sexta-feira, 13 de julho de 2018

Futebol na Casa das Rosas


Dia Mundial do Rock






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quarta-feira, 11 de julho de 2018

O árbitro de vídeo

Rivellino me disse outro dia que considera o VAR, o árbitro de vídeo,o grande personagem desta Copa. Eu fiquei matutando. Fato é que o futebol nunca saiu do controle dos poderosos. E seu instrumento-mor de comando sempre se chamou arbitragem. Um mecanismo capaz de domar até o que é o grande diferencial desse esporte: a capacidade de fazer triunfar um escrete improvável. Qualidade que o faz ainda maior e que a torcida venera, ainda que reze pra que não venha a vitimar seu time. Há também os sorteios, os regulamentos, mas esse é outro papo.  

Pensem se haveria alguma possibilidade de um árbitro um tanto rebelde vir a ser um árbitro FIFA. Ter certo comando da arbitragem não é algo que se dá de modo claro, obviamente. E pra bom entendedor meia palavra basta. O futebol pela sua natureza talvez dispense até as palavras. Acho até que já propus cena parecida aqui em outra ocasião. Mas imagine o Infantino, presidente da FIFA, em uma recepção oficial, pouco antes de uma grande decisão conversando sobre o confronto e deixando claro que seria muito bom se tal seleção ganhasse. Depois, como quem não quer nada, na hora de se despedir do árbitro que em breve apitará tal contenda se despedisse dele dizendo - simplesmente -  que espera que ele faça um bom trabalho. 

O que uma frase dessa poderia sugerir? O que teria a intenção de comunicar? Colocaria em risco a tranquilidade de queM estará com o apito? Por essas e outras, penso eu, se quisermos um árbitro de vídeo verdadeiramente justo o ideal seria tirar o poder de decidir quando ele será usado das mãos daqueles que sempre foram os donos dessa possibilidade. E nem vem ao caso aqui lembrar de certos lances, como aquele pênalti escandaloso do alemão Boateng em cima de Berg, jogador da Suécia. O tipo de lance que qualquer um revendo a imagem daria o pênalti. Mas não deram. Eu, de minha parte, digo que usado desta maneira o árbitro de vídeo, no mínimo, seguirá sendo visto com reservas.  

Talvez o jeito seja dar aos times a possibilidade de pedir a revisão. O que foi sugerido por um outro amigo interessado no tema. Acho que a maior prova de que o árbitro de vídeo pode ser manipulado reside, por exemplo, na  constatação de que o mesmo foi infinitamente menos usado a partir do momento em que a Copa entrou numa fase, digamos, mais delicada. Talvez tenha sido por prudência. Vá lá. Mas uma certa hibernação é evidente. Trata-se, neste caso, da velha necessidade de não só ser mas parecer correto. Ainda que a CBF e os clubes não tenham chegado a um acordo sobre a conta a pagar, mais cedo ou mais tarde o futebol brasileiro terá de lidar com ele. Não custa ir refletindo sobre. 

No mais, da Seleção Brasileira teremos tempo pra falar. Deixo claro que sou do time que daria mais uma Copa ao Tite, com ressalvas, mas daria. Já o vivido por Neymar deixa no ar, sugere, que na ausência de um futebol grandiosos, o comportamento de um craque pode lhe corroer a imagem. A lembrança de Maradona me faz crer que  só quando o futebol é maior do que as pisadas de bola há alguma possibilidade de perdão. Mbappé, menos, mas também. Agora, não esperem que eu venha a dizer um dia o que é bom comportamento, ou como alguém deve se comportar. Neymar parece estar pagando um preço caro pelo seu.   

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Futebol moleque


Teve gente que se incomodou quando em um dos gols do Brasil o lateral Marcelo chegou no autor do mesmo, Philippe Coutinho, dando um tapinha seco no pescoço dele.  Eu me lembrei dos meus tempos de menino. Achei interessante. Tudo que o futebol tem mostrado é que não permite pontes com o tempo em que o jogo de bola era só uma diversão. Coisa que em algum momento, ainda que breve, ele foi pra muitos de nós e para qualquer um dos que defendem a camisa do Brasil na Rússia neste momento. Poderia ter sido coincidência, mas não. 

Eis que no jogo entre Dinamarca e França vejo uma verdadeira roda em volta do garoto Mbappé lhe enchendo de petelecos. A imagem recuperada em câmera lenta escancarava a brincadeira. Mostrava que eram petelecos daqueles pra valer. A orelha do camisa dez francês ia se dobrando ao toque de cada dedo. O peteleco talvez seja a maior prova de que um time anda bom de astral. É um ato que exige cumplicidade. Intimidade. De outro modo vira briga. Ou virava na minha época. 

Mas a fase de grupos se foi. Os jogos foram ficando cada vez mais sérios, pesados. De modo que não voltei a ver nada nessa linha de lá pra cá, nenhum sinal que pudesse me fazer manter a crença de que no fundo, existe sim, algo que liga o mundo do futebol endinheirado à sua versão mais simples. Algo que sugerisse que de alguma forma o futebol moleque resiste, apesar de tudo.  Interessante destacar que que esses lances foram protagonizados por duas seleções que podem vir a se encontrar em uma das semifinais e não deve ter sido por acaso. 

Rápido e leve o time francês envolveu os argentinos tendo como alma as disparadas de Mbappe que, de certo modo, não deixam de ser um tipo de travessura. E o cascudo time brasileiro, se bem observado, deixa transparecer também certa meninice, especialmente na ginga insistente de outro camisa dez, Neymar.  Um Brasil e França, portanto, me faz crer que teria muito mais a oferecer do que um encontro com os uruguaios, de onde é bem provável veríamos ( ou veremos) brotar um jogo mais bruto, repleto de cenas, verdadeiros teste para a verve dramática e teatral de jogadores como Suárez e Neymar. 

