quarta-feira, 23 de maio de 2018

O fator Carille


Faz exatamente uma semana. Você irá se lembrar. A notícia do dia era a proposta milionária que um time da Arábia Saudita faria chegar ao técnico do Corinthians. Fábio Carille estava na Venezuela com o time pra enfrentar o Deportivo Lara. Desfrutava da condição de líder do grupo mas a diferença de apenas um ponto pro segundo colocado dava margem a certas preocupações. Ainda assim falou sobre o assunto, coisa que quem cobre o futebol sabe que a maior parte não faria. E foi claro. Disse que as pessoas que cuidam da carreira dele ainda não tinham lhe passado nada e o que ele sabia é o que a imprensa tinha noticiado por aqui.  Afirmou que estava com a cabeça no jogo e como havia na sequência uma partida pelo Brasileiro muito provavelmente teria algo dizer sobre o tema na segunda-feira. Mas a paciência dele se esgotou antes disso. 


Na coletiva depois do empate com o Sport, com a situação em aberto, disse que grande parte da imprensa mente demais. Se a proposta não tinha chegado como é que já se falava no valor do salário, no valor das luvas, e no tamanho que teria o contrato?  O desencadear dos acontecimentos merece reflexão. Até aí, apesar de toda a grita, não existia mesmo uma proposta oficial. Ela só chegou na última terça e emitida pelo Al-Wehda que nem era o time apontado no início da novela. Se não havia proposta, de onde saíram os números que andaram sendo ditos lá no primeiro dia? As criticas de Fábio Carille à imprensa foram duramente rebatidas. Ele pode ter dito o que disse de modo inapropriado. Mas parece evidente, não a mentira, mas uma certa falta de precisão. E essa parece uma questão muito pertinente diante do ocorrido. 



Não bastasse o trabalho irrepreensível à frente do time corintiano é notório que Carille construiu pra si a imagem de um profissional respeitoso e hábil para lidar com pessoas.  O que dá a esse ruído todo com a imprensa algo de intrigante. Semanas atrás quando encerrava a conversa com ele no programa Cartão Verde fiquei surpreso com a resposta que ele deu ao ser perguntado sobre qual aspecto deveria se aprimorar profissionalmente. Foi enfático. A seguir as palavras ditas por ele: algo que eu tenho que melhorar rapidamente é esse entendimento meu com a imprensa. Não tá fácil, mas tô tentando entender, tô tentando aprender. O que mais me incomoda é o que inventam. E inventam demais, isso é chato. Você tem que ficar respondendo por algo que você não falou, não discutiu em momento algum. 



Depois de tudo que Carille fez e vinha fazendo pelo Corinthians, ver o presidente do clube se mostrar quase indiferente à saída dele beirou o desrespeito. Culpá-lo por algo dito pelo pai dele algo pouco apropriado. Que um time de jornalistas seja mais difícil de domar que um time de futebol não me espanta. Como não me espanta que a imprensa com sua imprecisão tenha de certo modo abreviado a permanência dele no Corinthians. Carille é uma das raras boas surpresas que o futebol brasileiro nos deu nos últimos tempos. Tanto se fala sobre o papel do treinador. Acho que a partida dele pra Arábia é um bom momento pra se refletir sobre a imprensa e sobre o tratamento e a importância que o mundo da bola dá realmente aos treinadores.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Perdendo nas mesas de bar

Bar São Cristovão -Vila Madalena /SP


Outro dia escutei de um interlocutor uma teoria interessante. Travávamos um papo de contorno comum, que transitava entre o desgosto com as coisas de Brasília e o descontentamento com o futebol quando o sujeito me confidenciou que andava desconfiado de ter compreendido a razão de nos últimos tempos o brasileiro ter se entregado com tamanho fervor ao debate político. Fiz de conta que tinha acabado de ouvir algo trivial. Não dei pinta, não demonstrei espanto. Empolgado com a teoria que trazia consigo o homem tratou de ir revelando o que sustentava a descoberta. O que só fez meu interesse aumentar. Nada de muito complexo. O raciocínio era simples. 

Segundo ele a culpa era do futebol. O que temos visto se desenhar entre as quatro linhas está longe de dar caldo.  Foi-se o tempo em que o futebol tinha apelo suficiente pra alimentar conversas substanciosas. Como se não bastasse isso, ao mesmo tempo em que o futebol esfriou a política esquentou. Segundo o teórico que cruzou meu caminho basta um pouco de sensibilidade pra notar que atualmente ouve-se mais gente falando de política nas mesas de bar do que gente disposta a defender o time que escolheu como seu. Confesso, por um instante até me alegrei pois vi ali escondida uma boa notícia: o brasileiro anda mais interessado em política do que nunca. 

