quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O espetáculo... são os homens


A Olimpíada nos fez lidar com nossos fantasmas. E se você, como eu, andou um tanto assombrado antes da festa começar, não se deixe invadir por certa culpa. Não acho que seja caso de terapia. Temos bons motivos pra ficar preocupados diante da responsabilidade de receber gente em casa. Só os inconsequentes não ficariam. E se passou a chance de exigir o padrão FIFA, então, nos resta pedir desde já um padrão olímpico pro nosso estimado povo. Dói trazer com a gente a certeza de que voltaremos a ter do Rio de Janeiro as notícias de sempre. Aos que insistirem na tese de que a cidade depois dos jogos nunca mais será a mesma reservo, com um sorriso triste, a afirmação de que padecerá sendo a mesma, ainda que transformada. 

Os que pairaram acima de nós deixaram uma lição. A de que nem tudo se resume a suor e preparação. É só passar os olhos na classificação geral e na lista de países com bom nível de educação para dirimir qualquer possibilidade de coincidência. Mas antes que o futebol volte a dominar as páginas dos cadernos de esportes deixo aqui meu encanto com a nossa espécie. As conquistas podem ser iguais, os homens jamais. O homem é cósmico, diverso. Capaz de se revelar pobre de espírito ou nobre. O que explica como um craque como Neymar depois de se tornar o protagonista de uma conquista tão esperada tenha despertado tanto descontentamento. 

A Olimpíada passou e, mais do que revelar campeões, nos revelou a soberba de Isinbayeva, a falta de honestidade do nadador Ryan Lochte. Mas pra mim, brasileiro, não houve pompa, não houve nada, que tenha me orgulhado tanto quanto a maneira simples e transparente do veterano Serginho, líbero da nossa seleção de vôlei, se exibir em quadra. Diante de seus olhos marejados que iam marejando os de todos que se aproximavam dele, não haveria nada que fosse capaz de fazê-lo menor, nem mesmo a derrota que não lhe permitiria o ouro. 

Vi em Serginho a nossa maior representação e isso independeria do título. Foi ele, de coração exposto ali no Maracanãzinho, o meu herói escolhido, que fez questão de dividir com a arquibancada cada grande dose de alegria que lhe chegava. E se você, como eu, não poupou críticas aos jogos, mantenha a cabeça erguida se for atingido por argumentos empolgados que jamais levaram em conta os meios. Diante de um Serginho nos dobraremos todos, mas não diante de um país de duzentos milhões onde é dada a poucos essa possibilidade humana de se revelar imenso. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O importante é competir !


Travava uma conversa informal com o amigo Celso Unzelte quando ele me lembrou de um detalhe importante que, em geral, passa despercebido. O fato de não haver para o Comitê Olímpico Internacional o quadro de medalhas. Estabelecer um ranking vai contra o espírito olímpico. Lembrem, o importante é competir. E como se não bastasse montar o quadro ainda se faz da medalha de ouro algo inigualável. Pelas regras estabelecidas - não sei bem por quem - de nada adianta um país ter cinquenta medalhas de prata porque basta que um outro obtenha uma de ouro para figurar acima dele na tabela de classificação. 

Em outros países isso pode ser mero detalhe mas por aqui esse critério só ajuda a reforçar a ideia de que que ser vice campeão é algo menor. Ora, basta ver a alegria estampada no rosto de gente como Diego Hipólito ou Poliana Okimoto pra ter noção do tamanho do triunfo que se esconde entre pratas e bronzes. Diego, aliás, proferiu uma das declarações mais legais que vi até agora. Disse ele depois da prata conquistada: "Já cai de bunda e de cara. Aqui, caí de pé". Perfeito! 

Quem está ali naquela condição está sujeito a tudo. A diferença que separa o triunfo de um segundo ou terceiro lugares é ínfima. Talvez estejamos diante de uma das edições mais equilibradas de toda a história olímpica moderna. Esta é uma estatística que ainda não vi e que seria de grande valia para enaltecer os atletas que ora se apresentam para o mundo. E ter visto a eliminação precoce de figuras como os tenistas Novak Djokovic e Serena Willians me faz ficar propenso a acreditar nisso. 

Mas apesar de todo o encanto não descarte a possibilidade de que os Jogos do Rio sejam os mais inoportunos da história. Que os gregos não me ouçam, pois devem ter bons motivos para dizer que esse título é deles. Podemos reclamar um empate técnico, quem sabe? Mas dispensemos as medalhas, por favor. Estou convencido de que o COI bem que poderia decretar o fim dos tais quadros em nome do maltratado espírito olímpico. Lógico, diante de um Michael Phelps, por exemplo, nada impediria que os meios de comunicação nos lembrassem que o rapaz ali é simplesmente o maior vencedor de provas olímpicas de toda a história moderna, com direito a citar o número de conquistas e por aí vail. Pensando bem o COI poderia ir além e decretar o fim das medalhas e passar simplesmente a adornar a cabeça dos vitoriosos com a velha coroa de louros. Planta que representava a vitória na Grécia e Roma antigas. Mas aí vocês dirão: logo agora que nosso futebol masculino parece tão perto da desafiadora medalha de ouro?

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Torcer contra

Sei que o momento é complicado para afirmações desse tipo. O nobre leitor, imagino, deve andar tocado pelo espírito olímpico. Mas eu aqui, meio com espírito de porco, quero justamente tirar proveito do fato de estarmos mais sensíveis às reflexões sobre o ato de torcer para dar uma cutucada na ferida. Torcer contra nossos atletas olímpicos é tarefa moralmente questionável por motivos mais do que óbvios. Não quero crer que alguém em sã consciência torceria contra uma Rafaela Silva, por exemplo.

Mas quando se sabe que o nosso Comitê Olímpico privilegiou certas modalidades com o intuito de dar uma turbinada nas nossas possibilidades de medalhas para, desse modo, ficar mais perto da meta por ele estabelecida de terminar os jogos entre os dez primeiros colocados no quadro de medalhas, o sentimento pode vir a ser outro. Faz tempo que resultados servem de escudo para dirigentes que teimam em deixar tudo como está, nas mãos de quem está. Pra ter certeza disso basta olhar pro nosso futebol. 

