sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Futebol, substantivo masculino


O amigo Celso Unzelte deu a dica ontem no Cartão Verde. Sabemos que o título do livro acima é muito apropriado. O tratamento dispensado ao futebol feminino está longe de ser condizente com sua importância, com sua história repleta de superação. Dias atrás vivi essa realidade ao ter uma dificuldade imensa para conseguir as imagens da final do Campeonato Paulista. Tínhamos a intenção de exibir as tais no Jornal da Cultura. Vejam! A final do Campeonato Paulista! Trata-se de uma invisibilidade que dribla até os mais comprometidos com a causa. Prova disso é termos deixado passar ontem, sem o tratamento devido, a notícia da vitória do time feminino do Corinthians/Audax sobre o Cerro Porteño, por três a zero, no Paraguai. Triunfo que valeu a vaga na grande final do torneio. A decisão, aliás, será no sábado, às nove e quinze da noite, contra o Colo Colo, do Chile, em Assunção.  Aos interessados o lançamento do livro será nesta sexta-feira, entre 19h30 e 21h30 na sala de vídeo do Departamento de História, a FFLCH, da USP, dentro da Cidade Universitária, com direito a bate-papo sobre o tema. E escrevendo agora me veio a lembrança de um texto do Tom Zé que também fala da invisibilidade das mulheres, mas no caso a das animadoras de torcida, não exatamente das jogadoras. Mas é algo de tamanha sensibilidade que faço questão de deixar aqui para a apreciação de vocês. Espero que não tarde o dia em que a imprensa passe a ser mais justa com as conquistas e com  o trabalho do nosso futebol feminino.




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As mulheres invisíveis do futebol - Tom Zé




Quando o cumprimento é dado ao lado esquerdo das arquibancadas, rapidamente as moças que agora lhes ficam à frente se acocoram. É a vez de as outras se levantarem. O esquema é rápido, sincronizado. Mais vistoso, impossível. Mas os jogadores não passam recibo: faz de conta que não existe mulher nenhuma nas imediações.  

A televisão, que filma o ritual dos craques, não pode varrê-las da cena; mas, tacitamente, não estão lá. É o apagão do feminino. Às vezes o sol as torra, nos campos diurnos de Campinas ou Rio Preto. Mas agora, que começa a fazer frio, dá vontade de chamar a campanha do agasalho, em socorro das pobres criaturas, vestidas de quase nada no gelo da noite paulista. Rádio, televisão, jogadores, comentaristas, repórteres de campo, ninguém lhes autentica a presença. Não são nem estão. 

Nunca vi jogador, torcedor, gente de imprensa sorrir pra elas, reconhecer-lhes a atuação comemorativa. Não há denotação que as torne – apesar de mulheres, não é, neguinhos? – partícipes da espécie humana. Elas lembram Ulisses apresentando-se a Polifemo: "Meu nome é Ninguém". São párias hindus, intocáveis, hansenianas, portadoras de maleita, erisipela e contágios. Nada indica que possam ter a mínima pretensão à semelhança concedida pela divindade – semelhança cuja primazia, pensando bem, foi concedida a Adão. 

 Agora, as moças começaram a usar uma peruca vermelha sensacional. Mas o estigma não arreda pé. Ninguém as vê, nem com os cabelos em fogo. A televisão dá closes em belas e feras: tá aqui um moço simpático, ali um velho sem dente, um torcedor mordendo o lábio, um japonês tocando samba. O diabo. Mas a individualização do close, essa caridade de um segundo, não as contempla. Se eu tivesse poder, faria uma campanha para convertê-las em gente como você e eu, leitor. No campo, beijaria a mão de cada uma. Ou faria uma canção pra elas. 


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O futebol também é obra do acaso

Foto: Gazeta Press

Uma vitória nem sempre é obra do acaso mas no futebol ele tem papel fundamental, como tem na nossa vida. A diferença é que quando o acaso decreta algo em nosso cotidiano na maior parte das vezes não temos como não aceitar que o ocorrido foi obra dele. Mas quando o papo é futebol a coisa toma outro rumo. A primeira razão é que aceitar o acaso, simplesmente, rouba a razão de parte das reflexões feitas em cima do jogo. Notem que se fala tanto de futebol atualmente que vira e mexe tenho a impressão de que não tardará o dia em que se falará mais do que se jogará futebol. Embora nosso calendário esteja aí à postos pra encarar a briga. 

A segunda razão, essa difícil de ser driblada ou esclarecida, é que há muitas coisas agindo no que se dá entre as quatro linhas. O que faz o argumento do acaso ser facilmente encarado como simplista. Tem mais, o acaso, obra sem assinatura, num primeiro momento sempre é tido como algo menor. Mas se enganam os que acham que ele não pode se revelar genial ou grandioso. Se os que analisam não o exaltam tampouco os derrotados se sentem à vontade com ele. Mesmo notando no acontecido algo de casual jamais farão questão de aceitar o fato de terem sido derrotados por tão incerto adversário. 