Mas fui levado a crer que a razão é outra, questão de instinto. Esse instinto que não nos permite ignorar o que nos ameaça. E diante da linha bem marcada que o técnico Tite trilhou desde que assumiu a seleção nem a recém divulgada lista de convocados terá conseguido mudar a realidade, até porque em termos de dar o que falar a política brasileira anda imbatível. E se o futebol brasileiro não anda gozando de muito prestígio tampouco a Copa do Mundo. Não sei se viram. Uma pesquisa divulgada dias trás mostrou que o desinteresse do brasileiro pela Copa aumentou consideravelmente. 

Em menos de dez anos a porcentagem de brasileiros que não querem nem saber do Mundial saltou de dezoito para quarenta e dois por cento. Ter visto uma Copa pelas entranhas, bem de perto, parece ter nos provocado um bode danado. Mas popular, ou não, a Copa está aí. Gosto, acima de tudo, da legitimidade que cerca a figura de Tite. Afinal, somos um país prodigo em consagrar ilegítimos. E quem sabe o time do Seo Adenor não consiga fazer o que nosso futebol por ora não tem conseguido: reconquistar o espaço perdido nos papos travados nas mesas de bar.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

O futuro é logo ali

The Argus - Roger Dean*



Você abre o seu jornal, agora no smartphone mesmo. Já faz algum tempo deixou de ler a edição impressa que lhe tomava um espaço danado na mesa e ainda exigia certa habilidade no trato com as páginas. Coisa que seu avô e seu pai faziam com maestria, mas uma arte que você no fundo sabe que nunca dominou. E essa limitação ainda lhe era literalmente jogada na cara toda vez que ainda insistia em abrir o jornal em uma manhã qualquer  quando o vento soprava com alguma valentia. Nas mãos do pai não. A vida não lhe deixa esquecer. A intimidade do velho com as folhas era tamanha que nas mãos dele pareciam imunes ao vento. 

Pequenas provas de que o tempo passou. Só na CBF as coisas permanecem as mesmas. A entidade ainda é presidida por Rogério Caboclo elegido por Del Nero pouco antes de a FIFA decretar o banimento dele do futebol para todo o sempre. A idade lhe fez indiferente a muitas coisas mas não conseguiu aniquilar seu interesse pelo jogo de bola. Por isso você adiantou as tarefas do dia. Chegou em casa mais cedo e agora está prestes a ver a mais nova criação da FIFA, essa espécie de Mini Copa. Oito seleções tiradas de um também recém criado torneio de nações que prometem divertir-lhe pelas próximas duas semanas.

No fundo o que espanta é como tudo foi feito a passos largos. Não faz muito tempo nem se cogitava mover as peças do futebol mundial de modo que a Copa pudesse ter seu papel minimamente ofuscado. Mas o que é que não se faz nessa vida por míseros 25 bilhões de dólares. Os poderosos do mundo árabe que um dia compraram os direitos da seleção brasileira, depois garantiram uma Copa no Qatar, não iriam mesmo parar por aí. Até porque nunca lhes faltou dinheiro pra comprar o mundo. Fato é que este outubro de 2021 soa futurista como nem mesmo os carros elétricos que prometiam inundar as ruas conseguiriam ser. 

Antes que soe o apito você se apressa em abrir sua cerveja vegana. Sabe-se lá o que é isso. Mas foi prometendo ser exatamente isso que ela lhe foi vendida e foi por isso que você se deixou seduzir por ela. Agora todo ano ímpar será assim. Essa tal Final 8, uma espécie de fase final do tal torneio de nações engolirá polpudas cifras da mídia e lhe condenará a assistir uns dez minutos de comercias antes que os pretensos melhores times do mundo desfilem suas capacidades raras na tela sensível ao toque de sua TV muito pra lá de Smart. Você envelheceu. E como dizia um antigo slogan da Coca Cola: é isso aí. Agora, o mundo é exatamente isso aí. Só faltava você querer que ele fosse o mesmo depois que a Copa do Mundo deixou de ser algo sagrado.   



* Roger Dean, ilustrador inglês, famoso por seus trabalhos para bandas, como Yes.  

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Don Andrés, um craque


A final da Copa do Rei semanas atrás serviu não só para afirmar a hegemonia do Barcelona na competição mas, principalmente, para tornar mais evidente o tamanho de Andrés Iniesta. Nada a ver com o gol bonito marcado por ele. Falo de algo que está infinitamente além de se marcar, ou não marcar, um gol desses que costumam fazer os gritos da torcida se misturarem ao som abafado que nasce com as expressões de espanto. Na ocasião, melhor do que vê-lo colocar a bola na rede suavemente, como se fosse um Coutinho, foi vê-lo se movimentar em campo construindo as tramas que levaram os companheiros dele a viverem também a alegria do gol.  É de impressionar a noção de espaço, o deslocamento extremamente correto, a velocidade impressa em cada movimento com precisão ímpar. Depois de tudo isso a imagem do oponente tendo de ir buscar a bola na  própria meta é só o ato final que faz soar como trovão a letalidade do que esse artista da bola é capaz. 