Mas pra chegar lá será preciso amanhã à tarde tirar de cena o time belga. Apesar do rosto de menino do talentoso De Bruyne, a quem tempos atrás dediquei todo este espaço, há ali algo de pragmático. O que faz o jeitão de Bruyne parecer mais um disfarce. Até porque ele tem vinte e sete anos e um futebol de gente grande, muito grande. Detalhes técnicos e táticos à parte, a Bélgica tem alma inglesa. E no futebol inglês como é possível notar, muitas vezes até os mais jovens tem ares de senhores. Uma da provas é o outrora cortejado Wayne Rooney.  E não é por acaso. 

Roberto Martínez o espanhol que comanda a seleção belga jogou e consolidou a carreira como treinador na terra da rainha. Além disso, é lá que atua a maioria absoluta de seus titulares. Martinez assumiu o cargo três dias depois de Tite e como ele sofreu até aqui apenas uma derrota. Não fosse essa Copa tão surpreendente diria com mais convicção que o Brasil carrega certo favoritismo, como não é digo que o desafio de Tite para seguir adiante será provar que foi capaz de encontrar a medida ideal de racionalidade para um futebol que sempre teve alma de moleque.  

sexta-feira, 29 de junho de 2018

É tudo esquema !


O futebol virou essa brincadeira esquisita de evitar que o outro faça um gol. A conclusão parece inevitável. Não que em outros tempos não tenham tido essa intenção os menos afortunados de talento.  Sou capaz de admitir limites, mas vejo nisso uma pobreza de espírito, para não dizer de intenções. Acho que deveria ser tratada com maior insistência a possibilidade, ainda que ínfima, de se marcar um gol.  Uma jogada ensaiada. Sei lá. Aproveitar já que tudo é esquema no futebol atual. A sensação que cultivo é a de que existia tempos atrás um brio nesse sentido, por mais fragilizados que pudessem ser certos escretes. Não se admitia a falta de bravura. 

De maneira que quando um time ou um personagem do jogo se via com as perguntas feitas ameaçado pela evidência de suas próprias fraquezas, sacava da cartola um discurso mais corajoso a sugerir que as coisas não seriam tão fáceis assim para o time considerado favorito. No mínimo seria bom pra disfarçar, tentar dar um nó na cabeça dos adversários, uma vez que o tal do nó tático não se fazia possível.  E pelo que li nem a matemática oferta algum amparo aos devotos da retranca. Ao menos até a Coréia ter feito o que fez com a Alemanha os números mostravam que o número de zebras na Rússia era menor do que o registrado nas edições anteriores. 

Diante disso sugiro como saída aos tidos como frágeis abrir um treino para a imprensa, armar lá um time fantasia com três atacantes. Nada da velha e manjada linha de não sei quantos na defesa. Imagina o burburinho. Ora, nem é preciso jogar bola pra saber que nada mais terrível para alguém que entra em uma disputa do que se revelar previsível.  Trata-se de tarefa hercúlea transformar em algo possível fazer do menos talentoso dos times campeão do mundo. Muda-se de nível evitando riscos, isso basta, dá pra entender. 

Outro detalhe, importantíssimo. O acaso. Ele mesmo. Não espero um dia ouviranalistas o levando em conta, mas que ele no futebol também é o senhor de tudo, ah isso é. Basta analisar um lance de Brasil e Costa Rica, por exemplo. Atentem para o gol brasileiro que nos permitiu respirar.  Lá está ele, o retumbante acaso. Tenho um amigo cruel que aposta com quer que seja que a tal linha de cinco é mais difícil de ver do que saci-pererê. Certo dia estávamos reunidos, uns oito ou dez, assistindo um jogo, não lembro bem qual. E, de repente, tcham! Um deles não perdeu a chance de cutucar. Apontou a televisão de repente gritando olha lá, olha lá a linha de cinco. Pra quê? Foi tratado com um desdém ainda mais cruel pelo descrente, que lhe respondeu com soberba, tirando onda, que queria ver era a linha persistir quando a bola estivesse rolando. E ainda completou com - mais crueldade ainda - questionando o sujeito se a linha em questão era pra funcionar com o jogo em andamento ou não. Não deu outra, acabou o papo. 

sábado, 23 de junho de 2018

Nem prosa, nem poesia


Permita-me chegar sem meias palavras. Esperava mais da seleção de Tite. Em primeiro lugar pela crença no talento individual dos jogadores. Coisa na qual continuo tendo uma fé cega mesmo ciente de que atravessamos a era da exaltação do coletivo. E veja, isso não significa não reconhecer seu valor e importância. Mas nada como a realidade para dissolver nossas convicções. Nesse sentido testemunhar o sofrimento vivido por outras seleções de prestígio tidas como sérias candidatas ao triunfo-mor do futebol me fez baixar a bola. Digo mais, o início modesto e sem grandes arroubos pode ser até um bom indício. Estamos na média. Ter deitado e rolado logo de cara poderia ser sinal  de um apogeu prematuro. 

Seja como for, atravessei o primeiro tempo de Brasil e Costa Rica com a sensação incômoda de quem cruza um deserto. Que um esquema cauteloso neutralize um outro com sérias intenções de alcançar o gol adversário vá lá. Agora dar de cara com uma seleção tentando tratar disso sem a mínima pitada de improviso e ousadia sinceramente me soa pobre. Deixa a impressão de que o que tem nos roubado o horizonte é o excesso de obediência ao esquema. ada de um drible que soasse como surpresa, uma arrancada. Foi preciso meia hora de bola rolando pra sentir o time brasileiro vivo, com Neymar ficando frente a frente com o goleiro Navas. 

Tite, é claro, sacou o que se passava. E ao colocar Douglas Costa em campo no segundo tempo no lugar de Willian deixou transparecer que o Brasil necessitava realmente de algo diferente. Com Douglas Costa o lado direito, tão apagado, ganhou alguma importância no enredo da partida. Enfim, o Brasil que se via em campo parecia pulsar. Gabriel Jesus mandou a bola no travessão. Neymar por pouco não marcou. A essa altura a urgência da situação já tinha feito o treinador brasileiro tirar Paulinho de campo e dar a Roberto Firmino o lugar que era dele. 