E, além disso, sabendo da reputação de que o acaso goza não querem correr o risco ver suas justificativas encaradas como mera desculpa. Mas nunca é tarde pra dizer - e notar - que o acaso não existe apenas de maneira óbvia. Não se revela só em lances sem mistério, como quando a bola bate na canela de um juiz e acaba dentro do gol, como já aconteceu, aliás. E a única que pode, talvez, disputar com o acaso o título de coisa mais ignorada pelos entendidos da crônica esportiva é a dúvida. Só ela desponta nesse cenário com tratamento semelhante ao acaso. Ambas tratadas quase com desprezo, vistas como algo capaz de diminuir seus defensores. 

Mas, queiram os homens ou não, o acaso é parte do jogo e quase sempre não ganha os créditos porque tudo que se passa entre as quatro linhas precisa ser creditado a alguém ou deixar transparecer uma razão. Por outro lado, há coisas que jamais poderiam ser explicadas pelo acaso. Como, por exemplo, o fiasco santista na missão de se aproximar da ponta da tabela ou o Corinthians não sacramentar esse título. Fato é que com esse jeitão de decidido, ou em aberto, o Brasileirão nos reserva clássicos de respeito neste final de semana. Caso de Cruzeiro e Atlético Mineiro, no Mineirão. E São Paulo e Flamengo, que na tarde do domingo estarão frente a frente no Pacaembu. Vedetes de uma rodada que promete durar uma eternidade porque o líder só a fechará na noite de segunda-feira quando for visitar o Botafogo.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Nuzman, funcionário público!


Essa equiparação de Nuzman a funcionários públicos é um detalhe crucial. A declaração abaixo é parte de entrevista concedida ao Redação SporTV, e está publicada em matéria do globoesporte.com. Não é à toa que a CBF, faz tempo, dribla essa questão do dinheiro público. O que não a faz inocente, claro.   

_ ... esse fato faz toda a diferença na medida em que o Leonardo (Gryner) e o Nuzman respondem por corrupção passiva, assim como o ex-governador Sérgio Cabral, justamente em função da equiparação a funcionários públicos. Na qualidade de gestores do COB e do Comitê da Rio 2016, eles receberam verbas públicas federais, firmaram convênios, o COB teve convênios firmados com a União, até mesmo para a apresentação do dossiê de candidatura da Rio 2016, então, por essas razões são ambos equiparados, por disposição legais, a funcionários públicos. - disse o procurador Felipe Bogado

Procurador: equiparação de Nuzman a funcionários públicos "faz toda diferença"


    

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Raí, no centro do Roda Viva !


Hoje, a partir das dez e quinze da noite, na TV Cultura.



quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Nosso esporte é reflexo da política

Getty images

Nós, jornalistas, estamos longe de fazer cara de espanto quando ficamos sabendo que o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro foi parar atrás das grades. E não vai nisso nada de sobrenatural. Basta casar algumas informações para desconfiar de como as coisas se dão. O esporte a política adotam comportamentos semelhantes, por mais que os políticos tratem o esporte com desdém. Ainda que seja pelo esporte que muitos consigam um lugar no legislativo e afins. Todo mundo sabe que os Ministérios que todos querem são outros. E justamente por não ser forte o de Esportes é a última das moedas de troca. 

Essa falta de atenção é mais um sinal da nossa ignorância.Um país grande como o Brasil poderia, até mais do que os pequenos, obter resultados econômicos interessantes se encarasse o esporte como meio de cuidar da educação e da saúde da população. Alto rendimento viria depois. E se a ele dispensasse outros montantes duvido que não apareceriam homens de bem interessados em tê-lo para seus partidos. Tanto na política quanto no esporte os nomes se perpetuam. A cara de pau é a mesma. Os cargos são passados de pai pra filho. Tanto em um  como no outro os donos do poder cansam de dizer que estão ali porque descobriram em si a vocação para servir. 

E o pior é que tanto na política quanto no esporte estamos num deserto de homens. Embora dada a pobreza do nosso quadro político o esporte ainda possa se arvorar de levar ligeira vantagem, graças a nomes como Ana Moser, Raí. Mas é possível notar neles certo receio. E é compreensível que seja assim pois têm um nome e uma carreira limpa a zelar. E a CBF que está na moita - e lá permanece graças a falta de ação das autoridades competentes - é parte integrante desse quadro. Com a diferença de não ter tido um presidente na época capaz de ir até o fim acumulando o posto de presidente do Comitê Organizador, como fez Carlos Nuzman com a Rio 2016. 