Na última sexta, Don Andrés, como os companheiros o chamam, chorou ao anunciar em entrevista coletiva que a temporada que está chegando ao fim será a última dele no Barcelona, onde não custa lembrar, está desde que era uma promessa das categorias de base. Não confirmou que seu destino será o futebol chinês como dizem por aí. Na minha concepção das coisas Iniesta é tão grande, tão significativo, tão superior, que deveria permanecer no clube até o fim. Passou lá vinte e dois dos trinta e três anos que tem de vida. Mas há sempre o dinheiro para justificar outros caminhos. Iniesta que no final de semana conquistou um título espanhol com o time catalão sem ter sofrido uma única derrota oferece como legado também a certeza de que craques de verdade não deixam espaço pra dúvidas. 

Outro de sua estirpe é Zidane, por exemplo. Por mais que tenha errado na ocasião, o considero um jogador que conseguiu ser elegante até na hora de dar aquela famosa cabeçada em Materazzi. Só um maluco seria capaz de questionar a condição de craque desse francês de origem argelina. O mesmo poderia ser dito de um jogador como o italiano Pirlo. Mas o mundo do futebol e seus rótulos, que servem de combustível para vender camisas e reforçar marcas, cometeu o desaforo de não ter dado até hoje a Iniesta, que é simplesmente o jogador espanhol com maior número de títulos da história, uma única coroação dessas individuais. Talvez lhe venham com uma tardia. Mas Iniesta está acima disso, como todo grande jogador. Como diz a música " O Craque", de Vicente Barreto e Celso Viáfora: muita mídia pode ser o céu/muita pode ser o breu / Muita mídia pode ser você virar patê.




quinta-feira, 26 de abril de 2018

Que futebol é esse ?


Duas rodadas podem não ser suficientes para saber o que nos reserva o recém iniciado Brasileirão. Mas deu de sobra para os corintianos exercitarem aquele sarrinho que eles vêm tirando da cara dos adversários já faz um bom tempo. Os cem por cento de aproveitamento do time de Carille fez botar manchetes perguntando, por exemplo, se era o caso de os rivais começarem a temer nova arrancada corintiana. Mas como assim? Se não me falha a memória desde meados do ano passado a crônica esportiva dizia em uníssono que o que se viu no primeiro turno do Brasileirão do ano passado não se repetiria. Gostaria de ficar intrigado com esse temor mas infelizmente não tenho inocência pra isso. Adiantar essa possibilidade não deixa de ser uma maneira de se precaver caso o futebol venha - mais uma vez - a ser cruel o suficiente para nos colocar diante de uma realidade pouco provável. O que, não devemos esquecer, é sua maior virtude. A que eu mais aprecio pelo menos. 


E é bonito ver que o jogo não se cansa de jogar na nossa cara de que deveria constar da cartilha de qualquer analista - os que versam sobre política e economia aí incluídos - um certo cuidado para tratar de modo distinto o improvável do impossível. Aliás, o improvável no caso corintiano não está só nisso. Está também no fato de Carille ter feito do Corinthians um time competitivo mesmo depois de ter perdido jogadores essenciais na última conquista nacional do clube. Assim como soava improvável que conseguiria acertar tanto o time a ponto de fazer muito torcedor duvidar de que o recém chegado atacante Roger terá facilidade em encontrar um lugar entre os mais mais do treinador corintiano. E é lindo ver o futebol driblando obviedades. 


Vejam o caso do Barcelona. Invicto no Espanhol e na iminência de ganhar o título registra a pior média de público das últimas dez temporadas. Desconfio que a torcida do time catalão morra de amores mesmo por outra Liga, a dos campeões da UEFA. Um sentimento meio parecido com o que se dá por aqui quando o torcedor faz da Libertadores, e não do Brasileirão, seu grande sonho de conquista. Mas o paraíso do mundo da bola não pertence só aos nobres e abastados e isso é tão bonito quanto essa veia indomável do jogo de bola. Está aí a centenária Portuguesa Santista com seu retorno à segunda divisão do futebol paulista pra provar. Às vezes, olho o mundo de glamour em que o futebol está inserido e não consigo ter certeza de que ele seja garantia de que o futebol sobreviverá, mas quando vejo a arquibancada de Ulrico Mursa sacudir me fogem as dúvidas. Que futebol é esse? 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dia Mundial do livro


Stoner, de John Williams, foi o livro mais impactante que li recentemente. Realmente, como diz uma observação que consta da obra, é incrível notar como uma história aparentemente sem grandes apelos pode se agigantar traduzida pela sensibilidade de um autor de respeito. O livro mexeu tanto comigo que depois de encerrada a leitura o deixei um bom tempo à vista acreditando que de algum modo serviria de inspiração. Gostava de dar de cara com ele, renovava o prazer que tinha tido na leitura.    