Mas a sombra de um segundo empate seguido se agigantava e desafiava, principalmente, os nervos do camisa dez brasileiro. Neymar, como se não bastasse a atmosfera do jogo, andou às turras com o árbitro holandês e deve ter pensado ter lhe convencido das más intenções adversárias quando o viu marcar um penalti para o Brasil, sofrido por ele. Puro capricho do destino. Pois o holandês pediu ao assistente de vídeo pra rever a cena. Não tardou e voltou pra lhe dizer que tinha visto nela apenas uma encenação. Indignado com a decisão Neymar levou um cartão amarelo e provocou, por tabela, um outro, dado a Philippe Coutinho. 

Foi justamente nesse ponto da história que me veio a ideia do título acima,  já vou lhes dizer porque. Por falar em capricho do destino, quando tudo parecia perdido, o dono do apito - muito atento - levou em conta a cera dos costa riquenhos e decretou que o jogo teria mais seis minutos. No primeiro deles Coutinho fez um a zero. E quando até mesmo o sexto já tinha se passado, Douglas Costa, em gesto grandioso, tocou a bola pra Neymar fazer um gol que não tardaram a dizer poderá lhe fazer mudar de astral. 

Bom, é famosa aquela afirmação do cineasta italiano Pasolini  dizendo que o futebol brasileiro era poesia enquanto o praticado por outros era prosa. Foi-se o tempo em que o futebol brasileiro tido como arte atraia figuras desse porte como um imã. Não sou do tipo que se deixa levar pelo placar. Tendo visto o que vi até aqui não descarto a possibilidade do título, não faço juízo do choro doído do Neymar ou de seu silêncio. Só estou convencido de que nosso futebol atual não é nem prosa, nem poesia. Anda mesmo é com um quê de auto-ajuda. Se é que me entendem.            

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O que a Copa nos reserva?


Se tem alguém que chega por cima nessa Copa é o nosso treinador. Ouso dizer que Tite, sob certa ótica, tá mais na fita do que Neymar, sobre quem pesou alguma dúvida, se não em relação ao futebol que pode jogar, com relação a condição física, depois de ter sofrido uma lesão que o tirou de cena por meses. Embora nos dois últimos amistosos tenha mandado pra escanteio tudo isso. O time brasileiro já foi virado ao avesso. Nenhum detalhe provavelmente passou despercebido pelo imenso batalhão de analistas. De tudo que li e ouvi por aí, se você deixou escapar e não deu de cara com a reflexão do mestre Tostão sobre o meio campo e os laterais brasileiros deixo aqui a dica. Vá atrás. No mais, com humildade tentarei  dar uma leve engrossada  leve nesse caldo. 

Não faz muito tempo apostar que o Brasil teria Casemiro, Paulinho e Fernandinho juntos era coisa que muita gente duvidava. Foi só agora, tempos atrás, quando o Brasil  voltou a ficar cara a cara com os alemães que o trio ganhou ares de viabilidade. Mas como se tratava de um jogo no qual a derrota tinha tudo pra tomar outras proporções muita gente acreditou que se tratava de uma formação pontual. Diante do perfil do jogador brasileiro sei que parece loucura apostar num time comedido do ponto de vista da criação. Mas se tenho uma desconfiança é a de que durante a Copa pode ocorrer um certo choque entre a expectativa do torcedor e as prioridades de Tite. 

Sabe aquele Corinthians que após fazer o primeiro gol não demonstrava ânsia para aproveitar o embalo? É mais ou menos isso que eu imagino. E não vai aqui nenhum juízo de valor. Por mais romântico que eu seja é preciso admitir que  não há momento no mundo - que não seja entre esses benditos sete jogos - em que aquela súplica de mandar a bola pro mato porque o jogo é de campeonato faça mais sentido. Não me entendam mal. Não estou insinuando que a seleção tem um quê de Corinthians, por mais que o caminho do que se vê tenha sido aberto com o comandante do nosso escrete levando o time do Parque São Jorge a lugares que seus fiéis seguidores quiseram desde sempre chegar. Mas acho que por mais talento que se tenha reunido, e nesse sentido é preciso admitir que o temos em quantidade de fazer inveja a muita gente, a figura de Tite irá se impor e nos ofertar um time cerebral.  O que não é pouca coisa. 

Aos que duvidam é só tentar conter a sanha de criação de uma rapaziada que tenha consciência absoluta de que joga o fino e descobrirá que a missão é ingrata.  No mais não me espanto com o descaso com que o torcedor brasileiro andou encarando esta Copa. Lembro que a anterior começou impressionando logo de cara, ainda que os jogos tenham causado alvoroço mais por questões emocionais do que técnicas propriamente. Mas do jeito que anda o futebol brasileiro as seleções não precisarão fazer exibições magistrais pra nos divertir mais do que tem nos divertido o futebol brasileiro.  Enfim, quem sou eu pra dizer como a seleção tem que jogar, qual é a dose de cuidado que deve administrar em cada situação. Já ficaria bem feliz em ver em campo um time minimamente capaz de manter um estilo independentemente do placar. Quimera? Talvez.  

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Tratado geral sobre o palpite


Que atire a primeira pedra aquele que nunca cometeu o ato. Vá além, confesse que provocado você nunca resistiu. Pode até ter titubeado um pouco ao ser convidado. Mas diante da menor insistência se entregou. E, por favor, não pense em nada mais caliente. Estou falando da nossa mania de palpitar. Um dia alguém irá fazer um tratado sobre o assunto. Um dia o palpiteiro será virado ao avesso como já fizeram com aqueles que se ocupam com a vida os outros. Isso mesmo, não tardará o dia em que esse nosso hábito será dissecado. Algo na linha do que fez  o psiquiatra, José Ângelo Gaiarsa, quarenta anos atrás,  ao escrever um livro que trazia uma análise sociológica, filosófica, histórica e psicológica sobre a fofoca, intitulado de "Tratado geral sobre a Fofoca". 