Dois anos antes da Copa Ricardo Teixeira saiu de cena. O Acumulo no caso de Nuzman foi apontado pelo Tribunal de Contas da União como conflito de interesses, já que havia um contrato de cento e setenta milhões entre as entidades comandadas pelo mesmo dirigente. E no ano passado o COB recebeu da Lei Agnelo/Piva cerca de duzentos milhões de reais. Dinheiro público que certamente ajudou Nuzman a se manter no poder. Na minha opinião o que o Brasil precisa, além de uma faxina retumbante, é encarar o esporte como um meio de educar e cuidar da saúde. O único caminho sério e justo para um país subdesenvolvido como o nosso. Desse modo, acredito, os campeões acabariam aparecendo. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A seleção. Quem diria , hein!?

 O prezado leitor tem boa memória. É provável que concorde comigo. Há pouco mais de um ano falar em seleção brasileira era algo que testava nossa paciência. Não bastasse a ausência de maus resultados pesavam sobre a mais coroada seleção do planeta as evidências de um gigantesco esquema alimentado por propinas, um quase rodízio nos nomes chamados para comandar o time e certa descrença com relação ao talento dos nossos atletas. Diante desse quadro desolador Tite era, de longe, o único profissional capaz de trazer alguma esperança. Para sorte do futebol brasileiro e, principalmente dos que mandam nele, aceitou a missão. 

Era uma quinta-feira, como hoje, quando Tite debutou nas Eliminatórias tendo diante de si a possibilidade da glória ou da vergonha. Mais do que o placar - que apontou três a zero para o Brasil diante do Equador - foram os gols marcados pelo jovem Gabriel Jesus os sinais mais claros de que poderíamos, sim, dar de cara com alguma luz. O resto da história todo mundo conhece. Tite acumulou vitória atrás de vitória. Não tardou a colocar o Brasil na ponta da tabela, nem a fazer dele o primeiro a garantir vaga na Copa que se aproxima. Até empatar com a Colômbia na última rodada só venceu nessas Eliminatórias. 

Mas ouso dizer que o grande feito dele até aqui foi ter praticamente anulado o mau humor da torcida e ter provado por A mais B que em matéria de talento continuamos bem servidos. A trajetória desenhada por Tite e seus comandados permitirá ao torcedor brasileiro no dia de hoje acompanhar a penúltima rodada das Eliminatórias Sul-Americanas de uma posição privilegiada. O circo está pegando fogo. Mesmo em Uruguai e Colômbia, segundo e terceiro colocados, resvala certa tensão. 

O Peru, que vem logo depois, defenderá uma sequência de três vitórias iniciada honrosamente diante do vice-líder Uruguai. E será contra a Argentina, que com toda sua tradição, neste momento, na condição de quinta colocada, iria pra repescagem. Argentina que vem de um vergonhoso empate contra a lanterna Venezuela em pleno Monumental de Nuñez. E como de inocente não tem nada levou o jogo de hoje à noite contra o Peru para La Bombonera. Quem acompanhou a história recente do futebol argentino, com direito a intervenção na AFA e tudo, sabe que esse calvário talvez não tenha se dado à toa. E, além disso, por mais que os treinadores de lá gozem de prestígio maior do que os daqui nenhum deles até agora foi capaz de fazer o papel de Tite.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Um craque simplão



Sei que você já deve ter ouvido alguma piadinha pintar na área quando alguém na roda enaltece o que tempos atrás se convencionou chamar de a "nova geração belga". Os caras, que começaram a despontar no cenário futebolístico no início desta década, realmente não conquistaram um título sequer. Mas esse vazio não  foi problema pro mercado da bola que - como sempre - soube muito bem capitalizar em cima da fama . Pra se ter uma ideia um site especializado apontou que os convocados pela Bélgica em março deste ano formavam uma seleção mais cara até do que a comandada por Tite. É mole? O placar apontava, no mês de março, quinhentos e dez milhões de euros pra eles e quatrocentos e cinquenta e um milhões para a seleção brasileira. Mas o bacana dessa história é saber que um dos sujeitos mais valorizados dessa turma, Kevin De Brunye, segue sendo um cara simplão. 

O garoto vem jogando o fino depois de alguns anos atrás no Chelsea ter sido esnobado pelo técnico José Mourinho, que chegou a se irritar em uma coletiva de imprensa com os questionamentos a respeito da não utilização do belga que tinha à disposição. Se Mourinho fez cara feia, Guardiola, seu técnico atualmente no Manchester City, há tempos enche a bola do rapaz. Chegou a dizer que se trata de um dos melhores jogadores que ele viu na vida. Muito boleiro por aí só de ouvir isso ficaria deslumbrado, nem precisaria da fortuna. E pelo que andei lendo por  De Brunye bem que poderia elaborar uma cartilha para ajudar a boleirada a não cair nas armadilhas que costumam vitimar os elegidos pelo futebol gourmet. 