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Qual é a graça?

Não tenho um diagnóstico. Caso tivesse um solidamente embasado poderia me considerar um iluminado. Não é o caso. Futebol é terreno que costuma ter a densidade da areia movediça para certas conclusões. Qualidade que de tão impiedosa desconfio anda tragando, inclusive, o que tem brotado com ares de ciência exata do mundo tecnológico e científico que ganha cada vez mais espaço e atenção daqueles que tem a missão de estudar o futebol. A única certeza que carrego comigo é que as peladas travadas por aqui com carimbo profissional andam pálidas. A graça do jogo de bola míngua a olhos vistos.  

O que pode ser comprovado empiricamente. Basta pra isso provocar o assunto no meio de um bate papo qualquer com os amigos. Os lamentos nesse sentido não tardarão. Façam o experimento. Pra diminuir a margem de erro e calibrar o resultado da pesquisa procure torcedores cujos times andam um tanto à margem de conquistas de alguma expressão. Não é por nada. É que torcedores que flertam com grandes conquistas tendem a misturar um pouco a emoção de um grande triunfo com a emoção do jogo. Não os culpo. Diante dessa nossa realidade pobre garantir o direito de tirar um sarro com os rivais jamais será pouco. 

Outro dia recebi de um leitor interessado uma teoria que procurava elucidar de onde tem vindo tamanha modorra. Gostei do que li. Em linhas gerais a teoria descrita sugere é que temos uma deficiência absurda na execução do passe. O velho problema dos fundamentos, que realmente parece fazer cada vez mais sentido. Segundo o autor da reflexão, Reinaldo Neto, outra questão é que nossos jogadores estão longe de entender a necessidade da plena movimentação em campo. Sem bons fundamentos e limitados pelas poucas opções de fazer o jogo andar, já que os companheiros se movimentam menos do que o ideal, acabam ficando com a bola quase que o dobro do tempo de um time de ponta europeu. Tudo isso torna o trabalho das defesas infinitamente mais fácil, pois passam a ter um tempo considerável pra se reposicionar. O que não explica tudo. 

Mas acho interessante quando alguém se debruça sobre o que vê tentando entender o que se passa. Não me entendam mal, não sou um pessimista sou um jornalista tentando interpretar o que vejo. Seria muito bom entre uma conversa e outra dar de cara pelo caminho com alguém que afirmasse que hoje em dia gosta mais de futebol do que gostava antigamente. De minha parte, vos digo, isso me deixaria muito surpreso. Enquanto não encontro esse sujeito, concluo que a ausência dele é a grande prova da minha humilde teoria: o futebol brasileiro precisa urgentemente de uma dose de graça.    

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Vestir a camisa



Poucas vezes escrevi com tamanha certeza de provocar melindres. Mas como não há salvação para jornalistas temerosos de melindres que venha a fogueira. De qualquer forma quero crer que o que vai aqui contribua de alguma forma para nos dar a dimensão de certos símbolos e que sirva também como reflexão.Desde que o país começou a arder tem me causado imenso desconforto dar de cara com gente nas ruas pedindo um Brasil diferente desse que herdamos trajando a camisa da nossa seleção de futebol. 


Mas reconheço algo de nobre escondido nessa situação. Ela nos revela também, com clareza absoluta, a dimensão daquilo que a CBF tomou pra si. Sou até capaz de lidar com a constatação de que o futebol tem dono e ponto final. Mas sonho o suficiente para defender que um time que joga em nome de todo um povo seja tratado de maneira mais cuidadosa, pra dizer o mínimo. O que se vê, de qualquer modo, é que ainda que o jogo culturalmente já não tenha o apelo e o alcance que teve em outros tempos segue nos ofertando um signo poderoso, um signo catalisador, que nosso povo transformou em algo tão expressivo quanto nossa bandeira. 



