Esta semana que atravessamos é uma verdadeira ameaça ao nosso ritual cotidiano. Estamos de futebol até a tampa mas não deixamos de sentir a falta dele. Uma semana atípica como essa, sem um joguinho para quebrá-la ao meio, se faz no mínimo, estranha. E, cá entre nós, joguinho é a melhor maneira de descrever o que temos visto com mais frequência.
E a seleção? A seleção é outra história. E não vai ser um embate contra os Estados Unidos a cura pra essa nossa abstinência. Sem falar que no geral a seleção apesar do bom primeiro tempo contra a Dinamarca e do placar elástico mas questionável de ontem está longe de proporcionar a dose cavalar de futebol que nos habituamos a consumir.
Não estamos acostumados com esse vazio, não estamos acostumados a respirar entre uma rodada e outra, a ter tempo de olhar a vida em volta entre um apito e outro. Os efeitos colaterais dessa ausência serão inevitáveis. Imagino que a essa altura deve ter muita esposa por aí que, sem se dar conta do recesso ludopédico, ficou meio sem entender por que o maridão parecia tão perdido na noite de ontem.
Mal sabem elas que é bem capaz que boa parte deles volte a apresentar os mesmos sintomas nesta noite, mais precisamente entre oito e meia noite, e que os tais sintomas têm tudo para voltar com maior intensidade ainda no final de semana quando não teremos também rodada do Campeonato Brasileiro.
Por essas e outras eu vou me divertindo como posso. A frase " eles (FIFA) devem mais ao Brasil do que o Brasil a eles", dita pelo nosso Ministro do Esporte me tomou um tempão. Fiquei imaginando quanta gente não deve ao Brasil e, mais ainda, quanto o Brasil não deve a sua gente.
E sorri, quase sem querer, ao ficar sabendo dos dotes culinários do lateral santista, Fucile, que de tão seguro na cozinha decidiu colocar no Facebook uma receita de "camarões". Corre o risco de ficar um bom tempo em banho-maria. E a veemência de Muricy ao falar do meia Felipe Anderson depois do jogo com o Sport? "Jogador de time grande tem que saber que aqui não pode ser promessa pra sempre. Aqui não tem espaço para ser mais ou menos".
Felipe Anderson, que já viu Neymar fazer milagre, sabe que não é de hoje que Muricy anda de olho nele. Meses atrás o técnico santista chegou a dizer que o rapaz " é bom jogador, tem velocidade, bom chute, mas é muito desligado", e Muricy, rodado do jeito que é sabe que tá mais do que na hora de "ligar" todo mundo. Quem também precisa se ligar é a diretoria do Santos. A regra para se escolher o local de um jogo deveria ser uma só: quanto mais importante e decisivo o momento, mas se deve respeitar a vontade dos jogadores e da comissão técnica. A Vila Belmiro fio, desde sempre, a melhor escolha. Nem era preciso pensar.
Também gostei dessa história da Dilma Roussef ter sugerido por aí que o presidente da CBF, José Maria Marín, é um homem identificado com a ditadura. Nada pode ser tão cruel com certos homens quanto atirar na cara deles seu próprio passado. Essa nossa presidente, às vezes, viu? Mais parece um zagueirão dos bons, e pelo jeito também não brinca em serviço na hora de mandar pra escanteio. Na ausência de uma rodada... sugiro ao nobre leitor cuidar bem do coração porque ele em breve será muito exigido.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Futebol não é só paixão
O Chelsea gastou em contratações a ninharia de novecentos milhões de euros, e triunfou. Não que o futebol só por suas cifras possa se fazer bonito ou respeitado, por suas cifras jamais. Mas achei interessante notar que a nobre decisão do campeonato europeu de clubes foi capaz de evidenciar um abismo silencioso que existe entre torcedores.
Um abismo que separa os que se entregam ao jogo de corpo e alma aceitando praticamente tudo em nome dele - de retrancas insanas a ataques enervantemente comedidos - e aqueles que não conseguem encarar o futebol sem emprestar a ele, digamos, um viés sócio-ideológico.
Embora confesse maior afinidade com o segundo tipo, a mim bastava/bastou o futebol mais vistoso do Bayer para torcer por ele, ainda que me fosse impossível ver aquele time de azul e não pensar na máfia russa, nos bilhões de uma privataria despudorada, no futebol inglês tão organizado, tido sempre como exemplo, virando a cara, sem querer saber de onde vem o dinheiro que lhe garante a pompa.
Trata-se de uma preocupação inglória, como se houvesse no mundo um time de primeira linha construído só com dinheiro inocente. Que dinheiro é capaz de trazer felicidade não resta dúvida, o detalhe é outro, a impossibilidade nesse caso sempre residiu no fato de que há um certo tipo de felicidade que não se compra. Talvez por isso o Chlesea seja o Chelsea e o Barcelona o Barcelona. Ao menos até que um sheik decida arrematar o Camp Nou.
O dinheiro, no entanto, não deve receber todas as culpas. O cultuado futebol europeu tem nos mostrado mais do que qualquer outro que em determinado momento, com tanta coisa em jogo, um time mais limitado pode acabar sendo visto como exemplo de inteligência por se mostrar ciente de seus limites. Olha, não é de hoje que jogos desse quilate correm esse perigo.
Na ausência de um time que nos encha os olhos em finais da Copa dos Campeões da Europa o enredo, muitas vezes, é tão igual que a emoção gerada pela partida pode quase ser intuida. Mas o glamour é tamanho, o nosso respeito de colonizados tão grande, que alguns gols raros marcados em tempos de jogo quase findos acabam sendo encarados como o supra-sumo da arte de jogar bola, coisa que não serão nunca.
A Didier Drogba dispenso o mesmo reconhecimento que faço questão de dar ao trabalhador que em seu ofício se exaure em suor, mas que não está livre de dar de cara com a foto de seu patrão estampada nas páginas polícias de um jornal no dia seguinte. Drogba, que agora já se sabe, deixará o time do magnata russo Roman Abramovich.
O dinheiro, senhores, montou um belo time não há como negar. Quem ousará dizer que um goleiro como o tcheco Petr Cech não merecia um título dessa envergadura? Ou um Lampard? Não é de hoje que o futebol tem o poder de cravar o nome de certos homens na história, mas também não é de hoje que muitos times poderiam ser derrotados por sua própria história.
Antes de se posicionar sobre essa questão, de dizer o quanto seu futebol tem de sociologia, de ideologia, pense primeiro quantas coisas já o fizeram torcer contra um determinado time que não eram exatamente ligadas ao futebol. Creio que não tenham sido poucas. Do Real Madrid afinado com a ditadura de Francisco Franco, até aquele jogador ou técnico que você nunca foi com a cara.
O que és afinal ? Um idealista ou um passional da bola?
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Vélez x Santos (anotações de jogo)
Velez x Santos (anotações de jogo)
Primeiro tempo
6 Muricy parece pilhado
20' Bom lance, Ganso quase faz belo gol
27' Ganso erra feio pela segunda vez
29' Papa leva CA
30 Chute de Martinez, depois de tabelar
31' Rafael faz bela defesa
32' Santos toca bola, sem sobressaltos
35 Virada de jogo para esquerda. Bola fica com Papa que cruza. Óbolo marca. 1x0 (Elano? Não chegou.Rafael não se mexeu...)
Segundo tempo
4' Elano cobra escanteio, e quase faz gol olímpico
12' Kardec sai /Borges entra
14'Óbolo aparece livre de novo
16' Peruzzi, o marcador de Neymar leva CA ( quinta falta dele)
17' Elano cobra falta, mal (Devia ter deixado pro Ganso?)
Obs - Henrique mal, Ganso também
21' Fernandes bate de primeira, Rafael defende !!!
29' Elano sai/F.Anderson entra
35' Juan visivelmente caiu de produção, impreciso.Cansado?
39' Cabral chuta bonito, Rafael!!!
40' Cabral,que acaba de chutar, sai pra dar lugar a Bella
43' Bella que acaba de entrar solta uma sapatada.Uh! Por cima
45' Dracena dá baita canelada no adversário e leva CA
46' Gareca, tecnico do Velez faz questão de fazer a terceira substituição dele (tava gostando do resultado então?)
Obs -Neymar, totalmente sem brillho, irreconhecível
Obs - O árbitro Carlos Amarilla é metido a durão, mas é justo /Aos 23 do segundo tempo vê jogador dar carrinho forte na frente dele e, seguro, não marca nada.Ninguém reclama
Palavras de Neymar no fim / resumo perfeito : " Hoje foi um dia em que o Santos não conseguiu jogar"
Primeiro tempo
6 Muricy parece pilhado
20' Bom lance, Ganso quase faz belo gol
27' Ganso erra feio pela segunda vez
29' Papa leva CA
30 Chute de Martinez, depois de tabelar
31' Rafael faz bela defesa
32' Santos toca bola, sem sobressaltos
35 Virada de jogo para esquerda. Bola fica com Papa que cruza. Óbolo marca. 1x0 (Elano? Não chegou.Rafael não se mexeu...)
Segundo tempo
4' Elano cobra escanteio, e quase faz gol olímpico
12' Kardec sai /Borges entra
14'Óbolo aparece livre de novo
16' Peruzzi, o marcador de Neymar leva CA ( quinta falta dele)
17' Elano cobra falta, mal (Devia ter deixado pro Ganso?)
Obs - Henrique mal, Ganso também
21' Fernandes bate de primeira, Rafael defende !!!
29' Elano sai/F.Anderson entra
35' Juan visivelmente caiu de produção, impreciso.Cansado?
39' Cabral chuta bonito, Rafael!!!
40' Cabral,que acaba de chutar, sai pra dar lugar a Bella
43' Bella que acaba de entrar solta uma sapatada.Uh! Por cima
45' Dracena dá baita canelada no adversário e leva CA
46' Gareca, tecnico do Velez faz questão de fazer a terceira substituição dele (tava gostando do resultado então?)
Obs -Neymar, totalmente sem brillho, irreconhecível
Obs - O árbitro Carlos Amarilla é metido a durão, mas é justo /Aos 23 do segundo tempo vê jogador dar carrinho forte na frente dele e, seguro, não marca nada.Ninguém reclama
Palavras de Neymar no fim / resumo perfeito : " Hoje foi um dia em que o Santos não conseguiu jogar"
quinta-feira, 17 de maio de 2012
O jogo deles é pra valer
Dias atrás o governo federal finalmente saiu do banco de reservas. Depois de uma preleção na sede da FIFA, na Suiça, os donos da bola aceitaram que o secretário-executivo do Ministério do Esporte passasse a figurar entre os titulares do Comitê Organizador Local da Copa de 2014. A palavra intervenção até agora parece dar urticária nos envolvidos. A única saída honrosa pra isso é acreditar que o governo, finalmente, ganhou uma dividida com a poderosa FIFA, embora nunca tenha faltado motivo para entrar de sola.
Foi um lance para defender a honra. O governo está atrelado com a Copa até a alma, herança de Lula, que emprestou sua imagem a ela imaginando colher bons frutos em 2014. A sorte do planalto é que quando se trata de um evento popular como esse ninguém quer pra si a imagem do que joga contra. Mas se alguém por descuido ou lucidez resolvesse endurecer a situação poderia complicar de vez.
O governo não estava no COL, mas sempre esteve junto, abrindo as torneiras do BNDES e afins. E por que os cartolas não deram conta do recado? Não deram conta do recado porque sempre foram uma negação como administradores. É só ver como as dívidas dos times de futebol aumentam. Um estudo divulgado na terça-feira mostrou que em 2011 os clubes geraram 457 milhões de reais a mais de receita em relação ao ano anterior, mas o endividamento cresceu assustadores 628 milhões. A jogada preferida dos cartolas é aumentar o faturamento, se gabar disso, jamais reduzir dívidas. E o negócio que eles comandam, promissor ou não, continua recebendo investimentos. Mudar pra quê?
Agora entra o governo. E desde quando o nosso governo foi um exemplo de administração? Nossa saúde vai mal, nossa educação vai mal, nossa infraestrutura nem se fala, e a nossa economia já não tem aquele vento a favor que andava batendo por estas bandas tempos atrás.
