Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Digerindo o Dunga

A frase "Vocês vão te que me engolir", de tão impactante, entrou para a história. Poderia ter se perdido como tantas outras. Mas como teve a capacidade de concisão de poucas, perambula por aí até hoje. Vira e mexe vem à tona.

Quando Zagallo, em 1997, depois de vencer a Copa América avisou, com as veias estufadas, que os seus críticos teriam que lhe engolir, tirou um nó da própria garganta, e tratou de tocar a vida. Ora, se nem mesmo o velho Lobo, tão calejado pelo futebol, foi capaz de suportar as críticas sem perder a calma, por que achar que Dunga seria?

Acredito que a essa hora, vendo o filme dos últimos dias passar pela memória, o atual técnico da seleção deva estar desfrutando de uma sensação muito parecida com aquela vivida por Zagallo após o inesquecível desabafo.

Ou seja, depois de engolir o ex-treinador, pelo visto estamos digerindo o atual.

Com a fibra de sempre, Dunga não amoleceu, nem mesmo quando esteve enfiado num banho-maria dos bons, que de tão quente parecia fritura. Escolado que é, talvez não se deixe levar pela exaltação das tantas qualidades descobertas nele com a ajuda das lentes da vitória.

Mais importante do que isso é não acreditar nessa coisa de ter nas mãos um time quase pronto. Em setembro, se cair diante da Argentina, numa noite infeliz (e põe infeliz nisso) tudo poderá mudar. É o que basta para o discurso, no geral, voltar a ser o de quem teve o paladar contrariado.

Meus amigos, o que é um time pronto?

Diziam que a nossa seleção da Copa de 2006 era. Vejam como acabou! Um time só está pronto até o momento em que um detalhe qualquer compromete o bom andamento do conjunto. Ou menos ainda, até o dia em que um dos seus zagueiros levanta com o pé esquerdo. Não se deixe enganar.

Quando tivemos um time pronto?

Em 58, quando começamos a jogar sem Pelé? Em 70, quando tínhamos mais craques do que posições para serem distribuídas? Em 2002, quando Gilberto Silva ganhou uma chance depois da contusão de Emerson, e Kleberson - que jogou muito - só virou titular quase na metade da Copa? Ah! O time de 82! Bom, parecia aos olhos de todos uma obra de arte bem acabada, é verdade, mas...

Dunga sabe de cor todas as armadilhas do futebol e, por isso, deveria encará-las com um pouco mais de bom humor, e perceber que a acidez é uma das tantas características da crônica esportiva, e que para enfrentá-la não é preciso sorrisos demais, nem de menos.

Por favor, sem essa de time pronto, semi-pronto, ou sei lá o quê.

Acreditar num time pronto é fazer pouco de todas as reviravoltas que o deus do futebol faz questão de decretar, mais cedo, ou mais tarde, tanto faz. Um time verdadeiramente pronto, roubaria, sorrateiramente, a graça do jogo. Está, portanto, em condição de eterno impedimento por ordens superiores.

E tem mais, nesse universo da bola, uns poucos movimentos separam o ato de engolir, do ato de ser engolido. E não há craque ou retranca capaz de vencer essa verdade

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Quem ela pensa que é?

O presidente da CBF chega a uma sala do estádio Loftus Versfeld, em Pretória, na África do Sul. Ao entrar percebe que de um lado da mesa onde será feita a reunião está todo o pessoal da FIFA, e do outro, os representantes do governo brasileiro. Diante da dúvida, precisou ajuda. Perguntou de que lado deveria se sentar. " Do nosso", teria dito o presidente da FIFA, Joseph Blatter.

O breve acontecimento foi relatado dias atrás. Estampado na página de um famoso diário, ocupou espaço mínimo, inversamente proporcional ao que representa. Veja. Saber de que lado estão as pessoas sempre foi informação preciosa.

Tarefa mais difícil teve o nosso ministro do Esporte, que precisou responder a quantas andam as isenções fiscais para a entidade máxima do futebol. Teria respondido que, no máximo, em três meses o tema entraria em votação. Diante disso podemos respirar aliviados. Afinal, ainda existe alguém neste país capaz de decifrar como funciona o nosso congresso, e a que velocidade.

A história também escancara a dimensão do poder de que desfruta a dona FIFA nos dias de hoje. Não que ela trate outros países de modo diferente. Talvez, em outras terras, ao menos encontre gente menos subserviente. E não há muita conversa com essa distinta senhora, desde muito tempo acostumada a mandar.

Trata-se de uma dama cortejada por homens importantes do mundo inteiro. Todos interessados nos dividendos que ela pode oferecer. Seus negócios se estendem por mais de duzentos países, numa teia de relacionamento capaz de superar até mesmo uma outra senhora muito bem relacionada, a ONU. Ela mesmo, a Organização das Nações Unidas.

A Dona FIFA não brinca em serviço, apesar de ter nascido do que um dia não passou da mais pura diversão. Seus asseclas jogam duro. Ainda em 2006, no início das tratativas, um dos seus mais altos dirigentes, ao ser perguntado se o Brasil teria condições de construir novos estádios, disparou, " Isso é ao governo brasileiro que o senhor deve perguntar".

Os homens da dona FIFA vão chegar em breve.

E terão assegurado o direito de entrar e sair do país incondicionalmente. Suas mercadorias para uso ligado ao evento estarão livres de impostos e qualquer outro tributo. E esses são apenas alguns privilégios de uma extensa lista. Como se não bastasse, a toda poderosa dama do futebol mundial vive em um mundo de sonhos. Um planeta rico, globalizado, e livre de concorrência. Vem daí boa parte da sua sedução.

O lado da mesa já pouco importa. As partes fecharam negócio. Estão juntas. Mas a FIFA dá as cartas. Quem ela pensa que é? Quem terá coragem de perguntar?

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Um triunfo sobre a ignorância

Nesta semana eu sei que falar da seleção seria estar "up to date", como gostam de dizer alguns modernos. Tecer teorias a respeito das finais da Copa do Brasil, ou sobre os duelos da Taça Libertadores seria respeitar, de certo modo, o factual, como gostam de dizer os jornalistas.

Mas aproveito a minha liberdade de expressão para desobedecer a linha do tempo, que insiste em nos levar pra frente, sempre. Há exatos vinte e três dias, Diguinho, atleta do Fluminense, foi a principal vítima de uma invasão protagonizada por torcedores organizados ao estádio das Laranjeiras onde o time treinava.