Não me julguem um louco. É claro que tenho um time para o qual escolhi torcer, mas já me peguei várias vezes rendido ao jogo do adversário tamanha era sua capacidade. Muitas vezes, acreditem, comecei a ver uma partida torcendo para um time e acabei seduzido pelo outro, convencido pela beleza de seu jogo. Mas isso faz tempo, foi quando o futebol brasileiro ainda nos dava o prazer de ver surgir grandes esquadrões. Coisa que não tem acontecido nos dias atuais nos quais o jogo de bola se vê reduzido a uma pobreza técnica quase absoluta que nos obriga a torcer para o menos ruim. 

E se venho com esse papo agora é também porque faz tempo que vejo muita gente por aí descer a lenha em tudo e em todos mas sem jamais admitir que torce contra, nem que seja ou tenha sido por um instante, como quem tem uma recaída. Pesa sobre os que torcem contra a sombra da discriminação. Mas aos que torcem contra digo que sempre será legítimo acreditar que só uma derrocada definitiva poderá ter força para mudar o futuro. 

Temos que aceitar o que torce contra onde for, ao lado da gente no sofá de casa, ou o sujeito que pinta lá no boteco decidido a gritar pelo outro time. Lógico que não falo daquele tipo que defende posições para aparecer. O mundo é feito de prós e contras. E não fosse o fato de eu ter percebido esta vocação por aí desde tempos longínquos levantaria a suspeita de que como torcedores tínhamos sido infectados pela intolerância que ora transborda do nosso jeito de encarar a política. Veja. Torcer contra não tem nada a ver com torcer com maus modos. Falo do ato em si. Torcer contra é um direito e ponto final.
 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Eu vou torcer

Foto: Y.V. (EFE)


Nossas moças estiveram em campo e bateram a China. Mas, teoricamente, a missão delas será bem mais espinhosa do que a que espera os rapazes, que estarão amanhã à tarde no gramado do Mané Garrincha. E faz tempo que toda vez que elas entram em campo me vem à cabeça uma música do Jorge Ben, cujo título é o que eu tomei a liberdade de usar para esta coluna. Virou uma espécie de mantra que eu entôo secretamente na ânsia de vê-las alcançar um triunfo ainda maior do que os já alcançados. Ou alguém aí dirá que ser vice-campeã mundial e duas vezes  vice-campeã olímpica em um país onde o futebol feminino carece de existir de maneira digna é pouca coisa? 

A história de superação escrita pela nossa seleção feminina de futebol ao longo dos últimos anos bastaria para justificar minha torcida. Mas há bem mais do que isso, inclusive, o discurso preciso do técnico Vadão que em uma de suas últimas declarações antes da estreia fez questão de deixar claro que com ele não cola esse papo de que uma medalha de ouro irá salvar o futebol feminino. E foi além! Vadão deixou no ar também uma incômoda - mas pra lá de pertinente - pergunta. Disse o treinador das moças: Vamos admitir que a gente vença. No dia seguinte, vai ter futebol feminino nas escolas? No dia seguinte, as prefeituras vão decidir fazer uma escolinha de futebol feminino? O que nos falta é isso. O incentivo social. 

E eu diria que mesmo socialmente muitos são os detalhes que nos desafiam. Semanas atrás virou notícia a reação que os pais de alguns garotos teriam tido ao ver seus filhos perderem um título sub-13 para um time formado por meninas. A proeza foi obra do time do Centro Olímpico de São Paulo que teve autorização para inscrever na tradicional Copa Moleque Travesso um time formado por sete garotas de quatorze anos. A diferença na idade tinha a intenção de equilibrar a força física. Os sete participantes foram consultados e houve apenas uma objeção. 

A bola rolou, o time das garotas venceu a final por três a um e o que se ouviu no entorno foi gente alegando que pesou o fato de as meninas serem um ano mais velhas, que os meninos não entravam pra valer nas divididas com medo de machucar as adversárias e por aí vai. Mas a coisa teria engrossado pra valer quando alguém ousou dizer que futebol não era coisa pra meninas. E detalhe: a ideia de inscrever as garotas no torneio foi motivada pelo simples fato de não existir nenhum torneio que elas pudessem disputar. Vê se pode. Queria ver alguém dizer pra Marta, pra Cristiane, pra Formiga que acaba de viver a rara emoção de entrar em campo pra disputar a sexta olimpíada, que elas escolheram o esporte errado. E é por elas que eu seguirei cantando baixinho esse refrão que pra mim anda fazendo mais sentido do que nunca: eu vou torcer pela paz/ pela alegria, pelo amor/pelas moças bonitas /eu vou torcer, eu vou. 





Escute a música citada no texto - Eu vou torcer


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Minha fé é... no esporte !


Se há uma virtude na Olimpíada é fazer o futebol perder parte de sua hegemonia. Os próximos dias prometem ser  mais democráticos nesse sentido. Dias em que, certamente, o jogo de bola não reinará absoluto nos cadernos de esportes. Muito embora o ineditismo desse ouro que nos falta venha a lhe garantir uma força extra nessa queda de braço pelas manchetes. E, talvez, ainda mais nobre do que isso seja o fato de a Olimpíada jogar luz sobre histórias que o jornalismo esportivo costuma descartar em nome do apelo mercadológico do futebol. 

Acho terrível que não tenhamos conseguido dar aos nossos visitantes uma Baía de Guanabara mais digna, mas o que considero terrível mesmo é o fato de termos chegado até aqui sem ter ainda um plano nacional de esporte. E na ausência dele toda essa ladainha a respeito de legado vira piada. E mesmo se tivéssemos conseguido dar uma limpada na Baía de Guanabara teríamos escondido o sol com a peneira. Deixando assim os visitantes terão uma imagem mais real do nosso país. Não dizem que é preciso se distanciar um pouco das coisas pra enxergar melhor? Sabe-se lá, então, se os que vêm de fora não serão capazes de nos dar uma interpretação melhor da realidade brasileira. 

Pois, se o nosso forte não é o esporte, também não é nossa educação e tampouco o saneamento básico. Nesse quesito, aliás, estamos atrás de países como a Jamaica e o Equador. Em outras palavras, a milhas e milhas de conquistar medalha. Gastar o que se gastou na Vila Olímpica e ter de mandar pra lá seiscentos homens pra reparar às pressas algo novinho em folha não pode ser algo normal. Mesmo que depois de ter colocado a boca no trombone os descontentes tenham abrandado o discurso. O desafio é imenso e, sinto informá-los, não há mais tempo de correr dessa. Mas quero crer que apesar de tudo o que fizeram em nome das intenções do Barão de Coubertin - que era pedagogo - o esporte irá se impor, mostrará sua força. Ainda que no segundo seguinte tenhamos de nos entregar novamente à superfície áspera dos dias que nos cercam. 

