumir o momento com excelência. E até por não estar sentindo nada demais também queria dividir com vocês a boa impressão que tive da nova camisa da seleção. Essa que o time estreou contra a Inglaterra.

Apesar de o discurso ser o de sempre, tecido não sei quantos por cento mais leve e não sei quantos por cento mais resistente, ou algo do tipo, suas linhas simples me deixaram pensativo. Depois de tanto tempo vendo o nosso futebol enchê-la de significado talvez tenha chegado a hora de deixar que a simplicidade da nova amarelinha nos aponte um caminho, nos sirva de inspiração.

De minha parte sempre achei simpática a figura do canarinho, embora deva ressaltar que dispensava a frase " nascido para jogar futebol", pois essa coisa de frase me soa um tanto americanóide e marqueteira. Mas como a tal frase e o canarinho estão escondidos no parte interna da gola, vá lá.

Espero que o Felipão perceba que precisamos é ser isso: a nossa boa e velha camisa, sem firulas a mais, nem semblantes carrancudos que nos façam lembrar do triste tempo dos militares que alguns por lá, pelo visto, ainda gostam de bajular. Aproveito pra dizer também que não me impressiono com esse jogo de estréia contra os ingleses.

Fico imaginando aqui se em outro lugar do mundo a expressão "vestir a camisa" tem tanto significado. Nada me tira da cabeça que os traços limpos da nova camisa da seleção sugerem uma lição. É uma pena que mesmo parecendo simples continue sendo tão cara. Na condição de símbolo nacional deveria ser acessível a todos que tivessem prazer em vesti-la. Numa era repleta de ensinamentos táticos a nova camisa da seleção parece dizer que precisamos simplificar. Mas o simples também exige inspiração. E estar inspirado não é fácil.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O futebol e a Raimunda


Foi a Raimunda, minha empregada, quem deu o veredicto assim que o juiz apitou o final da partida lá em Toyota. "Que joguinho feio", cravou. E não foi tudo, na sequência ainda disparou " Se pegar um melhorzinho que esse daí, já era". Tá certo que se trata de uma cearense que ao chegar a São Paulo há mais de três décadas se encantou pelo Palmeiras. Certa vez, em uma de nossas conversas travadas no início das manhãs me contou com entusiasmo como gostava de ir ao estádio com o marido, coisa que já não faz mais.

Seja qual for o time dela a análise pode ter soado seca mas está longe de ser descabida. A semifinal do Mundial de Clubes entre Corinthians e Al Ahly pode ser um exemplo claro do futebol atual, mas beleza que é bom não teve. E quanto a dizer que se pegar um adversário melhor já era, ela também tem lá sua razão, só esqueceu de levar em conta que o Corinthians na final pode mostrar outra postura e parecer ser até outro time. E terá que ser outro time porque o adversário é o Chelsea, bem melhorzinho que o Al Ahly.

E não venham me dizer que o Al Ahly é considerado o time africano do século XX, que é experiente em mundiais. Nada faz diferença. Passado o susto dos corintianos ainda acho que se o Al Ahly tivesse eliminado o time de Tite estaríamos todos diante de uma zebra monumental. Uma zebra tão grande que aquela zebrinha antiga e com cara de boazinha do Fantástico nem teria coragem de anunciar.

O que sei é que o olhar desprovido de maiores pretensões analíticas da valente Raimunda me deixou cara a cara com a simplicidade do futebol num momento em que a minha cabeça fervilhava para tecer teorias sobre ele. Além disso, gostaria de compartilhar com vocês a alegria de ver Messi fazer tudo o que anda fazendo.