Uma foto do ocorrido, estampada em alguns jornais no dia seguinte, mostrava o exato momento em que o jogador era atingido no rosto por um violento soco desferido por um dos líderes da gangue, que todo mundo por lá sabe quem é. Tão impressionante quanto o golpe era ver que os companheiros de clube continuavam sentados num banco próximo sem, ao menos, tentar livrar Diguinho da situação. A exceçao era, se não me falha a memória, o volante Fabinho.

Poderia ser uma demonstração de covardia, mas creio, era pura impotência. Quem pode deter a violência desse tipo de torcedor? A polícia? O Ministério Público? Naquele dia três tiros para o alto é que colocaram um ponto final no tumulto.

Os dias que se seguiram me deixaram ainda mais indignado. O agressor não foi autuado. E Diguinho até aceitou as desculpas dele. Cheguei a dizer por aí que só faltou Diguinho afirmar que tinha merecido. Não era só o jogador, era o Fluminense, de tanta tradição, que estava sendo intimidado.

Mas no último domingo, ao ver Diguinho deixar o Maracanã aplaudido pela torcida depois do empate com o Grêmio, fui logo pegando a caneta pra não deixar o fato passar em branco. Afinal, Diguinho estava há quase quatro meses sem jogar. Tinha vencido uma tuberculose pleural, diagnóstico, aliás, confirmado pelo departamento médico do Flu.

Foi acusado de estar curtindo a noite. Diante de tudo isso poderia ter pedido pra sair do clube, seria compreensível. Nada disso. Ficou e virou o jogo. Ou seja, passei a ver um corajoso, onde antes via apenas um jovem amedrontado. Na época, uma das versões era, inclusive, de que ele tinha apanhado por ter respondido de maneira áspera a uma pergunta do tal chefe de torcida. O que não deixa de ser também um ato de coragem.

A mente curta do agressor deve estar pensando a essa hora que a surra deu resultado, sem perceber que seu dono levou foi o chamado tapa com luva de pelica. Que humilhação!

Não interpretem minhas palavras como uma defesa do jogador, que eu nem conheço. Prefiro que elas sirvam para reforçar o quanto são ignorantes certos sujeitos que dizem fazer tudo o que for por amor ao clube.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Grana Esporte Clube ( A sedução das cifras )

Como jornalista sempre encarei os números do futebol com uma desconfiança enorme. Gostaria muito de fazer uma matéria mostrando as carteiras de trabalho dos nossos maiores craques. Imaginem aquele bendito campo salário preenchido com números seguidos de tantos zeros, como não despertaria a curiosidade e a inveja de trabalhadores comuns. Sem contar o sarro ao de dar de cara com a velha foto, e o prazer de descobrir a trajetória do dono da mesma através de registros pra lá de antigos.

Dirão os mais precavidos, seja qual for a intenção da precaução, que não vivemos mais numa época que permita falar de faturamento sem ficar exposto ao perigo. Os contabilistas, depois de um sorriso cínico, irão tentar colocar em xeque minha intenção dizendo que não é assim. Que na carteira está só uma pequena quantia, o resto vem como direito de imagem, através de notas, empresas etc e tal.

Ah! Mas como eu gostaria de ver cada uma dessas notas e suas guias de recolhimento. Como deve doer pagar imposto sobre um salário de quinhentos mil reais. Embora, doa mesmo é saber que quase nada nos será dado em troca. Sei que ver esse meu desejo satisfeito é mais difícil do que ver casamento de ....Deixa pra lá!

Esses números impressos em jornais, ditos em alto e bom som na TV, exaltados por comentaristas, sob certa ótica, além de tudo, seduzem, quase compram manchetes. Afinal, a mídia é parte do negócio. Mas antes de comprar é preciso esquentar a transação, fazê-la ecoar, torná-la de conhecimento mundial, esperar o Berlusconi encarar a votação para o Parlamento Europeu.

É preciso ser cirúrgico na hora de bater o martelo. Fazê-lo momentos antes da nossa seleção partir para a África e ficar na vitrine do mundo, não é acaso. Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, o homem por trás do negócio, sabe disso. Está acostumado com grandes somas.

É dono de uma das maiores construtoras da Europa. Sexta fortuna da Espanha. Tão esperto que ao pressentir, tempos atrás, o esgotamento do setor imobiliário, sem titubear, transformou a empresa dele em principal acionista da maior companhia elétrica do país. Uma jogada de oito bilhões de reais.No entanto, é possível que você só o conheça por ter montado um Real que era uma galáxia, e por fazer as contas do time ganharem tamanho astronômico.

Penso nas cifras dessa transação. E volto a lembrar da inocência das nossas carteiras de trabalho. Sigo desconfiado. Mas se tivesse um cofre cheio e pudesse comprar um único jogador da seleção brasileira, compraria o Kaká. Difícil seria encarar um craque da envergadura de Florentino Pérez na disputa.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Futebol de gente grande

I

Mirem-se no exemplo... dos meninos com a bola no pé. No futebol cercado de sorrisos. A verdade dos dias agora é outra. Crescemos e deixamos pra trás nossa leveza perdida nos campinhos de terra, em arenas humildes traçadas com pedaços de tijolo. Como éramos felizes em meio a todas aquelas linhas cravadas como tatuagens em chãos de cimento, de barro, de areia ou asfalto.

Linhas que só confinavam nossos dribles. A imaginação estava sempre muito além.

Agora não! Nosso descompromisso passou a ser uma quimera. Não somos mais capazes de debochar de uma derrota. Talvez porque a derrota tenha virado uma ameaça grande demais em outros campos. No imenso emaranhado do cotidiano, por exemplo.

Crescidos, nos tornamos menores. Ficamos sérios demais.

Já não permitimos que nos coloquem a bola entre as pernas, sem nos sentir um pouco violados.
O drible virou um insulto. O sarro adversário virou um insulto. É quase impossível apenas se divertir com o que antes era... a brincadeira.

Só a bola continua sendo a mesma. Sugerindo a lição sublime de quem carrega uma alma pura. Imutável. Nós, ao contrário, nos tornamos quadrados.


II


Esqueça.
Essa minha argumentação um tanto barata, antiga, é um esquema sem retranca, um jogo aberto que eu bolei pra deixar vocês cara cara com essa coisa sinistra que o futebol virou.