E terá sido por merecimento porque se há uma face desafiadora no futebol é essa que nos dá a ilusão de achar que é possível saber de antemão o que o jogo de bola nos reserva. Peço desculpas aos de memória privilegiada, estou ciente de que o tema já andou por aqui. Mas é que quanto mais reflito, mais essa questão dos palpites  parece se aprofundar. Minhas últimas reflexões a respeito me levaram a considerar, por exemplo, que pode haver uma maneira de tirar algum proveito de todas as bolas fora que esse tipo de pratica costuma produzir. Vejam. Dias atrás fui convidado a dizer como terminaria o placar do clássico entre Palmeiras e São Paulo. Junto comigo, um campeão do mundo, e dois jornalistas rodados, mas rodados mesmo. Daqueles pra quem o futebol teoricamente não teria muitos segredos. 

Eis que nenhum dos palpiteiros foi capaz de apontar sequer o Palmeiras como vencedor. E nem estou falando de cravar o placar, porque aí seria demais. O Palmeiras jogava em casa, tem um time respeitável, por mais que a torcida ande lhe pegando no pé e, além de tudo, jamais tinha perdido para o tricolor no estádio onde o confronto se daria.  Mas abraçamos fervorosamente a negação. Por essas e outras começo a achar que dever existir uma lógica escondida por trás dessa imprecisão que desde sempre andamos proferindo  sobre o resultado de certas partidas. Sempre defendi que o que mata os profissionais que se colocam nessa situação é lidar muito com o racional, esquecendo de outros fatores. 

Mas a última bola fora me deixou com uma ponta de desconfiança de que profissionais do ramo, ou não, somos todos muito impressionáveis quando o assunto é futebol. Só uma forte impressão justificaria a aposta em bloco num São Paulo que, afinal, se encontra visivelmente em estágio muito menos avançado do que o adversário alviverde. Querer trabalhar com a razão seria a pior tática? Os intuitivos levam alguma vantagem nisso? Os ardorosos estão fadados a não ver o óbvio? Torço pra que não tarde o dia em que um teórico venha a esmiuçar o assunto. Mas não vamos deixar passar a oportunidade, né?  Diga,, por favor, como vai ficar o Corinthians e Santos de hoje à noite. E o clássico entre o poderoso Grêmio e o Palmeiras. Arrisca um palpite?

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Uma indignação imensa

Marcelo Pinto/APlateia

Sábado a tarde a TV mostrava o supra-sumo do futebol mundial. Real Madrid e Liverpool tinham semeado no nosso imaginário a possibilidade de um grande espetáculo, da diversão à vera  com um jogo de bola.  Mas as ruas estavam longe de ter o burburinho de sempre, e não era por causa daquela partida. Havia um país de terceiro mundo parando aos poucos lá fora. E era o nosso país. ​Ver o promissor egípcio, Salah, sair de campo chorando, lesionado, depois de rolar de braço dado com zagueiro Sérgio Ramos pelo gramado trouxe consigo um sentimento de tristeza. O jogo já não era o mesmo e o Brasil, talvez, também não.

O surrealismo que se revelava no enredo daquele confronto que se desenrolava num estádio distante de Kiev parecia transbordar e inundar nossa realidade. Como podia o goleiro do Liverpool ao repor a bola acertar o pé de Benzema dando um gol ao Real Madrid, que parecia tão acuado? Como podia alguém estender uma faixa pedindo intervenção militar no meio daquela caravana de caminhões que eu tinha visto recebendo acenos efusivos das calçadas e que soava cheia de sentido? Aí veio o gol incrível do Bale, o frango bizarro do tal goleiro do time inglês. E a única certeza que eu tinha é que estava diante de um daqueles momentos que se eterniza na gente. Como a morte do Tancredo, o deplorável confisco. 

Só não sabia se era pelo inusitado do jogo ou pela melancolia das notícias que o narrador ia se encarregando de salpicar entre uma jogada e outra que um suave desespero ia se fazendo presente. E o final de semana passou como se fosse um qualquer. Com o céu azul de outono infinitamente mais bonito do que uma final da Champions. Com as crianças construindo seus castelos de areia, vigiadas pelos pais que já não podiam dizer que não sabiam de nada. No final do domingo quando liguei o rádio pra ouvir as notícias do pós-rodada e dei de ouvidos com informes de última hora que  revelavam um governo que se desdobrava - ou dobrava - quis me surpreender. Mas seria inocência demais. 

E me vieram à mente, então, as palavras do lúcido, Eduardo Batista, técnico do Coritiba, nos alertando que  não deveríamos nem pensar em jogo diante de tudo que se descortina diante de nós. E que se hora dessas a bola parar de rolar, se não tiver jogo, não tem problema. Palavras que acusaram a cara de pau de quem anda comandando o que nosso destino tem de comum, o assassinato velado que certos homens púbicos cometem ao se corromper. O título que vai acima também saiu da boca de Eduardo Baptista, bem dito. Entre uma rodada e outra ficamos assim, correndo o risco de descobrir que só tinha nos restado o circo e que não tinham tido competência nem mesmo para nos deixar convictos de  poder comprar o pão. 

Para um povo que tem tanto pra se preocupar, tanto pra conquistar, se o Santos não vence, se o São Paulo está invicto, se o Flamengo ousou tomar pra si o lugar mais nobre da tabela, deve mesmo fazer cada vez menos sentido. Mas os postos voltaram a ter gasolina, embora eu não consiga crer que o Brasil tenha voltado a andar.  