Tenho gostado do astral de Rogério Micale, o comandante da nossa seleção olímpica de futebol masculino. E achei muito lúcido da parte dele dizer que esses trinta e poucos bilhões que ora torramos com essa festa monumental bem que poderiam ter sido mais bem utilizados. Oxalá essa nossa condição de anfitriões faça que nossos meninos e meninas se deixem seduzir, não pelo que o esporte tem de competitivo, mas que ao praticarem alguma modalidade incentivados pelo que irão ver, descubram o que o esporte traz de benefício e prazer. Talvez a única forma de acreditar que desse circo todo poderá brotar uma nação um tantinho mais sadia. 
        

terça-feira, 19 de julho de 2016

O futebol e o nosso senso de humor


Olha, não sei a quantas anda a relação de vocês com os homens que aceitaram a ingrata missão de apitar uma partida de futebol. Mas saibam que a CBF segue firme na cruzada para que isso tudo melhore. O aviso das últimas orientações dadas pela entidade nos chegou acompanhada pela alvissareira notícia de que nas primeiras quatorze rodadas do Brasileirão o número de partidas que foram além dos sessenta minutos de bola rolando cresceu mais de 500% nos últimos dois anos. Das míseras oito partidas registradas em 2014 para 42 este ano. O que me fez concluir que, talvez, não resida exatamente na arbitragem o principal motivo do nosso mau humor. Eu explico. 

Com os homens do apito devidamente orientados nosso atletas têm ficado mais expostos, têm precisado lidar mais com a bola, o que vem escancarando de vez a pobreza técnica que assola nosso futebol, minando de vez nosso humor. Um olhar mais atento até mesmo sobre o clássico do último domingo entre Corinthians e São Paulo pode convencê-los dessa minha teoria. Se puderem ver o VT atentem para uma breve sequência de lances registrada no início do vigésimo quarto minuto do segundo tempo. Um perde o tempo de bola, outro erra, a bola espirra pra lá e pra cá sem que apareça ninguém capaz de realmente dominá-la, só vendo. Ou revendo, se tiverem coragem. 

Mas, observações feitas, acho que as orientações foram pertinentes. Exigir que na cobrança de escanteio a bola esteja no lugar certo faz sentido. Vocês já devem ter notado que de uns tempos pra cá nego tem sismado de colocá-la um tantinho pra fora da marca. E juro que não consigo entender do que é capaz essa mínima diferença. A insistência dos goleiros que, em geral, ignoram o cumprimento do seis segundos para colocar a bola em jogo também ficou na mira, bem como o fato dos laterais serem cobrados muito além de onde a bola saiu. O aviso também deixou claro que os árbitros não devem aceitar em hipótese alguma que jogador peça cartão pro adversário, que faça rodinha pra reclamar, que mande o árbitro consultar o assistente. 

Tudo moleza, perto da orientação sobre o agarra-agarra na área, curiosamente colocada entre as coisas com as quais o árbitro deve ter atenção, e não entre as que o árbitro não deve aceitar em hipótese alguma. Tudo tem limite. Aproveito o momento, então, para lembrar que evitar que o jogador adversário se aproxime usando o braço é... falta. E impedir que o goleiro reponha a bola com agilidade coisa pra ser punida com cartão amarelo. Mas sejamos sinceros. O que tem mexido com nosso humor é a constatação de que andamos necessitados de bem mais do que bola rolando. É ou não é? 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Com receio de um papelão


Longe de mim negar minha brasilidade com tudo que cabe aí de nobre e subdesenvolvido. Mas é preciso admitir que o momento que se aproxima pode nos fazer passar um tremendo papelão. Como se já não bastasse tudo que nossos políticos andam fazendo nesse sentido. Não desconsidero a possibilidade de que uma vez acesa a pira olímpica as coisas se acalmem e esse nosso Brasilzão passe a desfrutar de uma calmaria sueca. Não seria uma novidade. 

Morava no Rio de Janeiro nos idos de 1992 - quando a cidade maravilhosa se preparava para sediar a ECO 92 - e lembro bem da apreensão, dos soldados e tanques espalhados pelas ruas, na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Nada demais aconteceu e ficou a sensação de que naqueles dias vigiados a cidade ficou infinitamente mais segura e silenciosa. Mesmo na Copa realizada aqui, a não ser por algumas manifestações prontamente contidas, tudo correu bem. Um sucesso que deveria acalmar mas, não só a mim como a muitos que ouço por aí, causa estranheza. Deixa no ar a sensação de que é possível em horas chaves se fazer algum acordo com os que nos assombram para que reine a paz. O que seria algo quase tão brutal como a violência. 

Ocorre que nossa realidade se deteriora a olhos vistos. Ouvir, como ouvi outro dia, o prefeito do Rio dizer com certa soberba que a calamidade era do Estado e que a cidade do Rio e suas finanças iam muito bem e que o custo das olimpíadas no final será trinta e cinco por cento mais barato do que o imaginado foi de arrepiar. Se agora sabemos que o Pan e certas obras viárias nos levaram trezentos e setenta milhões de reais, quanto os espertos não terão lucrado com uma olimpíada? 

E lembrem que nos disseram que sediar um Pan deixaria quase tudo pronto para uma futura edição dos jogos olímpicos. Lembrem das obras que até hoje não foram entregues. De tudo que a essa hora está apodrecendo depois de ter sido erguido em nome do esporte. Tempos atrás senti vergonha como brasileiro ao dar de cara com a imagem de Mick Fanning, o campeão mundial de surfe, saindo do mar da Barra carregando um saco de lixo. Este ano participantes da mesma etapa brasileira do Tour deram de cara com um assalto a mão armada ao sair do hotel em que estavam. Atletas espanhóis da vela que estão treinando no Brasil foram vítimas de cinco pivetes. E no final de semana passado duas carretas carregadas com equipamentos de emissoras alemãs foram roubadas na Avenida Brasil. 

Custo a acreditar que sairemos ilesos dessa. A possibilidade de um papelão é grande. Mas que a realidade me convença do contrário, pois os discursos jamais o farão.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Coisas do futebol


No que daria eu não sei, ninguém sabe, mas que eu gostaria de ver o Guardiola comandando nossa seleção.Não agora, pois engrosso o coro da torcida que fechou com Tite. Há tempos não tínhamos um treinador que chegasse lá com tamanha legitimidade.Mas a lembrança me veio ao dar de cara com a notícia de que os cartolas mexicanos decidiram manter Juan Carlos Osório no comando do time do México mesmo depois de ter sido goleado por sete a zero. O que não deixa de ser uma prova de que o futebol por aí ainda leva em conta certos valores. Mas um detalhe me chamou a atenção: a exigência de impor certos limites ao polêmico rodízio de jogadores, um dos pilares da filosofia do treinador colombiano.