Outro dia cruzei as ruas ao redor de um estádio famoso da capital paulista e fiquei observando os torcedores que chegavam para o jogo. Vinham quase todos em bandos, como quem apela para uma receita primária a fim de se blindar de qualquer selvageria provável.

Atravessavam as ruas desafiando os carros. Fazendo cara de mau.

Pareciam se sentir um pouco super-hérois por baixo da camisa do time adorado. Insinuavam com seus gestos que ali estavam sujeitos destemidos o suficiente para encarar um estádio. Por que teriam medo do resto?

Fiquei pensando se houve mesmo um tempo em que podíamos alcançar os portões dos estádios de maneira um tanto despreocupada, ou se tudo não passava de uma fantasia para justificar alguns parágrafos

Naquele caldeirão comportamental vi um pouco de tudo, só não vi sorrisos. Tinham evaporado.

Muita gente pode se sentir ofendida com as minhas palavras. Mas é certo que as escrevo por reverência. O fato é que quase todo mundo abraça o futebol pensando mais no que ele foi e menos no que ele é.

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Goleiros e horizontes

Os goleiros sempre mereceram um capítulo à parte na história do futebol brasileiro. Um longo capítulo. Atualmente, atletas como Marcos, do Palmeiras, e Rogério Ceni, do São Paulo, convencem muita gente de que é ali, na imensidão da tarefa de defender a meta, que a paixão pelo clube se mantém mais viva.

Não é pra menos.

Marcos fez o primeiro jogo pelo Palmeiras em 1992. De lá pra cá se agigantou e se tornou um ícone palmeirense. Respeitável também é a trajetória de Rogério Ceni e seu recorde de jogos com a camisa do São Paulo. Arqueiro refinado, técnico até na hora de jogar com os pés.

Eu sei, é provável que sem os títulos que conquistaram, os dois não teriam se livrado dos questionamentos que assombram todos aqueles que, apesar do enorme talento, não têm a sorte de se consagrar. A dependência do resultado é cruel. E sempre fez vítimas. Marcos e Rogério jamais foram confrontados pela torcida.

Gostaria muito de incluir o goleiro Fábio Costa nessa galeria. Mas acho que só ajudaria a reforçar um equívoco. Nos últimos tempos o nome do titular da meta santista esteve presente em vários episódios. Ter o pavio curto é um direito de todos. Mas é preciso arcar com as consequências.

Contratos longos, renovados antes do tempo, coisas assim, são privilégios que devem ser reservados aos que se tornaram uma unanimidade, ou aos que ficaram muito perto disso.

Alguém aí ouviu contestações quando os dirigentes do São Paulo decidiram renovar o contrato de Ceni até 2012? E no início desta semana quando o Palmeiras esticou o contrato com Marcos por mais meia década?E olha que estamos falando de dois atletas que já passaram dos trinta e cinco anos de idade.

Fábio Costa, tem trinta e um, e um currículo bem mais modesto que os arqueiros de São Paulo e Palmeiras. No entanto, teve seu contrato renovado por mais quatro anos no final de 2008. E dizem que ele está cotado para assumir, no futuro, um posto político dentro do clube.

Isso me leva a crer que, ou as notícias sobre o comportamento de Fábio Costa são injustas, ou os dirigentes do Santos se precipitaram ao colocá-lo na condição de atleta diferenciado.

O que a biografia dos grandes goleiros sugere, é que belas defesas não bastam para garantir um lugar de destaque na história.

Por outro lado, o longo contrato com o Santos continua dando ao capitão santista a chance de ir além de ser o goleiro que mais vezes vestiu a camisa do time da Vila.

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Os escolhidos por Dunga

A minha impressão é que o técnico brasileiro acaba de anunciar a convocação mais bem aceita pelos torcedores da sua era à frente do escrete nacional. Reclamações clubísticas à parte.

Durante a coletiva, no entanto, Dunga disse ter conversado com Mano Menezes pela última vez quando Mano ainda estava no Grêmio. Mas, início deste mês, Mano confirmou que conversou com Dunga por telefone, quando teria respondido, inclusive, algumas perguntas do treinador da seleção sobre um determinado atleta do elenco corintiano, que na época não foi revelado. Hoje o nome parece óbvio.


Os convocados:

Goleiros:
Julio César (Internazionale)
Gomes (Tottenham)
Victor (Grêmio)

Laterais:
Maicon (Internazionale)
Daniel Alves (Barcelona)
Kleber (Internacional)
André Santos (Corinthians)

Zagueiros:
Alex (Chelsea)
Juan (Roma)
Lúcio (Bayern de Munique)
Luisão (Benfica)

Meio-campistas:
Anderson (Manchester United)
Gilberto Silva (Panathinaikos)
Josué (Wolfsburg)
Ramires (Cruzeiro)
Elano (Manchester City) Felipe Melo (Fiorentina) Júlio Baptista (Roma) Kaká (Milan)

Atacantes:
Alexandre Pato (Milan)
Luís Fabiano (Sevilla)
Nilmar (Internacional)
Robinho (Manchester City)

Urgentes... são as manchetes !

O nosso longo campeonato de sete meses mal começou e já podemos detectar nas entrelinhas o coro dos descontentes. Quando o acontecido confirma o que já se sabia, é uma coisa. Caso do Santos, que está longe de impor o respeito de outros anos, e tem muita coisa pra acertar, muitos problemas pra resolver. Ou até mesmo do respaldado Palmeiras, que apesar de todos os recursos, há tempos anda em dívida com a torcida. Deve aquele futebol vistoso sugerido no início da temporada.

Mas no caso do Corinthians e do São Paulo a coisa muda de figura. O time do Parque São Jorge resgatou sua antiga condição. Atravessou em grande estilo a fronteira entre a segunda e a primeira divisão. Está novamente lado a lado com os maiores rivais, e não deixa dúvida de que voltou pra valer. Aí o time leva um gol de Nilmar, bonito é verdade, mas que ainda assim continua sendo um único gol. Depois vai até o Engenhão, não sai do zero a zero, não marca mas não leva, e começa um tremendo zum zum zum, porque esse não passou a bola para aquele, que falou não sei o que para aquele outro. Como assim, ?