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Chuteira preta, com Nuno Leal Maia

Foto: divulgação


O ator Nuno Leal Maia acaba de gravar a série de TV "Chuteira preta", que tem o futebol como tema. Estará no ar em breve pelo canal Prime Box. Ontem deu ao time do Cartão Verde a honra da visita. Nuno sabe de futebol e, o mais legal, tem um jeito muito original de interpretá-lo. Valeu, Nuno!





Nuno Leal Maia, santista hoje, outrora são -paulino !

Cartão Verde com Nuno Leal Maia (íntegra)


quarta-feira, 23 de maio de 2018

O fator Carille


Faz exatamente uma semana. Você irá se lembrar. A notícia do dia era a proposta milionária que um time da Arábia Saudita faria chegar ao técnico do Corinthians. Fábio Carille estava na Venezuela com o time pra enfrentar o Deportivo Lara. Desfrutava da condição de líder do grupo mas a diferença de apenas um ponto pro segundo colocado dava margem a certas preocupações. Ainda assim falou sobre o assunto, coisa que quem cobre o futebol sabe que a maior parte não faria. E foi claro. Disse que as pessoas que cuidam da carreira dele ainda não tinham lhe passado nada e o que ele sabia é o que a imprensa tinha noticiado por aqui.  Afirmou que estava com a cabeça no jogo e como havia na sequência uma partida pelo Brasileiro muito provavelmente teria algo dizer sobre o tema na segunda-feira. Mas a paciência dele se esgotou antes disso. 


Na coletiva depois do empate com o Sport, com a situação em aberto, disse que grande parte da imprensa mente demais. Se a proposta não tinha chegado como é que já se falava no valor do salário, no valor das luvas, e no tamanho que teria o contrato?  O desencadear dos acontecimentos merece reflexão. Até aí, apesar de toda a grita, não existia mesmo uma proposta oficial. Ela só chegou na última terça e emitida pelo Al-Wehda que nem era o time apontado no início da novela. Se não havia proposta, de onde saíram os números que andaram sendo ditos lá no primeiro dia? As criticas de Fábio Carille à imprensa foram duramente rebatidas. Ele pode ter dito o que disse de modo inapropriado. Mas parece evidente, não a mentira, mas uma certa falta de precisão. E essa parece uma questão muito pertinente diante do ocorrido. 



Não bastasse o trabalho irrepreensível à frente do time corintiano é notório que Carille construiu pra si a imagem de um profissional respeitoso e hábil para lidar com pessoas.  O que dá a esse ruído todo com a imprensa algo de intrigante. Semanas atrás quando encerrava a conversa com ele no programa Cartão Verde fiquei surpreso com a resposta que ele deu ao ser perguntado sobre qual aspecto deveria se aprimorar profissionalmente. Foi enfático. A seguir as palavras ditas por ele: algo que eu tenho que melhorar rapidamente é esse entendimento meu com a imprensa. Não tá fácil, mas tô tentando entender, tô tentando aprender. O que mais me incomoda é o que inventam. E inventam demais, isso é chato. Você tem que ficar respondendo por algo que você não falou, não discutiu em momento algum. 



Depois de tudo que Carille fez e vinha fazendo pelo Corinthians, ver o presidente do clube se mostrar quase indiferente à saída dele beirou o desrespeito. Culpá-lo por algo dito pelo pai dele algo pouco apropriado. Que um time de jornalistas seja mais difícil de domar que um time de futebol não me espanta. Como não me espanta que a imprensa com sua imprecisão tenha de certo modo abreviado a permanência dele no Corinthians. Carille é uma das raras boas surpresas que o futebol brasileiro nos deu nos últimos tempos. Tanto se fala sobre o papel do treinador. Acho que a partida dele pra Arábia é um bom momento pra se refletir sobre a imprensa e sobre o tratamento e a importância que o mundo da bola dá realmente aos treinadores.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Perdendo nas mesas de bar

Bar São Cristovão -Vila Madalena /SP


Outro dia escutei de um interlocutor uma teoria interessante. Travávamos um papo de contorno comum, que transitava entre o desgosto com as coisas de Brasília e o descontentamento com o futebol quando o sujeito me confidenciou que andava desconfiado de ter compreendido a razão de nos últimos tempos o brasileiro ter se entregado com tamanho fervor ao debate político. Fiz de conta que tinha acabado de ouvir algo trivial. Não dei pinta, não demonstrei espanto. Empolgado com a teoria que trazia consigo o homem tratou de ir revelando o que sustentava a descoberta. O que só fez meu interesse aumentar. Nada de muito complexo. O raciocínio era simples. 

Segundo ele a culpa era do futebol. O que temos visto se desenhar entre as quatro linhas está longe de dar caldo.  Foi-se o tempo em que o futebol tinha apelo suficiente pra alimentar conversas substanciosas. Como se não bastasse isso, ao mesmo tempo em que o futebol esfriou a política esquentou. Segundo o teórico que cruzou meu caminho basta um pouco de sensibilidade pra notar que atualmente ouve-se mais gente falando de política nas mesas de bar do que gente disposta a defender o time que escolheu como seu. Confesso, por um instante até me alegrei pois vi ali escondida uma boa notícia: o brasileiro anda mais interessado em política do que nunca. 

Mas fui levado a crer que a razão é outra, questão de instinto. Esse instinto que não nos permite ignorar o que nos ameaça. E diante da linha bem marcada que o técnico Tite trilhou desde que assumiu a seleção nem a recém divulgada lista de convocados terá conseguido mudar a realidade, até porque em termos de dar o que falar a política brasileira anda imbatível. E se o futebol brasileiro não anda gozando de muito prestígio tampouco a Copa do Mundo. Não sei se viram. Uma pesquisa divulgada dias trás mostrou que o desinteresse do brasileiro pela Copa aumentou consideravelmente. 