O belga nunca assina um contrato pensando em dinheiro. O pai, por hora, é quem cuida das finanças pra ele. Quase tudo é investido, só dez por cento do que ganha vai parar nas mãos do rapaz. Comprou o primeiro carro aos vinte e quatro anos. E não escolheu nada de impressionar. Questionado pelo empresário respondeu dizendo que se quisesse uma Lamborghini pediria a dele emprestada. Não pensem por isso que De Bruyne não gosta de aproveitar a vida. Nada disso. Quem o acompanha nas redes sociais vira e mexe dá de cara com ele num destino com ares de paraíso. Vendo o que se vê por aí chega a ser difícil acreditar num astro com um perfil desse. De Bruyne chegou ao City como a maior transação da história do clube e do futebol belga. Sei que dizer que alguém nunca assina um contrato pensando no dinheiro beira a ficção, mas se metade do que andam dizendo do De Bruyne por é verdade ouso dizer que o valor dele pro tosco mundo futebol é inestimável. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Uma Copa pra esquecer?


Há uma verdade implícita no futebol que costuma jogar a favor da cartolagem: o resultado. Isso mesmo, o resultado. Detalhe que os mais críticos costumam dizer que certos comentaristas usam como álibi. Mas o resultado pode ser mais perverso do que isso, embora no fim das contas seja absolutamente inocente. A verdade é que quando um clube triunfa pode ter cometido os maiores absurdos na gestão, pode estar com a corda no pescoço em matéria de finanças que tudo soa azul. E isso me veio à mente ao ficar sabendo que a FIFA decidiu deixar o Brasil fora do roteiro que o troféu da Copa do Mundo faz pelo planeta.

Serão 50 países de seis continentes. Na América do Sul visitará o Chile, a Argentina e a Colômbia. A justificativa oficial é que o nosso país ficou fora por ter sido a última sede. O que me fez pensar que nem na hora da justificativa a entidade fez algum esforço. Afinal, nesse giro planetário o troféu passará pelos últimos sete países-sede. Motivo bem mais plausível é que a CBF e a FIFA têm patrocinadores rivais. Em outros tempos a influência dos brasileiros sobre a cúpula do futebol dificilmente teria permitido que o Brasil fosse excluído. Mas com as entranhas cada vez mais expostas a Copa do Mundo de 2014 é algo que todos os envolvidos querem tornar cada vez menos evidente e a visita teria efeito contrário. 

Foi a Copa que desfigurou de vez o Maracanã e que embora tenha dado aos corintianos o estádio que eles tanto sonhavam não permitiu aos mais sensatos a possibilidade do orgulho pleno. E nem vamos falar da Arena Pantanal visivelmente frágil desde sempre, do estádio erguido em Brasília que não merecia ter pra si o nome de Garrincha. E é aí que faço a costura com o que afirmei no início pois, pra aumentar o desespero dos que tramaram tudo, a Copa de 2014 não trouxe consigo um resultado que pudesse aplacar esse dissabor. 

Ao contrário, carregaremos pra sempre aquele sete a um, que se interpretado pelo viés dos fatos hoje em dia pode muito bem ser encarado como a cristalização de tudo o que se fez de errado em nome do nosso futebol. Tudo saiu às avessas e naquele fatídico julho de 2014 o futebol, como quem impõe um castigo, não nos deu nada. Nem um resultado que os cartolas pudessem usar como escudo, como fazem desde sempre. É certo que a visita do troféu não mudaria muita coisa, mas a ausência dele parece uma pista de que aquela é uma Copa que alguns preferem esquecer, quando na verdade o que precisamos é passa-la a limpo.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O futebol e suas interpretações

Duas narrações ganharam espaço na mídia nos últimos dias. Uma delas feita no jogo em que a Argentina amargou um empate com a Venezuela em pleno Monumental de Nuñez. Nessa o que se ouve é um locutor inconformado com o que testemunha. Até aí pura sintonia com os mais de vinte três mil torcedores que acompanhavam tudo in loco. Mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de palavrões que ele precisou usar para expressar o que estava sentindo e que o que se via ali era inconcebível. Fora o fato de uma transmissão recheada de palavrões me soar descabida ( e não digo isso por puritanismo, por favor) achar que o futebol não pode nos pregar certas peças é o fim. Se a tradição do futebol argentino o fizesse imune a esse tipo de mico onde residiria exatamente a graça do futebol ?

