quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Futebol e novela

Sem essa de que mulher não gosta de futebol e homem detesta novela. Estamos todos cansados de saber que o mundo é outro e que a cada dia que passa fica mais difícil definir qualquer coisa. Tudo agora é uma questão de tempo.

O mais clássico dos clichês não será capaz de resistir a corrosiva modernidade que se apresenta. E, embora já exista muito marmanjo por aí se confessando impressionado com as atuações da Lílian Cabral durante o horário nobre, o futebol continua sendo a nossa "novela" preferida.

Que cada um faça como quiser. "Viver a vida" é mesmo um título sugestivo.

Enquanto escrevo este artigo, observo de longe o time feminino que me cerca. Está todo lá na sala, de olhos grudados na telinha, consternado e insatisfeito com o que assiste. Imagino que deva estar sentindo algo muito parecido com o que sentiram os que aguardaram ansiosamente o embate entre São Paulo e Inter uma semana atrás.

Tudo bem que não é só o futebol que tira nossas mulheres do sério. É a profunda filosofia que se estabelece por tudo, pelo impedimento, pela canelada, pelo erro do árbitro. Sem falar nas análises intermináveis e na horda de comentaristas rudes que teima em gritar na sala.

Aí elas entortam o nariz pra nós, como se não fosse trash esperar dias pelo momento em que uma das personagens do folhetim ficará paraplégica. É! Tenho sacado essa história no ar faz tempo. Já sei o que vocês estão pensando. Entendam. É que pra traçar esse paralelo precisei reparar no que se passa. Mas ouso jurar que não se tratou nem de uma considerável espiadinha.

Pra resumir, o que está acontecendo é simples, é como diz o verso do tema de abertura, "tem dias que eu fico pensando na vida". Mas avise aí em casa que elas não precisam se preocupar, porque se por um lado os nossos capítulos têm noventa minutos mais o intervalo - e às vezes a gente teima em assistir uns quatro, cinco, por dia - por outro lado nossa novela está perto do fim. E como está boa, hein?

Só não entendi direito porque é que o mocinho do Brasileirão resolveu levar o vilão pra dentro da concentração. Vai entender a cabeça desses roteiristas. Mas se anda tudo embolado, indefinido, e você está pra lá de entretido, tudo bem, só não pense que somos nós que estamos por cima. Nada disso. Acho bom rever seus conceitos. Esses ao menos. Todos seria um trabalho em vão.

Elas é que estão por cima, estão na crista da onda. A novela delas tem cenas em Paris, tem as formas da Aline Moraes, e a nossa as formas do Ronaldo, do Dentinho. Bom, também não dá pra querer ganhar todas. Levamos um drible e nem percebemos. Ou você não se deu conta?

Há tempos fomos rebaixados.

É a tal modernidade corrosiva que citei no início. É delas o horário nobre, senhores. Inteirinho. A nossa novela só pode começar depois que a delas termina. E vai mexer pra ver. Talvez seja por isso que quando a novela delas acaba um outro refrão fica rondando minha cabeça feito provocação. Falo daquele que diz, " ... sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão".

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A euforia das possibilidades

Tramei estas linhas antes que o início da trigésima segunda rodada agitasse a noite de ontem. Mas o mundo não parou por causa disso. Quando seus olhos passearem pelas minhas palavras o Campeonato Brasileiro poderá ter, inclusive, um outro líder.

Não se trata de uma previsão, entendam. Sempre fui cheio de receio com elas e, diante do que tenho visto, quando o assunto é esse, tento o drible. Vou além, começo a considerar a hipótese de estarmos vivendo um castigo imposto pelo Deus do futebol, cansado de ter que aturar tanto pragmatismo, tanta lógica. Duvido que haja a essa altura um comentarista invicto. O sobrenatural derrubou todos nós.

Em algum momento desta temporada, um a um, tivemos nossas teorias demolidas por uma realidade qualquer que se desenhou no gramado. Alguém abriu a tal caixinha de surpresas, só pode ser. Uma coisa lhes digo, é preciso aproveitar o presente porque o futuro pode ser menos rico de possibilidades. Não dá pra esperar que a gente chegue à ultima rodada assim, com essa invejável riqueza de candidatos ao caneco.

Temos feito verdadeiras odes ao momento vivido pelo Brasileirão, com razão. Instigados, destilamos infinitas possibilidades, pesquisamos e confrontamos números e mais números, como se pudessemos prever a vida, antecipar o desfecho, entender tudo. Santa e apaixonada pretensão. Sinto-me na obrigação de alardear o óbvio, fazer atentar para o mais provável.

Estamos no auge. No ponto chave. É como se fosse uma nobre conjugação dos astros. Um período raro. Um alinhamento que engrandece a vitória. Algo poucas vezes visto. E esse equilíbrio estampado na tabela, a seis rodadas do fim, sugere, oferece, um grande prazer.
As últimas garfadas de um bom prato, os últimos goles de um grande vinho, e todas as outras besteiras que vocês possam pensar, não têm seu melhor momento exatamente quando acabam. Os defensores do mata-mata podem até fazer disso um argumento.

Sejamos pragmáticos pra viver também.

Se você permanece entre os que podem se divertir pensando que seu time será campeão, aproveite. Dentro de algumas rodadas a história tem tudo pra ser outra. A hora é essa. Torça, reúna os amigos, porque a exatidão da matemática não deixará a mínima dúvida se tiver que acabar com a brincadeira. E, pior, não mandará recado. No final tudo será mais sóbrio, mais resumido, terá quase a ênfase de um decreto. Restará um campeão, os classificados para a América.

Neste momento temos muito mais do que isso. Temos uma multidão de torcedores multicoloridos alimentando essa imensa roda de ilusão. Ao final, restará apenas a festa de alguns. Mas se estamos sujeitos as penitências desse senhor que tudo pode no universo ludopédico, podemos pedir uma benção também.

Meus amigos, não seria má idéia clamar para que um juiz mal intencionado, ou um bandeirinha desatento e despreparado, não venha cortar o nosso barato, por mais que isso soe como um milagre e não como uma benção. É hora de curtir. A maioria pode não ter essa chance depois.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Em nome do pai

O que vou dizer pode parecer enfático além da conta, amargo mesmo, mas o sinto de verdade. Acredito que a queda na audiência registrada nos últimos anos não é consequência apenas dos horários inadequados e da concorrência do pay-per-view, como sugerem os especialistas.

A questão é mais profunda. Noto, não é de hoje, um leve desencanto nas pessoas com relação ao futebol. E não vejo esse sentimento se abater sobre qualquer um. O vejo presente em gente que durante toda a vida sempre gostou do jogo. Há tempos a falta de paciência de Sócrates com o futebol me espanta, ao mesmo tempo que me encanta. Nada mais desafiador e livre do que ver um craque desdenhar do jogo.

Meu pai, o Seo Ary, que a vida levou na semana passada, também parecia enxergar muito bem essa rachadura invisível que tem sugado a magia do jogo. Já não dava nem pista do cara que em outros tempos fazia questão de praticamente todo domingo assistir “in loco” uma pelada que fosse. E graças a essa ligação paterna com o jogo de bola, eu e meu irmão passamos muitas manhãs e tardes soltos nas arquibancadas de madeira do velho Mansueto Pierotti, casa do São Vicente.