Em menos de dez anos a porcentagem de brasileiros que não querem nem saber do Mundial saltou de dezoito para quarenta e dois por cento. Ter visto uma Copa pelas entranhas, bem de perto, parece ter nos provocado um bode danado. Mas popular, ou não, a Copa está aí. Gosto, acima de tudo, da legitimidade que cerca a figura de Tite. Afinal, somos um país prodigo em consagrar ilegítimos. E quem sabe o time do Seo Adenor não consiga fazer o que nosso futebol por ora não tem conseguido: reconquistar o espaço perdido nos papos travados nas mesas de bar.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

O futuro é logo ali

The Argus - Roger Dean*



Você abre o seu jornal, agora no smartphone mesmo. Já faz algum tempo deixou de ler a edição impressa que lhe tomava um espaço danado na mesa e ainda exigia certa habilidade no trato com as páginas. Coisa que seu avô e seu pai faziam com maestria, mas uma arte que você no fundo sabe que nunca dominou. E essa limitação ainda lhe era literalmente jogada na cara toda vez que ainda insistia em abrir o jornal em uma manhã qualquer  quando o vento soprava com alguma valentia. Nas mãos do pai não. A vida não lhe deixa esquecer. A intimidade do velho com as folhas era tamanha que nas mãos dele pareciam imunes ao vento. 

Pequenas provas de que o tempo passou. Só na CBF as coisas permanecem as mesmas. A entidade ainda é presidida por Rogério Caboclo elegido por Del Nero pouco antes de a FIFA decretar o banimento dele do futebol para todo o sempre. A idade lhe fez indiferente a muitas coisas mas não conseguiu aniquilar seu interesse pelo jogo de bola. Por isso você adiantou as tarefas do dia. Chegou em casa mais cedo e agora está prestes a ver a mais nova criação da FIFA, essa espécie de Mini Copa. Oito seleções tiradas de um também recém criado torneio de nações que prometem divertir-lhe pelas próximas duas semanas.

No fundo o que espanta é como tudo foi feito a passos largos. Não faz muito tempo nem se cogitava mover as peças do futebol mundial de modo que a Copa pudesse ter seu papel minimamente ofuscado. Mas o que é que não se faz nessa vida por míseros 25 bilhões de dólares. Os poderosos do mundo árabe que um dia compraram os direitos da seleção brasileira, depois garantiram uma Copa no Qatar, não iriam mesmo parar por aí. Até porque nunca lhes faltou dinheiro pra comprar o mundo. Fato é que este outubro de 2021 soa futurista como nem mesmo os carros elétricos que prometiam inundar as ruas conseguiriam ser. 

Antes que soe o apito você se apressa em abrir sua cerveja vegana. Sabe-se lá o que é isso. Mas foi prometendo ser exatamente isso que ela lhe foi vendida e foi por isso que você se deixou seduzir por ela. Agora todo ano ímpar será assim. Essa tal Final 8, uma espécie de fase final do tal torneio de nações engolirá polpudas cifras da mídia e lhe condenará a assistir uns dez minutos de comercias antes que os pretensos melhores times do mundo desfilem suas capacidades raras na tela sensível ao toque de sua TV muito pra lá de Smart. Você envelheceu. E como dizia um antigo slogan da Coca Cola: é isso aí. Agora, o mundo é exatamente isso aí. Só faltava você querer que ele fosse o mesmo depois que a Copa do Mundo deixou de ser algo sagrado.   



* Roger Dean, ilustrador inglês, famoso por seus trabalhos para bandas, como Yes.  

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Don Andrés, um craque


A final da Copa do Rei semanas atrás serviu não só para afirmar a hegemonia do Barcelona na competição mas, principalmente, para tornar mais evidente o tamanho de Andrés Iniesta. Nada a ver com o gol bonito marcado por ele. Falo de algo que está infinitamente além de se marcar, ou não marcar, um gol desses que costumam fazer os gritos da torcida se misturarem ao som abafado que nasce com as expressões de espanto. Na ocasião, melhor do que vê-lo colocar a bola na rede suavemente, como se fosse um Coutinho, foi vê-lo se movimentar em campo construindo as tramas que levaram os companheiros dele a viverem também a alegria do gol.  É de impressionar a noção de espaço, o deslocamento extremamente correto, a velocidade impressa em cada movimento com precisão ímpar. Depois de tudo isso a imagem do oponente tendo de ir buscar a bola na  própria meta é só o ato final que faz soar como trovão a letalidade do que esse artista da bola é capaz. 

Na última sexta, Don Andrés, como os companheiros o chamam, chorou ao anunciar em entrevista coletiva que a temporada que está chegando ao fim será a última dele no Barcelona, onde não custa lembrar, está desde que era uma promessa das categorias de base. Não confirmou que seu destino será o futebol chinês como dizem por aí. Na minha concepção das coisas Iniesta é tão grande, tão significativo, tão superior, que deveria permanecer no clube até o fim. Passou lá vinte e dois dos trinta e três anos que tem de vida. Mas há sempre o dinheiro para justificar outros caminhos. Iniesta que no final de semana conquistou um título espanhol com o time catalão sem ter sofrido uma única derrota oferece como legado também a certeza de que craques de verdade não deixam espaço pra dúvidas. 

Outro de sua estirpe é Zidane, por exemplo. Por mais que tenha errado na ocasião, o considero um jogador que conseguiu ser elegante até na hora de dar aquela famosa cabeçada em Materazzi. Só um maluco seria capaz de questionar a condição de craque desse francês de origem argelina. O mesmo poderia ser dito de um jogador como o italiano Pirlo. Mas o mundo do futebol e seus rótulos, que servem de combustível para vender camisas e reforçar marcas, cometeu o desaforo de não ter dado até hoje a Iniesta, que é simplesmente o jogador espanhol com maior número de títulos da história, uma única coroação dessas individuais. Talvez lhe venham com uma tardia. Mas Iniesta está acima disso, como todo grande jogador. Como diz a música " O Craque", de Vicente Barreto e Celso Viáfora: muita mídia pode ser o céu/muita pode ser o breu / Muita mídia pode ser você virar patê.




quinta-feira, 26 de abril de 2018

Que futebol é esse ?