Mas o rei das picuinhas pra mim é o São Paulo. E que ironia, justamente o time mais vencedor da história recente do nosso futebol, que começou a temporada perdendo seu jogador mais representativo e depois viu outros atletas do elenco às voltas com problemas, alguns nada simples. Apesar de tudo isso sofreu um mísero um a zero para o Fluminense, e por causa de um gol que o tricolor Maurício não voltará a fazer tão cedo. E na segunda vez que entrou em campo, pode não ter sido maravilhoso, mas arrancou um empate. E não se trata apenas disso.

O time do Morumbi - graças às decisões da Conmebol - passou dezessete dias sem entrar em campo pra valer. Há quem diga que é bom, há quem diga que não. Pois eu me limito a dizer que no mínimo não é normal. Mas quem leva em conta esses detalhes? Ora, se há dirigente no Morumbi insatisfeito, é porque não quer, ou não tem interesse, em reconhecer os feitos do próprio clube.

Ou alguém acha que é possível chegar ao título três vezes seguidas sem ter sido eficiente? Vamos imaginar que Muricy deixe o cargo. As portas de outros grandes clubes estarão abertas no dia seguinte. Meus amigos, ponham os pés no chão, estamos só na segunda rodada. Tenham a sabedoria de relaxar, não se rendam ao ritmo insano das manchetes.

Outra coisa, o passado nos ensinou que só dá pra ter uma boa ideia do que vai ser esse nosso Campeonato Brasileiro quando se fecham as famosas janelas do futebol europeu. E ainda tem a Libertadores, a Copa do Brasil. Seguimos condenados a ver em campo times poupados. Times mistos. Times sei lá o que.

Enquanto a coisa não esquenta de vez, pense na vida, leve as crianças pra dar um passeio, faça o que bem entender porque até os jogadores de Palmeiras e São Paulo, que farão uma das partidas mais esperadas da terceira rodada, estarão pensando em outra coisa quando entrarem em campo no domingo.

Quer saber no quê? Na Libertadores. Isso mesmo. Ninguém vai dizer. Niguém vai admitir. Mas o Campeonato Brasileiro ainda não chegou, o Campeonato Brasileiro vem aí.

Inter x Flamengo - Copa do Brasil

No primeiro tempo o Flamengo mostrou seu respeitável tamanho
ao não se apequenar diante de um Beira-Rio lotado.

No segundo tempo Juan errou feio ao perder uma bola
que a rapidez e a visão de jogo de Nilmar transformaram num lance fatal,
concluído por Taison. Um a zero.

E não foi só ali que Juan atrapalhou o Flamengo.
Ao bater boca com Willians e Zé Roberto, também.

Emerson deixou o banco de reservas para fazer um gol - algo que parece cada vez mais distante de Obina- e colocar o time da Gávea temporariamente nas semifinais. Um a um.

Mas quando o árbitro Paulo César de Oliveira, no último minuto do tempo regulamentar, marcou uma falta na entrada da área, os jogadores do Flamengo reclamaram com a inquietação de quem parece antever o fim de uma alegria.

Caprichoso, quis o destino que o gol da vitória colorada nascesse dos pés de Andrézinho. Formado rubro-negro. Inter dois a um.

Depois disso, as palavras do camisa 10 D'Alessandro que ecoaram nos microfones poderiam ser de qualquer torcedor colorado:

"Estamos muy agradecidos"

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Um outro nobre














Estas são palavras pretensiosas. Querem me levar a um tempo que não vivi. Querem enaltecer fatos que não testemunhei. São palavras encarregadas de descrever jogadas e lances geniais, alegrias que encontrei gravadas em velhas fitas, carinhosamente guardadas em arquivos.




Mas sei que os olhos de quem gosta de futebol não brilham à toa. Portanto, posso dizer, com tranquilidade também, que se aceitei essa missão foi por total comprometimento com o brilho que o futebol deposita nos olhos dos homens.


E apesar de tudo, dessa imaterialidade, sei que falo de um craque, com todas as letras. Não falo de um Rei. Falo de alguém que ajudou a sustentar um reinado. Falo de alguém que hoje do alto de seus cabelos brancos, do seu jeito reservado, deve sentir um cheiro intragável de mofo quando as manchetes dos jornais amanhecem questionando o peso do Ronaldo, ou invadem as bancas a exaltar a pouca idade de Neymar. O mundo do futebol condena os homens a velhos castigos.




O homem, de quem falo, que não vi em campo, tinha quinze anos e onze meses quando suportou o peso da camisa santista sobre as costas numa decisão. E não se tratava de um Santos qualquer.


Esta semana, quando abri a minha caixa de mensagens eletrônicas, lá estava um pedido, muito bem bem escrito, para que eu não deixasse passar em branco uma data: o dezessete de maio que marcará os cinquenta anos da conquista de seu primeiro título como profissional do time da Vila Belmiro. O Rio-São Paulo de 1959. Um dia já distante, que guarda em silêncio uma respeitável vitória sobre o Vasco da Gama com dois gols dele.




De um outro homem, o jornalista Michel Laurence, cujos olhos também brilharam ao me falar dos feitos desse escolhido, ouvi que Pelé foi um atleta acostumado a fazer os outros jogarem. Sim, ao lado dele eram praticamente obrigados a isso. Coutinho foi o único que fez isso ao inverso. Ao lado dele o eterno camisa 10 teve que se dobrar à vontade de Coutinho, que o fez jogar.




Por pura reverência, ao falar desse outro nobre, deixarei de lado os títulos. Deixarei de lado o respeitável número que o transformou no terceiro maior artilheiro do Santos FC, porque ele é de um tempo onde o importante era ganhar e não fazer gol, e porque talvez assim eu seja mais fiel ao seu estilo.




Das poucas horas que pude dividir com ele, sempre com a intenção de registrar uma entrevista, ficou a sensação de que estava diante de um homem que sabia muito bem onde deixar o brilho dos próprios olhos. Ficou ainda uma sensação de estar com alguém mais interessado em falar verdades, do que ouvir elogios. Coisa tão comum aos nobres.




Certa vez afirmou que jamais teve problemas com um marcador difícil, pois conseguiu se livrar de todos. Uma resposta que só não soa vaidosa na boca desse personagem que soube como poucos misturar rapidez e eficiência. Ao ser questionado sobre a data que se aproxima Coutinho mostrou o jeitão de sempre. E com sua voz um tanto rouca sentenciou: "Sinceramente, não sei. Faz cinquenta anos. Não lembro."