A tabelinha entre futebol e política sempre foi perversa. E os homens da bola nunca perdem uma chance. Não é por acaso que o "novo" presidente da CBF desde que assumiu o cargo tem feito visitas ao congresso e armado visitas reservadas a parlamentares. Os cartolas ensaiam outra jogada daquelas, uma solução para a dívida dos clubes brasileiros. Um papagaiozinho de quatro bilhões de reais. E o convocado para a nobre tarefa foi o deputado federal, Romário, que não custa lembrar, ocupa hoje a vice-presidência da Comissão de Turismo e Desporto da Câmara.
Querem, também, mudar a Timemania, loteria criada em 2007 para ajudar os clubes a saldar seus compromissos. Diziam que ela deveria arrecadar 520 milhões por ano, mas em 2011 só conseguiu tomar dos apostadores 159 milhões, 34 deles repassados aos clubes brasileiros cujas dividas só aumentam. E a articulações não param.
Nos últimos dias a divulgação de um relatório mostrou a situação caótica das obras nos estádios que estamos construindo, e em seguida ficamos sabendo que a FIFA, preocupada com os atrasos, teria elaborado quatro tabelas para a Copa das Confederações, uma com quatro cidades, outra com seis e outras duas com cinco sedes. Está na Folha de São Paulo, com maiores detalhes, pra quem tiver interesse.O Ministro, por sua vez, atacou o relatório e garantiu os seis estádios. Entrosamento que é bom, nada, tá parecendo a nossa seleção.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Salve simpatia
A essa altura a luz do dia já iluminou a Vila. E o gramado está lá, pronto pra receber o embate com o Bolívar. Que o momento santista é bom ninguém duvida. Mas esta quinta é um dia decisivo, dia de vai ou não vai, no qual o time dirigido por Muricy, ao que tudo indica, não poderá repetir as apresentações abaixo da média, como a que teve diante do The Strongest aqui, ou a de duas semanas atrás na Bolívia.
Entre a euforia do tricampeonato paulista e a ânsia pelo bicampeonato continental, será preciso encontrar uma justa medida. Há quem aposte que sem o escudo da altitude irá sobressair a melhor qualidade técnica do elenco santista.
Apesar de ter perdido em casa por três a um para o União Espanhola na fase de grupos, o Bolívar não tem sido um adversário mole diante dos times que visita. O técnico boliviano, que é argentino, está longe de ser uma figura que acompanhamos de perto, e tem lá seu currículo, passou meia década na base do Barcelona, e é bem possível que tenha aprendido alguma coisa por lá.
No futebol boliviano o adversário santista é time de tradição, com elenco formado por jogadores oriundos da Argentina, do Uruguai. Ou seja, Muricy não estava exagerando quando disse que o Bolívar era mais perigoso do que a altitude. O torcedor santista terá muito que comemorar em caso de triunfo, porque ainda que não queira nem pensar num tropeço, sabe que o preço dele seria alto, transformaria a conquista do tricampeonato paulista em algo sem sabor, apesar de raro.
Esta quinta também será um dia D para o São Paulo, que terá a missão de tirar da Ponte Preta a vantagem que ela conseguiu ao bater o tricolor por um a zero em Campinas. Ponte Preta que já provou - ao eliminar o Corinthians do estadual - que sabe se defender. Mas a tarefa seria menos árdua se os dirigentes do time do Morumbi não tivessem sido tão desastrados ao lidar com a incômoda deficiência técnica do zagueiro Paulo Miranda.
Feito o estrago resta ao São Paulo, além do jogo, vencer esse contratempo, cuja dimensão só se revelará com clareza na hora em que o time se mostrar em campo. Há a esperança de que os efeitos do caso na mídia tenham sido maiores do que os efeitos causados ao time. Uma eliminação da Copa do Brasil terá todo o jeitão de ponto final, para um, ou para outros.E com ou sem Paulo Miranda o time do Morumbi, ainda que não consiga a vaga, tem a obrigação de cair em pé, se é que me faço entender. Basta olhar a envergadura e os investimentos feitos no time pra chegar a essa conclusão.
Por falar em São Paulo, dia desses encontrei um velho amigo, que veio me dizer que estava no Morumbi no dia em que o Santos eliminou o tricolor. Eu já ia lamentando por ele quando o sujeito, são paulino inveterado, abriu o sorriso e soltou um "tudo bem", para em seguida afirmar que Neymar tinha feito o ingresso valer a pena.
Tenho ouvido gente por aí dizer que o garoto santista está fazendo muita gente simpatizar com o Santos, agora mesmo aqui na TV ouço um comentarista falar sobre essa faceta do garoto santista. Não dá pra negar que Neymar potencializou, reavivou, essa qualidade do time da Vila, mas jamais tentem me convencer de que foi ele que fez do Santos um time simpático. Essa sedução nasceu muito antes de Neymar. Mas como diria Jorge Ben, salve simpatia.
* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos
Entre a euforia do tricampeonato paulista e a ânsia pelo bicampeonato continental, será preciso encontrar uma justa medida. Há quem aposte que sem o escudo da altitude irá sobressair a melhor qualidade técnica do elenco santista.
Apesar de ter perdido em casa por três a um para o União Espanhola na fase de grupos, o Bolívar não tem sido um adversário mole diante dos times que visita. O técnico boliviano, que é argentino, está longe de ser uma figura que acompanhamos de perto, e tem lá seu currículo, passou meia década na base do Barcelona, e é bem possível que tenha aprendido alguma coisa por lá.
No futebol boliviano o adversário santista é time de tradição, com elenco formado por jogadores oriundos da Argentina, do Uruguai. Ou seja, Muricy não estava exagerando quando disse que o Bolívar era mais perigoso do que a altitude. O torcedor santista terá muito que comemorar em caso de triunfo, porque ainda que não queira nem pensar num tropeço, sabe que o preço dele seria alto, transformaria a conquista do tricampeonato paulista em algo sem sabor, apesar de raro.
Esta quinta também será um dia D para o São Paulo, que terá a missão de tirar da Ponte Preta a vantagem que ela conseguiu ao bater o tricolor por um a zero em Campinas. Ponte Preta que já provou - ao eliminar o Corinthians do estadual - que sabe se defender. Mas a tarefa seria menos árdua se os dirigentes do time do Morumbi não tivessem sido tão desastrados ao lidar com a incômoda deficiência técnica do zagueiro Paulo Miranda.
Feito o estrago resta ao São Paulo, além do jogo, vencer esse contratempo, cuja dimensão só se revelará com clareza na hora em que o time se mostrar em campo. Há a esperança de que os efeitos do caso na mídia tenham sido maiores do que os efeitos causados ao time. Uma eliminação da Copa do Brasil terá todo o jeitão de ponto final, para um, ou para outros.E com ou sem Paulo Miranda o time do Morumbi, ainda que não consiga a vaga, tem a obrigação de cair em pé, se é que me faço entender. Basta olhar a envergadura e os investimentos feitos no time pra chegar a essa conclusão.
Por falar em São Paulo, dia desses encontrei um velho amigo, que veio me dizer que estava no Morumbi no dia em que o Santos eliminou o tricolor. Eu já ia lamentando por ele quando o sujeito, são paulino inveterado, abriu o sorriso e soltou um "tudo bem", para em seguida afirmar que Neymar tinha feito o ingresso valer a pena.
Tenho ouvido gente por aí dizer que o garoto santista está fazendo muita gente simpatizar com o Santos, agora mesmo aqui na TV ouço um comentarista falar sobre essa faceta do garoto santista. Não dá pra negar que Neymar potencializou, reavivou, essa qualidade do time da Vila, mas jamais tentem me convencer de que foi ele que fez do Santos um time simpático. Essa sedução nasceu muito antes de Neymar. Mas como diria Jorge Ben, salve simpatia.
* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos
quinta-feira, 3 de maio de 2012
O rumo do nosso futebol
Permita-me propor uma questão. O que mais faz falta ao futebol brasileiro neste momento? Técnica, competitividade? Ou certa leveza, ousadia? Ousadia seria minha resposta predileta. No entanto, um lance do clássico do último domingo entre São Paulo e Santos evidenciou que não estamos exatamente nesse caminho.
Falo, lógico, da sequência de dribles que Neymar impiedosamente aplicou no lateral são-paulino Piris, e que Piris sem titubear decidiu brecar fazendo uso da força. Não se trata de dizer se era, ou não, um lance pra cartão vermelho. Trata-se de usar o fato pra jogar luz sobre as escolhas que estamos fazendo em matéria de bola.
Evidente que haverá alguém que, enxergando aqui a opinião de um jornalista, procurará por trás dela o torcedor. E pensar que o drible um dia já foi um cânone. O drible, tempos atrás, era sinônimo de requinte. Ou vais tentar me convencer de que Garrincha era um cara comedido na hora de driblar, ou que seus marcadores não se sentiam humilhados, inclusive, por um certo gingado que lhes enfeitiçava?
A diferença, no meu ponto de vista, está no fato de que em outros tempos os marcadores traziam consigo um mínimo de vergonha, o que lhes fazia pensar duas vezes antes de usar a força, afinal, sabiam que a torcida tinha a elegância em alta conta. Ou talvez estivessem apenas se rendendo ao temor de um tempo em que as regras se faziam realmente claras, um tempo em que jogadas brutas eram sinônimo de expulsão, sim.
Meu velho pai, lembro bem, mostrava sempre um ar desgostoso diante disso e jamais deixava de lamentar ao se deparar com um futebol cada vez mais violento e cheio de agarrões, cada vez mais parecido com o rugby, como gostava de dizer. O drible, senhores, sempre foi legítimo e deveria continuar sendo, não merecia ser levado ao tribunal.
Não vamos negar nossa herança ancestral. No fundo ainda vemos o garoto santista como alguém que aceitou os perigos de brilhar no meio de uma arena romana. A mensagem que fica de tudo isso é a de que diante de um adversário habilidoso ao extremo usar a força é uma possibilidade e que isso não necessariamente se traduzirá em expulsão. E não me venham falar em fair play que eu já estou farto da FIFA.
A realidade é óbvia: permite-se que atentem e matem o que talvez o futebol tenha de melhor depois do gol, o drible. E as regras, ora, as regras estão aí. Mas, então, em que casos se pune pela intenção? Digo mais, estamos sendo iludidos por um discurso que tenta nos vender a tal interpretação dos juízes. Aliás, palmas para o técnico Leão, que abordou muito bem o tema ao conceder entrevista coletiva depois do jogo.
Cansei de ouvir as regras do futebol serem exaltadas. Delas se dizia que eram facilmente compreendidas em qualquer canto do planeta. Mas atualmente chegamos ao cúmulo de levar em conta que possa existir uma arbitragem para a Libertadores, e um outro tipo de arbitragem para as partidas daqui. Isso sem falar nos cartões amarelos que podem ser pagos com uma nota de cem dólares. Somos capazes de aceitar que juízes devam preservar o espetáculo, quando eles apenas deveriam cumprir as regras e ponto final. O futebol deve ser arte, jamais teatro, ao menos no que diz respeito aos juízes.
Meio secretamente adoramos quem interpreta o espetáculo como nós, não é?
Mas saber que, de repente, o juiz da partida entre São Paulo e Santos, que não apitou nenhum clássico da fase de classificação do torneio, estava lá porque o presidente da Federação Paulista o considera um dos melhores e, que por essa razão, exigiu que ele tomasse parte no sorteio dos jogos decisivos, é tolerar afinidade demais. O que tem de haver é regulamento, ranking. Os melhores do ranking apitam os principais jogos e não se fala mais nisso, simples. O resto é balela.
É por essas e outras que pergunto: Pra onde está indo o nosso futebol, apesar do Neymar?
Que caminho é esse?
Falo, lógico, da sequência de dribles que Neymar impiedosamente aplicou no lateral são-paulino Piris, e que Piris sem titubear decidiu brecar fazendo uso da força. Não se trata de dizer se era, ou não, um lance pra cartão vermelho. Trata-se de usar o fato pra jogar luz sobre as escolhas que estamos fazendo em matéria de bola.
Evidente que haverá alguém que, enxergando aqui a opinião de um jornalista, procurará por trás dela o torcedor. E pensar que o drible um dia já foi um cânone. O drible, tempos atrás, era sinônimo de requinte. Ou vais tentar me convencer de que Garrincha era um cara comedido na hora de driblar, ou que seus marcadores não se sentiam humilhados, inclusive, por um certo gingado que lhes enfeitiçava?
A diferença, no meu ponto de vista, está no fato de que em outros tempos os marcadores traziam consigo um mínimo de vergonha, o que lhes fazia pensar duas vezes antes de usar a força, afinal, sabiam que a torcida tinha a elegância em alta conta. Ou talvez estivessem apenas se rendendo ao temor de um tempo em que as regras se faziam realmente claras, um tempo em que jogadas brutas eram sinônimo de expulsão, sim.