Pelo que li dele será exigida, a partir de agora, uma base do time titular, que deverá ser composta por no mínimo sete jogadores. O que me parece um contrassenso. E chega a me surpreender que Osório tenha aceitado essa condição. Osório não está mais entre nós mas continuo torcendo pelo sucesso de um técnico estrangeiro em solo brasileiro, no momento, pelo simples fato de que o insucesso deles só faz prosperar essa mentalidade tacanha de que o futebol brasileiro deve ser comandado apenas por brasileiros, de que não precisa de alguém pra lhe apontar caminhos, ainda que algo nessa linha tenha ao longo da história nos ajudado a alcançar grandes triunfos. 


A mesma mentalidade tacanha que eu vejo refletida muitas vezes nos gestos fervorosos de grande parte dos torcedores que na semana passada fizeram ir por água abaixo a contratação de Getterson pelo São Paulo. Reveladas as declarações dadas via rede social pelo jovem atacante, não deixando dúvidas sobre sua veia corintiana, a coisa tomou outro rumo. E o jogador mesmo depois de ter sido apresentado ao lado do peruano Cueva foi devolvido ao J.Malucelli. O clube, segundo relatos que ouvi, teria tomado a decisão não pelo que tinha sido escrito mas pelo fato de ao questionar o jogador não ter ouvido dele um relato sincero do ocorrido.

Duvido que essa seria a decisão se o clube visse nele um grande craque, uma promessa de ganhos consideráveis. Levando em conta que Getterson escreveu tudo o que escreveu quando tinha perto de vinte anos a pena me parece cruel demais. E eu fico imaginando aqui quantos dos que se levantaram contra ele já não escreveram bobagens por aí e se, de repente, fossem convidados para assumir um cargo na sua área de atuação em um clube rival seriam honestos a ponto de recusar o convite alegando que, infelizmente, o clube de coração deles era outro. Tenham a santa paciência. Precisamos crescer moralmente.  

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A Argentina...é fogo !


Nunca acreditei na lisura da FIFA. E a condição imposta por ela de que as Confederações mundo afora não recebam qualquer interferência dos governos sempre me soou discutível. Mas devo dizer a vocês que o futebol argentino me convenceu do contrário. De outro modo seria impossível o mínimo de ordem. Não sei se vocês têm acompanhado o que se passa no país vizinho. A morte do cartola-mor, Júlio Grondona, abriu um vácuo no poder. E o que se passa lá é um aviso do que nos aguarda se não evitarmos de modo eficaz essa mistura de política e futebol. 

Na Argentina atual é difícil saber onde começa uma coisa e termina a outra. A briga pelo comando da Associação Argentina de Futebol virou uma guerra. E vejam a biografia dos envolvidos. De olho no posto está Hugo Moyano, o mais poderoso sindicalista do país. Moyano, líder dos caminhoneiros, é presidente do Independiente, um dos maiores clubes da Argentina e, dizem, até abriria mão do cargo se conseguisse colocar  lá o genro, Claudio Chiqui Tapia, cartola do Barracas Central, um time mais modesto. Outro protagonista é, simplesmente, o maior showman do país, astro de televisão, milionário e... vice-presidente do San Lorenzo, Marcelo Tinelli. Só aí já teríamos uma bela queda de braço. 

O que vocês devem ter ouvido é que a Argentina correu o risco de ficar fora da Copa América e o Boca, da Libertadores. Isso porque nessa batalha há ainda o governo, encarnado na figura de Mauricio Macri. Um homem rico que se afinou com os pobres graças aos doze anos que presidiu o Boca Juniors. E uma das bandeiras que fizeram Macri chegar à presidência foi a de se comprometer a manter o futebol gratuito até 2019. É! O futebol argentino foi nacionalizado em 2009 e custa 138 milhões de dólares por ano. 

A intervenção do governo estaria em curso por causa da evidente falência da AFA. O governo nega. Mas fato é que no último dia 31 a entidade recebeu a visita de um órgão do Ministério da Justiça. Duas pessoas com poder de decisão foram nomeadas para a associação e as eleições, que seriam em 30 de junho, foram suspensas. E não é tudo. No último mês de dezembro a AFA já tinha tentado eleger um presidente mas a votação acabou em papelão. A apuração revelou um número maior de votos do que de eleitores. 

Interessante notar, no entanto, que mesmo vivendo essa situação bizarra a seleção argentina vai bem. É a atual vice-campeã do mundo e ao golear os Estados Unidos na semifinal da Copa América reforçou a pinta de favorita ao título da Copa América. Título que faria justiça à trajetória do genial Lionel Messi, que acaba de se tornar o maior artilheiro da história da seleção argentina. E diante de tudo isso é impossível não se perguntar: poderia o futebol da nossa seleção ser outro, apesar da CBF ?  

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Tite... e nossa pobre seleção milionária !


Quem me conhece sabe que uma das frases que mais gosto é aquela que diz que em matéria de futebol quanto mais você o conhece mais difícil fica de gostar. E não me venham com o papo de que é possível abstrair tudo o que gira em seu entorno e ficar só com o jogo que eu não tenho vocação pra alienado. Estamos aí pagando mais um mico com nossa seleção, mas esse futebol ausente de encanto que nos restou não passa do resultado óbvio de que tudo o que se fez com ele tanto do ponto de vista conceitual quanto do administrativo. 

Dar de cara, depois de ter visto o que vimos, com Gilmar Rinaldi dizendo que estávamos no caminho certo mais do que indignar me intriga. Gostaria de crer que tal discurso foi dito com certo esforço fazendo valer aquela linha de pensamento de que é preciso mostrar segurança diante dos percalços, não se revelar abatido. Mas temo que seja ainda mais complicado, que o dirigente cercado pela lógica do mercado, pelas razões que faz tempo orientam os donos do jogo, estava mesmo convencido de que o trabalho que estava sendo feito por ele era de ponta e iria tirar a nossa seleção desse atoleiro. 