Não gosto da injustiça das comparações, nem costumo ser seduzido por essas estatísticas que nascem para adornar manchetes, mas confesso que nos últimos dias acompanhei com atenção a possibilidade de Messi bater a marca do alemão Gerd Muller que fez oitenta e cinco gols na temporada de 1972. No final de semana quando o jogador do Barça chegou ao gol de número oitenta e seis diante do Bétis não foi exatamente o número que me causou espanto, foi a maneira nobre que ele chegou até a marca, sem alarde, com aquele jeitão de trabalhador incansável, como a Raimunda.

sábado, 17 de novembro de 2012

O Palmeiras no Bar do Zé


Fazia muito tempo que não ia ao mítico Bar do Zé Ladrão. Falo visita de verdade. Não conto aí as vezes em que voltando da feira dou uma parada pra filar um cafézinho. Mas como ia dizendo, estive lá dia desses. Na chegada, depois de cumprimentar figuras como Edson Santista e Alfredinho Juventino, percebi que ao fundo o distintivo do Palmeiras estava colocado sobre o do Corinthians. Talvez um modo velado que o Zé encontrou de equacionar o momento atual.

Não perguntei na bucha pra não provocar assunto explosivo, mas a conversa acabou indo parar no time palestrino. Percebi que o Zé foi respeitador. Mas quando o bar esvaziou um pouco ele encostou do outro lado do balcão e retomou o assunto. Fez considerações sobre o que levou o Palmeiras a essa situação dramática e, para minha surpresa, abriu o coração. Deixou escapar imensa mágoa.

Disse não ter esquecido o que fizeram com ele quando o Corinthians viveu drama parecido. Olhou os que ainda estavam presentes, disse que perdoava o Vavá - torcedor do Galo - e também os ppalmeirenses Luiz e Papagaio, para em seguida lembrar o sarro que na época lhe foi imposto por outros frequentadores, digamos, mais cruéis, como Ricardo Caricato, figura que pela força do apelido vocês podem imaginar. A esse, palmeirense fanático, não sugiro frequentar o Bar nos próximos dias.

Seo Zé, na condição de antiquíssimo morador do bairro, se mostrou até preocupado com a nova Arena do Palmeiras. "Fizeram piscinão? O rio passa ali. Você sabe, né?", disse o Zé. Para quem não conhece, o bairro da zona oeste paulistana tem ladeiras imensas que nos dias de chuva aceleram as águas... e é lá na baixada do estádio que elas vão desaguar.

Zé é corintiano, mas vivendo tantos anos em reduto palmeirense entende como poucos a alma italiana. Se um dia passar por lá peça pra ele te contar onde é que ficava a Calábria. E pergunte a ele se os caras que moravam lá levavam desaforo pra casa. É por isso que o Zé não estranha os ânimos exaltados, nem entre os conselheiros. " Os caras andam trocando sopapos, pernadas, veja só!", diz o setentão Zé Ladrão, ciente de que respeito nada tem a ver com divisão.

É! Mas é bom o tal Ricardo Caricato pensar duas vezes antes de aparecer por lá.


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Pobres ricos


Onde está refletida a grandeza do nosso futebol além de na imensa paixão dos brasileiros pela arte de jogar bola? Nos quase solitários lances geniais de Neymar? Digo quase solitário porque entendo que poucas são as coisas e pessoas que podem lhe fazer companhia nesse sentido. Talvez o futebol destemido do tricolor Lucas ou os lances bonitos que têm sido desenhados por Bernard, do Atlético Mineiro. Ou quem sabe o futebol maduro de nomes como Juninho Pernambucano e Ronaldinho Gaúcho. E onde mais somos grandiosos?

Nossos estádios são de arrepiar. Mas não faltam especialistas tentando nos convencer de que o nosso futebol está em pleno desenvolvimento. Enquanto esse dia não chega vamos nos divertindo comendo um sanduíche de pernil na porta do estádio e engolindo uma média de público que em nada nos engrandece.

Dias atrás fiquei sabendo que o Flamengo estava recorrendo a um banco para pagar salários. Mas o que me chamou a atenção é que dessa vez o clube não iria recorrer ao BMG e sim a um outro banco que cobra juros maiores, isso porque o balanço de 2011 não tinha sido aprovado e nele já constavam mais de quarenta milhões de reais em empréstimos com o BMG. Se você acompanha futebol certamente já viu a marca por aí. E provavelmente estampada na camisa do seu time !