A outra narração, menos comentada, foi a do gol de empate da seleção da Síria marcado aos quarenta e oito minutos do segundo tempo e que manteve o time com chances de ir para a Copa da Rússia. Precisará pra isso passar pela Austrália na repescagem. Quem conhece minimamente o que a Síria passou nos últimos seis anos pode ter uma breve ideia do que essa conquista significa. Trata-se de um país dizimado pela guerra, que não fez um jogo em casa por motivos óbvios. Tem jogado suas partidas na Malásia. E com um precioso: é comandada por um técnico sírio, não contratou um estrangeiro com algum currículo. É fato que não entendo a língua dessa narração.  Imagino que  - por motivos culturais até - esteja livre de palavrões ou frases afins. 

Mas é de impressionar o renascimento em campo vai se revelando no tom da voz do locutor. Não era pra menos. A Síria tinha feito um a zero e com o resultado estava garantindo a vaga. Mas o Irã tratou de virar o placar para dois a um. E àquela altura é de se compreender que tudo parecesse perdido. Aí a voz vai se transformando ao dar de cara com o contra ataque que mudaria o destino do time Sírio. O gol se consuma e o narrador vai descrevendo a cena com cada vez mais emoção e quando surge, depois de um tempo considerável vale destacar, não deixa dúvidas de que se trata de um choro que não pôde ser contido. Não há ali um resquício qualquer desse teatro fácil das narrações com o qual nos acostumados. Não tenho nada contra a indignação argentina, ela faz todo sentido. O que não faz sentido é uma narração cheia de palavrões. E não me venham com aquele papo de ter falado o que o povo argentino estava sentindo. Educação é bom, e eu gosto. 

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A volta do Brasileirão

Acho engraçado como trataram de achar novas maneiras de nominar as coisas que se dão entre as tais quatro linhas. Vejam o caso do Neymar no jogo contra o Equador. Os mais indignados foram logo chamando o rapaz de fominha. E eu nem acho que estavam errado. Mas os que preferiram o vocabulário moderno optaram por acusar o camisa dez de falta de senso coletivo. Mas é só uma lembrança. Vamos ao que interessa porque eu sei que a grande curtição da torcida é o Brasileirão. que estará de volta no final de semana com a corda toda.

O Corinthians continua ditando o tom, agora emprestando à competição um certo ar de tudo ou nada. Mas entre os cinco que ocupam o topo da tabela o Palmeiras será o primeiro a entrar em campo. O time comandado por Cuca irá o Independência encarar o Atlético Mineiro, cujo futebol tratou de exilá-lo do grupo dos favoritos ao título. A sequência do time palmeirense tem o Coritiba em casa e um clássico com o Fluminense fora. Quando esteve em campo pela última vez o Palmeira venceu, mas nas três rodadas anteriores tinha acumulado duas derrotas e um empate. 

O vice-líder Grêmio será o segundo a se apresentar. Depois de amanhã, assim que terminar o jogo do Palmeiras, estará no gramado de São Januário para encarar o Vasco, que tem como último ato no torneio uma vitória sobre o Fluminense que terminou com uma incomoda sequência de cinco jogos sem vitória. No domingo será a vez do líder Corinthians ir à Vila Belmiro encarar o Santos, terceiro colocado. Jogo daqueles que pode ser visto como a vedete da rodada. Nem tanto pelo futebol que os dois times estão jogando mas por tudo que encerra. O líder Corinthians ao perder em casa do lanterna Atlético Goianiense deixou seus fiéis torcedores em estado de alerta e torcendo pra que o pior já tenha passado. 

Já o Santos, verdade seja dita, pode se orgulhar mais da posição que ocupa do que do que tem jogado. A longa sequência de empates que vem desenhando o deixa meio parecido com o Corinthians, afinal, alvinegros praianos e corintianos a essa altura se perguntam: o que será que os últimos jogos querem dizer? Vale lembrar que o Corinthians, depois do Santos, receberá o Vasco em Itaquera e depois irá ao Morumbi medir força com o São Paulo. Desafiadora sequência. O último dos cinco primeiros a jogar será o Flamengo, que no domingo às sete da noite irá ao Engenhão enfrentar o Botafogo. E se um quinto lugar está longe de contentar os rubro-negros ao menos lhes dá o direito de sonhar com o lugar onde no momento está o Santos.  Ainda que pra isso tenham de torcer, também, contra o Palmeiras. A ver. A volta do Brasileirão promete.         

terça-feira, 5 de setembro de 2017

De Luigi Pirandelo







"Tem ideia de quanto mal nos fazemos por essa maldita necessidade de falar?"