Até minha mãe quase entrou no clima, quase, porque ainda não esqueceu a experiência de ter acompanhado uma partida da Briosa em pleno Ulrico Mursa. A verdade é que os xingamentos da portuguesada ensandecida não lhe causaram boa impressão e, diante do que viu, chegou a sugerir que aquilo não era ambiente bom pros meninos.

Que nada! Os duelos dominicais mexiam com a nossa imaginação. E nós, carregados pelo Seo Ary, continuamos nos divertindo, torcendo para o Jabaquara, para o Paulistano, para o Continental, para o Beija-flor. Mas essas são lembranças de um tempo que passou.

Não que meu pai tenha deixado de ter um time, de ser palmeirense, mesmo porque ele fazia questão de dizer que essa tinha sido uma escolha coerente com seu jeito de ser. Lembro do dia em que lhe perguntei como alguém que cresceu cercado por corintianos, se divertindo no Corinthians, vivendo perto do Corinthians, acabou virando palmeirense. A resposta veio curta e óbvia:

_ Eu sempre fui do contra!

Nos últimos anos ele mantinha com o futebol uma relação distante o suficiente para evitar maiores desapontamentos. Aos domingos, geralmente perguntava sobre o jogo que poderia ser visto na TV. Terminado o almoço em família, mandava uma saudação geral e se entregava a siesta com fervor religioso. Não sem antes dizer:

_ Me acorda quando começar o segundo tempo.

Na maior parte das vezes, eu, que ficava ali vendo todo o desenrolar do jogo, concluia que era melhor que ele continuasse dormindo, não estava perdendo grande coisa. Mas convenhamos, teria sido uma receita perfeita para o clássico do último domingo, que terminou com vitória do time dele.

Sabe, meu pai, que foi marinheiro, tinha uma âncora tatuada no lado esquerdo do peito, e uma outra lançada bem no fundo do meu, por isso hoje, deixo nestas linhas o registro de um desencanto e um descontentamento com o futebol atual que certamente não eram só dele.


* escrito no dia 05/10/2009

sábado, 26 de setembro de 2009

É pra rir ou pra chorar ?

Senhores, o grande dia vem aí. Não exatamente pra nós, comuns. Mas creiam, neste momento, um time seleto, formado por figuras conhecidíssimas e manjadas, esfrega as mãos de modo frenético, e não vê a hora de saber o resultado do pleito a ser realizado na Dinamarca no próximo dia dois de outubro.
Será lá, em Copenhage, que os membros do Comitê Olímpico Internacional decidirão pra quem darão a honra de sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Não se desesperem, podem tomar o chopp do final de semana, fazer a caminhada diária, tirar um tempo pra terminar aquela prazerosa leitura inacabada, ou sair pra comprar um agrado pros filhos ou pra patroa, que ainda temos alguns dias pra viver sem ter assumido tamanha responsabilidade, tamanho papagaio.
Escrevo com certa antecedência de propósito, pra lembrar que ainda valem rezas, mandingas e figas pra que alguém de bom senso cruze nosso caminho. Como por aqui anda tão difícil, quem sabe por lá.
Tudo bem que a empreitada já levou muitos milhões de reais do nosso cofre. O trem está andando. Ainda assim seria bom parar por aí, podes crer. Antes que os milhões virem bilhões. Sentindo os músculos do pescoço tensos, volto a reforçar minha teoria. Esse negócio de sediar Copa, Olimpíada, devia é ser decidido num plebiscito, afinal, a grana é nossa. Basta de decisões entregues nas mãos de alguns, sempre solícitos a responder por todos. Sabemos bem no que isso acaba dando.
Em meio ao oba-oba, a Prefeitura do Rio, que junto com o governo do Estado já havia colocado nove milhões de reais na brincadeira, dias atrás liberou, sem licitação, mais três milhões e meio de reais aos organizadores da Rio-2016. Fortuna que será gasta nos dias anteriores à votação, que terá a presença de Lula e do Rei Juan Carlos, da Espanha, o do "Por que no te calas?", lembra? Os dois, aliás, prometem unir forças, se for o caso.
Eufóricos, os envolvidos pensam em espalhar shows e telões pela orla carioca no dia decisivo. Tudo soa cínico. Falam de um Rio de Janeiro seguro. Querem que a gente ignore a realidade que nos cerca e ameaça. E não é o Rio, é o Brasil, até nas suas cidades mais tranquilas e pacatas, que está de mãos pra cima, ao alto, rendido.
Só podem estar curtindo com a nossa cara ao dizer que a candidatura tupiniquim peca na infraestrutura mas é superior nas garantias dadas por todas as esferas de governo. Em outras palavras, somos bons em bancar orçamentos mal calculados, estourados. Nisso é bem possível que sejamos recordistas mundiais. Piada, piada.
Imagine só. Um sujeito se aproxima de você e fala, você conhece a da Olimpíada na América do Sul? Convenhamos, é um bom começo. Quer dizer... Na sequência, se for bom piadista, poderia emendar a da FIFA com seu "fair-play econômico", pedindo aos compradores e vendedores de atletas milionários que preencham fichas com todas as infrormações sobre a transação pra ver se elas batem umas com as outras. Melhor que essa só a dos bingos, que agora terão controle absoluto e ajudarão o esporte de verdade.
Meus Caros, estamos prestes a acordar incluídos nessa festa de gala, nesse passo gigantesco rumo ao tão falado país do futuro. Só não sei se é pra rir ou pra chorar.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Depois da chuva, com a saudade

Dias atrás, passada uma dessas chuvas torrenciais que andaram sendo notícia por aí, tomei o rumo da beira-mar. E como é de se esperar em ocasiões assim, lá chegando vislumbrei uma praia quase deserta. Na ausência do sol são poucos os que se interessam por ela.

Atravessei os canteiros do jardim com ar incabado do lugar e, antes que pudesse chegar mais próximo da areia, deixei que meus olhos, sempre prontos para alimentar saudades, passeassem pelas imagens do velho campo do Itararé.

Um campo humilde, com a escassez de grama sugerindo um desenho cônico de cada lado. A terra, ali transformada em lama, estava exposta e limitada por linhas que começavam perto da intermediária e se abriam até encontrar as traves, evidenciando o espaço mais castigado pelas peladas. Nas laterais onde, ao contrário, a grama pouco pisada permitia que o gramado quase virasse mato, pousavam alguns pardais abusados como eu, ignorando a possibilidade de uma nova tempestade.

Por todos os lados, espalhadas estavam, imensas poças de água, refletindo fragmentos de paisagens daquele início de tarde. Apreciava uma delas em especial, que trazia no espelho de suas águas uma rara fresta azul de céu, quando vi. Uma faixa branca com letras em preto tinha sido colocada bem no alto do alambrado que fica atrás de uma das traves. Nela pude ler: Araquem/ Fique com Deus /Sentiremos saudades/Dos seus eternos amigos do Itararé.

Não, não sei de quem se trata. Ainda assim, fui tomado no mesmo instante por uma reverência sem tamanho. Há tantos lugares para se homenagear um amigo que se vai. A porta da casa, do trabalho, a igreja. Mas ao que tudo indica, para o Araquem, ela faria mais sentido ali. Ou só ali. Não consegui parar de pensar. Tive ainda mais certeza de que os campos ficam mesmo com uma parte da gente. Como ficam todos os lugares que nos permitem viver de maneira intensa.