É claro, o amarelo faz todo sentido, como faria o verde e, em última instância, o azul,  sempre menos lembrado. Ah, as instâncias. Mas ao mesmo tempo em que se veste assim, de Brasil, o cidadão acaba por carregar no peito a imagem de uma Confederação que não teria lugar nessa nação que ele sonha. Porque se Tite nos deu algum horizonte e fez o torcedor brasileiro se aproximar da Copa que vem aí se sentindo capaz de encarar o mundo, no avesso nosso futebol ainda espelha um país de coronéis. Mas a cartolagem nunca dormiu no ponto. 



Tratou de cuidar das aparências, do linguajar, de enriquecer também o próprio vocabulário. Hoje em dia o que mais gosta é de alardear aos quatro ventos seu finíssimo compliance. Mas não se enganem, o futebol brasileiro nas entranhas nada tem de novo. Ainda muda as regras do jogo como bem entende, ainda altera o valor do voto dos que compõem seu colégio eleitoral, ainda empodera seu quadro de funcionários empregando políticos, ainda contrata gente na surdina. E mesmo quando a situação de um dos seus poderosos fica insustentável depende da FIFA para lhe dar um cartão vermelho. Não deixo de considerar que esse vestir a camisa  se dê assim quase por instinto. Vá lá. Mas se escrevo sobre isso é porque acredito, depois de matutar um bocado, que muitos acabem concordando comigo. Estou convencido de que exista um sem fim de trajes mais apropriados para a ocasião. 

terça-feira, 10 de abril de 2018

Guardiola, o diferente




"É um prazer treinar esta equipe. Fiquei satisfeito por termos perdido da forma como perdemos. Não gosto de perder e estou triste porque queríamos ser campeões. Mas a forma como jogamos foi incrível. Estou muito feliz. Não posso ter qualquer tipo de reprovação"


Palavras do técnico do Manchester City sobre a virada que o time dele sofreu para o Manchester United. Detalhe: o City vencia por dois a zero e foi derrotado por três a dois.

 

quinta-feira, 5 de abril de 2018

A Academia e o artilheiro


No domingo Palmeiras e Corinthians ficarão frente a frente em derradeiro embate. Em jogo estará o título paulista deste ano. Sem exagerar na milonga - pois desde o momento em que batuco estas linhas muita água passará embaixo da ponte - digo que a situação está complicada pro lado dos corintianos. Como se não bastasse o resultado adverso em casa, ter de jogar a partida de volta fora e encarar um adversário cujo cofre o fez rico de possibilidades para levar a campo, Claison a meu ver fará muito mais falta ao time de Carille do que Felipe Melo ao time comandado por Roger machado. 

A confusão que gerou a expulsão dos dois de tão lamentável nem merece maiores citações. Um tipo de ladainha encenada que só nos mostra com mais clareza o comportamento baixo de alguns. Os de sempre, aliás. Mas para o torcedor, que sempre terá legitimidade ao colocar a paixão acima da razão, nada está decidido. Palmeirenses roerão as unhas esperando que o futebol não os assombre com sua veia sobrenatural, enquanto corintianos estarão mais apegados do que nunca ao dito de que o jogo só termina depois do apito. E nesse sentido andam com a fé renovada depois de terem visto tudo o que viram acontecer nas  semifinais. 

Favas contadas é ver o colombiano Borja, com seus sete gols, a um passo de se tornar artilheiro do torneio. Nada nada entrará em uma galeria onde figuram nomes como Pelé, Toninho Guerreiro, Sócrates, Careca e por aí vai. Só não chegará lá se o zagueiro Balbuena ou o meia Jadson, que têm três gols cada, forem muito além do que pode ser chamado de sobrenatural. Nos últimos dias os números de Borja andaram estampados em vários cadernos de esportes. Comprado por trinta e três milhões de reais depois de só não ter feito chover quando enfrentou o São Paulo nas semifinais da Libertadores em 2016, o atacante esteve longe de mostrar um futebol do tamanho da transação que o trouxe para a Academia do Palmeiras. 

Ano passado foi a campo  quarenta e três vezes e cruzou a fronteira para a temporada atual carregando módicos dez gols. Números que se levados à média não são de empolgar. Mas em 2018 fez essa média triplicar e ainda a temperou com um gol marcado no Júnior Barranquilha na estreia do Palmeiras na Libertadores e outro na terça contra o Alianza. Borja foi uma aposta alta. Quando chegou, tirando o modesto Cortuluá e o Santa Fé, não tinha chegado a trinta partidas por nenhum clube. Na Academia não demora e alcançará a de número sessenta. É claro, se já tivesse se provado não estaria brigando, teria lugar garantido na seleção colombiana. Não é o caso. Mas Borja nunca teve tanto a ver com o time que defende. Ele e o Palmeiras neste momento dão toda pinta de que vão virar. Será? 