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Visitando o passado


O telefone chama. A ligação tem um quê de sentimental antes de ser puramente jornalística. No quarto toque alguém atende. Digo que gostaria de falar com o Sr Romualdo Arpi Filho. O homem do outro lado da linha diz que posso continuar, se trata dele mesmo. Procuro um discurso coerente para o convite. Exponho minha intenção mas o homem se esquiva com a habilidade de um boxeador. Diz, categórico,  que seu tempo passou, que a arbitragem mudou. Tento outro argumento como quem aposta em um drible. Afirmo que não precisamos nem falar exatamente sobre isso. As imagens das finais de Campeonato Brasileiro que apitou estão bem guardadas nos arquivos e que bastaria ter a visão dele sobre os grandes momentos que viveu exercendo a profissão e já daríamos sentido à gravação pretendida. 

Sou obrigado a acreditar no que ouço, na legitimidade da recusa. Estou ciente de que o personagem em questão não tem sido visto por aí. Então, decido me despir da figura de jornalista. Abro o jogo. Digo que no fundo o convite tem também um quê de acerto de contas com o passado. O meu passado. Conto que fui criado ali em frente a imobiliária que ele tinha em São Vicente. Sem tempo pra muitos detalhes deixo de dizer que guardo na memória um dia em especial. Zé Carlos, um moreno de pernas tortas, dono de uma ginga infernal,  tinha passado a semana dizendo que o Romualdo tinha prometido uma bola pra garotada. Zé Carlos, como interlocutor com o juiz famoso seria, claro, o fiel depositário do presente. E não é que numa segunda-feira o Zé tratou de sair tocando campainhas , convocando a molecada pra pelada porque o Romualdo tinha cumprido a promessa? 

Trazia debaixo do braço direito uma bola oficial, linda, novinha. E não era só isso ! Segundo tinha dito o Romualdo, era a bola do grande clássico travado no final de semana. Um Palmeiras e São Paulo, como esse jogado no último domingo. Aquilo enlouqueceu a garotada. Foi o doping perfeito pro nosso imaginário quase infantil. A bola rolou no terrão da Quintino Bocaiuva nos fazendo esquecer das pedras no caminho que levava ao gol. Bom, Romualdo declinou do convite. Atencioso me consolou prometendo quem sabe, no futuro, topar. Mas resistir ao encanto que se esconde na possibilidade de revisitar o passado não é pra qualquer um, reconheço. O primeiro árbitro brasileiro a apitar uma final de Copa do Mundo anda por aí tentando nos convencer de que a regra é clara, e essa recusa me deixou aqui imaginando o que diria a respeito de tudo o que temos visto o velho Romualdo, que foi o segundo. 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Os incomodados que mudem

Foto: Daniel Mundim
Esta semana começou com alguns dos maiores técnicos de futebol do nosso país reunidos no Rio. Era gente de reconhecida trajetória. Fizeram questão de dizer que tudo já estava acertado antes da chegada de Reinaldo Rueda ao comando do Flamengo. Mas não dá pra negar que o desembarque do colombiano causou incomodo. E nem precisaríamos pra isso ter ouvido as palavras de Jair Ventura, que se apressou em dizer que foi mal interpretado. Jovem, à frente de uma campanha simplesmente sensacional com o Botafogo e dono de um discurso moderno sobre o jogo, não precisaria ter questionado o espaço que é - ou não é dado - aos estrangeiros. Simplesmente porque espaço, normalmente, não é algo que se dá e sim algo que se conquista. 

Mas se há uma questão que considero primordial é a luta para que os cursos de treinadores da CBF sejam reconhecidos no exterior. Em qualquer ofício conquistar um mercado como o europeu jamais será tarefa simples e exigirá muito mais do que dominar uma língua estrangeira. Ao ter esse tipo de habilitação aceita os técnicos brasileiros terão vencido parte da burocracia que, além de tudo, costuma ser uma maneira velada de garantir certas reservas de mercado. Mas para ser justo nesse sentido os cursos dados por outras entidades ligadas à Conmebol também precisam ter validade para a CBF. 

Que essa união sirva de exemplo para os nossos jogadores que algumas temporadas atrás viram o limite no número de estrangeiros nos times brasileiros passar de três para cinco por time sem que, ao menos, alguém lhes tivesse consultado a respeito ou esclarecido o motivo da decisão. O velho manda quem pode e obedece quem tem juízo é que valeu. Faço esse paralelo porque acredito que muito do que serve para os técnicos deveria ser aplicado de alguma forma aos atletas também, como exigir que a situação deles só seja dada como regularizada depois que todas as dívidas com os mesmos forem quitadas. No caso dos jogadores talvez fosse o caso de, apenas depois disso, permitir que outro atleta seja inscrito no lugar daquele que saiu. 