Duas rodadas podem não ser suficientes para saber o que nos reserva o recém iniciado Brasileirão. Mas deu de sobra para os corintianos exercitarem aquele sarrinho que eles vêm tirando da cara dos adversários já faz um bom tempo. Os cem por cento de aproveitamento do time de Carille fez botar manchetes perguntando, por exemplo, se era o caso de os rivais começarem a temer nova arrancada corintiana. Mas como assim? Se não me falha a memória desde meados do ano passado a crônica esportiva dizia em uníssono que o que se viu no primeiro turno do Brasileirão do ano passado não se repetiria. Gostaria de ficar intrigado com esse temor mas infelizmente não tenho inocência pra isso. Adiantar essa possibilidade não deixa de ser uma maneira de se precaver caso o futebol venha - mais uma vez - a ser cruel o suficiente para nos colocar diante de uma realidade pouco provável. O que, não devemos esquecer, é sua maior virtude. A que eu mais aprecio pelo menos. 


E é bonito ver que o jogo não se cansa de jogar na nossa cara de que deveria constar da cartilha de qualquer analista - os que versam sobre política e economia aí incluídos - um certo cuidado para tratar de modo distinto o improvável do impossível. Aliás, o improvável no caso corintiano não está só nisso. Está também no fato de Carille ter feito do Corinthians um time competitivo mesmo depois de ter perdido jogadores essenciais na última conquista nacional do clube. Assim como soava improvável que conseguiria acertar tanto o time a ponto de fazer muito torcedor duvidar de que o recém chegado atacante Roger terá facilidade em encontrar um lugar entre os mais mais do treinador corintiano. E é lindo ver o futebol driblando obviedades. 


Vejam o caso do Barcelona. Invicto no Espanhol e na iminência de ganhar o título registra a pior média de público das últimas dez temporadas. Desconfio que a torcida do time catalão morra de amores mesmo por outra Liga, a dos campeões da UEFA. Um sentimento meio parecido com o que se dá por aqui quando o torcedor faz da Libertadores, e não do Brasileirão, seu grande sonho de conquista. Mas o paraíso do mundo da bola não pertence só aos nobres e abastados e isso é tão bonito quanto essa veia indomável do jogo de bola. Está aí a centenária Portuguesa Santista com seu retorno à segunda divisão do futebol paulista pra provar. Às vezes, olho o mundo de glamour em que o futebol está inserido e não consigo ter certeza de que ele seja garantia de que o futebol sobreviverá, mas quando vejo a arquibancada de Ulrico Mursa sacudir me fogem as dúvidas. Que futebol é esse? 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dia Mundial do livro


Stoner, de John Williams, foi o livro mais impactante que li recentemente. Realmente, como diz uma observação que consta da obra, é incrível notar como uma história aparentemente sem grandes apelos pode se agigantar traduzida pela sensibilidade de um autor de respeito. O livro mexeu tanto comigo que depois de encerrada a leitura o deixei um bom tempo à vista acreditando que de algum modo serviria de inspiração. Gostava de dar de cara com ele, renovava o prazer que tinha tido na leitura.    

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Qual é a graça?

Não tenho um diagnóstico. Caso tivesse um solidamente embasado poderia me considerar um iluminado. Não é o caso. Futebol é terreno que costuma ter a densidade da areia movediça para certas conclusões. Qualidade que de tão impiedosa desconfio anda tragando, inclusive, o que tem brotado com ares de ciência exata do mundo tecnológico e científico que ganha cada vez mais espaço e atenção daqueles que tem a missão de estudar o futebol. A única certeza que carrego comigo é que as peladas travadas por aqui com carimbo profissional andam pálidas. A graça do jogo de bola míngua a olhos vistos.  

O que pode ser comprovado empiricamente. Basta pra isso provocar o assunto no meio de um bate papo qualquer com os amigos. Os lamentos nesse sentido não tardarão. Façam o experimento. Pra diminuir a margem de erro e calibrar o resultado da pesquisa procure torcedores cujos times andam um tanto à margem de conquistas de alguma expressão. Não é por nada. É que torcedores que flertam com grandes conquistas tendem a misturar um pouco a emoção de um grande triunfo com a emoção do jogo. Não os culpo. Diante dessa nossa realidade pobre garantir o direito de tirar um sarro com os rivais jamais será pouco. 

Outro dia recebi de um leitor interessado uma teoria que procurava elucidar de onde tem vindo tamanha modorra. Gostei do que li. Em linhas gerais a teoria descrita sugere é que temos uma deficiência absurda na execução do passe. O velho problema dos fundamentos, que realmente parece fazer cada vez mais sentido. Segundo o autor da reflexão, Reinaldo Neto, outra questão é que nossos jogadores estão longe de entender a necessidade da plena movimentação em campo. Sem bons fundamentos e limitados pelas poucas opções de fazer o jogo andar, já que os companheiros se movimentam menos do que o ideal, acabam ficando com a bola quase que o dobro do tempo de um time de ponta europeu. Tudo isso torna o trabalho das defesas infinitamente mais fácil, pois passam a ter um tempo considerável pra se reposicionar. O que não explica tudo. 

Mas acho interessante quando alguém se debruça sobre o que vê tentando entender o que se passa. Não me entendam mal, não sou um pessimista sou um jornalista tentando interpretar o que vejo. Seria muito bom entre uma conversa e outra dar de cara pelo caminho com alguém que afirmasse que hoje em dia gosta mais de futebol do que gostava antigamente. De minha parte, vos digo, isso me deixaria muito surpreso. Enquanto não encontro esse sujeito, concluo que a ausência dele é a grande prova da minha humilde teoria: o futebol brasileiro precisa urgentemente de uma dose de graça.    