Meu velho pai, lembro bem, mostrava sempre um ar desgostoso diante disso e jamais deixava de lamentar ao se deparar com um futebol cada vez mais violento e cheio de agarrões, cada vez mais parecido com o rugby, como gostava de dizer. O drible, senhores, sempre foi legítimo e deveria continuar sendo, não merecia ser levado ao tribunal.
Não vamos negar nossa herança ancestral. No fundo ainda vemos o garoto santista como alguém que aceitou os perigos de brilhar no meio de uma arena romana. A mensagem que fica de tudo isso é a de que diante de um adversário habilidoso ao extremo usar a força é uma possibilidade e que isso não necessariamente se traduzirá em expulsão. E não me venham falar em fair play que eu já estou farto da FIFA.
A realidade é óbvia: permite-se que atentem e matem o que talvez o futebol tenha de melhor depois do gol, o drible. E as regras, ora, as regras estão aí. Mas, então, em que casos se pune pela intenção? Digo mais, estamos sendo iludidos por um discurso que tenta nos vender a tal interpretação dos juízes. Aliás, palmas para o técnico Leão, que abordou muito bem o tema ao conceder entrevista coletiva depois do jogo.
Cansei de ouvir as regras do futebol serem exaltadas. Delas se dizia que eram facilmente compreendidas em qualquer canto do planeta. Mas atualmente chegamos ao cúmulo de levar em conta que possa existir uma arbitragem para a Libertadores, e um outro tipo de arbitragem para as partidas daqui. Isso sem falar nos cartões amarelos que podem ser pagos com uma nota de cem dólares. Somos capazes de aceitar que juízes devam preservar o espetáculo, quando eles apenas deveriam cumprir as regras e ponto final. O futebol deve ser arte, jamais teatro, ao menos no que diz respeito aos juízes.
Meio secretamente adoramos quem interpreta o espetáculo como nós, não é?
Mas saber que, de repente, o juiz da partida entre São Paulo e Santos, que não apitou nenhum clássico da fase de classificação do torneio, estava lá porque o presidente da Federação Paulista o considera um dos melhores e, que por essa razão, exigiu que ele tomasse parte no sorteio dos jogos decisivos, é tolerar afinidade demais. O que tem de haver é regulamento, ranking. Os melhores do ranking apitam os principais jogos e não se fala mais nisso, simples. O resto é balela.
É por essas e outras que pergunto: Pra onde está indo o nosso futebol, apesar do Neymar?
Que caminho é esse?
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Um salto sobre o futebol
O futebol, amigos, é incontrolável como o mar. Aos que estranharem a comparação peço que entendam as visões que costumam acompanhar alguém que sempre teimou e, ainda teima, em viver à sua margem. E aos indignados com o fato do oitavo colocado, a Ponte Preta, ter eliminado o primeiro, o Corinthians, devo dizer que me alegra muito essa prova de que o jogo continua indomável.
Você certamente já ouviu muita gente por aí dizer que o oitavo tirar o lugar de quem foi líder é descabido. Tudo bem que agora há o detalhe do jogo único, sem a vantagem do empate e tal. Mas alguns anos atrás, quando o Santos entrou de azarão nas semifinais do Campeonato Brasileiro e acabou campeão, o discurso foi o mesmo. A solução para promover "justiça" foi a fórmula dos pontos corridos.
Descabido pra mim é esse desejo incontrolável de usar a regra para controlar o jogo. Mas hoje não vou me render nem a isso, nem mesmo a derrocada do Barcelona que monopolizou todos os papos de futebol que tenho ouvido por aí. Escutei de tudo, até gente se dizendo entediada com a infindável troca de passes do time comandado por Pep Guardiola. Fazer o quê?
Hoje quero driblar um pouco essa hegemonia que faz o futebol ocupar quase todo o espaço da crônica esportiva. Gostaria de comentar aqui um fato recente que me chamou a atenção. Foi o ambiente que cercou o salto triplo do jovem Jonathan Henrique Silva - um mineiro de vinte anos - ao alcançar o índice para estar na Olimpíada de Londres.
Era um final de tarde quando Jonathan partiu para saltar. O estádio Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera já estava com as arquibancadas praticamente vazias. Os interessados em acompanhar o evento de atletismo organizado pela Federação Paulista não se interessaram muito por ele, foram embora. Mas ao terminar sua sequência de saltos Jonathan aterrissou a exatos dezessete metros e trinta e nove centímetros do ponto de partida. Surpreendente para quem fechou 2011 com um dezesseis metros e setenta como melhor marca. Aplausos, foram poucos, quase nenhum.
Ali uma das nossas maiores tradições olímpicas, a de ter triplistas de primeiro gabarito, suspirava. Hoje, o elegante Ademar Ferreira da Silva, ouro no salto triplo nas Olimpíadas de 1952 e 1956, mal é lembrado. Mas os que têm a minha idade certamente não esqueceram as façanhas de um tal João do Pulo. E só.
Se o futebol seduz, nosso esporte olímpico está longe de exercer fascínio. E não se deixem levar pelos jogos que vêm aí, eles colocarão os esportes olímpicos em evidência por pouco mais de vinte dias, e olhe lá.
Vou batucando essas linhas e me vem uma certeza: estou parecendo um pouco o personagem vivido pelo ator argentino, Ricardo Darín, no filme "Um conto Chinês". Nele, Darín interpreta um comerciante solitário que tem como hobby colecionar notícias esquisitas que encontra no jornal. Por falar nisso, lembrei de outro fato um tanto bizarro. O protesto da torcida do Genoa, da Itália, que indignada com a campanha do time resolveu invadir o campo e obrigar os jogadores a tirarem as camisas que, afinal, não estavam honrando. Ah! Lembrei de outra. Bom, deixa pra lá, estou parecendo demais o personagem vivido por Darín.
Você certamente já ouviu muita gente por aí dizer que o oitavo tirar o lugar de quem foi líder é descabido. Tudo bem que agora há o detalhe do jogo único, sem a vantagem do empate e tal. Mas alguns anos atrás, quando o Santos entrou de azarão nas semifinais do Campeonato Brasileiro e acabou campeão, o discurso foi o mesmo. A solução para promover "justiça" foi a fórmula dos pontos corridos.
Descabido pra mim é esse desejo incontrolável de usar a regra para controlar o jogo. Mas hoje não vou me render nem a isso, nem mesmo a derrocada do Barcelona que monopolizou todos os papos de futebol que tenho ouvido por aí. Escutei de tudo, até gente se dizendo entediada com a infindável troca de passes do time comandado por Pep Guardiola. Fazer o quê?
Hoje quero driblar um pouco essa hegemonia que faz o futebol ocupar quase todo o espaço da crônica esportiva. Gostaria de comentar aqui um fato recente que me chamou a atenção. Foi o ambiente que cercou o salto triplo do jovem Jonathan Henrique Silva - um mineiro de vinte anos - ao alcançar o índice para estar na Olimpíada de Londres.
Era um final de tarde quando Jonathan partiu para saltar. O estádio Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera já estava com as arquibancadas praticamente vazias. Os interessados em acompanhar o evento de atletismo organizado pela Federação Paulista não se interessaram muito por ele, foram embora. Mas ao terminar sua sequência de saltos Jonathan aterrissou a exatos dezessete metros e trinta e nove centímetros do ponto de partida. Surpreendente para quem fechou 2011 com um dezesseis metros e setenta como melhor marca. Aplausos, foram poucos, quase nenhum.
Ali uma das nossas maiores tradições olímpicas, a de ter triplistas de primeiro gabarito, suspirava. Hoje, o elegante Ademar Ferreira da Silva, ouro no salto triplo nas Olimpíadas de 1952 e 1956, mal é lembrado. Mas os que têm a minha idade certamente não esqueceram as façanhas de um tal João do Pulo. E só.
Se o futebol seduz, nosso esporte olímpico está longe de exercer fascínio. E não se deixem levar pelos jogos que vêm aí, eles colocarão os esportes olímpicos em evidência por pouco mais de vinte dias, e olhe lá.
Vou batucando essas linhas e me vem uma certeza: estou parecendo um pouco o personagem vivido pelo ator argentino, Ricardo Darín, no filme "Um conto Chinês". Nele, Darín interpreta um comerciante solitário que tem como hobby colecionar notícias esquisitas que encontra no jornal. Por falar nisso, lembrei de outro fato um tanto bizarro. O protesto da torcida do Genoa, da Itália, que indignada com a campanha do time resolveu invadir o campo e obrigar os jogadores a tirarem as camisas que, afinal, não estavam honrando. Ah! Lembrei de outra. Bom, deixa pra lá, estou parecendo demais o personagem vivido por Darín.
* artigo publicado no jornal "A Tribuna", Santos
sexta-feira, 20 de abril de 2012
O estúdio que Romário deixou vazio
O que você faria se ao pedir uma entrevista ouvisse um sim, mas com o empecilho do convidado não poder se deslocar? Bom, aceitamos a condição. Só precisávamos ir à Brasília. Mas uma vez lá, depois de um telefonema esquisito, atendemos a um pedido urgente feito pela assessoria de Romário. O compromisso marcado para às dez da manhã, então,
foi remarcado para às onze.
Às onze, com lamentos, nos disseram que o trato estava de pé, claro, mas que o entrevistado só chegaria por volta de uma e meia da tarde.O que veio a seguir passou a ser patético.
A assessora chegou dizendo que Romário vinha em outro carro, logo atrás.Os telefonemas - meio à francesa - se sucederam.Em um teatro cruel com todos os profissionais envolvidos no trabalho a cena toda ainda seestenderia por mais de hora. Ao ouvir, no fim disso tudo, a indecente proposta de fazer a entrevista
às seis da tarde, só restou dizer algumas verdades, lamentar o tratamento que nos foi dispensado pelo nobre Deputado Federal, e partir.Estava mais claro do que nunca, a partir dali, porque é tão difícil acreditar nos compromissos que certos homens assumem.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Santos, o enfeitiçado
Na semana que vem quando a gente se encontrar o Santos já será um time centenário. E eu não poderia deixar essa oportunidade passar, ainda mais quando o dia que se aproxima deixa no ar essa ilusão de que posso me adiantar ao tempo, chegar na frente dele como se fosse um Neymar.
Olha, já vi muita gente boa de letra, de escrita, coçar a cabeça quando recebe a missão de escrever sobre Pelé. E escrever sobre o Santos em momento tão solene parece desafio similar. Não quero ser bairrista, principalmente, para não ferir a alma do Santos, para não ficar na contra-mão da história do clube, que apesar de estar ali, na Vila Belmiro, há tempos se fez do mundo.
Há Santos espalhados por tudo quanto é canto desse planeta. Da Paraíba a Belfast. De Santa Catarina a África do Sul. O Santos, do Amapá. O Santos Laguna, do México. O tal deus do futebol, se existe mesmo, foi ao criar o Santos que deixou transbordar seus caprichos. Muitas equipes são míticas, mas apenas uma delas pode dizer que teve o mito. E apenas esse detalhe já seria mais do que suficiente pra fazê-lo diferente de todos os outros.
Além do mais, centenários nem sempre são antecedidos por dias que envaidecem a torcida. Que o diga o Flamengo. Mas ao Santos foi dado até esse direito. Altivo, vai se aproximando dos 100 com a elegância de sempre, campeão da América. Seus craques - que construíram esse imenso patrimônio abstrato feito de suor e dribles - seduziram desde o início.
Hoje quase ninguém lembra, mas o time que leva o nome da vizinha São Vicente um dia se chamou Feitiço. Feitiço era o apelido de Luis Matoso, um goleador que, dizem, não tinha pudor em bater na bola de bico. Nos idos da década de 1920 era ele, nascido no bairro paulistano do Bixiga, em São Paulo, um dos grandes nomes do Peixe. E era também o grande ídolo de um grupo de jovens que se reunia perto da Biquinha pra jogar bola.
No dia em que esse grupo de jovens decidiu fundar um time o nome veio rápido, se bobear não precisaram nem pensar duas vezes para batizar o escrete de Feitiço. O Feitiço Atlético Clube só iria passar a se chamar São Vicente Atlético Clube algumas décadas depois. E do jeito que a coisa anda não duvido que em breve apareça por aí um Neymar Futebol Clube.