Não deixo de considerar que toda profissão tem suas peculiaridades e imagino que muitas delas fujam da nossa compreensão por mais que a proximidade cotidiana nos dê a impressão de entender a realidade vivida por estes profissionais. Outra coisa que me chamou a atenção no encontro é ter visto em uma das meses gente como Paulo Roberto Falcão e Zico, o que me fez lembrar que o primeiro nunca escondeu que há tempos largou tudo o que fazia porque tinha como objetivo maior se dedicar ao trabalho como treinador e, ainda assim, até hoje não ter conquistado um lugar nesse mercado. E o segundo porque sempre deixou claro que só topa encarar a bronca se for no exterior, diz ele que a fidelidade ao Flamengo não o permite trabalhar por aqui. Não duvido do tamanho da fidelidade do Galinho, duvido é do poder de sedução do nosso futebol. Ou seja, alguma coisa precisa mesmo mudar.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O Brasileirão já tem dono?

Ale Frata/Folha press

Não me entendam mal. Não se trata de papo de secador. Mas pode acontecer de tudo neste Brasileirão, menos o Corinthians deixar escapar o título. Seria um mico monumental. Andei provocando o assunto por aí, assim como quem não quer nada, e o que senti foi que uma considerável maioria acredita piamente que não tem pra ninguém, que os fiéis corintianos - discretamente, por favor - podem ir pensando na festa. Entendo perfeitamente a avaliação, mas depois de tudo que já vi o futebol aprontar prefiro dizer que mais arrazoado é ficar na miúda. 

Tudo quanto é motivo já foi apontado como ameaça ao Corinthians e o escrete de Fábio Carille nem arranhão sofreu. E se o time conseguiu seguir impávido mesmo na ausência de Jadson, fica difícil crer que uns dias de descanso poderiam se transformar em ameaça real a esse semi-reinado alvinegro. O jogo contra o Vitória no próximo sábado, em Itaquera, marcará a volta a campo do time que anda dando nó na cabeça de muita gente. Haja dialética pra elucidar as façanhas dessa equipe que tem encarnado como poucas a capacidade que o jogo de bola tem de desafiar conceitos.

No meu modesto modo de ver as coisas não é o aproveitamento quixotesco, nem o surreal número de faltas cometidas a marca registrada desse time. É na lucidez e na capacidade do treinador de manter os pés no chão - os dele e os de quem ele comanda - que mora o segredo do sucesso. Na última coletiva antes do descanso, Carille foi informado de que o time dele apesar de estar distante de ser o time que mais fica com a bola no campeonato era, ao mesmo tempo, o que ostentava o maior número de passes certos. Um deslumbrado certamente não teria resistido e teria tentado explicar a razão de ter alcançado a proeza. 

Mas o que fez Carille? Confessou ao interlocutor que os números apresentados eram uma surpresa pra ele e que não tinha ali uma explicação, mas que aquilo o intrigava também e que, nos dias que teria sem jogos pela frente, tentaria estudar o que o Corinthians andou fazendo pra, quem sabe, elucidar a razão que tem levado o time a ostentar mais esse feito. Sensacional ou não? Torço pra que hora dessas algum repórter lembre disso e lhe questione a respeito. Tenha ele o encontrado o motivo ou não. Os que tratam o futebol com o devido respeito não se sentiriam desapontados se a resposta depois de uma investigação fosse um sincero: não sei como explicar. Se tem uma coisa que o futebol adora driblar é a razão. E o Corinthians de agora é prova viva disso. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Quando um drible traz a alegria de um gol


Veja o link abaixo. O elástico do garoto do Feynoord não é coisa assim " do outro mundo"
embora aplicado com maestria. O legal é ver a alegria do companheiro que o ajuda a se levantar
do gramado ( e a dele mesmo). Porque depois do lance, claro, deram um jeito de parar o rapaz.

Elástico do juvenil do Feynooord

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A magia da camisa 10

Christian Hartmann?Reuters

As gordas cifras da transação que tirou Neymar do Barcelona podem, de certa forma, representar o apogeu do que os mais ácidos têm chamado de futebol-gourmet. É bem provável que tenha sido. Mas eis que sou surpreendido pelo entusiasmo de um colega de redação que viu naquele " mis en scene" todo um detalhe do futebol de raiz. No começo considerei o entusiasmo exagerado. Mas não era. Ele falava da devoção à camisa 10, que mesmo que tenha sido por vias tortas deu as caras na festa armada no Parque dos Príncipes, em Paris. Permanece viva! 