O calendário já ia além do domingo. Não havia torcida, juiz, peladeiros, nada. Mas a faixa dava sentido à toda aquela quietude, preenchia tudo de sentido. Por certo, haverá um vazio maior que todos os outros quando os amigos do Araquem olharem para o lugar que ele ocupava nessa imensa brincadeira da bola e da vida. Seja ele a lateral, a zaga, o meio, o banco de reservas, seja o que for.

Lembrei do dia já distante em que cheguei naquele mesmo campo, levado pelo meu pai, para tentar um lugar no gol do time de garotos do rubro-negro Itararé. Me perdi imaginando de quantas lembranças aquele pedaço de chão foi cenário. Ainda que nem o pedaço de chão seja exatamente o mesmo. É que se a memória não me trai, nos meus tempos de menino o campo ficava paralelo à faixa de areia, e não na diagonal como está agora.

Também não havia alambrado onde uma faixa pudesse ser estendida. O velho campo do Itararé antigamente tinha uma charmosa cerca de madeira baixa lhe rodeando, como tantos outros. Era a altura certa para encaixar os braços entre as ripas vermelhas e negras e ficar cara a cara com o campo. Nada emoldurava nossa visão. E era sempre agradável poder ver um jogo de várzea, bem de perto, e aos pés do oceano atlântico.

Ao menos o alambrado serviu para ostentar a nobre homenagem, e deixá-la pairar numa altura em que, de longe, parecia fixada lado a lado com as nuvens. E me chamou a atenção o fato da frase "Sentiremos saudades" ter sido escrita com letras maiores do que as outras, só perdendo em tamanho para o nome do homenageado. Sem querer, se fez justiça a esse sentimento de difícil tradução, porque a saudade quando pinta na área deixa no ar a nítida impressão de ser maior do que tudo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Interesses, e ponto !

No início desta semana o secretário-geral da FIFA, o senhor Jérome Valcke, melindrou os dirigentes do São Paulo ao afirmar que o Morumbi não tem condições de abrigar o jogo de abertura da futura Copa de 2014. Foi durante um evento em Joanesburgo, na África do Sul, sede do Mundial do ano que vem.

Não demorou muito para que o presidente do tricolor paulista classificasse como sandice o parecer do secretário. O ocorrido evidencia o óbvio. Tudo depende do ponto de vista.

Não dá pra negar que o Morumbi esteja, hoje, muitos anos à frente da maioria dos estádios do país. Não dá pra negar também, que isso, infelizmente, é muito pouco diante daquilo que a entidade máxima do futebol mundial exige de quem se dispõe a abrigar momento tão solene.

Valke foi além, disse que ali não só a abertura é inviável como qualquer jogo decisivo, seja ele uma semifinal, uma final ou até mesmo uma menos honrosa disputa de terceiro lugar. Alvejou o projeto tricolor por todos os lados. Pode até ter exagerado, mas ao dizer que " está na hora de o Brasil começar a trabalhar", emitiu um parecer preciso, e que extrapola o futebol.

Seria bom que alguns dos nossos homens públicos aceitassem a sugestão. Infelizmente, o secretário jamais entenderá a complexidade de tudo isso. Eu sei, aí também já é pedir demais. Somos um país meio surreal e, vai que eles acatam a idéia. Acabaríamos tendo como guru um cartola da FIFA. A coisa ficaria ainda mais surreal.

Os de espírito apaziguador dirão que é preciso dar um desconto para esses nobres acostumados ao cotidiano da Suiça e tudo o mais. Mas a nota emitida pelo São Paulo traz uma boa idéia. Sugere que Jérome Valke " venha, assim que entender conveniente, visitar a cidade de São Paulo". Uma vez aqui, quem sabe, ele não aceite nossa realidade tão singular, e mude de opinião.

Difícil é acreditar que ele não saiba o que se passa por essas bandas, que a lógica por aqui seja outra, porque Valke também foi duro com Danny Jordaan, diretor-executivo da Copa da África e candidato a presidente da Federação Sul-Africana de Futebol, dizendo que um homem da FIFA não senta em duas cadeiras, e que terá que escolher.

Mas ao ser lembrado que a situação do presidente da CBF é similar, afinal, Ricardo teixeira também é o presidente do Comitê Organizador da Copa de 2014, sentenciou que se trata de um caso diferente porque Teixeira já está eleito.

Disputas políticas e de bastidores à parte, eu vos digo: Senhores, um ponto de vista é, antes de tudo, um ponto de interesse. Vejam!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Um duelo. O duelo.

Não se trata de paixão. A palavra soa até deslocada num artigo que tem a intenção de falar sobre o duelo entre Brasil e Argentina. Tanto que, ao abandonar o raciocínio que me chega para reler a primeira frase escrita aqui, ao passar os olhos por ela, intuo olhares atravessados me desafiando, semblantes de pouco caso à espreita. Não importa.

O respeitável e sempre aguardado embate sulamericano não é um encontro de apaixonados, mas transborda uma rara química. Aquela que faz alguém ou algo diferente de todo o resto. Lembro muito bem da Copa de 1982. Há muita gente por aí com mais cabelos brancos do que eu, e que pôde ver em campo outros "Brasis", e por isso se sentir e se julgar, com razão, mais afortunada do que eu e os da minha geração. O fato é que aquele bendito mundial me pegou justamente no momento que costuma ser classificado como o momento em que estamos nos entendendo por gente, sabe? E ali eu saquei tudo.

Tínhamos batido a União Soviética no finalzinho, despachado a Escócia com um placar de quatro a um, goleado a Nova Zelândia. Mas cruzar com a argentina impunha outra dimensão ao ato de torcer. E não só pelo fato de não se tratar mais da primeira fase. Hoje sei que só uma coisa poderia ter sido mais terrível que os gols de Paolo Rossi. Ter sido jogado pra fora daquele sonho por gols de Maradona ou Kempes.

Mas tínhamos Zico, Serginho, Júnior, e eu pude, cercado de amigos, ainda um tanto inocentes, descobrir o prazer de uma vitória sobre a Argentina. Caramba, preciso agradecer o Chulapa por isso. Aquela partida é, pra mim, a expressão máxima de arte e rivalidade.

Não essa rivalidade rasa, normalmente confundida com entradas desleais e pontapés. Não essa rivalidade forçada que irá temperar as manchetes antes e depois que Brasil e Argentina voltarem a se enfrentar. Falo da rivalidade como uma oportunidade de triunfar sobre alguém que você reconhece como dono de uma técnica refinada.

E acredito que está aí o que torna esse confronto tão importante pra nós. Diante de um jogo com os argentinos sabemos que só uma coisa evitará o desgostoso ato de sair de campo como derrotado. Se aproximar da perfeição. Ter atitude, estar ligado, tratar a bola com dignidade. Sem isso, ou um pouco disso, é possível ganhar de muita seleção por aí.