Torço para que as novas gerações tenham consciência do que o Santos Futebol Clube representa, de todo compromisso que se encerra no ato banal de vestir uma camisa, se essa camisa for do time da Vila. E não falo com o ranço de toda caretice que costuma impregnar instituições. Falo em honrar a beleza que permeia essa longa trajetória, pra que a Vila continue sendo um reino onde o talento sempre foi mais cultuado do que a raça.
Ao Santos nunca foram dadas certas alcunhas. O Santos nunca foi chamado de academia, mas não resta dúvida de que poderia. Nos dias de hoje quando vejo o Edu caminhando à beira-mar, quando dou de cara com Mengálvio sentado em uma cadeira de praia com olhar vago, quando encontro a figura de Zito ou o boa-praça José Macia, o Pepe, caminhando por aí, vem a mim uma sensação difícil de descrever. É como se estivesse vendo mais do que homens.
No fundo sei bem o que é. É essa história bonita que se derrama invisivelmente sobre eles. O Santos dos homens, o Santos dos meninos. E eu aqui, em silêncio, penso: Feitiço! Que palavra tão afinada com tudo isso.
* artigo publicado no jornal " A Tribuna", Santos
Olha, já vi muita gente boa de letra, de escrita, coçar a cabeça quando recebe a missão de escrever sobre Pelé. E escrever sobre o Santos em momento tão solene parece desafio similar. Não quero ser bairrista, principalmente, para não ferir a alma do Santos, para não ficar na contra-mão da história do clube, que apesar de estar ali, na Vila Belmiro, há tempos se fez do mundo.
Há Santos espalhados por tudo quanto é canto desse planeta. Da Paraíba a Belfast. De Santa Catarina a África do Sul. O Santos, do Amapá. O Santos Laguna, do México. O tal deus do futebol, se existe mesmo, foi ao criar o Santos que deixou transbordar seus caprichos. Muitas equipes são míticas, mas apenas uma delas pode dizer que teve o mito. E apenas esse detalhe já seria mais do que suficiente pra fazê-lo diferente de todos os outros.
Além do mais, centenários nem sempre são antecedidos por dias que envaidecem a torcida. Que o diga o Flamengo. Mas ao Santos foi dado até esse direito. Altivo, vai se aproximando dos 100 com a elegância de sempre, campeão da América. Seus craques - que construíram esse imenso patrimônio abstrato feito de suor e dribles - seduziram desde o início.
Hoje quase ninguém lembra, mas o time que leva o nome da vizinha São Vicente um dia se chamou Feitiço. Feitiço era o apelido de Luis Matoso, um goleador que, dizem, não tinha pudor em bater na bola de bico. Nos idos da década de 1920 era ele, nascido no bairro paulistano do Bixiga, em São Paulo, um dos grandes nomes do Peixe. E era também o grande ídolo de um grupo de jovens que se reunia perto da Biquinha pra jogar bola.
No dia em que esse grupo de jovens decidiu fundar um time o nome veio rápido, se bobear não precisaram nem pensar duas vezes para batizar o escrete de Feitiço. O Feitiço Atlético Clube só iria passar a se chamar São Vicente Atlético Clube algumas décadas depois. E do jeito que a coisa anda não duvido que em breve apareça por aí um Neymar Futebol Clube.
Torço para que as novas gerações tenham consciência do que o Santos Futebol Clube representa, de todo compromisso que se encerra no ato banal de vestir uma camisa, se essa camisa for do time da Vila. E não falo com o ranço de toda caretice que costuma impregnar instituições. Falo em honrar a beleza que permeia essa longa trajetória, pra que a Vila continue sendo um reino onde o talento sempre foi mais cultuado do que a raça.
Ao Santos nunca foram dadas certas alcunhas. O Santos nunca foi chamado de academia, mas não resta dúvida de que poderia. Nos dias de hoje quando vejo o Edu caminhando à beira-mar, quando dou de cara com Mengálvio sentado em uma cadeira de praia com olhar vago, quando encontro a figura de Zito ou o boa-praça José Macia, o Pepe, caminhando por aí, vem a mim uma sensação difícil de descrever. É como se estivesse vendo mais do que homens.
No fundo sei bem o que é. É essa história bonita que se derrama invisivelmente sobre eles. O Santos dos homens, o Santos dos meninos. E eu aqui, em silêncio, penso: Feitiço! Que palavra tão afinada com tudo isso.
* artigo publicado no jornal " A Tribuna", Santos
quinta-feira, 5 de abril de 2012
O artilheiro
O assessor de imprensa atende o telefone. Digo que gostaria de bater um papo com o artilheiro do Campeonato Paulista. Adianto que na minha modesta opinião o goleador não tem tido a atenção que merece.
O interlocutor se mostra um tanto contrariado com meu ponto de vista. Diz que estou enganado. Lista alguns veículos que já fizeram matéria com o rapaz e me avisa que um carro de reportagem da TV Bandeirantes acaba de sair do clube e, enfático, diz que a pauta era justamente Hernane, o homem-gol do Paulistão.
Imagino duas possibilidades. A primeira é que eu realmente estava com a impressão errada. A segunda, que esta semana tudo mudou. Levo, por vaidade talvez, a segunda mais em conta. Encontro alguns motivos pra isso. Já na segunda-feira os jornais traziam a notícia de que Hernane estaria na mira do Palmeiras. Além do mais no sábado o Mogi Mirim, time do artilheiro do torneio, será o adversário do líder São Paulo na abertura da penúltima rodada dessa longa fase de classificação do estadual.
Nem por isso minha curiosidade esfriou. Confesso, inclusive, que cheguei a pensar que se tratava de alguém mais rodado. Mas Hernane, que passou pelo São Paulo em 2007, ainda nem completou vinte e seis anos, e do jeito que a coisa vai tem tudo para engrossar a lista de jogadores que depois de amargar o desprezo dos grandes acabam, de alguma forma, lhes seduzindo.
Hernane chegou ao Mogi Mirim no início da atual temporada depois de defender o Toledo, do Paraná, a Catanduvense e o Paulista de Jundiaí. Antes do São Paulo, na sua ficha consta que o pequeno Atibaia foi o primeiro clube do jogador. De lá pra cá, pelo visto, Hernane apurou muito sua vocação pra goleador.
A tentativa de papo foi em vão. Ter de encarar assessores pouco dispostos a fazer esse meio de campo é fato comum pra nós, jornalistas. Mas a intuição me diz que não devo desistir. Alguém que nasceu na pequena Bom Jesus da Lapa, pequena cidade baiana que fica a quase oitocentos quilômetros de Salvador, que veio dar os primeiros chutes como profissional em Atibaia, que viu o São Paulo não fazer questão de segurá-lo e que conhece muito bem o futebol que vive de cifras modestas, deve ter boas histórias pra contar.
Fiz uma pesquisa rápida, sem nenhum método científico, a fim de testar se isso fazia sentido ou se era apenas um delírio meu. Alguns não souberam dizer quem era o atual artilheiro do Campeonato Paulista, também teve gente que só conseguiu dizer que era "aquele cara do Mogi". Não cheguei a conclusão alguma. Mas não são poucas as vezes que me basta a curiosidade.
Fiquei sabendo que na cidade em que Hernane nasceu se faz a segunda maior festa religiosa do Brasil. A Romaria de Bom Jesus. E que o santuário do lugar fica em uma gruta descoberta há mais de três séculos, antiga morada de onças. Por aqui o garoto que saiu de lá vai colocando as garras pra fora.
Desde que o Campeonato Paulista começou Hernane já viu seu nome em muitas manchetes. Aí vão algumas delas. "Com dois gols de Hernane Mogi vira e bate Comercial fora de casa". "Com dois gols de Hernane Mogi bate Oeste de virada". E até: "Artilheiro Hernane marca gol mais rápido do Paulistão".
Pra não matar vocês de curiosidade, claro, vou dizer quando foi. Foi no dia em que o Mogi enfrentou o Linense, em Lins, e venceu por dois a zero. Hernane precisou só de dezessete segundos pra colocar a bola na rede. Agora me diz, vocês acham mesmo que esse rapaz, que até aqui marcou treze gols, três a mais que Neymar, está tendo mesmo o tratamento que merece? E antes de ler estas linhas você sabia quem era o artilheiro isolado do Campeonato Paulista?
E olha que são várias rodadas nesse isolamento, viu?
O interlocutor se mostra um tanto contrariado com meu ponto de vista. Diz que estou enganado. Lista alguns veículos que já fizeram matéria com o rapaz e me avisa que um carro de reportagem da TV Bandeirantes acaba de sair do clube e, enfático, diz que a pauta era justamente Hernane, o homem-gol do Paulistão.
Imagino duas possibilidades. A primeira é que eu realmente estava com a impressão errada. A segunda, que esta semana tudo mudou. Levo, por vaidade talvez, a segunda mais em conta. Encontro alguns motivos pra isso. Já na segunda-feira os jornais traziam a notícia de que Hernane estaria na mira do Palmeiras. Além do mais no sábado o Mogi Mirim, time do artilheiro do torneio, será o adversário do líder São Paulo na abertura da penúltima rodada dessa longa fase de classificação do estadual.
Nem por isso minha curiosidade esfriou. Confesso, inclusive, que cheguei a pensar que se tratava de alguém mais rodado. Mas Hernane, que passou pelo São Paulo em 2007, ainda nem completou vinte e seis anos, e do jeito que a coisa vai tem tudo para engrossar a lista de jogadores que depois de amargar o desprezo dos grandes acabam, de alguma forma, lhes seduzindo.
Hernane chegou ao Mogi Mirim no início da atual temporada depois de defender o Toledo, do Paraná, a Catanduvense e o Paulista de Jundiaí. Antes do São Paulo, na sua ficha consta que o pequeno Atibaia foi o primeiro clube do jogador. De lá pra cá, pelo visto, Hernane apurou muito sua vocação pra goleador.
A tentativa de papo foi em vão. Ter de encarar assessores pouco dispostos a fazer esse meio de campo é fato comum pra nós, jornalistas. Mas a intuição me diz que não devo desistir. Alguém que nasceu na pequena Bom Jesus da Lapa, pequena cidade baiana que fica a quase oitocentos quilômetros de Salvador, que veio dar os primeiros chutes como profissional em Atibaia, que viu o São Paulo não fazer questão de segurá-lo e que conhece muito bem o futebol que vive de cifras modestas, deve ter boas histórias pra contar.
Fiz uma pesquisa rápida, sem nenhum método científico, a fim de testar se isso fazia sentido ou se era apenas um delírio meu. Alguns não souberam dizer quem era o atual artilheiro do Campeonato Paulista, também teve gente que só conseguiu dizer que era "aquele cara do Mogi". Não cheguei a conclusão alguma. Mas não são poucas as vezes que me basta a curiosidade.
Fiquei sabendo que na cidade em que Hernane nasceu se faz a segunda maior festa religiosa do Brasil. A Romaria de Bom Jesus. E que o santuário do lugar fica em uma gruta descoberta há mais de três séculos, antiga morada de onças. Por aqui o garoto que saiu de lá vai colocando as garras pra fora.
Desde que o Campeonato Paulista começou Hernane já viu seu nome em muitas manchetes. Aí vão algumas delas. "Com dois gols de Hernane Mogi vira e bate Comercial fora de casa". "Com dois gols de Hernane Mogi bate Oeste de virada". E até: "Artilheiro Hernane marca gol mais rápido do Paulistão".
Pra não matar vocês de curiosidade, claro, vou dizer quando foi. Foi no dia em que o Mogi enfrentou o Linense, em Lins, e venceu por dois a zero. Hernane precisou só de dezessete segundos pra colocar a bola na rede. Agora me diz, vocês acham mesmo que esse rapaz, que até aqui marcou treze gols, três a mais que Neymar, está tendo mesmo o tratamento que merece? E antes de ler estas linhas você sabia quem era o artilheiro isolado do Campeonato Paulista?
E olha que são várias rodadas nesse isolamento, viu?
quarta-feira, 28 de março de 2012
Os homens da FIFA estão reunidos.
Os homens da FIFA estão reunidos. E o que vem de lá é de doer. O argentino Júlio Grondona, vice-presidente da entidade, disse que " A copa do mundo é da FIFA e ela apenas ocorre no Brasil". Grondona é um ícone do que o futebol tem de pior. Desde 1979, como homem forte do futebol argentino, resistiu a nada menos do que quatro ditadores, nove presidentes e um papa, como bem anunciava uma matéria escrita por Ariel Palácios para o Estadão em 2009.