E digo a vocês que já nem estou certo de que a própria imprensa esportiva com todo seu arsenal de críticas tenha noção exata do tamanho do problema. E puxo essa fila sem titubear, pois deixo aqui firmado que antes dessa Copa América começar, sabendo do grupo pífio em que o Brasil estava incluído, estava convencido que por pior que fosse a campanha do time de Dunga  iríamos além da primeira fase. Mas veio a surpresa. E o mesmo raciocínio vale para a Copa do Mundo passada quando não houve especialista que fosse capaz de antever o tamanho do perigo que corríamos. 

Mesmo avançando entre trancos e barrancos até o fatídico jogo contra a Alemanha a imensa maioria julgava que, mesmo por linhas mais do que tortas, não estava descartada a chance de o Brasil figurar na grande final. Outra coisa que percebo na nossa outrora estimada seleção é que uns e outros que costumam se mostrar cheios de atitudes nas redes sociais quando o bicho pega entre as quatro linhas estão longe de demonstrar a mesma valentia. Ou alguém aí vai dizer que não foi fácil perceber que os peruanos pareciam mais dispostos? Isso sem contar que tem gente ali desfrutando de um sucesso que, se formos analisar bem, ainda nem se concretizou. Bom, se quando você der de cara com esta minha reflexão Tite tiver topado a parada, melhor pra seleção. Mas se tiver dito não terá demonstrado uma coerência inimaginável no meio do futebol. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Se a memória exigir, anote !


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Sobre o alvinegro da Vila Belmiro


Pra começo de conversa digo que é preciso admitir que uma vitória sobre o Botafogo atual pouco diz e que o empate contra o Corinthians teria sido um ótimo resultado, se não concordarmos aí será possível que não concordemos mais. E claro que pra admitir isso o torcedor terá que deixar de lado a paixão, abrir mão do que gostaria de ter visto seu time fazer e aceitar que o momento é complicado, muito complicado. 

Há quem tenha criticado com veemência o esquema defensivo de Dorival na Arena Corinthians, não por ser defensivo, mas por não ter se apresentado eficaz nem pra isso. E essa é uma outra questão. Mas se há algo digno de preocupação é o que une duas das últimas três apresentações do time santista: a fragilidade, exalada tanto diante do Inter como diante do Corinthians. 

A cautela de Dorival tem sido uma constante e isso tem custado um tanto, já que é citada por muitos como uma das causas do Santos ter deixado escapar recentemente uma valiosa vaga na Libertadores. E nem vale aqui falarmos do esquema usado diante do Audax no jogo que decidiu o Campeonato Paulista e que obrigava o Santos a vencer se não quisesse decidir tudo nos pênaltis.

Mas qualquer um que se dê a analisar o retrospecto do time no Brasileirão ao longo da última década irá perceber que ele não é alentador. Sem falar na décima quinta colocação de 2008 - e no décimo segundo lugar de 2009 - o que o Santos tem feito é oscilar entre o nono e o sétimo lugares. O que, acredito eu, não contenta mu ita gente. 

E essa falta de resultados notáveis só não sufoca mais os torcedores em razão de no meio dela terem dado de cara com o oásis representado por uma conquista da Libertadores quase meio século depois do que pode ser visto como a fase áurea do clube. O santista quer e imagina o time da Vila bem maior que isso. Prova dessa teoria é toda insatisfação visível depois de uma apresentação pra lá de acanhada diante de seu maior rival. 

A ausência do trio formado por Lucas Lima, Gabriel e Ricardo Oliveira é um problemão. Mas existem outros que deveriam assustar tanto quanto. Mais cedo ou mais tarde o mercado e a idade irão colocar os destaques santistas em outro caminho. As decisões administrativas questionáveis, as brigas políticas desmedidas e a gritante falta de dinheiro, juntas, têm poder corrosivo maior do que essa ausência que nosso calendário absurdo impõe. A conclusão mais óbvia do quadro que se apresenta, portanto, é óbvia: o torcedor santista não está preocupado à toa.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O futebol não quer saber dos astros


Foi andando em um corredor do Hospital das Clínicas que o conheci. Manjou minha estampa. Confessou de cara seu amor pelo Corinthians. Falou sobre futebol com uma intimidade singular. Eu estava lá pra esperar minha mãe se recuperar de uma cirurgia. Enquanto ele convalescia de algum procedimento similar. Fato é que bastaram dois ou três encontros pra que eu nunca mais deixasse de falar com ele. Passado algum tempo fez como havia prometido. Enviou pra minha casa parte dos trabalhos que realizava pra que eu pudesse entender melhor do que se tratava. 

Antônio Olaia é um especialista em ciclobiologia. Uma mistura de matemática, biorritmo e astrologia. Quando semanas atrás ele me ligou na véspera do embate entre Corinthians e Nacional pra dizer que o momento do elenco corintiano tinha tudo pra complicar a vida de Tite, apontando  - como sempre faz nessas horas - os jogadores que estavam na alta e na baixa, lembrei de outras previsões e não encontrei motivos pra duvidar. Ao longo dos últimos anos foram tantos acertos. Coisa de impressionar. E descartem a hipótese de coincidência, pois uma breve pesquisa irá mostrar que foram vários os momentos nas últimas décadas em que o senhor Olaia mostrou do que era capaz a ciclobiologia.

 Em 90 avisou, por exemplo, que o Brasil cruzar com Maradona na Copa não era uma boa, como não foi. Mas vocês sabem como é o futebol, se hoje em dia, quatro décadas depois dele começar a emprestar seus conhecimentos ao jogo de bola ainda há quem não esteja convencido nem mesmo da ajuda que a psicologia pode dar, imagine quando se trata da ciclobiologia. Tudo bem que nunca será tarefa fácil dizer pra estrela do time que hoje é melhor ficar no banco de reservas porque os astros andam dizendo que ele está em baixa, que essa  situação compromete o rendimento e deixa o corpo muito vulnerável a lesões. Não se trata disso, há muitas maneiras de tirar proveito do conhecimento e de estudos que pelo que pude perceber desde que conheci Antônio Olaia são ricos em resultados. 

Não pensem também que esse tipo de ajuda nunca foi oferecida a muitos dos nossos treinadores. O trabalho de Olaia já foi aplicado em muitos clubes com resultados de se admirar. Mas nem os treinadores ditos mais modernos pelo visto deram à ciclobiologia a devida atenção. Juro que pensei em pedir pro Seo Olaia tabular lá algumas coisas sobre a próxima rodada. Assim, quem sabe, vocês pudessem ter uma percepção melhor da coisa. Mas pedir pra alguém tão vivido, do alto de seus cabelos brancos, colocar seu conhecimento à prova não seria elegante. Olaia não tem dúvidas de que a astrologia é o DNA do futebol mundial. Mas o futebol não está nem aí, não quer saber dos astros.    