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Nada como ser desafiado por um sábio



Aos que seguem encantados com o gol incrível marcado por Cristiano Ronaldo, vai abaixo uma "história" - ou seria "estória"? - dele com o nobre Zidane, seu atual treinador, que pode explicar, ao menos em parte, porque o português nos dá a  impressão de ir cada vez mais longe.

O dia em que o maestro Zidane deu uma lição ao seu melhor aluno

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Vincent van Gogh

A igreja de Auvers

quinta-feira, 29 de março de 2018

A camisa 10 já era ?






Acho que nunca conseguirei assistir a uma partida de futebol e ao dar de cara com alguém envergando a camisa 10 olhá-lo como se fosse um qualquer. Como não imaginamos estar de cara com um qualquer quando damos de cara com alguém vestindo traje visivelmente nobre. Há mais de dez anos escrevi com o amigo, André Ribeiro, grande pesquisador e jornalista, um livro sobre o tema intitulado " A magia da camisa 10". A obra acabou publicada também em Portugal, na Polônia, na Hungria e até no Japão. Ninguém compra os direitos de um livro por acaso. O que me faz crer que a simbologia da 10 se tornou realmente universal. Não era pra menos. 

O livro fala das coincidências que uniram a camisa 10 e o Rei do Futebol, volta no tempo num exercício imaginativo que tenta mostrar quais teriam sido os prováveis donos da 10 na época em que os uniformes nem numerados eram. Mas na semana que passou fiquei com a impressão de que a nobre camisa recebeu um golpe de misericórdia. O que não deveria causar surpresa dado o tratamento que tem sido dispensado a ela nos últimos anos. Ao encontrar na internet uma manchete que avisava que a seleção tinha divulgado a numeração das camisas para os amistosos contra Rússia e Alemanha fui correndo conferir com quem tinha ficado a 10, já que Neymar estava fora. Imaginei um Willian, um Philippe Coutinho. Mas que nada!

A 10 tinha sido dada ao meia Fred, do Shakhtar. Nada contra o rapaz, que aliás foi muito elogiado. O que me causou certa tristeza foi a possibilidade de que nem Willian, nem Coutinho, podem ter feito questão de ficar com ela. Queriam ficar com as suas, afirmou categoricamente um amigo. Voltei a lembrar desse detalhe quando aos trinta e pouco do segundo tempo do jogo contra os russos vi Fred com a 10 esperando na beira do campo para entrar no lugar de Coutinho. Um preciosismo de minha parte dirão alguns. Talvez, se não fossemos nós brasileiros como Pelé, o homem que definitivamente deu à camisa 10 um outro status. 

Os pormenores de como a coisas se deram infelizmente desconheço. E duvido que alguém se prestasse ao trabalho de me esclarecer questões de um assunto que pode ser tido como menor. Tenho, no entanto, uma ponta de esperança de que os credenciados para recebe-la acabaram declinando porque não a enxergam como uma camisa qualquer. Sem contar que sem ela, estão cientes, evitariam comparações com seu dono atual.  Vai saber. Mas fato é que se de algum modo ela ainda pesa é porque está viva. E se for assim fico até feliz de ter empregado imprecisamente o título acima. No fundo não quero crer que a camisa 10 já era.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Alemanha x Brasil: o próximo capítulo


Amanhã a Seleção Brasileira ficará frente a frente com a Alemanha. Será a primeira vez desde o fatídico 08 de julho de 2014 quando eles nos impuseram a mais retumbante das derrotas. Em matéria de dor pode até ser que a sofrida para a Itália nos idos de 1982 lhe seja páreo. Mas quando consulto meu coração a respeito ele diz que quando caímos na Espanha era como se alguém tivesse pedido licença para sentar no trono que nos pertencia. E que quando caímos naquele dia no Mineirão foi como se tivéssemos recebido uma ordem de despejo do mesmo. 

Depois de um sem fim de mesas redondas a conclusão mais óbvia do acontecido é a de que teria sido provocado por uma mistura fatal, cujos ingredientes principais foram uma tática suicida brasileira e um planejamento alemão exemplar. Interessante notar nessa véspera o tom das declarações dos alemães. Pode até ser que no íntimo estejam rindo, mas dizem em uníssono que mais importante do que a histórica goleada foi ter conquistado a Copa do Mundo. E não dão a mínima impressão de falarem nesse tom para não atropelar o senso do politicamente correto. 