Mas a Argentina é outra história. E eles, por sua vez, podem fazer o que for, podem tentar nos cozinhar no caldeirão de Rosário, podem tentar nos convencer de que a vitória, mais do que nunca, é uma questão de vida ou morte. De honra sempre será. Ainda assim, no fundo, estarão transbordando respeito, vontade de um dia poder desfilar pelo mundo a imponência de cinco títulos mundiais, como nós.

Se fosse questão de vingança devíamos é correr atrás dos uruguaios que nos tatuaram na alma ludopédica o infausto Maracanazo. Estranho é perceber que nesses dias, Don Diego, o mais passional dos boleiros argentinos - que nunca escondeu a admiração por esse nosso jeito verde e amarelo de jogar bola - é o mais incompreendido.

Maradona está cansado de saber que jamais será capaz de tirar Pelé do trono, ainda mais aos gritos. Mas sabe que o futebol é repleto de artifícios, e não abre mão do seu jeito. E isso é uma das virtudes que enxergo nele. Está dito. E que revelem seu semblante de pouco caso os que não são capazes de perdoar certos defeitos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Jogando pra valer

Peço paciência aos que pousam seus olhos sobre estas linhas um tanto saudosos de uma visão mais humana sobre o jogo de bola, coisa que tanto aprecio também. Mas volto aqui para falar de táticas. Ou melhor, sobre uma tática, muito apreciada.

Não se trata exatamente do que você está pensando.

Nada de dissecar aqui o pra lá de aceito 4.4.2. Quero falar sobre a tática preferida dos cartolas. A tática de abrir os cofres. Há entre os barões da bola, e não é de hoje, a certeza de que sem gastar muito é impossível montar um time. Razões para defender essa teoria eles têm aos montes. Qualquer observador mais atento seria capaz de listar algumas delas, já que são mais álibis do que razões propriamente ditas.

Faz tempo que certas verdades se estabeleceram no mundo do futebol.

Seja no gramados, ou nos gabinetes, quando a situação fica preta o negócio e partir pro ataque. Trata-se praticamente de um mandamento. E fechar os olhos para os ensinamentos sugeridos pela prática seria, antes de tudo, burrice. Enquanto uns se lixam para a opinião pública, os cartolas se lixam mesmo é para as dívidas.

Juntos, os principais clubes do nosso país, em 2008, ficaram quase vinte e sete por cento mais endividados. Nesse ritmo - com uma pequena licença matemática - em três anos terão dobrado o tamanho do poço. Incentivadas por esse brilhante resultado contábil, as nossas ilustres agremiações deram início ao repatriamento de craques autoexilados, como Ronaldo e Adriano. Exemplos impressionantes de aplicação tática.

Chego a acreditar que Florentino Perez, não é apenas o Presidente galáctico do Real Madrid, da Espanha, é no fundo, o líder espiritual, o guru, de uma seita só para iniciados. Chego a ter a petulância de achar que encontrei a fórmula que nos levou a cinco títulos mundiais.

Pobres argentinos. Como podem sonhar em nos alcançar se os principais clubes de lá devem juntos "apenas" trezentos e cinquenta e cinco milhões de reais? Ainda que se leve em conta o tamanho do nosso mercado, a diferença entre as economias, o rombo verde e amarelo de três bilhões e duzentos e quarenta e oito milhões de reais soa como uma baita goleada.

O Vasco, e seus trezentos e oitenta milhões, sozinho, deve mais do que todos os argentinos. E o Flamengo está quase lá, com seus trezentos e trinta e três milhões de papagaios. Deve ter sido de olho nessa tática que o Santos, no ano passado, dobrou os gastos com direitos de imagem.

É compreensível que neste cenário o Avaí com sua folha mensal de seiscentos mil reais - incluindo comissão técnica - pareça mesmo coisa de outro mundo. Vitorioso, ou não, o time da Ressacada já provou que é bom de tática. O resto é espetáculo pros manés.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Táticas, modismos e liberdade

“Se eu sei tática e o rival também sabe, o jogo termina 0 a 0".

A frase que você acaba de ler é de autoria do técnico da seleção brasileira. Ele mesmo, o atual, o Dunga. Foi proferida em uma das entrevistas dadas por ele antes do Brasil enfrentar o peculiar e viril esquadrão da Estônia. Mas não fiz questão de relembrá-la aqui só para manter viva a surpresa que ela é capaz de provocar, e sim por entender que, partindo de quem partiu, a citação abre um vasto horizonte para a discussão. O assunto, vocês provavelmente já notaram, é polêmico. Encanta uma multidão, intriga alguns, entedia outros tantos. Na semana passada, por exemplo, um amigo desabafou comigo. Um desabafo futebolístico interpretativo. Coisa comum na vida de um jornalista esportivo.

O sujeito estava indignado. Contestava essa sanha pelos esquemas táticos que tomou a crônica. Defendia com veemência que essa fixação só podia esconder um desejo reprimido. Segundo o tal torcedor descontente, no fundo o que todos esses comentaristas queriam era virar treinador. Como não tenho a intenção de deixar a coisa ainda mais complexa vou evitar incluir nestas linhas reflexões sobre o complemento da frase, que era o seguinte: “O que decide é um drible”.

Mas, vamos voltar à questão inicial. Ora, não se trata de “saber tática“. O saber pelo saber poderia acabar em empate, claro. A profundidade desse saber e a capacidade para colocá-lo em prática é que são alguns dos muitos detalhes que provocam a diferença no placar. A parte mais mordaz da consciência que carrego, no entanto, sugere que Dunga pode ter elucidado, sem querer, o motivo pelo qual alguns treinadores têm sido elevados à categoria de semi-deuses. São integrantes de um seleto grupo, detentores de um conhecimento que outros apenas fingem dominar.

Como o tempo de ingênuos no futebol ficou pra trás, sou quase obrigado a avalizar o inverso desse raciocínio. A maioria esmagadora dos treinadores, mesmo aqueles que jamais tinham exercido o cargo, como Dunga, é oriunda dos gramados, ou de muito perto dele, todos sabem de tática. Compreendem muito bem o 3.5.2, o 4.4.2, e até o menos usual 4.3.1.2, e por aí vai. Agora se um técnico sabe de tática e outro sabe também, não conseguir segurar o adversário passa a ser apenas uma questão de ter, ou não ter peças para fazer o serviço. Aí, feliz daqueles que têm à disposição um elenco de primeira. Uma maneira de pensar que pode esclarecer a razão pela qual o São Paulo reage, e o Corinthians patina.

Dunga foi além, e reforçou a tese do torcedor descontente ao afirmar que falar de tática virou moda, e apontou um caminho ao sentenciar que o que o treinador tem que fazer é dar liberdade para os jogadores. SE é assim, não devemos nos contentar com pouco. Lembremos. Livres, pra valer, eram os holandeses de Rinus Michels brincando de carrossel em plena Copa de 1974, liderados em campo pela sabedoria de Cruyff. Mas no nosso futebol, o máximo exercício de liberdade tem sido permitir que um volante tenha, às vezes, o ímpeto de um armador, e outras coisinhas mais. Se pensa realmente desse modo, Dunga já deve ter sacado que nunca foi fácil convencer os donos do poder de que apostar na liberdade é sempre um bom esquema para evoluir.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O jogo da retórica

O Palmeiras se impõe. O Fluminense flerta com a série B. O Flamengo fica de mal com a torcida. Os bandeirinhas testam a paciência do time do Avaí. O Corinhtians se ressente dos que partiram. O Santos descobre o jogo da grande mídia. E o Goiás invade a festa.