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Vestir a camisa



Poucas vezes escrevi com tamanha certeza de provocar melindres. Mas como não há salvação para jornalistas temerosos de melindres que venha a fogueira. De qualquer forma quero crer que o que vai aqui contribua de alguma forma para nos dar a dimensão de certos símbolos e que sirva também como reflexão.Desde que o país começou a arder tem me causado imenso desconforto dar de cara com gente nas ruas pedindo um Brasil diferente desse que herdamos trajando a camisa da nossa seleção de futebol. 


Mas reconheço algo de nobre escondido nessa situação. Ela nos revela também, com clareza absoluta, a dimensão daquilo que a CBF tomou pra si. Sou até capaz de lidar com a constatação de que o futebol tem dono e ponto final. Mas sonho o suficiente para defender que um time que joga em nome de todo um povo seja tratado de maneira mais cuidadosa, pra dizer o mínimo. O que se vê, de qualquer modo, é que ainda que o jogo culturalmente já não tenha o apelo e o alcance que teve em outros tempos segue nos ofertando um signo poderoso, um signo catalisador, que nosso povo transformou em algo tão expressivo quanto nossa bandeira. 



É claro, o amarelo faz todo sentido, como faria o verde e, em última instância, o azul,  sempre menos lembrado. Ah, as instâncias. Mas ao mesmo tempo em que se veste assim, de Brasil, o cidadão acaba por carregar no peito a imagem de uma Confederação que não teria lugar nessa nação que ele sonha. Porque se Tite nos deu algum horizonte e fez o torcedor brasileiro se aproximar da Copa que vem aí se sentindo capaz de encarar o mundo, no avesso nosso futebol ainda espelha um país de coronéis. Mas a cartolagem nunca dormiu no ponto. 



Tratou de cuidar das aparências, do linguajar, de enriquecer também o próprio vocabulário. Hoje em dia o que mais gosta é de alardear aos quatro ventos seu finíssimo compliance. Mas não se enganem, o futebol brasileiro nas entranhas nada tem de novo. Ainda muda as regras do jogo como bem entende, ainda altera o valor do voto dos que compõem seu colégio eleitoral, ainda empodera seu quadro de funcionários empregando políticos, ainda contrata gente na surdina. E mesmo quando a situação de um dos seus poderosos fica insustentável depende da FIFA para lhe dar um cartão vermelho. Não deixo de considerar que esse vestir a camisa  se dê assim quase por instinto. Vá lá. Mas se escrevo sobre isso é porque acredito, depois de matutar um bocado, que muitos acabem concordando comigo. Estou convencido de que exista um sem fim de trajes mais apropriados para a ocasião. 

terça-feira, 10 de abril de 2018

Guardiola, o diferente




"É um prazer treinar esta equipe. Fiquei satisfeito por termos perdido da forma como perdemos. Não gosto de perder e estou triste porque queríamos ser campeões. Mas a forma como jogamos foi incrível. Estou muito feliz. Não posso ter qualquer tipo de reprovação"


Palavras do técnico do Manchester City sobre a virada que o time dele sofreu para o Manchester United. Detalhe: o City vencia por dois a zero e foi derrotado por três a dois.

 

quinta-feira, 5 de abril de 2018

A Academia e o artilheiro


No domingo Palmeiras e Corinthians ficarão frente a frente em derradeiro embate. Em jogo estará o título paulista deste ano. Sem exagerar na milonga - pois desde o momento em que batuco estas linhas muita água passará embaixo da ponte - digo que a situação está complicada pro lado dos corintianos. Como se não bastasse o resultado adverso em casa, ter de jogar a partida de volta fora e encarar um adversário cujo cofre o fez rico de possibilidades para levar a campo, Claison a meu ver fará muito mais falta ao time de Carille do que Felipe Melo ao time comandado por Roger machado. 

A confusão que gerou a expulsão dos dois de tão lamentável nem merece maiores citações. Um tipo de ladainha encenada que só nos mostra com mais clareza o comportamento baixo de alguns. Os de sempre, aliás. Mas para o torcedor, que sempre terá legitimidade ao colocar a paixão acima da razão, nada está decidido. Palmeirenses roerão as unhas esperando que o futebol não os assombre com sua veia sobrenatural, enquanto corintianos estarão mais apegados do que nunca ao dito de que o jogo só termina depois do apito. E nesse sentido andam com a fé renovada depois de terem visto tudo o que viram acontecer nas  semifinais. 

Favas contadas é ver o colombiano Borja, com seus sete gols, a um passo de se tornar artilheiro do torneio. Nada nada entrará em uma galeria onde figuram nomes como Pelé, Toninho Guerreiro, Sócrates, Careca e por aí vai. Só não chegará lá se o zagueiro Balbuena ou o meia Jadson, que têm três gols cada, forem muito além do que pode ser chamado de sobrenatural. Nos últimos dias os números de Borja andaram estampados em vários cadernos de esportes. Comprado por trinta e três milhões de reais depois de só não ter feito chover quando enfrentou o São Paulo nas semifinais da Libertadores em 2016, o atacante esteve longe de mostrar um futebol do tamanho da transação que o trouxe para a Academia do Palmeiras. 

Ano passado foi a campo  quarenta e três vezes e cruzou a fronteira para a temporada atual carregando módicos dez gols. Números que se levados à média não são de empolgar. Mas em 2018 fez essa média triplicar e ainda a temperou com um gol marcado no Júnior Barranquilha na estreia do Palmeiras na Libertadores e outro na terça contra o Alianza. Borja foi uma aposta alta. Quando chegou, tirando o modesto Cortuluá e o Santa Fé, não tinha chegado a trinta partidas por nenhum clube. Na Academia não demora e alcançará a de número sessenta. É claro, se já tivesse se provado não estaria brigando, teria lugar garantido na seleção colombiana. Não é o caso. Mas Borja nunca teve tanto a ver com o time que defende. Ele e o Palmeiras neste momento dão toda pinta de que vão virar. Será?