Os caras pensam diferente. E acho que seguimos tendo muito a aprender com eles. Prova dessa minha teoria é o zagueiro Ginter ter dito, depois de muito elogiar Neymar, que ninguém vale o valor que pagaram pelo craque brasileiro, nem mesmo ele, vendido pelo Dortmund por "meros" dezessete milhões de euros. Não vou aqui ficar desfiando um rosário técnico e tático, que isso é coisa pra especialista. Se ficou mesmo uma lição de tudo o que vimos acontecer é a de que contra um adversário maduro e bem preparado todo o cuidado é pouco. E que apesar de Tite e de todo o talento que ainda se vê nos jogadores brasileiros, pouco mudamos a nossa maneira de tratar o futebol como um todo. Ou seja, goleando, ou não, os alemães seguem tendo muito a nos ensinar. 

quinta-feira, 22 de março de 2018

A Briosa e o Peixe

Alberto Ferreira/ Agência Briosa



No domingo a tarde já ia bem avançada quando numa conversa de família fiquei sabendo que a Briosa tinha vencido mais uma. Lamentei não ter me programado pra ir até Ulrico Mursa desfrutar desse momento, dessa fase, o que me fez sentir uma ponta de inveja do amigo Monteiro que me disseram, como bom português, fez questão de marcar presença no embate. Fosse supersticioso diria que o homem anda se revelando um tremendo pé quente. Mas acho mais justo creditar tudo ao bom futebol do time comandado por Sergio Guedes. 

Agora, se se o torcedor da Briosa anda que é só alegria o do Santos anda é com a pulga atrás da orelha. E não é pra menos depois de tudo o que se viu - ou não se viu - nos jogos contra o Botafogo pelas quartas de final do Paulista. Volto aqui a reforçar meu respeito e admiração pelo trabalho de  Jair Ventura mas me pareceu um tanto dissonante  depois do primeiro jogo ouvir o técnico creditar a falta de brilho do time santista ao cansaço ocasionado pelo fato de ter sido obrigado a jogar um bom tempo no onze contra dez diante do Nacional pela Libertadores dias antes, e ainda ter colocado na sacola dos argumentos o desgaste da viagem aos confins de Ribeirão Preto, o gramado diferente daquele que o time supostamente estaria acostumado e até a coitada da iluminação do Estádio Santa Cruz.

Não duvido da veracidade dos argumentos mas acho que é o tipo de fala que costuma descontentar o torcedor. Diante de tantas interpretações interessantes que já ouvi Jair fazer sobre um jogo de futebol quero acreditar que no calor da hora acabou caindo na cilada de um discurso fácil. Pouca gente percebe e pouco se fala nisso, mas há um sem fim de casos nos quais o discurso do técnico acabou por minar o trabalho do mesmo. Em geral, o pecado capital deles é estar totalmente dissociado da realidade.

Como se não bastasse o futebol apresentado ainda pesa sobre o jovem Jair Ventura uma expectativa imensa. O trabalho dele à frente do Botafogo no ano passado foi incrível. Mas isso tem um preço. E além desse preço há no ar um consenso de que se ele fez o que fez com o Botafogo com o Santos, terceiro colocado do último Brasileirão, poderia ir ainda mais longe. Acontece que o futebol tem lá seus caprichos e costuma desdenhar dessas conclusões. Pouca gente nota também que mesmo com o elenco do time carioca lhe impondo limitações Jair teve a seu favor no Botafogo dois detalhes que fazem toda a diferença nesse ramo: um time, no todo, dar aquela liga, e ainda se ter nele jogadores atravessando fases de se tirar o chapéu.

terça-feira, 20 de março de 2018

Conhece o Ismaily ?

Sergei Supinsky/AFP



No link abaixo mais detalhes da história do sul-mato-grossense que era atacante, virou lateral, chegou à Seleção Brasileira - em plena era da tecnologia - e quase ninguém conhecia.

Quem é Ismaily...

sexta-feira, 16 de março de 2018

quinta-feira, 15 de março de 2018

Um voto para Tite

Dizem que sem sorte não se deve ir nem mesmo até a esquina. O que faz muito sentido. E sorte é uma das primeiras coisas que me tomam o pensamento quando o assunto é o técnico Tite. Vejam bem, sorte do futebol brasileiro, não do treinador. Afinal, estamos todos cansados de saber que o cargo é ingrato e de uma hora pra outra pode transformar em calvário o que parecia ser o paraíso. E se digo sorte é porque imaginem vocês se depois do fatídico sete a um não existisse no cenário do nosso futebol alguém vivendo o momento que Tite vivia. E nesse sentido o destino foi caprichoso, como muitas vezes é. Todo mundo sabe que Tite poderia ter ido parar lá mais precocemente. O próprio treinador nunca escondeu que não ter sido escolhido antes mexeu com ele. 