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Então, teremos mais um partido?

Vocês sabem muito bem que se há uma coisa que não falta nesses tempos que correm são motivos pra nos indignar. Desconfio até que já estamos em um estágio perigoso demais no qual o nível de indignação se tornou tão brutal que tem nos levado a uma certa letargia diante dos fatos, por mais absurdos e horripilantes que sejam. Mas a aprovação pelo TRE-SP do Partido Nacional Corintiano além de me indignar fez crescer em mim uma outra sensação: a de que perdemos todos os parâmetros. 
 
Diante das primeiras recusas nesse sentido quis acreditar que por trás de tudo poderia haver o bom senso. Aquele tipo de ingenuidade que mais cedo ou mais tarde acaba atropelada pela realidade. Sei que a nova sigla cumpriu os requisitos exigidos, apresentou os documentos, obteve o apoio do número exigido de eleitores. E já imagino que alguns usarão a própria indignação para dizer que se tudo está dentro da lei quem sou eu pra questionar um direito. Ocorre que no meu humilde ponto de vista reside aí um dos motivos que têm levado nosso país ao buraco. 
 
Custo a imaginar que nosso país necessite mais partidos políticos do que o número absurdo que já tem. Imagino que será o primeiro passo para as bandeiras do futebol invadirem a política, como já invadiram o carnaval. Os dois casos abrem a porta para o recebimento de dinheiro público. E como bem sei do ânimo do mundo estou ciente de que o dito me fará correr o perigo de que alguns o tomem como algo contra os corintianos. O que essa minha indignação está longe de ser.As leis não deveriam ser o limite de tudo. E imagino que em muitos casos, quando interessa, elas não sejam. Andamos carentes é de bom-senso, de autoridades com atitude. Boas atitudes. Aberto esse caminho imagino que fica estabelecido, a partir de então, a sugestão para que os que se irmanam sob alguma bandeira ou condição fundem um partido na ilusão de que estariam por ele melhor representados.
 

Quem sabe algum iluminado não tenha dia desses a nobre ideia de fundar o partido dos miseráveis, dos desempregados, dos larapiados, ou sei lá mais o quê. Por certo seriam partidos que não teriam dificuldade nenhuma para angariar o ínfimo 0,1% dos votos válidos para a Câmara dos  Deputados, como a lei exige. E feito isso estariam todos legitimados. Mas sem reforma política, com esse nível político vergonhoso que aí está não tardará o dia em que serão levados a admitir que tudo não passou de ilusão. Que só alguns poucos se deram bem. E que eles, os eleitores, continuaram no mesmo papel. Mas sempre será mais fácil conquistar a simpatia de alguém que torce para o mesmo time que a gente. E o Brasil? Bom, o Brasil que se dane.

Um time raro


Vou contar uma coisa pra vocês. Andei comprando briga por causa desse Barcelona que temos visto aí. Esse que acaba de se sagrar pela sexta vez nos últimos oito anos campeão espanhol. E se briguei foi por ter defendido a tese de que se trata de um dos times mais encantadores que vi jogar. Muita gente se doeu e rebateu a afirmação me dizendo, em tom provocativo, que o Barça de Guardiola era melhor. Pode ser. Não sou do tipo que não vê grandeza na dúvida. Mas talvez valha em casos assim apelar pra o que alguns costumam dizer sobre os vinhos, que o melhor deles é aquele que parece feito para contentar o seu gosto não importando de onde vem ou quanto custa. 

A essa altura minha posição certamente será ainda mais combatida pois no imaginário do torcedor ainda baila a derrota para o Real Madrid pelo Espanhol e a eliminação da Copa dos Campeões pelo Atlético de Madrid. Resultados que sugeriam um futuro mais opaco para uma equipe até então brilhante. Principalmente se lembrarmos que entre uma derrota e outra o time catalão perdeu para a Real Sociedad e depois da eliminação na Copa dos Campeões ainda viu o Valencia sair do Camp Nou carregando um triunfo por dois a um. 

Os insucessos só fizeram aumentar consideravelmente o tom das críticas feitas a Neymar e a Messi, que amargava então um jejum de cinco jogos sem gol, o pior dele desde 2010. E os jornais não hesitavam em tratar tudo como uma derrocada. Era ou não era pra abalar qualquer equipe? Mas o que fez o Barça depois disso? Venceu os cinco jogos restantes marcando 24 gols e não sofrendo nenhum. Ah, mas o Campeonato Espanhol é uma baba dirão. Lembrando dos jogos que vi do Barcelona nesta temporada prefiro pensar que ele fez valer seu futebol. Além do mais, tivesse o Barcelona atual vencido tudo dispensaria essa minha defesa. 

Nome por nome talvez não resista a uma comparação com o de Guardiola. Mas pro meu gosto há algo raro, muito raro ali, ancorado no brilhante trio MSN. Uma magia, um tempo de jogo. Não por acaso, o uruguaio Suárez acaba de se tornar o mais novo artilheiro do Espanhol quebrando a hegemonia de Messi e Cristiano Ronaldo que durava desde 2009/2010. Foram quarenta gols no total, quatorze deles marcados nos últimos cinco jogos. Na temporada Luis Suárez soma cinquenta e nove. E no próximo sábado, na final da Copa do Rei contra o Sevilla, terá a chance de ir além, e nós a chance de ver uma vez mais esse Barcelona que está longe de ganhar tudo e agradar a todos... mas que tem jogado futebol como poucos.  

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Desabafo de um torcedor


Fala sério! A gente se diverte muito com o futebol dos gringo. A coisa tem uma pompa que por aqui não viceja. Ademais o enraizado complexo de vira-latas pode ter saído do nosso corpo mas segue rondando nosso cucuruto. E não é pra menos. Tem sido duro acordar dia após dia e levar a vida adiante nesse clima de desastre que nossos políticos trataram de armar. Mas como ia dizendo, nessa tal de Champions o babado não é mole. E os convidados pra brincadeira - quando não são craques - gozam de um tal prestígio que só vendo mesmo. 

Mas futebol é futebol seja qual for o pedaço desse mal tratado globo. Quem viu o embate entre o Bayer do pomposo Guardiola contra o Atlético do rústico Simeone há de entender o que tô falando. O jogo bem que tava uma maravilha com o Bayer vivinho depois de ter feito seu segundo gol. E não é que aí em vem o turco pra quem entregaram o apito e me marca pênalti num lance que se desenrolou quase um metro antes da linha da grande área? Pois aí que é. 