O encontro dos executivos da FIFA deixa transbordar um mar de lamentos. Ora, se estão tão descontentes assim com o Brasil deveriam pegar a Copa e... levá-la para outro lugar. O acordo assinado com o nosso governo, inclusive, reza que a FIFA tem esse direito até o meio do ano, e que a decisão não implicaria em multa, nada.
Mas o que me causou indignação ainda maior foi saber que o argelino Mohamed Raouraoua, integrante do Comitê Executivo da FIFA, teria insinuado que falta a Dilma poder para se impor diante do Congresso e da base aliada. "Qual é o poder real da presidente do Brasil?" questionou o sabichão.
É bom que o tal Mohamed fique sabendo que a presidente Dilma acaba de vetar a utilização de recursos do FGTS para obras não só da Copa, como também dos Jogos Olímpicos de 2016. E não foi a primeira vez, não. A Câmara já havia lhe enviado essa proposta.
A presidente justificou a decisão dizendo que a proposta desvirtuaria a prioridade de aplicação do Fundo, que segundo ela deve continuar tendo como foco os setores previstos em lei, fundamentais para o desenvolvimento do país.
Uma decisão que deixa no ar a boa impressão de que temos no poder alguém, que ao contrário de muitos, está ciente de que tem uma história e um nome a zelar.
O encontro dos executivos da FIFA deixa transbordar um mar de lamentos. Ora, se estão tão descontentes assim com o Brasil deveriam pegar a Copa e... levá-la para outro lugar. O acordo assinado com o nosso governo, inclusive, reza que a FIFA tem esse direito até o meio do ano, e que a decisão não implicaria em multa, nada.
Mas o que me causou indignação ainda maior foi saber que o argelino Mohamed Raouraoua, integrante do Comitê Executivo da FIFA, teria insinuado que falta a Dilma poder para se impor diante do Congresso e da base aliada. "Qual é o poder real da presidente do Brasil?" questionou o sabichão.
É bom que o tal Mohamed fique sabendo que a presidente Dilma acaba de vetar a utilização de recursos do FGTS para obras não só da Copa, como também dos Jogos Olímpicos de 2016. E não foi a primeira vez, não. A Câmara já havia lhe enviado essa proposta.
A presidente justificou a decisão dizendo que a proposta desvirtuaria a prioridade de aplicação do Fundo, que segundo ela deve continuar tendo como foco os setores previstos em lei, fundamentais para o desenvolvimento do país.
Uma decisão que deixa no ar a boa impressão de que temos no poder alguém, que ao contrário de muitos, está ciente de que tem uma história e um nome a zelar.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Os meninos e o futebol

Os meninos são a face mais pura do futebol. Para grande parte deles jogar bola, em algum momento, não foi apenas uma, mas a grande brincadeira. Você provavelmente sabe se um dia fez parte desse time.
Caso tenha alguma dúvida, pode acabar de vez com ela recorrendo a memória. Nela, as tardes passadas atrás da bola parecem infinitas? Existiu um tempo em que a pelada com os amigos estava, certamente, entre as coisas mais importantes do mundo? Não tenho o menor medo de errar. Serão muitos os que irão responder que sim.
E é justamente esse reinado no terreno fértil da infância que faz o futebol diferente de tudo. Sem essa soberania entre os guris o esporte dificilmente teria virado o que virou. Tudo bem que depois da nossa mais tenra idade o futebol tenha perdido espaço para outras curtições. Guitarras... meninas... viagens... ondas... estudo.
Em outras palavras, quando um menino brilha com a bola nos pés não é só o talento dele que nos encanta. Naquela meninice nos reconhecemos, reencontramos alguém que já fomos. Todo menino que o futebol consagra realiza um sonho que um dia também foi nosso. Somos cúmplices da alegria vivida por cada um deles. E isso é muito maior do que torcer por um time.
Digo que foi com euforia que encarei a redenção do jovem Lucas no clássico entre São Paulo e Santos, pois a exibição dele no último domingo trouxe de volta um menino para o futebol brasileiro. Um menino que vinha recebendo críticas de tudo quanto é lado. E Neymar, ao não poupar elogios ao adversário em dia tão importante, deixou transparecer que se reconhecia no momento vivido pelo amigo. Diria mais, nas entrelinhas sugeriu que se tratava de um embate entre iguais, e isso foi de uma elegância madura.
Imagino que em matéria de futebol ter o talento questionado pode guardar tanta crueldade quanto não ter o talento reconhecido. Flutuar entre o genial e o puramente normal exige fibra. Não sei se vocês viram mas até o empresário do Lucas, o bem sucedido Wagner Ribeiro, saiu em defesa de seu cliente dizendo que se tratava de uma Ferrari que estava sendo mal conduzida.
Sou capaz de compreender a comparação, mas não resisto à tentação de dizer, Sr Wagner, que a fábrica de onde saem esses meninos - tão caros e rentáveis - é muito mais perfeita e interessante do que aquela que fabrica Ferraris, em Maranello, na Itália.
E por falar em meninos, dias atrás me deliciei com a entrevista do garoto Wellington Nem no caderno de esporte do jornal "O Globo". O jogador do Flu, que tem vinte anos, contava ao repórter que no início de tudo chegava a se esconder, depois de ter sido inscrito pelo pai em time de futebol de salão, e que entrou em quadra na primeira vez chorando porque o que queria mesmo era ir para a rua soltar e correr atrás de pipa.
Wellington chegou ao Flu com treze anos, acaba de ser pré-convocado por Mano Menezes. Foi companheiro de Neymar em 2009, no Mundial sub-17, disputado na Nigéria. O atacante disse ainda que "Partir pra cima e driblar é a maior diversão".
De que campinho sairá um novo menino ninguém sabe. O sonho deles tem mais essa beleza, ignora a incerteza. Tem gente que vai dizer que hoje, aos vinte, ninguém é mais menino.Pode ser.
Mas é com eles que o futebol garante uma dose maior de graça.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Ele saiu, o futebol continua
"Vida, minha vida/ olha o que é que eu fiz". O refrão da música do Chico Buarque me veio logo à cabeça. Na tarde que passou faz pouco tive a sensação de que as manchetes iam fermentando diante dos meus olhos. Tentei imaginar, não o cartola-mor, mas o homem por trás dele.
Gastei um tempo nesse exercício de supor o que estaria passando pela cabeça do Sr Ricardo Teixeira. Pensei que ouvir aquela música do Chico agora poderia ser um tanto fatal ou que ela lhe provocaria um mar de lágrimas.
Para alguém que foi alçado à condição de presidente da CBF com quarenta e um anos de idade a parte que diz: "Deixei a fatia mais doce da vida / Na mesa dos homens de vida vazia", poderia agora fazer mais sentido do que nunca. Mas a essa altura ele já havia deixado o país. Era um homem tentando driblar sua própria história.
Na carta que redigiu antes disso, e que foi lida pelo sucessor dele, o ex-governador biônico, José Maria Marin, ficou estampado o contraste entre a figura que reinou e aquela que se despedia. O sujeito que reinou jamais pareceu se deixar levar pelo encanto do futebol. O que se despedia parecia entender perfeitamente o papel da paixão em tudo isso.
No singular, ou no plural, lembro de ter visto a palavra paixão entre as linhas de sua carta pelo menos quatro vezes. E quando entre o fim da manhã e o início da tarde daquele dia tão simbólico seu sucessor, que eu ouvia atentamente pelo rádio, tentava convencer os ouvintes de que nada iria mudar, eu solitariamente lamentava a insistência dos nossos cartolas em administrar o futebol brasileiro com o pragmatismo e a cobiça de quem cuida de um banco.
Mas não devemos, sob hipótese nenhuma, nos furtar de comemorar o fato de que o o futebol brasileiro entrou, finalmente, em um outro momento. Por mais convincente que Marin tenha tentado ser, a "continuidade" defendida por ele no momento da posse já não existia. Os efeitos colaterais da história, em geral impiedosos, passaram a ser para todos eles a partir daquele momento uma ameaça constante.
Deixemos para trás esse capítulo que se arrastava por décadas. Um capítulo temperado por triunfos, mas triunfos que tiveram um preço alto demais. Triunfos que nos trouxeram uma alegria quase estéril, uma alegria que chegou a ter a hora de erguer a taça como apogeu, e isso sempre foi pouco pro nosso povo em matéria de futebol.
No mais, é vida que segue, como diria o bordão inesquecível de João Saldanha. O Santos estará em campo daqui a pouco tentado manter o brilho da bela exibição diante do Inter, quando tratou a Vila com a devida reverência. Uma noite pra fazer a derrota diante do Mogi - uma exibição tão sem brilho que feriu até a reputação de um time reserva - um detalhe cada vez menos importante nesse imenso turbilhão dos dias. Graças aos homens, e apesar deles, o futebol está longe perder sua magia.
Gastei um tempo nesse exercício de supor o que estaria passando pela cabeça do Sr Ricardo Teixeira. Pensei que ouvir aquela música do Chico agora poderia ser um tanto fatal ou que ela lhe provocaria um mar de lágrimas.
Para alguém que foi alçado à condição de presidente da CBF com quarenta e um anos de idade a parte que diz: "Deixei a fatia mais doce da vida / Na mesa dos homens de vida vazia", poderia agora fazer mais sentido do que nunca. Mas a essa altura ele já havia deixado o país. Era um homem tentando driblar sua própria história.
Na carta que redigiu antes disso, e que foi lida pelo sucessor dele, o ex-governador biônico, José Maria Marin, ficou estampado o contraste entre a figura que reinou e aquela que se despedia. O sujeito que reinou jamais pareceu se deixar levar pelo encanto do futebol. O que se despedia parecia entender perfeitamente o papel da paixão em tudo isso.
No singular, ou no plural, lembro de ter visto a palavra paixão entre as linhas de sua carta pelo menos quatro vezes. E quando entre o fim da manhã e o início da tarde daquele dia tão simbólico seu sucessor, que eu ouvia atentamente pelo rádio, tentava convencer os ouvintes de que nada iria mudar, eu solitariamente lamentava a insistência dos nossos cartolas em administrar o futebol brasileiro com o pragmatismo e a cobiça de quem cuida de um banco.
Mas não devemos, sob hipótese nenhuma, nos furtar de comemorar o fato de que o o futebol brasileiro entrou, finalmente, em um outro momento. Por mais convincente que Marin tenha tentado ser, a "continuidade" defendida por ele no momento da posse já não existia. Os efeitos colaterais da história, em geral impiedosos, passaram a ser para todos eles a partir daquele momento uma ameaça constante.
Deixemos para trás esse capítulo que se arrastava por décadas. Um capítulo temperado por triunfos, mas triunfos que tiveram um preço alto demais. Triunfos que nos trouxeram uma alegria quase estéril, uma alegria que chegou a ter a hora de erguer a taça como apogeu, e isso sempre foi pouco pro nosso povo em matéria de futebol.
No mais, é vida que segue, como diria o bordão inesquecível de João Saldanha. O Santos estará em campo daqui a pouco tentado manter o brilho da bela exibição diante do Inter, quando tratou a Vila com a devida reverência. Uma noite pra fazer a derrota diante do Mogi - uma exibição tão sem brilho que feriu até a reputação de um time reserva - um detalhe cada vez menos importante nesse imenso turbilhão dos dias. Graças aos homens, e apesar deles, o futebol está longe perder sua magia.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Coisa de louco
Para tornar clara a indignação que pretendo dividir com vocês nesse espaço vale dizer que a sensação que trago em mim é que depois da invenção do hippie-chic eu não deveria duvidar de mais nada. Mas, quero acreditar, que doses homéricas de paz e amor jamais terão sido em vão.
Sabe o que é ? É essa tabelinha forçada entre futebol e cerveja que nunca me desceu redonda, e entalou de vez aqui na minha garganta desde o momento em que dei de cara com um comercial que usa a emblemática "Balada do Louco", dos Mutantes, composta por Arnaldo Baptista e Rita Lee, como trilha sonora.
Tá certo que o sistema a tudo consome, tal qual um buraco-negro, mas pra mim esse caso extrapolou todos os limites. Acredito que não faltarão oportunidades para voltar ao tema já que os nossos deputados acabam de dar o sinal verde para a liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios da Copa 2014.
Pois bem. Durante toda minha vida muitas foram as músicas que com seus versos rebeldes me deram a sensação de ser um cara normal, de não ser o único a sentir essa sensação de estar nadando contra a corrente. E a " Balada do Louco" pairava sempre acima de todas elas.