Mas o tempo passou e o que  ele construiu de lá pra cá não deixa dúvida sobre o acerto da escolha. Mas como tudo tem seu preço esse entrar nos trilhos da seleção se fez também escudo e argumento para quem conduziu o futebol brasileiro até aquela nada página nada honrosa. No início desta semana Tite foi assunto das principais manchetes esportivas ao fazer a última convocação antes daquela em que anunciará os escolhidos por ele para defender o Brasil na Copa da Rússia. Como era de se esperar os questionamentos a respeito das escolhas feitas por ele aumentou. E só não fizeram mais eco porque os resultados não dão quase nenhuma margem pra isso. 

Pelo que li Tite goza neste momento de uma aprovação de sessenta e dois por cento. Número que deve mexer com o imaginário de boa parte dos nossos políticos e que é ao mesmo tempo a medida exata do abismo que separa a bolinha que eles andam batendo do promissor futebol apresentado pela nossa seleção nas mãos de Tite. Considero muito justa a convocação do zagueiro Geromel. E estranho, como muita gente, a aparição de Talisca e Willian José na lista. Como estranho a não aparição de Luan. 

Muitas das críticas, no entanto, me pareceriam mais cabíveis se estivéssemos diante de uma convocação final. Com Tite surfando essa onda fizeram questão de lembrar também esta semana que ele no final do ano passado disse não se sentir à vontade com nenhum político. Deve se preparar. Não vai faltar gente querendo tirar uma casquinha desse sucesso. Gente que joga duro. Depois de construir tudo o que construiu Tite não deve se contentar em vencer, possibilidade que muitas vezes dribla até os gigantes, deve ter em mente que todos esses votos de confiança escondem uma vontade imensa de algo diferente, de um Brasil diferente.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Para quem gosta de música



Solano Ribeiro está de site novo. E, como sempre, de olho no novo. Talvez fosse o caso de dizer "de ouvidos" no novo. A lista, em especial, é um espaço muito bacana pra quem procura espaço na cena independente.

www.solanoribeiro.com.br

quinta-feira, 8 de março de 2018

Futebol, naturalmente


O bigodinho bem cuidado e o cabelo brilhando de vaselina não deixavam dúvida. Mário Ninguém era um saudosista. O Ninguém, que passou a acompanhar seu nome como se sobrenome fosse, era outra prova disso. Foi brindado com ele depois que o pessoal do Bar do Zé Ladrão cansou de ouvir o sujeito dizer nas rodas de conversa que tinha era uma saudade danada do Pelé, do Didi, e que hoje ninguém seria páreo pra eles. 

E Mário nem se importou quando o Lorico lhe avisou que aquele papo sobre grama artificial só serviria pra galera lhe aumentar o sarro. Além de saudosista seria chamado de purista. Mas ele não estava nem aí. Achava que só os insensíveis com o jogo não conseguiam ver que tratar a grama artificial como um detalhe beirava a burrice. E, de repente, sacou um argumento dos bons. Tanto que o Lorico que até ali alimentava o papo só na intenção de tirar uma onda e ao mesmo tempo dava uma conferida no resultado do jogo do bicho, baixou o papel que tinha nas mãos e arregalou os olhos. 

Para Mário Ninguém a grande prova de que a coisa deveria ter tratamento diferente estava no jogo de tênis, porque em se tratando dele quando se altera o piso a coisa muda de figura. Joãozinho Boca Torta ao ouvir a explicação não perdoou. Gritou - pra todo mundo ouvir - que aqueles que tinham o time do coração disputando campeonato importante  deveriam se preparar porque a partir da próxima temporada o time deles iria é disputar uns Grand Slam. O riso foi geral. 

Mas Mário não se intimidou. Perguntou em voz alta se alguém ali já tinha visto uma quadra de grama. Diante do silêncio que se fez soltou um pois é. E na sequência garantiu que do jeito que vão as coisas não tardará o tempo em que campos de futebol de grama natural serão uma raridade. Serão como as quadras de Wimbledon. Tão raras, tão apartadas da realidade. Se um piso altera o pingar da bola, a velocidade dela, se exige outro tipo de movimento do corpo, como pode ser tratado como mero detalhe? E ainda fez no fim uma previsão assustadora. 

Avisou que a grama sintética deixa o futebol mais arisco e com esse monte de cabeça de bagre por aí, sofrendo pra dominar a bola mesmo quando ela chega no pé devagarinho, o espetáculo que nos aguarda tem tudo pra ficar ainda mais bizarro. E foi além, se mostrou indignado com essa coisa dos times encharcarem o gramado antes dos jogos. Outra aberração. Onde já se viu? Alguém precisa ver isso, estabelecer um padrão. Diante do que se deu, eu, que tava ali só analisando tudo pensei comigo: esse Mário Ninguém pode ser saudosista, mas não é louco não.