Ouço notícias, tiro conclusões.

Passo horas a ouvir teorias sobre o futebol. Na redação, em casa, por telefone, na internet, entre amigos. Percebo que as críticas buscam, muitas vezes, algo que não somos, que não podemos ser. Admiramos a pompa e a elegância do Campeonato Inglês e quase ignoramos seus investidores donos de biografias suspeitas. Almejamos um futebol de primeiro mundo, mas somos do terceiro. Somos de outra divisão. Tostão, craque como sempre, levantou essa bola.

E pra completar,a peleja se encheu de tédio, tanto ao ser travada quando ao ser descrita, decantada. Imagine-se um astro do futebol. Você acaba de fazer um gol. Você corre em alegre desespero para aquela parte do campo onde as cores lhe são mais familiares. Ao menos por hora. Mas no meio do caminho lembra que não pode tirar a camisa pra comemorar, nem rodá-la na mão com entusiasmo, e nem mesmo colocar parte dela sobre a cabeça, que ainda assim estará sujeito à uma punição.

E se por acaso a torcida passar todo o jogo pegando no seu pé, não ouse deixar transparecer que aquilo tudo lhe deixou de saco cheio. Você é bem pago. Viu, Léo Moura? As mesas-redondas não costumam aliviar, nem ser indulgentes.

E a cascata de temas segue.

Há os que fazem questão de lembrar que tem gente que vai ao estádio só para ver o Adriano, e que tem gente que deixou de ir pela ausência de Ronaldo. O que quase ninguém fala é que quando um dirigente leva uma cadeirada (coisa abominável) vira vítima de um tipo de violência que o time dele ajudou a alimentar.

O futebol é rico em equações de difícil solução meus amigos.

Às vezes, é como falar do tempo, que andou chuvoso demais, não acham? Mas que importa se faz sol ou se está frio? O tempo não nos pertence. Ele está sobre nós. E ponto. Não se entusiasmem além da conta, nosso reino segue de janelas escancaradas. E algumas delas permanecerão abertas muito além do aguardado 31 de agosto. E por essas não passarão só jogadores, passarão insetos, aves silvestres, fósseis, diamantes, exemplares valiosos da nossa flora.

Desculpem, mas se o Boquita pode chutar a bandeirinha de escanteio, eu posso chutar - de leve - o pau da barraca. Embora prefira a imagem do velho Juari dando infinitas voltas sobre ela - a bandeirinha, não a barraca - com a alegria do gol estampada no rosto.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Aquelas luzes por trás da Serra do Mar

Nasci em Sampa. Fui criado em São Vicente, no litoral paulista.
E muitas vezes, olhando na direção da Serra do Mar, em noites claras, percebia uma luz dourada surgir por trás das montanhas. Ficava imaginando se aquela claridade era mesmo das luzes da capital. Hoje, ao dar de cara com uma foto (veja o link abaixo) tirada da Estação Espacial Internacional, lembrei daquela minha curiosidade de menino.


Nasa mapeia vistas noturnas da Terra - Álbum de Fotos - UOL Ciência e Saúde

terça-feira, 28 de julho de 2009

O gol da Rua Javari ( 50 anos)



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Naquela tarde a torcida não perdoou a entrada dura em Pando, o zagueiro do time da casa, e transformou o estádio da Rua Javari num mar de hostilidade para o autor do lance, um garoto de dezenove anos.
Foi com essa idade, e num ambiente assim, que o Rei do Futebol desenhou um dos momentos mais sublimes da carreira.
Quis o destino que o adversário fosse o Juventus. Quis o destino que Homero, Clóvis, Julinho, e o goleiro Mão de Onça, fossem os principais coadjuvantes. Corria o quadragésimo segundo minuto da etapa final. A bola partiu da direita - passe de Dorval - e encontrou o pé de Pelé. O camisa 10 do Santos, com um movimento certeiro, fez com que ela circundasse o corpo de Homero. Já um tanto incrédulo Clóvis resolveu dar o bote. Pra quê? Sentiu até um frio na barriga ao perceber que tinha acabado de tomar um chapéu na entrada da grande área. Pior para o lateral Julinho que, repentinamente, herdou a tarefa de pará-lo e teve que tomar providência em uma fração de segundo. Não teve jeito, recebeu tratamento semelhante. Sem deixar que a bola tocasse o chão,
Pelé havia deixado para trás três adversários, e dado dois chapéus.
Restou ao arqueiro do time da Mooca se atirar na direção dele. Mão de Onça foi o último a tentar impedir o Rei de desenhar sua obra-prima. Batido por um terceiro chapéu... acabou caído, repleto de lama, com olhar um tanto assustado, como mostra a rara foto tirada no dia 02 de agosto de 1959. Quando já não havia mais adversários pela frente, Pelé controlou a bola com a cabeça e a mandou para o gol. O terceiro dele na goleada por quatro a zero. Sua Majestade, como ficaria cada vez mais claro, não gostava de ser provocada.
O gol da Rua Javari é assim. Tem um quê de Capela Sistina. Um quê dos Jardins da Babilônia. Maravilhoso e impalpável. O gol da Rua Javari é um exercício de imaginação que o melhor jogador de futebol de todos os tempos permite que partilhemos com ele eternamente. Não há outro gol tão denso e profundo no nosso imaginário. Nem mesmo os que marcamos quando criança.
Também foi nesse dia distante - prestes a completar meio século - que o Rei do Futebol descobriu o gesto perfeito para comemorar seus gols. Antes disso, um soco no ar nunca tinha sido tão poderoso. Tão cheio de significado.
Tempos atrás esse mítico gol da Rua Javari acabou recriado no computador. Entendo. Temos mesmo em nós essa sede infinita de descobri-lo. Mas não há registro em movimento desse primoroso gol marcado naquele domingo no campo da Javari.
Um capricho da história, que ao permitir que tal acontecimento driblasse todas as lentes de vídeo, o fez ainda mais perfeito.
Foto: Rafael Dias Herrera (A Tribuna)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Chegadas e partidas

Há muitas maneiras de encarar um retorno. Voltamos ao lugar de onde um dia partimos por vários motivos. Por chegar à conclusão de que não deveríamos ter saído de lá. Por sentir uma saudade terrível nos tomar a alma, ou até mesmo por concluir que não havia outro lugar para ir.

Mas razões poéticas - desculpem a dose letal de realidade - não servem para explicar o vai e vem que acomete o futebol nacional. Aquele ensinamento que sugere jamais voltar a um lugar em que fomos felizes também parece deslocado, afinal, nada mais transitório no jogo de bola do que a felicidade.

Seja como for, Luxemburgo começou a escrever sua quarta passagem pelo time da Vila Belmiro, e eu fiquei pensando o que teria sido decisivo para que ele aceitasse voltar, já que o salário anunciado é muito menor do que ele estava acostumado a receber. Em 2007, depois de ser campeão paulista e vice brasileiro, deixou de lado a chance de, uma vez mais, disputar o torneio continental. Foi embora.