Depois de ouvi-la, passou a o importar menos que andassem dizendo aos quatro ventos que você era louco. Tenho certeza que ela funcionou, até ser reduzida a um jingle infame, como certificado de sanidade de muito maluco por aí. Agora, me digam o que tem de louco alguém que vive sentado no sofá ou na arquibancada bebendo?
O futebol, meus amigos, não se enganem, é normal. Extremamente careta e normal. E, o mais importante de tudo, ninguém nesse mundo deve precisar de uma dose de futebol pra ser feliz, ora bolas. Se você é feliz com o futebol, essa é uma outra história. Não há dependência aí, e isso faz toda a diferença.
Publicitários, por certo, terão um milhão de teorias para defender a peça que ora faço de alvo. Pensando bem, tá todo mundo louco. Só não dá pra dizer o "Oba" no final, como em uma outra música que não sei se vocês lembram, aquela do Silvio Brito.
O secretário geral da FIFA sugerir um chute na bunda do Brasil pode ser uma loucura. Mas o nosso Ministro das Relações Internacionais, Marco Aurélio Garcia, responder dizendo que o homem é um "vagabundo", também não é nenhuma prova de sanidade.
Mas exemplo de sobriedade porreta foi o ministro dizer: "Vocês sabem como é o ritmo do Brasil. Não é o ritmo europeu, germânico. Vamos fazer do nosso jeito". Diante disso só resta a pergunta: Do nosso jeito? Há algo mais preocupante do que isso?
Há tempos, e graças aos Mutantes como já disse, nem me importo se dizem que sou louco por pensar assim. Mais louco é quem me diz.
Sabe o que é ? É essa tabelinha forçada entre futebol e cerveja que nunca me desceu redonda, e entalou de vez aqui na minha garganta desde o momento em que dei de cara com um comercial que usa a emblemática "Balada do Louco", dos Mutantes, composta por Arnaldo Baptista e Rita Lee, como trilha sonora.
Tá certo que o sistema a tudo consome, tal qual um buraco-negro, mas pra mim esse caso extrapolou todos os limites. Acredito que não faltarão oportunidades para voltar ao tema já que os nossos deputados acabam de dar o sinal verde para a liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios da Copa 2014.
Pois bem. Durante toda minha vida muitas foram as músicas que com seus versos rebeldes me deram a sensação de ser um cara normal, de não ser o único a sentir essa sensação de estar nadando contra a corrente. E a " Balada do Louco" pairava sempre acima de todas elas.
Depois de ouvi-la, passou a o importar menos que andassem dizendo aos quatro ventos que você era louco. Tenho certeza que ela funcionou, até ser reduzida a um jingle infame, como certificado de sanidade de muito maluco por aí. Agora, me digam o que tem de louco alguém que vive sentado no sofá ou na arquibancada bebendo?
O futebol, meus amigos, não se enganem, é normal. Extremamente careta e normal. E, o mais importante de tudo, ninguém nesse mundo deve precisar de uma dose de futebol pra ser feliz, ora bolas. Se você é feliz com o futebol, essa é uma outra história. Não há dependência aí, e isso faz toda a diferença.
Publicitários, por certo, terão um milhão de teorias para defender a peça que ora faço de alvo. Pensando bem, tá todo mundo louco. Só não dá pra dizer o "Oba" no final, como em uma outra música que não sei se vocês lembram, aquela do Silvio Brito.
O secretário geral da FIFA sugerir um chute na bunda do Brasil pode ser uma loucura. Mas o nosso Ministro das Relações Internacionais, Marco Aurélio Garcia, responder dizendo que o homem é um "vagabundo", também não é nenhuma prova de sanidade.
Mas exemplo de sobriedade porreta foi o ministro dizer: "Vocês sabem como é o ritmo do Brasil. Não é o ritmo europeu, germânico. Vamos fazer do nosso jeito". Diante disso só resta a pergunta: Do nosso jeito? Há algo mais preocupante do que isso?
Há tempos, e graças aos Mutantes como já disse, nem me importo se dizem que sou louco por pensar assim. Mais louco é quem me diz.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
A penitência do Imperador
Essa imprensa é demais. Vejo aqui que ela quis saber de Adriano até a razão que o leva a dar cascudos na própria cabeça quando algo sai errado em campo. O leitor mais sacana a essa altura deve estar pensando: Ué!? Motivos não faltam!. Pode ser. E o Imperador não fez mistério, não. Bom, também não revelou nada que pudesse ser considerado grandioso.
O atacante disse que é só uma forma que ele encontrou "para sempre melhorar". Certamente seu interlocutor esperava algo mais interessante. Uma memória de infância. Um castigo que lhe teria sido imposto quando ele, ainda garoto, não ostentava um corpo que só pelo tamanho seria capaz de afugentar muitos adversários.
Porque se tem uma coisa difícil de imaginar é um cara do tamanho dele sendo vítima de bulling ou algo parecido. Mas não foi nada disso que me seduziu. O que me fez trazer esse tema pra cá foi o cascudo. Isso mesmo, o cascudo. Com ele fiz uma verdadeira viagem no tempo. Voltei à época em que ele reinava absoluto.
Tenho pra mim que o cascudo nunca foi uma agressão barata e muita gente há de concordar comigo. Não tinha puxão de orelha, safanão, ou peteleco que pudesse desafiá-lo. O cascudo tinha, antes de tudo, um componente moral. E por essa qualidade era capaz de ignorar a força.
Um cascudo desferido com estilo diminuía o agredido de tal maneira que a vítima muitas vezes tomava o rumo de casa e, não raro, demorava um tempo pra reaparecer. Podia também ter o efeito contrário. Se o alvo fosse do tipo que não levava desaforo para casa o cascudo - ainda que usado como brincadeira - tinha tudo para acabar em briga.
Não pensem também que era qualquer Zé Mané que podia sair por aí fazendo uso dessa arte. Mesmo porque se saísse dos dedos de alguém que não tinha status para usá-lo provavelmente seria um feitiço que viraria contra o feiticeiro. Que me perdoem os politicamente corretos. Mas se há uma virtude nessa mania do Adriano é a de resgatar a importância do cascudo como corretivo.
Lembro ainda que no meu tempo de menino falar asneiras ou, dizer simplesmente o óbvio, também podiam lhe impor esse tipo de penitência. Se alguém naquela época dissesse, como disse o Imperador, que "não gosta de perder gol", iria surgir alguém no pedaço de mão fechada já dizendo: " E por acaso você conhece alguém que goste de perder gols?". E pimba! Vida de moleque não é fácil.
Mas voltemos ao presente. Restam menos de cem dias para o fim do contrato do Imperador com o Corinthians. Contra o Botafogo dias atrás, pela primeira vez, ele esteve em campo durante noventa minutos. Ninguém precisa explicar pra ele, que foi criado em uma das comunidades mais violentas do Rio, sobre as armadilhas da vida. Pensando bem, ninguém melhor do que Adriano pra saber dos milagres que um cascudo aplicado com precisão pode operar.
O atacante disse que é só uma forma que ele encontrou "para sempre melhorar". Certamente seu interlocutor esperava algo mais interessante. Uma memória de infância. Um castigo que lhe teria sido imposto quando ele, ainda garoto, não ostentava um corpo que só pelo tamanho seria capaz de afugentar muitos adversários.
Porque se tem uma coisa difícil de imaginar é um cara do tamanho dele sendo vítima de bulling ou algo parecido. Mas não foi nada disso que me seduziu. O que me fez trazer esse tema pra cá foi o cascudo. Isso mesmo, o cascudo. Com ele fiz uma verdadeira viagem no tempo. Voltei à época em que ele reinava absoluto.
Tenho pra mim que o cascudo nunca foi uma agressão barata e muita gente há de concordar comigo. Não tinha puxão de orelha, safanão, ou peteleco que pudesse desafiá-lo. O cascudo tinha, antes de tudo, um componente moral. E por essa qualidade era capaz de ignorar a força.
Um cascudo desferido com estilo diminuía o agredido de tal maneira que a vítima muitas vezes tomava o rumo de casa e, não raro, demorava um tempo pra reaparecer. Podia também ter o efeito contrário. Se o alvo fosse do tipo que não levava desaforo para casa o cascudo - ainda que usado como brincadeira - tinha tudo para acabar em briga.
Não pensem também que era qualquer Zé Mané que podia sair por aí fazendo uso dessa arte. Mesmo porque se saísse dos dedos de alguém que não tinha status para usá-lo provavelmente seria um feitiço que viraria contra o feiticeiro. Que me perdoem os politicamente corretos. Mas se há uma virtude nessa mania do Adriano é a de resgatar a importância do cascudo como corretivo.
Lembro ainda que no meu tempo de menino falar asneiras ou, dizer simplesmente o óbvio, também podiam lhe impor esse tipo de penitência. Se alguém naquela época dissesse, como disse o Imperador, que "não gosta de perder gol", iria surgir alguém no pedaço de mão fechada já dizendo: " E por acaso você conhece alguém que goste de perder gols?". E pimba! Vida de moleque não é fácil.
Mas voltemos ao presente. Restam menos de cem dias para o fim do contrato do Imperador com o Corinthians. Contra o Botafogo dias atrás, pela primeira vez, ele esteve em campo durante noventa minutos. Ninguém precisa explicar pra ele, que foi criado em uma das comunidades mais violentas do Rio, sobre as armadilhas da vida. Pensando bem, ninguém melhor do que Adriano pra saber dos milagres que um cascudo aplicado com precisão pode operar.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Futebol e Carnaval
Sei que nem bem é passada a folia. Mas a quarta-feira está aí com suas cinzas que não farão meu discurso soar tão deslocado assim. É que não quero perder a oportunidade de registrar aqui a minha preocupação com essa coisa de escolas de samba ligadas a times de futebol.
Do jeito que a coisa vai, vejam só, em breve teremos um verdadeiro Campeonato Paulista sendo travado no Sambódromo, e esse nunca foi o espírito da coisa. Tem algum tamborim meio fora de ritmo nessa bateria. Até porque o apelo futebolístico pode desequilibrar o jogo, ou trazer para a passarela um clima que não é dela.
Trata-se apenas de uma impressão. E quero deixar claro aqui que as linhas acima foram escritas ainda na segunda, antes de toda bagunça que manchou o Carnaval de São Paulo. Mas como não tenho a menor intimidade com o tema encerro aqui as minhas reflexões, não sem antes dividir com vocês uma dúvida que me tomou enquanto assistia a um dos desfiles.
Aconteceu que em determinado momento as câmeras de TV focalizaram toda a euforia de uma moça que sambava em cima de um carro alegórico vestindo uma fantasia adornada com um sem fim de penas azuis. Bom, na hora em que o letreiro pintou na tela me avisou que se tratava da fantasia "Esplendor do mar", em alusão a Iemanjá. Minha pobre cabeça, confesso, deu um nó. Mar, águas? Tive dificuldade em compreender a razão das tais penas, mesmo sabendo que o momento exigia dar asas à imaginação.
Além do mais, falar mal das penas no universo das fantasias carnavalescas deve equivaler a falar mal dos dribles no universo da bola. E, por falar em futebol e Carnaval , tá mais do que na hora da Federação Paulista dar um jeito de se adequar e ceder espaço ao que se desenrola nas passarelas de uma vez.
Esparramar os jogos entre quinta e sábado é de uma insensibilidade absurda. Chegamos à nona rodada com a sensação de que a oitava praticamente não existiu. E para tratar mal o nosso pra lá de centenário Campeonato Paulista já basta o futebol praticado, não acham?
Seja como for, com rodada dividida ou não, o Carnaval passou. Adriano se vestiu de titular. Ricardo Teixeira percebeu que seu jeitão carrancudo não ia combinar em nada com tanta alegria e se mandou pros Estates de jatinho. Nada, amigo, como uma época rica em fantasias. Pena que estamos num país em que cada vez menos elas conseguem durar até a quarta-feira de cinzas. Talvez não, porque tá cheio de gente por aí achando que seu time vai ser campeão.
E por falar em fantasia, o que é esse pequeno-grande argentino chamado Lionel Messi? Nem o mais talentoso dos carnavalescos seria capaz de imaginar pra ele um enredo tão incrível quanto o que ele está vivendo. Olha, que me perdoe o português Cristiano Ronaldo, que também anda jogando um bolão, mas enjoa de tão chegado que é a fazer um Carnaval. Não sei se vocês me entendem. Quero crer que sim.