Vocês podem não crer, mas de minha parte nem pestanejo pra botar fé de que existe mesmo justiça divina. Pois vai lá o tal do Torres, que não cansa de colocar o cabelinho pra trás da orelha, e me perde a chance de mandar a bola pra rede. Coisa pra qual o juiz devia render prece e agradecer, porque o erro o livrou do pecado de estragar um jogo daquele. Se o cabra tivesse feito o gol, vixe ! Teria sido um bafafá que ia azucrinar as orelhas desses pobres coitados que não perdem a chance de gruda os óio e as orelha numa dessas mesa-redonda. 

O futebol dos gringo é bão? É bão! Mas tá sujeito as mesmas dor desse nosso aqui, maltratado e subdesenvolvidinho. E já que esse tal Vladir me deu a chance de ponhá no papel um tantinho do que penso sobre o futebol, me recuso despedir se antes posicioná meus pensamento a cerca dessa missão estranha e desafiadora que é chutá uma bola ponhada na marca da cal.  Doutô Sócrates, vi dizer uma vez que depois do papelão que passou em oitenta e seis é que percebeu que não existia alma nesse mundo que ensinasse um homem a bater penalti e, inteligente que era, tratou de se acerca de conhecimento sobre o tema. Rivellino, com tudo que sabia, prefiria evitar a situação, o que só mostra que sabia mesmo da coisa. 

E que fique bem dito: espetáculo pra mim é o futebol dos estrangeiro. Coisa linda. O nosso aqui até que meiorô, mas nas Arenas tem que deixar as calças pra entrá. Aí não dá. E quer saber? Acho que na lustrosa Champions vai é dar o Madrid, que esse Cristiano Ronaldo é bicho vaidoso, com aquele cabelo liso cheio de óleo, mas que joga uma bola que minha nossa. Pronto, tá dito. Agora quero ver é publicá, viu ô Vladir! 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

As regras, sempre claras!

Desde que me conheço por gente as regras do futebol dão o que falar. E se a memória não me trai também faz  tempo que não ouço alguém dizer que o sucesso do futebol se deve muito ao fato de ser um esporte de poucas regras. E regras preservadas ao longo da história. Reconheço a virtude. E se escrevo sobre é por acreditar que as intervenções feitas nos últimos tempos tiveram algo de desastroso, em especial, por terem atentado contra essa virtude. 

 Vejam a recente orientação sobre os pênaltis causados por bola na mão. De repente ficou estabelecido que se a bola bate na mão é pênalti e ponto. Imaginaram que num passe de mágica acabariam com o foi-não-foi que costuma manchar reputações. Ora, se há um pecado em matéria de futebol é ignorar a complexidade do jogo, o que a orientação descaradamente fez. 

Mas o que pretendo mostrar é como a decisão teve um efeito perverso. Acredito que vocês, como eu, desde cedo aprenderam a interpretar o que era e o que não era pênalti. Levar em conta a intenção. Claro que não era fácil, nunca foi. Mas a orientação passou a duelar com essa lógica. Chegamos ao seguinte ponto. Em uma partida depois de um lance desses o narrador perguntou ao comentarista como ele interpretava o lance que tinha acabado de acontecer. E ele não teve dúvida. Afirmou que pela orientação dada aos árbitros deveria ter sido marcada a infração, mas que ele, comentarista, não daria. Era ou não era mais simples ter preservado o papel da interpretação que o futebol sempre exigiu?

Bom, foi-se o tempo em que as regras do futebol eram preservadas. Há exatamente um mês o International Board aprovou, e a CBF irá adotar, um pacote de mudanças considerado o mais abrangente dos 130 anos de existência do órgão. O livro de regras foi reorganizado e atualizado, segundo eles, para facilitar a leitura e o entendimento de árbitros e comunidade em geral. A partir de então qualquer toque no rosto - mesmo aqueles com jeito de carinho - redundaram em expulsão. 

E o principal! Aquele lance em direção ao gol, sabe? Aquele que todo mundo exige vermelho? Esse passará a merecer o vermelho só se a falta for intencional, ignorando a bola. A intenção é ótima, claro. Mas interessante aí é notar que dessa vez voltaram a acreditar na interpretação do lance. Ou alguém aí é capaz de crer que ela se fará necessária? Faltas cometidas além da linha de fundo, depois do limite do campo, também serão marcadas. E há outras mudanças. Mas o que me assombra é a certeza de que se fosse debater a eficácia delas com algum entendido a certa altura iria ouvir que estou interpretando a coisa de modo errado

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O ocaso de um campeão


As histórias dos grandes campeões estão cheias de detalhes impressionantes, acasos, superações. Mas talvez o correto fosse dizer que quando alguém atinge esse patamar todos os detalhes que o levaram à glória ganham estatura maior. E a história de Cesar Cielo nesse sentido não deve ser diferente. Eis que na semana passada ficamos sabendo que ele não estará nos Jogos do Rio. E não terá sido por falta de técnica nem de competência. Alcançar o índice olímpico não foi problema para Cielo, que nadou abaixo dos exigidos 22 segundos e 27 centésimos. O problema foi um só: o tempo não tem piedade. 

O mesmo tempo que o consagrou com seus centésimos de segundo agora o condenou a constatar que a vez é de outros. A ausência de Cesar Cielo na olimpíada causou comoção na mídia, tomou conta dos seus companheiros de piscina. Não era pra menos. Tomara que ele tenha entendido o momento, a beleza escondida em meio à toda  comoção. Como tantos outros campeões não esteve livre do fantasma do doping, mas se fez um gigante. 

Em setembro de 2009 fui convidado para apresentar uma edição do programa Roda Viva, da TV Cultura. E o convidado era justamente Cesar Cielo, que tinha acabado de voltar do Mundial disputado em Roma. Havia derrotado o recordista mundial dos 50 metros livre e feito o melhor tempo da história da competição. Acham que é tudo? Nos 100 metros também tinha sido medalha de ouro, com direito a deixar para trás o então campeão olímpico, Alain Bernard, e a bater o recorde mundial. 