O tempo é assim, implacável, e o modo que se escreve a história, às vezes, também. Meio século depois, se ainda houvesse um Rei, ele talvez estivesse solitário sobre os gramados. A menos que esse senhor, de olhar duro, voltasse com seu futebol singular a encher os olhos da torcida de brilho.

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Reminiscências estaduais

Imagine uma cidade chamada Corinthians.

E no dia em que o time que carrega o nome da cidade vai decidir o título estadual o que você vê pipocar nas janelas e varandas é a bandeira do rival. Não estranhem, essas linhas também nasceram de um sentimento confuso, provinciano... mas no fundo democrático.

Talvez por viverem numa terra com o nome do adversário é que fizeram tanta questão de escancarar a fidelidade. Só os pouco sacanas perderiam uma chance como aquela. Tudo soou como uma doce vingança. As buzinas teimando em quebrar a tranquilidade do entardecer. Os meninos gritando o nome do rival no meio da rua. Uma cena mexeu mais comigo.

Não posso negar. E não se trata de uma imagem nova, nem inédita. Falo de ver a velha praça tomada, com bandeiras alegremente desfraldadas tremulando ao sabor do vento e da maresia. Demorei pra aceitar que não havia lugar mais apropriado para a tal festa, ainda que fosse em nome de um time que não carregava o nome da cidade.

Ah! A Praça da Independência, de tantas alegrias.

Como se não bastasse, havia ainda a indignação com o estado do gramado do Pacembu e com o comportamento do zagueiro Domingos. E digo comportamento para não não usar a palavra atuação, já que Ronaldo não marcou e ele pode fazer disso um argumento para defender as atitudes que tomou.

Tá certo. Zagueiro não pode dar mole. Tem que ser eficiente. Tem que impor respeito. Tem muitas vezes que usar a força. Mas se ele pensa que o que andou fazendo encheu o torcedor santista de orgulho, faço questão de dizer que não integro esse time. Será que ele já ouviu falar de Domingos... o da Guia? Não vi Domingos da Guia jogar. Mas sei que ele jamais entrará para a história como seu xará.

Dirão os durões que era outro tempo, outro futebol. Senhores, me recuso a acreditar que o futebol mudou tanto assim. Nego essa evolução. E me pergunto, até agora, se algum dos seus superiores foi sincero o suficiente para dizer que ele ultrapassou, e muito, o limite do bom senso.


E as taças? Notaram as diferenças? A paulista refletia a opulência do estado mais rico. A do estadual do Rio, moderna, tinha linhas bonitas como a geografia carioca, enquanto a mineira sugeria uma bola cravada em duas folhas de metal. Mas fora dos grandes centros elas iam se enchendo de simplicidade e se aproximando daqueles troféus que vimos tantas vezes em competições menores. Com tubos coloridos sustentando bases para pequenas estatuetas esportivas.

Símbolos diferentes que o futebol tratou de vestir com a mesma magnitude. Diferenças sugerindo que o triunfo esportivo não tem matéria.

E agora, lá vamos nós atrás de outras taças.

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Uma verdade sobre as derrotas

Não se desespere. Tudo não passa de um jogo de bola.

Ainda que não se trate de algo prazeroso, veja, enxergamos nosso time mais claramente na derrota. O gol sofrido de maneira incontestável nos rouba o vôo da imaginação, e nos traz de modo repentino ao chão, para que ele triunfe sobre nosso ar disfarçadamente esnobe.

Um placar adverso sempre invoca o silêncio.

E, sem poder se misturar com a balbúrdia da torcida que delira com a bola que acaba de se chocar com a rede, deixa de ser tarefa simples acreditar na virada. Nada mais introspectivo do que aquela gelada fração de segundo que vem logo depois do gol adversário.

E quando são vários, é terrível, até porque a alma de qualquer ressaca é o excesso.

Atleticanos, santistas!
Extremistas, desencanados, lunáticos, moralistas, apaixonados desse meu Brasil!
Uma derrota ludopédica jamais será tão grave quanto uma ausência de vitória no mundo real.
Sei que é dor que vai na alma, e que reverbera no corpo.

Deixa cicatriz, provoca azia, embrulha o estômago.

Sei que depois daquele tento adversário já não havia mais como suportar as meias palavras de um comentarista comedido, profetizando que os vários gols perdidos poderiam fazer falta no jogo de volta. Nada disso. O torcedor que fica cara a cara com a derrota tem a quase certeza de que eles vão é inviabilizar o título, a alegria, vão colocar tudo a perder, literalmente.

A derrota que se desenha entre as quatro linhas é assim, faz o sujeito digerir rápido a crueldade dos dias, faz descobrir que o mundo, ou melhor, o time, infelizmente, não é como ele gostaria.

Já a vitória ilude.

Faz a gente pensar que aquele lateral não é o tal, mas pode estar iluminado um dia. E que aquele volante, cuja categoria não lhe permite ir muito além do toque pro lado, de repente, pode ser capaz de se transformar num semi-craque, contagiado pela importância do momento.
E mais, tomado pelo encantamento da vitória chegamos, sem perceber na maioria das vezes, a pensar que o fato do homem do ataque não conseguir nem mesmo se livrar do impedimento é algo superável.

Ilusão, ilusão torcida, que atrai a desilusão pro campo dos nossos sentimentos.

Junto com o triunfo, inevitável, vem a euforia, traiçoeira, driblar a razão. Uma vez nas veias, faz o descrente apostar que tudo pode ser resolvido com uma dose extra de raça. É doce esse delírio provocado por vitórias, em especial pelas repentinas e inesperadas. É doce, mas passa.

No fundo, no fundo, o único consolo pra quem se deixa enganar, pra quem recebe o tapa reservado àqueles que não tiveram nem o mísero direito ao empate, é sacar que vencidos e vencedores, integram, sem querer, um mesmo time. Cumprem penas semelhantes, divididos entre dor e prazer, já que é impossível ficar pra sempre de um lado só nesse jogo.

Os que tiveram a rede violada pelas bolas adversárias sabem muito bem que não ter o que comemorar é castigo cruel. Sem remédio.

Não há retranca que cure, não a sorte que dê jeito,
nem zagueiro que seja capaz de espantar o perigo.

Se o mundo não é feito só com o que há de melhor, por que o futebol seria?

O silêncio nas Perdizes

Durou até os 42 do segundo tempo.
Se você ainda não viu o gol de Cleiton Xavier, saiba que se a noite teve um herói, foi ele.