Uma das matérias geradas pela partida do treinador - a terceira delas - versava sobre os motivos da saída, muito comentados à época. Luxemburgo queria um time forte para 2008. Marcelo Teixeira não tinha caixa para os planos do técnico. O ano seguinte custou a passar. Teve momentos amargos. Ameaça de rebaixamento. E aquele Santos de chegada, que gerou muitos dividendos, foi ficando para trás.

Nesta temporada as duas partidas contra o Palmeiras na semifinal do Paulista representaram o supra-sumo do que o time tinha a oferecer. Nos dias atuais, o décimo terceiro lugar em que o time se viu no início da semana é parte ínfima do desafio que aguarda Luxemburgo na sua volta. Não se pode dizer que o Santos hoje seja o sonho de consumo dos grandes estrategistas do nosso futebol. Há muito a fazer.

Mas nessa seara ludopédica a obsessão é sempre uma só. Se não para os que comandam, para os que torcem. Triunfar é o verbo primeiro. Só que para voltar a um lugar onde já esteve - sempre com brilho distinto - o time santista precisa mais de um técnico, e menos de um parceiro. Precisa mais de futebol e menos de negócios. Precisa se manter soberano em suas decisões. Precisa provar a capacidade de sua administração e estrutura. Precisa virar o jogo. Precisa ser um lugar onde todas as pessoas que voltem saibam que serão lembradas menos pelo que representam e mais pela herança que irão deixar.

E como o título acima me fez lembrar da música "Encontros e despedidas", de Milton Nascimento e Fernando Brant, aproveito pra deixar aqui uns versos da canção: Melhor ainda é poder voltar quando quero.../É a vida desse meu lugar/É a vida.


* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Em câmera lenta


Amigos, a câmera lenta é uma armadilha. Muito boa, às vezes, porque nos livra da insana velocidade do mundo. Mas tá demais. Os especialistas passam horas discutindo um toque que eles veriam de outra forma não fosse o tal recurso.

O futebol é esporte de movimentos complexos. Alguns tão complicados, que impedem quem quer que seja de chegar à uma conclusão mesmo depois de analisá-los com a ajuda do infausto e brilhante efeito de tornar o andamento das imagens mais vagaroso.

Os homens olham incansavelmente as cenas que vão se desenhando no ar e não conseguem concordar sobre o ocorrido. Pudera. Pobres juízes que precisam desvendar tudo com seus meros olhos humanos.

Não é à toa que muita gente desacostumada a frequentar os estádios sente um vazio terrível após testemunhar um gol, ao lembrar, repentinamente, que não haverá replay, slow.

Podíamos pelo menos por uma semana, uma rodada que fosse, voltar a usar três câmeras na transmissão das partidas. Uma de cima, dando o geralzão. E uma atrás de cada gol, que seja, pra evitar maiores radicalismos. Só pra ver no que ia dar.

Com uma infinidade de puxões, maldades, gestos, cotovelos e falas fora do alcance das lentes ficaríamos mais próximos da visão daquele torcedor que ainda se dispõe a estar nas arquibancadas. Os detalhes à disposição dos comentaristas sofreriam drástica redução. E essa carência poderia ajudar a melhorar as discussões, promover debates sobre temas novos, não sei.

"O Mundo é muito veloz pra ser visto sem um slow", costumo dizer aos meus amigos de TV na hora da edição. E falo sério. É mais fácil decifrá-lo assim lentamente. Desse modo percebemos melhor suas belezas. Mas no futebol a coisa não para por aí.

No futebol o replay em slow-motion muitas vezes deturpa o ocorrido. Com ele as imagens sugerem uma realidade e uma situação que nem sempre existiram, e enchem os homens da justiça desportiva de munição, logo eles, sedentos por entrar no jogo.

De repente, aquele puxão óbvio nem foi notado pelo atacante. Naquele outro momento, ao sentir um leve toque, o zagueiro se atirou pra frente. E depois se deleitou ao ver o VT e perceber que tinha desenhado o lance à perfeição. Parecia mesmo ter sofrido um tranco poderoso.

Ao invés de ficar desnudando o jogo de futebol com câmeras por todos os lados, deveríamos, de maneira experimental, nos livrar desses muitos ângulos. Nos contentar com imagens mais possíveis de serem testemunhadas a olho nu. Aceitar que muitas delas reproduzem situações impossíveis de serem interpretadas.

Mas já não somos capazes de negar a modernidade. Não podemos viver sem as micro câmeras, os zoons, os tira-teimas. Se a intenção era chegar ao consenso, é preciso admitir a inviabilidade do sistema.

E vem aí mais uma dose caprichada de empurra-empurra. É, tem mais essa. A câmera lenta revela sem pudor a baixaria que virou a disputa na grande área. Ninguém mais quer jogar bola por ali. Essa é a impressão que tenho.

sábado, 11 de julho de 2009

Um furo negado

Dias atrás, quando Lula recebeu alguns jogadores do Corinthians, em Brasília, e desfilou com a Taça da Copa do Brasil pelo Palácio, me vi com alguns amigos em meio a uma discussão acalorada sobre a atitude do Presidente da República.

Entre um aparte e outro, ouvi, de um deles, que quem estava ali não era o Presidente, era, simplesmente, o corintiano apaixonado Luis Inácio. Bastava atentar para os trajes do chefe do executivo. Razoável.

Mas se era assim talvez fosse o caso de recebê-los na Granja do Torto, e não no Palácio, certo?

Creio ser de grande valia contar com um Presidente da República que reconheça o futebol como uma grande expressão da nossa cultura. Só o bom senso poderia ser mais valioso do que isso. ( Tiro as mãos do teclado rapidamente, observo a tela do computador, e penso. Estaria eu tendo um acesso gigantesco de caretice? Teria sido tomado pelo germe nada complacente da picuinha?) A vida é dúbia. Porque o estranhamento?

Quando Lula em plena reunião com os líderes das maiores potências do mundo saca um punhado de camisas da seleção para distribuir, faz boa propaganda, enaltece, coloca em evidência aquela que é uma das nossas marcas. Aliás, temos muitas. A bossa nova, por exemplo. Mas pode não ser nada disso, talvez ele só não tenha entendido direito quando lhe disseram que uma das intenções por lá era deixar o clima mais ameno.

Se o nosso Presidente gosta tanto de futebol, porque é que não exigiu uma contrapartida dos clubes na implantação da Timemania? Por que não faz pressão para que a Democracia - que lhe é tão cara - esteja presente nas Federações e na Confederação que controla o esporte no país? Por que não faz uma reunião para pedir urgência e pulso firme no projeto que prevê penas maiores para os atos de violência praticados nos estádios e ao redor deles?

Os cartolas daqui há tempos não estavam tão próximos do poder. Há tempos não desfrutavam tanto desse privilégio. E mais, eu duvido que o Ronaldo tenha citado as empreiteiras sem ter ouvido isso de alguém, em algum lugar.

Será que sou o único a pensar que quando um presidente de clube encontra um Presidente da República não é apenas sobre títulos e táticas que eles conversam? Sobre grandes jogadas pode até ser. Ronaldo afirma, Lula nega. E ficamos assim. Tudo termina muito mal explicado, com um monte de gente fingindo que não viu o nó.