E a notícia sobre o Flamengo me fez lembrar que o banco BMG, que teve seu dono condenado a sete anos de prisão em um processo desmembrado do mensalão, tem nada mais nada menos do que duzentos cinquenta e três milhões de reais a receber só de clubes da série A. Valor que pode ser ainda maior já que alguns clubes apontam em seus balanços apenas os empréstimos sem citar o credor. Percebem como estamos perto de nos tornar primeiro mundo?

O BMG este ano está em seis dos vinte clubes da primeira divisão. No ano passado chegou a estar em trinta e nove camisas diferentes. Ok, endinheirados com grandes fatias do negócio existem em outros lugares. Mais preocupante então é saber que o Atlético Mineiro deve noventa milhões de reais ao dono do BMG, Ricardo Guimarães, que foi presidente do clube entre 2001 e 2006.

Uma mistura terrível de interesses que ao longo da história vem corroendo o balanço de muitos clubes brasileiros. E foi justamente aí que eu me peguei pensando: onde está refletida a grandeza do nosso futebol além de na imensa paixão do brasileiro pela arte de jogar bola? Nas cifras? Então, não passamos de pobres ricos.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Nem sempre foi assim

Não sei se vocês lembram mas houve um tempo em que o juiz entrava em campo carregando apenas o apito. Depois vieram os cartões, e com eles uma caneta para que o tal não acabasse traído pela memória. Naqueles tempos eles eram chamados de juiz e fim de papo, essa coisa correta de chamá-los de árbitro veio depois. Vestiam-se todos de preto, os trajes amarelos também estavam guardados em algum ponto futuro. Não eram infalíveis, mas não medravam.

Mesmo nas situações mais vexaminosas tinham que decidir no ato, sem titubear, tinham que ser homens, mesmo que o destino tivesse lhes reservado o infortúnio de mandar a bola para dentro do gol com a própria canela. Dirão os puristas: trata-se de um caso previsto na regra. Tudo bem! Mas vá lá assumir a bronca numa hora dessas.

Hoje está tudo mudado, carregam com eles pra dentro de campo uma parafernália sem tamanho. Spray, comunicadores. Exibem até patrocínios na outrora negra vestimenta. Ganharam mais dois auxiliares, um ao lado de cada baliza, e mesmo assim parecem cada vez mais perdidos. Muita facilidade amolece o espírito, ouvi certa vez.

O erro não me assusta, o que me assusta é a nossa pobreza para fugir dele. O que me assusta é ver o árbitro Francisco Carlos do Nascimento no meio do rebuliço sem saber ao certo o que fazer, dando uma bandeira danada de que foi-se o tempo em que cabia a ele decidir. Ligo o rádio do carro e o caso do Beira-Rio está sendo debatido, abro a internet e a manchete do jogo que ficou parado à espera de uma definição me toma o olhar, ligo a televisão e a mesa, subjetivamente redonda, se mostra indignada diante do ocorrido. E lá se vai quase uma semana de discussões sobre o fato.

Tivéssemos dois jogos de primeira pra comentar, teríamos ainda alguma possibilidade de neutralizar essa infecção arbitrária que invadiu o jogo. Mas quem entre nós, ditos modernos, acredita que hoje em dia o juiz - com aquele seu fonezinho descarado colado no ouvido - é quem decide tudo em campo? Imagine um juiz tendo que proferir uma sentença nessas condições, e agora falo de um juiz mesmo! É uma bagunça tamanha que fica difícil dizer o que está certo e o que está errado.

Por exemplo, quando vejo hoje em dia um jogador esticar o braço pra conter a chegada de um adversário fico indignado. Quando me ensinaram a jogar futebol isso era falta e duvido que quem me ensinou, que foi a rua, tenha me ensinado errado. Portanto, não estranhe se dia desses você acordar tomado de saudade de um Romualdo Arpi Filho ou até de um Armando Marques.