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Fé Futebol Clube

Um dos donos da casa, de tão fanático, estava indignado até com a nada tradicional meia cinza do time santista. Mal sabia ele que estavam lá por pura superstição. Nenhum detalhe podia ser desprezado. O outro trajava óculos escuros, do tipo "ambervision" e, atento a tudo, já havia providenciado o cenário ideal.

Na lateral da sala, além da TV, uma cadeira ao lado, e sobre ela uma camisa do Santos. Diante da chegada de um novo convidado, bradou:

_ Na cadeira, não! Sentar em cadeira...já viu!

Mas orientou o recém-chegado:

_ Põe a camisa aí na cadeira

E o fez com precisão:

_ Mais pro lado, mais perto da televisão.

Então, o cenário ficou assim:
A tela de 40" e uma cadeira com uma camisa sobre ela de cada lado. Praticamente uma linha de três, disposta a barrar os maus fluidos.


E a Bina, de oitenta e seis anos, sozinha lá no quarto. Por quê? Ora, porque ela prefere assim... porque tem que ser assim. Mas quando o juiz apitou o final da partida logo a pintou na sala. Trajava uma clássica camisa branca do Peixe. Só o símbolo em destaque no peito ousava quebrar a brancura do manto.

Descreveu minuciosamente o ritual praticado durante o duelo com o adversário. Braços cruzados, uma das mãos em figa, e a outra desenhando no antebraço um movimento de vai e vem, que era pra empurrar a bola pra rede.

Depois de dois gols, um frango, um teatro do absurdo - estrelado por Diego Souza e Domingos - e cinco minutos de acréscimo, a alegria imperava. Bina, veio pra dar a benção final, em grande estilo. Fundamental não tinha sido o Madson e seus pulmões de aço. Fundamental tinha sido a imagem de Nossa Senhora das Graças que fica no quarto do Léo, o neto do meio, nosso anfitrião.

Foi isso, Bina entrou na sala e intimou. Fez todo mundo dar as mãos e rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. Não ia deixar barato aquilo tudo. Uniu o grupo. Empolgou. Decretou de vez a festa. Simbolizou tudo o que não aparece na súmula, muito menos nas estatísticas, tampouco no discurso dos comentaristas. Mas é parte do futebol. Uma cena triunfante.

E quando a reza já passava da metade, ao desviar os olhos para a TV, vi o time santista, ainda em campo, protagonizando cena idêntica. Todos de mãos dadas, em círculo, falando em voz alta as santas orações. Terminamos um pouco antes.

Pensa o quê? Bina foi rápida pra convocar o grupo depois de terminada a peleja. E ainda falam que o time do Mancini é que é veloz.

Olha, se ganha quem tem mais fé, isso eu não sei. Mas deixa essa cadeira aí! E tira as mãos dos óculos do cara!

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Um vitorioso sensível

" Estou um pouco embaraçado para comemorá-la"

A frase é do tenista Stanilas Wawrinka ao comentar a vitória sobre o compatriota Roger Federer no Masters de Montecarlo. Juntos, Wawrinka e Federer conquistaram o ouro olímpico em Pequim.

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Vivendo e aprendendo

O futebol poderia ser puro, mas não é. Ou talvez a tendência à crueldade seja só a parte escura de sua alma, e essa nossa mania de enxergá-lo com certo frescor poético, sem querer, embaralha tudo.

Qualquer um tem o direito de achar que as coisas correram bem nas semifinais do Campeonato Paulista. As câmeras de TV, sempre atentas - pra não dizer sedentas - não registraram cenas de violência. O que, infelizmente, não significa que elas não existiram.

Mas não pense que tamanha encrenca, tamanha violência, tenha sido resolvida porque um homem da lei teve a brilhante idéia de reduzir o número de entradas do time visitante a um número mínimo, capaz de impedir os descontentes de afirmar que batemos no fundo do poço e fomos obrigados a nos render aos jogos de uma torcida só.

Sábado ouvi no rádio que os torcedores que não tivessem ingressos não poderiam chegar perto da Vila Belmiro. No caminho até lá, não fui abordado e fiquei com a sensação de que a polícia deve ter optado por uma triagem telepática. Causar efeito é uma coisa, ser eficiente, outra.

O fato é que nunca o time visitante foi tão representado por seus torcedores organizados. Ou alguém duvida disso? Integrante das organizadas só fica sem ingresso se quiser. Ou se der bobeira. Muito diferente do torcedor comum.

Essa nova realidade pode ter potencializado o gesto obsceno de Cristian depois do gol da virada. Um gesto que, diga-se de passagem, só pode ser devidamente interpretado por quem está por dentro da linguagem dura dos que têm necessidade de torcer em bando.

Cristian se superou. Ao dar mais importância ao mau, do que ao bom torcedor, roubou parte do brilho da própria obra-prima. Duvido que de agora em diante o camisa seis do Corinthians insista na comemoração provocativa. Não sei se vocês lembram. Tempos atrás o garoto Keirrison, depois de marcar um gol, simulou ter uma arma nas mãos. Saiu disparando e sofreu com a artilharia pesada da crônica esportiva, indignada com a postura de matador encenada por ele.

A vida está aí pra ensinar, Cristian.

Outro camisa nove, Ronaldo, também esteve sob a mira. Foi depois de fazer de André Dias seu alvo. Rodado o suficiente, o fenômeno sacou há tempos que podia fazer da sua importância um escudo. Tem explorado com muita maestria e pouca lealdade a falta de critério e de coragem dos nossos árbitros.

Baixou o sarrafo no zagueiro do São Paulo e pelo visto conseguiu tirá-lo do prumo. De repente, André Dias, tão preciso em outras partidas... ficou vulnerável. Amargou uma bola entre as pernas, precisou usar a força para evitar um drible malicioso. Acabou expulso.

Perto do acontecido no Pacaembu o jogo da Vila teve ar ingênuo. As entradas viris de Diego Souza e as tentativas de intimidar o garoto Neymar estiveram longe de causar irritação parecida. Luxemburgo, esperto, chegou a sugerir até que as pessoas não deviam se melindrar tanto com os ataques ao xodó santista.

Resta esperar que as partidas de volta sejam mais um tributo ao futebol do que provocação barata. E que na hora se emocionar nossos jogadores lembrem mais da boa torcida do que das organizadas.

Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Teorias

Olha, eu sei que você também deve ter a sua. Mas eu estou aqui é pra defender a minha. Aliás, a minha não! As minhas. Afinal, quem gosta de futebol jamais se contenta em ter apenas uma. O que explica porque elas são tão abundantes no reino da bola.

Por exemplo, enquanto todo mundo anda eufórico com o fato de o Campeonato Paulista, quase uma década depois, voltar a ter nas semifinais os quatro grandes, eu acho que o acontecido pode ser um sinal de que nem mesmo no Estado mais rico da nação o futebol do interior conseguiu resistir e, a partir de agora, essa condição pode deixar ainda mais sem graça tão glorioso e centenário torneio.

Não me leve a mal. Não tenho a mínima intenção de revelar aqui o meu lado ranzinza, ainda mais numa quinta-feira que já prepara sua alma e seu corpo para o descompromisso de um feriado. Feriado que só não será melhor porque com as semifinais cirurgicamente divididas entre a TV aberta e a fechada, restará ao torcedor comum de Santos e Palmeiras bolar uma estratégia qualquer capaz de colocá-lo frente a frente com as imagens de uma tv alheia.

Outra coisa, tem gente por aí dizendo que o Ronaldo vive grande fase. Minha teoria é outra. Não acredito que "grande" seja a palavra mais justa para uma sequência de meia dúzia de jogos. Agora que o Ronaldo voltou bem, isso voltou. Pode ser decisivo? Pode. Como dizer o que me faz acreditar nisso exigiria uma nova teoria, irei poupá-los.

Ah! Lembrei de outra! Se o Palmeiras vencer o Sport ficará empolgado com a Libertadores e não focará o estadual, o que ajudaria o Santos. Discordo. Encarar time empolgado é sempre um problema, venha de onde vier a empolgação.

Mas seja lá qual for o enredo que levará os semifinalistas paulistas ao gramado no final de semana, uma coisa é certa: cada um deles enxerga o estadual de um jeito. De repente, se ouvisse de um jogador qualquer do tricolor que ser campeão paulista é bacana, mas dispensável, seria capaz de acreditar. Só não seria capaz de acreditar que ser eliminado pelo Corinthians, em tempos nada amistosos, não causaria um tremendo mal estar.

Já para os corintianos, mais importante do que eliminar o São Paulo no Morumbi talvez seja se impor diante dos seus rivais mais próximos para deixar claro que Série B é coisa do passado.

O Palmeiras, é caso diferente, gastou muito, bolou projetos grandiosos, se envaideceu, e inflamou a torcida com um bom futebol que por hora não empolga como antes. Logo, mesmo que triunfe não estará livre de olhares insatisfeitos, nem de ouvir por aí um "só isso?".

O Santos, não. Assim como o Corinthians, o time da Vila Belmiro terá verdadeiros dividendos se ficar com a taça. Além do prestígio de comandar uma festa de gala, terá alcançado um triunfo marcado por uma boa dose de superação, o que não é pouco para quem tem vivido a incômoda vertigem dos altos e baixos.

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Um olhar sobre o goleiro

Dias atrás a confissão do goleiro da seleção brasileira, Júlio César, de que em outros tempos “tinha medo do gol” me fez viajar no tempo. Fui jogador humilde. Moleque, jamais briguei por um lugar no ataque. Nunca me dei o direito de não voltar pra ajudar a defesa. Consciente de que iria satisfazer melhor a expectativa dos amigos se jogasse perto da área, ajudando a espantar o perigo.

Às vezes não resistia à tentação de avançar em direção ao gol, amparado na crença de que mesmo o maior perna-de-pau tem direito a um lance de sorte.

E na única vez que tentei fazer parte de um time de verdade foi para encarar a ingrata missão de defender a meta. Não foi por acaso. Há tempos ensaiava pontes magníficas nas peladas. E as ensaiava com a vontade e a determinação de um camicase, principalmente nos momentos em que os duelos eram travados na espaçosa garagem do prédio em que morávamos. O chão duro poderia ser um castigo a mais, poderia. Mas realidade e sonho se fundiam, e a ilusão de que estávamos sobre um gramado vencia a dor de jogar no azulejo bruto. Meus cotovelos viviam constantemente inchados por causa dessa ilusão.

Depois de cada bola interceptada lá no alto vinha uma breve narração para saudar um ídolo da posição:
_ Maaangaaaa!


De repente, as palavras de Júlio César me fizeram lembrar muito bem que para estar lá é preciso mesmo vencer o medo. Recordo que muitos na hora de assumir o posto, em geral depois de um par ou ímpar - ou de uma intimada mesmo - não resistiam e avisavam, em tom de súplica:
_ Não vale bicão! - que significava encher o pé. Carimbar o coitado embaixo da trave.

Sabíamos todos que, ao contrário das outras posições, usar toda a força era uma bela arma contra os arqueiros. Apesar disso há, ali naquele lugar, um prazer que só descobrem os que aceitam essa penitência que pode ser recebida de luvas.

Há um pacto diferente entre o goleiro e a bola. O goleiro não quer enchê-la de efeito, não quer dominá-la com o pé, não quer dar chapéu, lençol, toque de letra.

E pensar que esta semana quando a nação despertou envergonhada na manhã de segunda-feira, por causa da seleção brasileira, só havia a imagem de um goleiro para confortá-la.

É preciso deixar claro que escrevo este artigo antes da seleção entrar em campo para enfrentar o Peru. Mas quero deixar claro, também, que nem a mais magistral das exibições me faria mudar de idéia.

E se Dunga se rendeu ao virtuosismo de Júlio César contra o Equador terá sido o único momento em que meus olhos viram a mesma coisa que os dele, porque não é possível que ele veja o mesmo Gilberto Silva que eu vejo. Ou que os olhos dele não tenham visto em Hernanes aquilo que os meus vêem.

Sobre Ronaldinho Gaúcho nem se fala porque, nesse caso, eu é que não quero acreditar no que meus olhos têm visto.

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

Uma torcida só

Faz quase dez anos.

Estava nas numeradas do Morumbi acompanhando um clássico entre São Paulo e Corinthians. De repente, um torcedor à minha frente se levantou e começou a trocar insultos com um torcedor rival que estava no outro setor. Distante.

Entre eles uma imponente grade de ferro.

Minha primeira reação foi de espanto total. Não percebi nada, nenhum gesto que pudesse desencadear aquilo tudo. Talvez os dois tivessem trocado olhares antes daquele instante, se provocado, e isso tenha sido o suficiente. Cheguei a pensar que aquilo não passava de uma brincadeira grotesca.