No meio político, é fato, o episódio foi encarado como uma tremenda bola fora do camisa nove. Vocês querem o quê? Não dá pra ser bom em tudo.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Um flerte com o futuro

Outro dia eu cravei Flamengo no jogo contra o Avaí. Perdi. Na mesma rodada disse que o Coritiba, em casa, batia o Santo André. Deu Ramalhão. Fazer o quê? Nessa vida é impossível resisitir à todas as tentações.

Mas agora eu vendo. Amanhece no Recife e os torcedores do Sport comentam o último feito do time rubronegro. Aquele gol aos quarenta e quatro do segundo tempo na Vila, no domingo retrasado, tinha feito o Leão engasgar. O Durval deu um gás, o Ciro voltou a ser o que era, e o Goiás se viu perdido no Retiro. Bem longe de lá, na Ressaca de quem mira o fim da tabela, o Botafogo bem que tentou. Esse Avaí é complicado. Ruim na hora de vencer, chegado a dar um calor dos bons no visitante.

No Barradão, pudera, Neymar , suspenso, fez falta. Ganso, cheio de moral e de contrato novo tentou ditar o ritmo. Madson seguiu sendo o baixinho que dá sangue. E olha que há tempos os números do peixe fora de casa mais assustam do que confortam. Há tardes, e tardes. Na cidade mais rica do país, enquanto as máquinas vão levando embora o que restou de verde entre as marginais, na Avenida Paulista, na Praça Silvio Romero, no Anhangabau, na Lapa, corintianos esmiúçam a partida recém disputada no estádio Olímpico, que teve o Fenômeno Ronaldo rondando uma área, e Maxi Lopéz farejando a outra. É, nunca foi fácil a vida de um time que se pretende o melhor do Brasil.

De norte a sul do país todos defendem e lamentam lances mal marcados, jogadas de talento e entradas duras. São conversas alimentadas pelas cenas de um final de semana em que o Palmeiras, comandado pelas mãos de um outro técnico, aproveitou o vento a favor pra acalmar sua sempre ressabiada torcida. O que se viu na vindoura Arena da Rua Turiassu foi um time alviverde disposto, que mergulhou o Náutico numa mistura fatal de entusiasmo e toque de bola.

Os resquícios do ocorrido no Morumba são mais complexos. Não dá pra negar que o manto rubro-negro veste bem o imperador. Coisa que o passado - veja que ironia para um texto pretensamente futurista como este - é capaz de explicar. Isso sem falar que todo mundo tá cansado de saber o que anda roubando a tranquilidade das almas tricolores. Ter acostumado com a glória.

Nesse dia que se aproxima tudo será como antes. Quem teve, e perdeu, lamentará muito mais do que quem não tinha nada a perder.

E em Minas. Ah! Em Minas tá na cara! Os cruzeirenses vão semeando ressalvas, dizendo que só foi assim porque eles têm mais o que fazer. A decisão da Libertadores está aí. Além do mais, o Galo abraçou a condição de candidato ao título, e isso tem um preço. À vista nessa segunda-feira que já vejo despontar no horizonte.

Ao mirar esse futuro, ao dobrar essa esquina do tempo, a única coisa que sou capaz de bancar é que o futebol será infinitamente mais caprichoso e surpreendente ao escrever a própria história, repleta de instantes mágicos e sórdidos. Você verá. É logo ali. Um pouco depois que a décima rodada do Brasileirão terminar.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Digerindo o Dunga

A frase "Vocês vão te que me engolir", de tão impactante, entrou para a história. Poderia ter se perdido como tantas outras. Mas como teve a capacidade de concisão de poucas, perambula por aí até hoje. Vira e mexe vem à tona.

Quando Zagallo, em 1997, depois de vencer a Copa América avisou, com as veias estufadas, que os seus críticos teriam que lhe engolir, tirou um nó da própria garganta, e tratou de tocar a vida. Ora, se nem mesmo o velho Lobo, tão calejado pelo futebol, foi capaz de suportar as críticas sem perder a calma, por que achar que Dunga seria?

Acredito que a essa hora, vendo o filme dos últimos dias passar pela memória, o atual técnico da seleção deva estar desfrutando de uma sensação muito parecida com aquela vivida por Zagallo após o inesquecível desabafo.

Ou seja, depois de engolir o ex-treinador, pelo visto estamos digerindo o atual.

Com a fibra de sempre, Dunga não amoleceu, nem mesmo quando esteve enfiado num banho-maria dos bons, que de tão quente parecia fritura. Escolado que é, talvez não se deixe levar pela exaltação das tantas qualidades descobertas nele com a ajuda das lentes da vitória.

Mais importante do que isso é não acreditar nessa coisa de ter nas mãos um time quase pronto. Em setembro, se cair diante da Argentina, numa noite infeliz (e põe infeliz nisso) tudo poderá mudar. É o que basta para o discurso, no geral, voltar a ser o de quem teve o paladar contrariado.

Meus amigos, o que é um time pronto?

Diziam que a nossa seleção da Copa de 2006 era. Vejam como acabou! Um time só está pronto até o momento em que um detalhe qualquer compromete o bom andamento do conjunto. Ou menos ainda, até o dia em que um dos seus zagueiros levanta com o pé esquerdo. Não se deixe enganar.

Quando tivemos um time pronto?

Em 58, quando começamos a jogar sem Pelé? Em 70, quando tínhamos mais craques do que posições para serem distribuídas? Em 2002, quando Gilberto Silva ganhou uma chance depois da contusão de Emerson, e Kleberson - que jogou muito - só virou titular quase na metade da Copa? Ah! O time de 82! Bom, parecia aos olhos de todos uma obra de arte bem acabada, é verdade, mas...

Dunga sabe de cor todas as armadilhas do futebol e, por isso, deveria encará-las com um pouco mais de bom humor, e perceber que a acidez é uma das tantas características da crônica esportiva, e que para enfrentá-la não é preciso sorrisos demais, nem de menos.

Por favor, sem essa de time pronto, semi-pronto, ou sei lá o quê.

Acreditar num time pronto é fazer pouco de todas as reviravoltas que o deus do futebol faz questão de decretar, mais cedo, ou mais tarde, tanto faz. Um time verdadeiramente pronto, roubaria, sorrateiramente, a graça do jogo. Está, portanto, em condição de eterno impedimento por ordens superiores.

E tem mais, nesse universo da bola, uns poucos movimentos separam o ato de engolir, do ato de ser engolido. E não há craque ou retranca capaz de vencer essa verdade

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Quem ela pensa que é?

O presidente da CBF chega a uma sala do estádio Loftus Versfeld, em Pretória, na África do Sul. Ao entrar percebe que de um lado da mesa onde será feita a reunião está todo o pessoal da FIFA, e do outro, os representantes do governo brasileiro. Diante da dúvida, precisou ajuda. Perguntou de que lado deveria se sentar. " Do nosso", teria dito o presidente da FIFA, Joseph Blatter.

O breve acontecimento foi relatado dias atrás. Estampado na página de um famoso diário, ocupou espaço mínimo, inversamente proporcional ao que representa. Veja. Saber de que lado estão as pessoas sempre foi informação preciosa.

Tarefa mais difícil teve o nosso ministro do Esporte, que precisou responder a quantas andam as isenções fiscais para a entidade máxima do futebol. Teria respondido que, no máximo, em três meses o tema entraria em votação. Diante disso podemos respirar aliviados. Afinal, ainda existe alguém neste país capaz de decifrar como funciona o nosso congresso, e a que velocidade.