Do jeito que a coisa vai, vejam só, em breve teremos um verdadeiro Campeonato Paulista sendo travado no Sambódromo, e esse nunca foi o espírito da coisa. Tem algum tamborim meio fora de ritmo nessa bateria. Até porque o apelo futebolístico pode desequilibrar o jogo, ou trazer para a passarela um clima que não é dela.
Trata-se apenas de uma impressão. E quero deixar claro aqui que as linhas acima foram escritas ainda na segunda, antes de toda bagunça que manchou o Carnaval de São Paulo. Mas como não tenho a menor intimidade com o tema encerro aqui as minhas reflexões, não sem antes dividir com vocês uma dúvida que me tomou enquanto assistia a um dos desfiles.
Aconteceu que em determinado momento as câmeras de TV focalizaram toda a euforia de uma moça que sambava em cima de um carro alegórico vestindo uma fantasia adornada com um sem fim de penas azuis. Bom, na hora em que o letreiro pintou na tela me avisou que se tratava da fantasia "Esplendor do mar", em alusão a Iemanjá. Minha pobre cabeça, confesso, deu um nó. Mar, águas? Tive dificuldade em compreender a razão das tais penas, mesmo sabendo que o momento exigia dar asas à imaginação.
Além do mais, falar mal das penas no universo das fantasias carnavalescas deve equivaler a falar mal dos dribles no universo da bola. E, por falar em futebol e Carnaval , tá mais do que na hora da Federação Paulista dar um jeito de se adequar e ceder espaço ao que se desenrola nas passarelas de uma vez.
Esparramar os jogos entre quinta e sábado é de uma insensibilidade absurda. Chegamos à nona rodada com a sensação de que a oitava praticamente não existiu. E para tratar mal o nosso pra lá de centenário Campeonato Paulista já basta o futebol praticado, não acham?
Seja como for, com rodada dividida ou não, o Carnaval passou. Adriano se vestiu de titular. Ricardo Teixeira percebeu que seu jeitão carrancudo não ia combinar em nada com tanta alegria e se mandou pros Estates de jatinho. Nada, amigo, como uma época rica em fantasias. Pena que estamos num país em que cada vez menos elas conseguem durar até a quarta-feira de cinzas. Talvez não, porque tá cheio de gente por aí achando que seu time vai ser campeão.
E por falar em fantasia, o que é esse pequeno-grande argentino chamado Lionel Messi? Nem o mais talentoso dos carnavalescos seria capaz de imaginar pra ele um enredo tão incrível quanto o que ele está vivendo. Olha, que me perdoe o português Cristiano Ronaldo, que também anda jogando um bolão, mas enjoa de tão chegado que é a fazer um Carnaval. Não sei se vocês me entendem. Quero crer que sim.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
A jogada da renúncia
O futebol é assim, tão perfeito pra nos jogar na cara aquilo que somos, que mesmo o sabendo uma eterna caixa de surpresas me espanto. Dizem que o mundo tá pra acabar e que a dinastia de Ricardo Teixeira pode ruir antes disso. É notícia alvissareira, talvez até nos dois casos seja.
Mas vamos imaginar que a coisa é pra valer, e que está pra chegar o dia em que iremos acordar e o eterno genro de João Havelange não estará mais no poder. Tais boatos não são recentes, é bom lembrar. Diria que devemos nos preparar, e muito bem, pois nesse aguardado dia ficaremos cara a cara com a nossa pobreza, ainda que felizes e um tanto satisfeitos.
Falo dessa pobreza da qual nem mesmo a nossa condição de emergente sedutor vai nos livrar, a pobreza de ter parado no tempo. A pobreza de ainda estar na era dos senhores feudais no que diz respeito ao futebol. Podemos ser para o mundo a vedete dos BRICs, mas e daí? Quem, afinal, seria o homem ideal para cuidar dessa nossa paixão a partir de então?
Vamos supor, apenas supor, que com a renúncia de Ricardo Teixeira o poder realmente mudaria de mãos, que o futebol e seus amantes ganhariam prioridade, que eles seriam tratados com respeito e que a nossa seleção iria parar de excursionar pelo mundo afora para fazer a alegria de ditadores. Quem seria tão distinta figura?Qual o presidente de clube, qual o diretor, qual o cartola que lhe parece talhado para tão honrosa missão? Está vendo algum?
Olha, não se trata de colocar em dúvida a capacidade alheia, não, se trata de deixar claro que o nosso futebol, de tão dinástico, não se renovou. Faça uma lista com o nome dos nossos presidentes de clubes e Federações e você inevitavelmente chegará à conclusão de que mesmo os novos nomes que surgiram em cena estão cercados de figuras que reinam faz tempo nesse mundo.
Por um instante, num delírio sem tamanho, naquele espaço de tempo em que a inspiração repentinamente te abandona, me peguei imaginando que a nossa ainda jovem democracia poderia contaminar o futebol. Na minha inocência de sonhador, se somos todos torcedores, passaríamos a ser todos eleitores da CBF. Não seria um voto obrigatório. Seria, portanto, uma obrigação com a qual os que não gostam de futebol não precisariam se preocupar.
A regra seria a mesma. Quatro anos de mandato, com direito a uma reeleição, e ponto. De carona nesse vento de progresso e renovação poderíamos exigir campanhas com financiamento transparente também para, quem sabe, apontar um caminho a nação. Manifestações nas ruas para marcar essa transição também cairiam bem. Talvez tirassem até dos antipáticos certa simpatia. Ruas cheias, acima de tudo, legitimariam um novo poder do futebol. Ajudariam a colocar um ponto final nesse velho poder no qual nenhum torcedor se vê refletido, só os de sempre.
Uma revolução poderosa e pacífica seria, sem dúvida, um golaço. Dar adeus a Ricardo Teixeira, se possível, terá sido importante, um avanço, mas não passará, jamais, de um primeiro ato. Isso sem esquecer que há tempos renúncia no Brasil tem sido sinônimo de artimanha para driblar os fatos. A história mostra que certa vez não foi assim.
Foi quando o presidente da República, Jânio Quadros, resolveu fazer dela uma jogada. Imaginou que se renunciasse poderia voltar fortalecido ao poder, deu errado como sabemos. Estratégia que Teixeira por razões óbvias, e por tudo que tem sido dito e tramado, não pode nem em sonho imaginar. E caso saia, que seja para sempre.
Mas vamos imaginar que a coisa é pra valer, e que está pra chegar o dia em que iremos acordar e o eterno genro de João Havelange não estará mais no poder. Tais boatos não são recentes, é bom lembrar. Diria que devemos nos preparar, e muito bem, pois nesse aguardado dia ficaremos cara a cara com a nossa pobreza, ainda que felizes e um tanto satisfeitos.
Falo dessa pobreza da qual nem mesmo a nossa condição de emergente sedutor vai nos livrar, a pobreza de ter parado no tempo. A pobreza de ainda estar na era dos senhores feudais no que diz respeito ao futebol. Podemos ser para o mundo a vedete dos BRICs, mas e daí? Quem, afinal, seria o homem ideal para cuidar dessa nossa paixão a partir de então?
Vamos supor, apenas supor, que com a renúncia de Ricardo Teixeira o poder realmente mudaria de mãos, que o futebol e seus amantes ganhariam prioridade, que eles seriam tratados com respeito e que a nossa seleção iria parar de excursionar pelo mundo afora para fazer a alegria de ditadores. Quem seria tão distinta figura?Qual o presidente de clube, qual o diretor, qual o cartola que lhe parece talhado para tão honrosa missão? Está vendo algum?
Olha, não se trata de colocar em dúvida a capacidade alheia, não, se trata de deixar claro que o nosso futebol, de tão dinástico, não se renovou. Faça uma lista com o nome dos nossos presidentes de clubes e Federações e você inevitavelmente chegará à conclusão de que mesmo os novos nomes que surgiram em cena estão cercados de figuras que reinam faz tempo nesse mundo.
Por um instante, num delírio sem tamanho, naquele espaço de tempo em que a inspiração repentinamente te abandona, me peguei imaginando que a nossa ainda jovem democracia poderia contaminar o futebol. Na minha inocência de sonhador, se somos todos torcedores, passaríamos a ser todos eleitores da CBF. Não seria um voto obrigatório. Seria, portanto, uma obrigação com a qual os que não gostam de futebol não precisariam se preocupar.
A regra seria a mesma. Quatro anos de mandato, com direito a uma reeleição, e ponto. De carona nesse vento de progresso e renovação poderíamos exigir campanhas com financiamento transparente também para, quem sabe, apontar um caminho a nação. Manifestações nas ruas para marcar essa transição também cairiam bem. Talvez tirassem até dos antipáticos certa simpatia. Ruas cheias, acima de tudo, legitimariam um novo poder do futebol. Ajudariam a colocar um ponto final nesse velho poder no qual nenhum torcedor se vê refletido, só os de sempre.
Uma revolução poderosa e pacífica seria, sem dúvida, um golaço. Dar adeus a Ricardo Teixeira, se possível, terá sido importante, um avanço, mas não passará, jamais, de um primeiro ato. Isso sem esquecer que há tempos renúncia no Brasil tem sido sinônimo de artimanha para driblar os fatos. A história mostra que certa vez não foi assim.
Foi quando o presidente da República, Jânio Quadros, resolveu fazer dela uma jogada. Imaginou que se renunciasse poderia voltar fortalecido ao poder, deu errado como sabemos. Estratégia que Teixeira por razões óbvias, e por tudo que tem sido dito e tramado, não pode nem em sonho imaginar. E caso saia, que seja para sempre.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Rita Lee, sempre uma inspiração
Ela beijou a mão do santo
Agradecida e juvenil
Pensou que bem podia
Ser presidenta do Brasil
Pra dar Panis Et Circenses
A essa gente tão gentil
Má ideia não seria
Pois artista não sobrou
Chico só quer bola
E Caetano caducou
Então vote em Rita Lee
Prum país mais rock and roll!
* As palavras são do artista e cordelista J. Borges, pernambucano, 76 anos, inspirado no acontecido durante o show de despedida da "tia" em Aracaju. Vale a pena visitar o endereço abaixo e ler na íntegra
http://bit.ly/zrJbP4
Agradecida e juvenil
Pensou que bem podia
Ser presidenta do Brasil
Pra dar Panis Et Circenses
A essa gente tão gentil
Má ideia não seria
Pois artista não sobrou
Chico só quer bola
E Caetano caducou
Então vote em Rita Lee
Prum país mais rock and roll!
* As palavras são do artista e cordelista J. Borges, pernambucano, 76 anos, inspirado no acontecido durante o show de despedida da "tia" em Aracaju. Vale a pena visitar o endereço abaixo e ler na íntegra
http://bit.ly/zrJbP4
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Cadê o futebol ?
Depois de desfrutar do nobre direito das férias, herança deixada pelo governo Getúlio Vargas, contemplar alguns entardeceres e arejar a cuca, cá estou a batucar estas linhas para o nosso reencontro ainda em meio ao bafo escaldante desse verão que ensaia nos deixar.
As agruras são as mesmas, se renovam como as estações. Está pra nascer o dia em que o regulamento do Campeonato Paulista estabelecerá um preço máximo para os ingressos, evitando assim que cartolas do nosso interior possam acreditar que colocar o preço nas alturas seja mesmo a melhor maneira de tirar proveito da passagem de um time grande por suas cidades.
Pra quem não sabe, ou já não lembra, o ingresso mais barato para a partida entre Catanduvense e Palmeiras custou míseros oitenta reais. Mas não pensem que mazelas são exclusividade do futebol. No nosso honrado Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, tratou de cuidar da sua reeleição e se garantir no poder até 2016.
Nesse nosso país que vai se acostumando, depois de muita dor e injustiça, a ter presidentes eleitos pelo povo, o esporte está longe de ser um exemplo de democracia. Ao contrário, um forte odor de Mubaracks, Kadafis e afins exala das nossas piscinas, pistas, quadras e campos.
E o que se passa com o Santos ? Pode-se dizer muito do time da Vila, menos que tenha nos últimos tempos honrado a fama de ser o melhor, ou um dos melhores times do país. Ganhar, ou não, não é o caso. O caso é que não se vê em campo o menor sinal de um time que não foi desmontado.