Mas, pouco a pouco, eles foram se aproximando da grade.

E as ofensas aumentando, deixando todo mundo ao redor constrangido com aquela cena bizarra. Não demorou muito estavam cuspindo um no outro. Bradando palavrões cabeludos. Bárbaros. Tinham esquecido totalmente o futebol, não tinham mais o menor interesse pelo que se passava no gramado. Acredito que se não tivessem separados pela tal grade de ferro teriam trocado socos e ponta-pés até que um deles perdesse a consciência e deixasse de ser capaz de levar adiante aquela agressividade.

Essas palavras, confesso, me incomodam.

Não gosto de mal dizer o futebol, por causa dele já testemunhei muitas cenas encantadoras. Cenas que me emocionaram, que me levaram às lágrimas. Lágrimas e encantamentos que precisei dissimular porque não é isso que se espera ver estampado no rosto de um repórter esportivo.

Como dizia Gandolim - e não falo de nenhum ex-jogador, falo de um comediante italiano - o repórter deve ser dotado da fibra robusta dos carteiros.

Mas o que me faz perder a esperança é a constatação de que as boas coisas estão longe de contagiar tanto quanto a hostilidade desses infelizes que frequentam os estádios. Ao passo que uns poucos ignorantes são capazes de colocar a vida milhares em risco.

Veja. Qualquer cidadão de bem jamais pensou em desafiar a polícia. Não é o caso desses vândalos. As fardas e cassetetes não lhes intimidam. São homens, e até meninos, que partem para cima dos policiais sem o menor temor, trocam socos com eles cheios de desprezo pela autoridade. Estão escancaradamente conscientes de que os estádios viraram terra de ninguém.

Não, não se trata de um fenômeno nacional.

E não esqueço de uma partida da Libertadores entre São Paulo e River Plate. Lembro de ver um argentino enorme, com um pedaço de madeira arrancado dos bancos do Morumbi nas mãos, vestindo uma camisa 10, partindo pra cima de dois ou três policiais armados de escudos. Creiam, ele colocou os três pra correr. E provavelmente contou a façanha cheio de orgulho para seus colegas baderneiros na volta aos arredores de Nuñes.

Nem em sonho sou capaz de acreditar que esses doentes possam ser domesticados com carteirinhas.

Eles fizeram os estádios virarem a própria ameaça. Pode haver coisa mais triste, mais limitada, do que um jogo de uma torcida só? Mais triste do que isso, só pensar que o dia em que esses animais não tiverem mais um adversário na arquibancada, ainda assim estarão por aí. Marcando brigas pela internet, tramando emboscadas em estações de Metrô. Ameaçando nossos filhos, ameaçando qualquer um que ainda tenha coragem de vestir a camisa de um time de futebol, ameaçando qualquer um que tenha a coragem de desfraldar uma bandeira.

A violência deles há tempos reduziu times de futebol a argumentos de guerra. Uma guerra onde só perdem os torcedores de bem.

Jamais seremos uma torcida só, graças a esses outros.


* artigo escrito para o jornal " A tribuna", Santos

Quinta-feira, 19 de Março de 2009

O menino

Não há coisa mais bonita no futebol do que um menino. E o futebol voltou a ter um menino. Neymar. Guri, dono de um corpo franzino. Há tempos tratado com o cuidado que, normalmente, só se dispensa aos nobres. Está fazendo o maior sucesso.

Também pudera, o que ele traz consigo é precioso. E de tão precioso faz os olhos dos mercadores brilharem. Jamais haverá marmanjo - por mais talentoso que seja - capaz de fazer o que ele fez no primeiro dia em que vestiu a camisa de titular do time profissional do Santos. E por uma razão simples, o futebol dos marmanjos não exala pureza. Aos amadurecidos não é dado esse dom.

Não é à toa que toda jogada genial, toda pedalada, toda criação inusitada, usando a bola como meio de expressão, sempre soa como molecagem. E o efeito disso revigora. É só sentir como os comentários que partem da boca dos adoradores do time da Vila Belmiro, nos últimos dias, nos chegam cheios de vibração, de vida. Puro efeito colateral de toda boa energia contida nessa meninice talentosa solta no gramado. E isso justamente na semana que antecede um clássico contra o arqui-rival. O que mais os santistas precisam pra sonhar com um domingo daqueles?

O resto é o imaginário viajando no tempo, incontrolável. Num exercício de buscar no passado outros momentos em que o futebol foi sacudido por um menino. Os mais novos encontram Robinho. Os mais velhos, afortunados, tiram dos melhores arquivos da memória, os dias longínquos em que um outro menino, Pelé, lhes causava essa mesma sensação. Bonito, bonito.

Mas, Neymar, saiba desde já, que poucas coisas nesse mundo são tão ameaçadas quanto a beleza. Não creia em histórias de Reis, muito menos na bajulação das manchetes que irão lhe cortejar dia após dia. Esqueça essas comparações com outros jogadores, elas só valem pra torcida. Os outros craques que desfilaram por aí não devem ser copiados, devem servir de inspiração. E só. Ocupe-se de lapidar e desenhar o seu estilo.

Não se renda a nenhuma cifra. Nenhuma. Porque nenhuma delas deve ser suficiente para comprar um homem. E muitas vezes é disso que trata o futebol. Uma montanha de dinheiro, seja qual for o tamanho dela, nunca será garantia de um futuro digno e feliz.

Os mais possessivos dirão que não foi bem o futebol que enriqueceu com sua chegada, foi o Santos. Tudo besteira. Lucrar é uma coisa, ser rico, outra. O futebol é, e sempre será, muito maior do que qualquer clube.

E mais. Não se intimide. Não faltarão brucutus para lhe ameaçar. E saiba que qualquer cabeça-de-bagre um pouco mais esperto estará consciente de que tudo que ele tem pra vencer alguém como você é a catimba e a violência. Ouse. Contra cada jogada dura, aposte na sua leveza.

E surpreenda os maus adversários mostrando, só pra eles, o quanto você é capaz de se defender. Sempre que possível, aproveitando que és peixe, afogue-os num mar de dribles. Duvide sempre de quem o aconselha.

E nunca deixe de comemorar seus gols dessa maneira limpa, brilhantemente sugerida pelo seu pai.


* artigo escrito pra o jornal " A tribuna", Santos