A história também escancara a dimensão do poder de que desfruta a dona FIFA nos dias de hoje. Não que ela trate outros países de modo diferente. Talvez, em outras terras, ao menos encontre gente menos subserviente. E não há muita conversa com essa distinta senhora, desde muito tempo acostumada a mandar.

Trata-se de uma dama cortejada por homens importantes do mundo inteiro. Todos interessados nos dividendos que ela pode oferecer. Seus negócios se estendem por mais de duzentos países, numa teia de relacionamento capaz de superar até mesmo uma outra senhora muito bem relacionada, a ONU. Ela mesmo, a Organização das Nações Unidas.

A Dona FIFA não brinca em serviço, apesar de ter nascido do que um dia não passou da mais pura diversão. Seus asseclas jogam duro. Ainda em 2006, no início das tratativas, um dos seus mais altos dirigentes, ao ser perguntado se o Brasil teria condições de construir novos estádios, disparou, " Isso é ao governo brasileiro que o senhor deve perguntar".

Os homens da dona FIFA vão chegar em breve.

E terão assegurado o direito de entrar e sair do país incondicionalmente. Suas mercadorias para uso ligado ao evento estarão livres de impostos e qualquer outro tributo. E esses são apenas alguns privilégios de uma extensa lista. Como se não bastasse, a toda poderosa dama do futebol mundial vive em um mundo de sonhos. Um planeta rico, globalizado, e livre de concorrência. Vem daí boa parte da sua sedução.

O lado da mesa já pouco importa. As partes fecharam negócio. Estão juntas. Mas a FIFA dá as cartas. Quem ela pensa que é? Quem terá coragem de perguntar?

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Um triunfo sobre a ignorância

Nesta semana eu sei que falar da seleção seria estar "up to date", como gostam de dizer alguns modernos. Tecer teorias a respeito das finais da Copa do Brasil, ou sobre os duelos da Taça Libertadores seria respeitar, de certo modo, o factual, como gostam de dizer os jornalistas.

Mas aproveito a minha liberdade de expressão para desobedecer a linha do tempo, que insiste em nos levar pra frente, sempre. Há exatos vinte e três dias, Diguinho, atleta do Fluminense, foi a principal vítima de uma invasão protagonizada por torcedores organizados ao estádio das Laranjeiras onde o time treinava.

Uma foto do ocorrido, estampada em alguns jornais no dia seguinte, mostrava o exato momento em que o jogador era atingido no rosto por um violento soco desferido por um dos líderes da gangue, que todo mundo por lá sabe quem é. Tão impressionante quanto o golpe era ver que os companheiros de clube continuavam sentados num banco próximo sem, ao menos, tentar livrar Diguinho da situação. A exceçao era, se não me falha a memória, o volante Fabinho.

Poderia ser uma demonstração de covardia, mas creio, era pura impotência. Quem pode deter a violência desse tipo de torcedor? A polícia? O Ministério Público? Naquele dia três tiros para o alto é que colocaram um ponto final no tumulto.

Os dias que se seguiram me deixaram ainda mais indignado. O agressor não foi autuado. E Diguinho até aceitou as desculpas dele. Cheguei a dizer por aí que só faltou Diguinho afirmar que tinha merecido. Não era só o jogador, era o Fluminense, de tanta tradição, que estava sendo intimidado.

Mas no último domingo, ao ver Diguinho deixar o Maracanã aplaudido pela torcida depois do empate com o Grêmio, fui logo pegando a caneta pra não deixar o fato passar em branco. Afinal, Diguinho estava há quase quatro meses sem jogar. Tinha vencido uma tuberculose pleural, diagnóstico, aliás, confirmado pelo departamento médico do Flu.

Foi acusado de estar curtindo a noite. Diante de tudo isso poderia ter pedido pra sair do clube, seria compreensível. Nada disso. Ficou e virou o jogo. Ou seja, passei a ver um corajoso, onde antes via apenas um jovem amedrontado. Na época, uma das versões era, inclusive, de que ele tinha apanhado por ter respondido de maneira áspera a uma pergunta do tal chefe de torcida. O que não deixa de ser também um ato de coragem.

A mente curta do agressor deve estar pensando a essa hora que a surra deu resultado, sem perceber que seu dono levou foi o chamado tapa com luva de pelica. Que humilhação!

Não interpretem minhas palavras como uma defesa do jogador, que eu nem conheço. Prefiro que elas sirvam para reforçar o quanto são ignorantes certos sujeitos que dizem fazer tudo o que for por amor ao clube.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Grana Esporte Clube ( A sedução das cifras )

Como jornalista sempre encarei os números do futebol com uma desconfiança enorme. Gostaria muito de fazer uma matéria mostrando as carteiras de trabalho dos nossos maiores craques. Imaginem aquele bendito campo salário preenchido com números seguidos de tantos zeros, como não despertaria a curiosidade e a inveja de trabalhadores comuns. Sem contar o sarro ao de dar de cara com a velha foto, e o prazer de descobrir a trajetória do dono da mesma através de registros pra lá de antigos.

Dirão os mais precavidos, seja qual for a intenção da precaução, que não vivemos mais numa época que permita falar de faturamento sem ficar exposto ao perigo. Os contabilistas, depois de um sorriso cínico, irão tentar colocar em xeque minha intenção dizendo que não é assim. Que na carteira está só uma pequena quantia, o resto vem como direito de imagem, através de notas, empresas etc e tal.

Ah! Mas como eu gostaria de ver cada uma dessas notas e suas guias de recolhimento. Como deve doer pagar imposto sobre um salário de quinhentos mil reais. Embora, doa mesmo é saber que quase nada nos será dado em troca. Sei que ver esse meu desejo satisfeito é mais difícil do que ver casamento de ....Deixa pra lá!

Esses números impressos em jornais, ditos em alto e bom som na TV, exaltados por comentaristas, sob certa ótica, além de tudo, seduzem, quase compram manchetes. Afinal, a mídia é parte do negócio. Mas antes de comprar é preciso esquentar a transação, fazê-la ecoar, torná-la de conhecimento mundial, esperar o Berlusconi encarar a votação para o Parlamento Europeu.

É preciso ser cirúrgico na hora de bater o martelo. Fazê-lo momentos antes da nossa seleção partir para a África e ficar na vitrine do mundo, não é acaso. Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, o homem por trás do negócio, sabe disso. Está acostumado com grandes somas.

É dono de uma das maiores construtoras da Europa. Sexta fortuna da Espanha. Tão esperto que ao pressentir, tempos atrás, o esgotamento do setor imobiliário, sem titubear, transformou a empresa dele em principal acionista da maior companhia elétrica do país. Uma jogada de oito bilhões de reais.No entanto, é possível que você só o conheça por ter montado um Real que era uma galáxia, e por fazer as contas do time ganharem tamanho astronômico.

Penso nas cifras dessa transação. E volto a lembrar da inocência das nossas carteiras de trabalho. Sigo desconfiado. Mas se tivesse um cofre cheio e pudesse comprar um único jogador da seleção brasileira, compraria o Kaká. Difícil seria encarar um craque da envergadura de Florentino Pérez na disputa.