Não há futebol e a impressão que tenho é a de que não há conjunto, o que pode ser mais nocivo do que a falta de futebol. O embarque pra Bolívia, para encarar o The Strongest, se aproxima. Já vou avisando que não sou do time dos que costumam colocar em dúvida a capacidade de Muricy Ramalho. Considero o treinador, ora santista, um dos mais legítimos da classe.
Quando estava em campo provou sua capacidade e, mais tarde, no banco, está aí com toda a sua estatura. Consagrado. Mas os problemas do time da Vila, às vésperas de viver a beleza e o entusiasmo de seu primeiro centenário, não são poucos.
As laterais preocupam. De um lado por escassez de talento, e do outro porque uma geração está cara a cara com o fim. Pará, que devo dizer, talvez tenha sido o jogador que deu a virada mais espetacular na carreira que já vi, depois de amargar fase difícil para em seguida deslanchar e conquistar o respeito da torcida, voltou a ser uma incógnita.
E olha que tempos atrás quase ninguém seria capaz de dizer que Pará não era um jogador que dava conta do recado. Passou. Pode voltar, é verdade, sempre pode. Maranhão? Que fatalidade essa última! Mas ainda não esqueci que no jogo contra o Paulista, naquele lance em que ficou com a missão de acompanhar e parar Renan Marques, não mostrou - como diria o técnico Tite - estar com a " faca nos dentes".
A defesa do peixe, experiente, tem dado caldo ralo. Ou engrossa, ou engrossa. Embora valha lembrar que o Santos, ao esbaldar criação, deu-se até o direito de ter uma defesa em estágio inferior ao ataque, o que pode aborrecer os pessimistas e que os otimistas podem até classificar como um luxo.
Mas, ao que tudo indica, se houver um revés não terá sido por falta de gols. Se Borges não é artilheiro, quem é? De Neymar, nada a dizer a não ser que tome cuidado pra não se molhar nessa chuva de festas e badalação. E o Ganso. Ah! O Ganso. Trata-se, no meu modo de ver, do mais elegante jogador desse longo e bom momento santista. E acredito que não seria exagero dizer que se trata até do mais elegante jogador da história recente do futebol brasileiro.
Agora, na minha cabeça a imagem de um maestro desafinado e com dificuldade de retomar o ritmo perfeito é a melhor imagem para descrevê-lo atualmente. No meio do caminho, no domingo, há o Linense. Pouco importa. Até a bola rolar pela Libertadores tudo terá sido sido irrelevante, depois não. Depois a temporada começa pra valer, e aí, será preciso mostrar futebol. E cadê?
*artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos
As agruras são as mesmas, se renovam como as estações. Está pra nascer o dia em que o regulamento do Campeonato Paulista estabelecerá um preço máximo para os ingressos, evitando assim que cartolas do nosso interior possam acreditar que colocar o preço nas alturas seja mesmo a melhor maneira de tirar proveito da passagem de um time grande por suas cidades.
Pra quem não sabe, ou já não lembra, o ingresso mais barato para a partida entre Catanduvense e Palmeiras custou míseros oitenta reais. Mas não pensem que mazelas são exclusividade do futebol. No nosso honrado Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, tratou de cuidar da sua reeleição e se garantir no poder até 2016.
Nesse nosso país que vai se acostumando, depois de muita dor e injustiça, a ter presidentes eleitos pelo povo, o esporte está longe de ser um exemplo de democracia. Ao contrário, um forte odor de Mubaracks, Kadafis e afins exala das nossas piscinas, pistas, quadras e campos.
E o que se passa com o Santos ? Pode-se dizer muito do time da Vila, menos que tenha nos últimos tempos honrado a fama de ser o melhor, ou um dos melhores times do país. Ganhar, ou não, não é o caso. O caso é que não se vê em campo o menor sinal de um time que não foi desmontado.
Não há futebol e a impressão que tenho é a de que não há conjunto, o que pode ser mais nocivo do que a falta de futebol. O embarque pra Bolívia, para encarar o The Strongest, se aproxima. Já vou avisando que não sou do time dos que costumam colocar em dúvida a capacidade de Muricy Ramalho. Considero o treinador, ora santista, um dos mais legítimos da classe.
Quando estava em campo provou sua capacidade e, mais tarde, no banco, está aí com toda a sua estatura. Consagrado. Mas os problemas do time da Vila, às vésperas de viver a beleza e o entusiasmo de seu primeiro centenário, não são poucos.
As laterais preocupam. De um lado por escassez de talento, e do outro porque uma geração está cara a cara com o fim. Pará, que devo dizer, talvez tenha sido o jogador que deu a virada mais espetacular na carreira que já vi, depois de amargar fase difícil para em seguida deslanchar e conquistar o respeito da torcida, voltou a ser uma incógnita.
E olha que tempos atrás quase ninguém seria capaz de dizer que Pará não era um jogador que dava conta do recado. Passou. Pode voltar, é verdade, sempre pode. Maranhão? Que fatalidade essa última! Mas ainda não esqueci que no jogo contra o Paulista, naquele lance em que ficou com a missão de acompanhar e parar Renan Marques, não mostrou - como diria o técnico Tite - estar com a " faca nos dentes".
A defesa do peixe, experiente, tem dado caldo ralo. Ou engrossa, ou engrossa. Embora valha lembrar que o Santos, ao esbaldar criação, deu-se até o direito de ter uma defesa em estágio inferior ao ataque, o que pode aborrecer os pessimistas e que os otimistas podem até classificar como um luxo.
Mas, ao que tudo indica, se houver um revés não terá sido por falta de gols. Se Borges não é artilheiro, quem é? De Neymar, nada a dizer a não ser que tome cuidado pra não se molhar nessa chuva de festas e badalação. E o Ganso. Ah! O Ganso. Trata-se, no meu modo de ver, do mais elegante jogador desse longo e bom momento santista. E acredito que não seria exagero dizer que se trata até do mais elegante jogador da história recente do futebol brasileiro.
Agora, na minha cabeça a imagem de um maestro desafinado e com dificuldade de retomar o ritmo perfeito é a melhor imagem para descrevê-lo atualmente. No meio do caminho, no domingo, há o Linense. Pouco importa. Até a bola rolar pela Libertadores tudo terá sido sido irrelevante, depois não. Depois a temporada começa pra valer, e aí, será preciso mostrar futebol. E cadê?
*artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Mais que um desabafo
Tenho com o futebol relação muito saudável. Nunca xinguei ninguém na hora de torcer, nunca me desgastei pensando nas alegrias que ele deixou de me dar, jamais olhei de lado para os que adoram outro time e, ainda que possa ser acusado de total apatia, só tiro um sarro usando o jogo como tema quando tenho certa intimidade com o interlocutor.
Nos casos em que não costumo segurar a onda, procuro ter em mente uma palavra que faço soar internamente como um mantra: parcimônia. Questão de educação, ainda que vocês não acreditem. Mas no exato momento em que escrevo estas linhas sou obrigado a ver um corintiano desfilando na redação com a camisa do Barcelona, o que quase me faz deixar de lado esses princípios que me são tão caros. Na verdade, ainda que tenha sido por um instante, deixei. Ah! Se deixei. Na terceira vez em que cruzei com ele, disparei:
_ Pô, essa daí é de um campeão legítimo, hein?
Sarrinho de nada. Se tratava de um amigo. Mas para não colocar a amizade em risco apertei um pouco o passo - já que estava de passagem - e na sequência não fiz força alguma para ouvir a resposta. Olha, não levem muito em conta essa minha rigidez moral. A minha regra pra esse tipo jogo é simples: Jamais permitir que a brincadeira derrote os bons modos.
Fazer essa espécie de auto-análise ludopédica foi o jeito que encontrei para tratar tão amarga derrota. Não me lembro em passado recente jogo que tenha despertado tamanho sarcasmo nos secadores, independentemente do seu nível de crueldade. Foi um embate que serviu pra muitas coisas. Pra mostrar quais são os santistas que gostam de analisar o jogo, e quais os que diante de uma possibilidade histórica se transformam numa espécie de "Pacheco", se é que os mais novos irão lembrar do famoso torcedor que era Brasil de qualquer jeito.
Aos mais entusiasmados andei dizendo que estavam exagerando por razão simples: Ou a vitória santista não seria muito provável ou tudo que andávamos falando do Barcelona de Pep Guardiola até ali era um tremendo exagero. Espero um desconto para o tom dessa nossa conversa, uma vez que ela não deixa de ser também um desabafo. Abro o coração pra dizer que esse jogo com o Barça me fez repensar muitas das minhas teorias.
Sempre acreditei e defendi o futebol limpo, mas toda aquela cortesia dos santistas, a todo instante fazendo questão de levantar os adversários do chão, de passar a mão em suas cabeças, chegou a me irritar. Jamais serei a favor de entradas duras ou desleais mas um pouco de virilidade não compromete a qualidade do jogo.
Por outro lado, me peguei pensando que diante de adversário de recursos tão leais e bonitos qualquer falta soava como tremenda deselegância, e ninguém ali queria ser chamado de brucutu. Seria muito bom se essa aura se instalasse na maioria das partidas. Mas pedir pra todo mundo jogar um pouco como o Barcelona é demais.
Quero crer que para nós, que vimos o jogo por esse vértice doloroso, tenha ficado alguma herança. Pelo que foi dito houve um ensinamento em tudo isso. Não me recordo de um jogo em que os derrotados, em uníssono, tenham dito que a derrota lhes ensinou. Muricy disse, Neymar disse, Ganso disse. No mais é acreditar nas palavras de Fernando Pessoa que dizia que
" conformar-se é submeter-se, e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso...vence só quem nunca consegue."
Nos casos em que não costumo segurar a onda, procuro ter em mente uma palavra que faço soar internamente como um mantra: parcimônia. Questão de educação, ainda que vocês não acreditem. Mas no exato momento em que escrevo estas linhas sou obrigado a ver um corintiano desfilando na redação com a camisa do Barcelona, o que quase me faz deixar de lado esses princípios que me são tão caros. Na verdade, ainda que tenha sido por um instante, deixei. Ah! Se deixei. Na terceira vez em que cruzei com ele, disparei:
_ Pô, essa daí é de um campeão legítimo, hein?
Sarrinho de nada. Se tratava de um amigo. Mas para não colocar a amizade em risco apertei um pouco o passo - já que estava de passagem - e na sequência não fiz força alguma para ouvir a resposta. Olha, não levem muito em conta essa minha rigidez moral. A minha regra pra esse tipo jogo é simples: Jamais permitir que a brincadeira derrote os bons modos.
Fazer essa espécie de auto-análise ludopédica foi o jeito que encontrei para tratar tão amarga derrota. Não me lembro em passado recente jogo que tenha despertado tamanho sarcasmo nos secadores, independentemente do seu nível de crueldade. Foi um embate que serviu pra muitas coisas. Pra mostrar quais são os santistas que gostam de analisar o jogo, e quais os que diante de uma possibilidade histórica se transformam numa espécie de "Pacheco", se é que os mais novos irão lembrar do famoso torcedor que era Brasil de qualquer jeito.
Aos mais entusiasmados andei dizendo que estavam exagerando por razão simples: Ou a vitória santista não seria muito provável ou tudo que andávamos falando do Barcelona de Pep Guardiola até ali era um tremendo exagero. Espero um desconto para o tom dessa nossa conversa, uma vez que ela não deixa de ser também um desabafo. Abro o coração pra dizer que esse jogo com o Barça me fez repensar muitas das minhas teorias.
Sempre acreditei e defendi o futebol limpo, mas toda aquela cortesia dos santistas, a todo instante fazendo questão de levantar os adversários do chão, de passar a mão em suas cabeças, chegou a me irritar. Jamais serei a favor de entradas duras ou desleais mas um pouco de virilidade não compromete a qualidade do jogo.
Por outro lado, me peguei pensando que diante de adversário de recursos tão leais e bonitos qualquer falta soava como tremenda deselegância, e ninguém ali queria ser chamado de brucutu. Seria muito bom se essa aura se instalasse na maioria das partidas. Mas pedir pra todo mundo jogar um pouco como o Barcelona é demais.
Quero crer que para nós, que vimos o jogo por esse vértice doloroso, tenha ficado alguma herança. Pelo que foi dito houve um ensinamento em tudo isso. Não me recordo de um jogo em que os derrotados, em uníssono, tenham dito que a derrota lhes ensinou. Muricy disse, Neymar disse, Ganso disse. No mais é acreditar nas palavras de Fernando Pessoa que dizia que
" conformar-se é submeter-se, e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso...vence só quem nunca consegue."
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