Como se não bastasse, no ano anterior, nos Jogos de Pequim, Cesar Cielo já havia conquistado o bronze nos 100 metros livre e o ouro nos cinquenta. E com detalhes que merecem lembrança. Na semifinal tinha quebrado o recorde olímpico do russo Alexander Popov, que durava desde os Jogos de Barcelona em 92. Feitos impressionantes que me fizeram anunciá-lo aos telespectadores naquele dia como o mais novo entrevistado a estar no centro do Roda Viva. Antes de Cielo os melhores resultados olímpicos da nossa natação pertenciam a Ricardo Prado, prata nos 400 medley, em Los Angeles/84, e a Gustavo Borges, prata nos 100 e nos 200 metros livre, em Barcelona/92 e Atlanta/96.

Pois é! O menino de Santa Bárbara se tornou o nadador mais laureado da história da nossa natação. Dono até hoje dos recordes mundiais dos 50 e dos 100 metros livre. E,claro, não queria sair de cena justo agora. Mas deve saber mais do que ninguém que tudo sempre foi uma questão de tempo. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Viva a audácia !



Os jogadores de talento discutível que há tempos andam se dando bem na cruel triagem imposta àqueles que se entregam ao sonho de jogar bola têm contribuído deveras para o empobrecimento do futebol. Mas vendo no último domingo a partida entre Audax e São Paulo dei de cara com o que precisava pra afirmar categoricamente que, nesse sentido, a falta de audácia tem sido ainda mais corrosiva. E se digo audácia falo da tendência que um indivíduo pode cultivar de empreender ações difíceis, dando uma banana para os perigos que essa escolha representa. Bastariam alguns erros para que o toque de bola do Audax virasse motivo de piada. Estamos todos cansados de saber que a ausência de resultado é tão ou mais cruel do que os critérios que têm selecionado nossos jogadores e técnicos. 

Mas não é de hoje que o treinador Fernando Diniz se mostra disposto a driblar o lugar comum. Tem craques pra fazer isso? Definitivamente, não. Os que viram o jogo como eu devem ter se pegado em dado momento segurando a respiração ao ver o goleiro na pequena área se negando a meter o pé na bola e aceitando o desafio de tirar o adversário do lance fazendo uso da ginga. Até o comentário do narrador no segundo seguinte deixava entrever um riso nervoso. Olha, digo a vocês que mesmo se vier a eliminação no jogo com o Corinthians a obra está feita. Basta a coragem de ter negado o lugar comum, esse feijão com arroz que tem mexido com a nossa paciência nas tardes de domingo. Mas têm alguma outra coisa ali. Algo que transcende a visão tática. 

E a prova disso não reside no fato de que o Audax foi o único time capaz de neste momento figurar ao lado dos  grandes. Reside na constatação de que diante do São Paulo o Audax foi mais confiante. Ou não é necessário uma imensa confiança para não meter o pé na bola quando o adversário chega bufando pra te marcar perto da linha da grande área? Tem muito medalhão por aí que nessa hora não ia nem lembrar do que andou falando o professô. 

Atento às questões do homem, formado em psicologia, Fernando Diniz dá a impressão de ter convencido totalmente seus jogadores de que o caminho apontado por ele vale o risco. O Audax pode não chegar à decisão do título. Pode sofrer todas as penas, ser eliminado, futuramente rebaixado até. Mas está claro que Diniz foi capaz de dar uma identidade ao time que dirige. E tem muito treinador consagrado aí, na beirada do campo, que até hoje não foi capaz de montar um time cujo jeito de jogar pudesse ser tido como sua assinatura. Talvez fosse o caso de se criar nos torneios de futebol um prêmio por inovação. E se você achar que eu tô exagerando, tudo bem, podemos premiar o Audax só pela audácia.   


Foto: Rubens Chiri / sãopaulofc.net

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A pequena dúvida: Nós realmente ganhamos a Copa do Mundo ?



Não há enredo mais rocambolesco e que tenha alimentado tantas teorias conspiratórias como a final da Copa do Mundo de 1998. A convulsão de Ronaldo, as cenas mostrando um Ricardo Teixeira pra lá de apressado descendo as escadarias do Stade de France rumo ao vestiário brasileiro. A fúria de Edmundo, que diante dos acontecimentos virara titular por uma breve fração de tempo mas que, por decisões superiores, acabaria novamente na condição de reserva. Um drama que começou a se desenhar bem antes do placar apontar três a zero para os donos da casa. E não é que quando toda a poeira já tinha baixado nos aparece o meio-campista, Petit, perguntando se eles, os franceses, foram mesmo campeões mundiais ? 


Mas que dúvida poderia alimentar o sujeito se foi ele mesmo o autor de um dos gols naquele doze de julho? A dúvida é cruel, corrosiva, nos persegue feito sombra. E Petit a justifica dizendo que diante de tudo que está acontecendo agora ele se vê quase obrigado a perguntar a respeito. E está coberto de razão. Foi-se o tempo em que o futebol podia se esconder atrás de uma aura de seriedade. Hoje não, as notícias insistem em nos revelar as entranhas econômicas dele e, ao mesmo tempo, só fazem aumentar as nossas dúvidas a respeito do jogo. E isso nos faz colocar os pés em uma fronteira. Uma fronteira que definitivamente não queremos atravessar. Fronteira porque se um dia chegarmos a esse ponto teremos bezuntado toda a linda história do futebol mundial com o betume da farsa. Notem


Quando todas as negociatas envolvendo os direitos de transmissão vieram à tona se não chegaram a causar espanto foi porque no fundo, no fundo, sabíamos que isso era possível. O espanto nascia da constatação de que alguém, finalmente, iria provar o que nunca havia passado de suspeita. Tratava-se já de uma possibilidade dita à boca pequena. Com a lisura dos jogos não é diferente. Ou não paira no ar a sensação de que tudo é possível? Não é difícil entender o campeão francês quando diz que tem andado assustado, que vem se tornando um paranoico.


Petit ainda citou um penalti dado para o Brasil no jogo contra a Croácia em 2014. Um lance que não levou o Brasil a lugar nenhum. Para os dados a ver fantasmas eles estarão muito mais visíveis na Copa de 2002, justamente a que se seguiu à da França. E sobre a qual muito se dizia e disse. Sujeito desconfiado que sou chego a pensar se a declaração do francês não teria a intenção de deixar claro que ele nunca soube de nada, ou se ele anda perdendo o sono de verdade por achar que pode descobrir dias desses ter sido apenas um homem a encenar em campo um teatro comandado por poderosos. A dúvida de Petit nos serve, antes de tudo, para questionar o essencial, o tamanho da credibilidade do futebol nos dias atuais.