Incrível que vá sobrevivendo a uma época em que, para se ter um apelo mercadológico e diante da limitação que se impõe de se poder ter apenas um dez em cada time, jogadores de todo o mundo trataram de abraçar os mais variados números. Mais justo seria até alguns times não terem direito a ela. Talvez nem fosse exagero implantar um exame fundamentado em técnica e elegância pra que um jogador obtivesse esse direito. Isso mesmo, penso que de tão grande a camisa dez só deveria ser dada a alguém por puro merecimento. 

Neymar chegou ao PSG e tomou pra si a 10. Vejam só, tanta gente andou dizendo que ele se foi porque no Barcelona não tinha o protagonismo, porque fulano lhe fazia sombra. Pode ser tudo especulação, mas a 10 é algo que no Barcelona, sem dúvida, Neymar não teria direito. A menos que esperasse a vez. Isso por mais gente fina que Messi seja. Fiquei, então, imaginando o que não passou na cabeça do argentino Pastore, que até então envergava a tal camisa no PSG e depois de cede-la foi visto no último sábado jogando com a vinte e sete. 

Não li nada sobre, mas estou certo de que o número não foi escolhido à toa. Como já disse, hoje toda camisa necessita ter um significado atrelado ao número. Sem isso perde-se um apelo de marketing. Bom, o futebol pode gourmetizar, pode se transformar seja lá como for, mas jamais enxergaremos a camisa 10 como uma qualquer. Eu pelo menos estou convencido de que jamais conseguirei. 

Provavelmente pelo fato de ter escrito alguns anos atrás com o amigo jornalista André Ribeiro um livro sobre o tema. O que com certeza me deixou mais sensível ao discurso do amigo aqui da redação que viu na exigência da 10 a sobrevida do futebol com uma dose de romantismo. Sim, foi Pelé que a fez diferente de todas as outras. E pode parecer incrível mas foi levado a ela por inúmeras coincidências. Talvez a predileção, a exigência, fosse, em última instância, do deus do futebol. Se Neymar queria um desafio, está posto: honrar com todas as letras a camisa 10. Futebol pra executar a tarefa o rapaz tem de sobra. Passaria no teste.  
 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Fernando Diniz: um olhar nobre sobre o " jogo de bola"

Pensando o futebol !

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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O Santos, a Vila, o Pacaembu

Conheço torcedores de tudo quanto é tipo, de tudo quanto é time, mas não conheço um que não tenha se rendido ao charme do Pacaembu. De onde concluo que não se trata de sedução histórica porque não nos faltam estádios dignos de duelar com o distinto Paulo Machado de Carvalho. Ainda que a última Copa tenha roubado a alma de boa parte deles. O Pacaembu nos últimos tempos parece aquela moça que deixou passar demais o tempo e agora semeia entre a família a preocupação de arrumá-la um par. E o Santos há tempos é tido como pretendente. 

Ocorre que o time santista se portou como alguém mais inclinado à solteirice e os responsáveis pelo estádio decidiram buscar um par no exterior. Todo cuidado com o tema é pouco, de outro modo é a Vila Belmiro que pode acabar em situação similar a do Pacaembu. Não ignoro seu apelo monetário. Mas pensar só no dinheiro joga contra a razão de ser de um time de futebol. Hoje falta sensibilidade até para perceber quais são os jogos que devem ser jogados em casa e quais não. E, como ouvi outro dia, essa é uma estratégia que bem feita teria a capacidade de engrandecer as partidas disputadas na Vila. Há quem diga que quando os atletas deixam no ar a preferência por atuar ali estão levando em consideração o fato de não precisarem se deslocar e tal. Mas não quero crer que uma viagem de menos de cem quilômetros, quando se faz outras tão mais longas, seria razão. Acredito na mística da Vila. 

Fato é que o destino do Pacaembu voltou a ser notícia agora que foi aprovada em primeira votação a sua concessão. O que o coloca, a meu ver, mais perto do destino reservado a boa parte dos nossos grandes estádios. Um tombamento nunca os livrou da descaracterização. Na dúvida, olhe uma foto do Maracanã atual. Torço muito pra que seja dado ao Pacaembu um futuro tão nobre quanto seu passado. O que não é fácil. Entendo os entusiastas dos jogos em São Paulo, por razões já ditas. Mas os números que mostram um Santos tão imbatível lá quanto na Vila são contestáveis. Quem sabe até os que não concordam comigo possam ter visto alguma diferença no jogo contra o Flamengo jogado na Vila e este de ontem que se deu por lá. E não tô falando da bilheteria, claro.              

terça-feira, 25 de julho de 2017

Um mito no gol

Foto: Rubens Chiri

O goleiro parece ocupar no futebol a mais singular das posições. A meta traz embutida no desafio de defende-la algo de único, que não está apenas no fato de quem aceita tal condição poder, ao contrário de todos os outros que estão ali, usar as mãos. E como se não bastasse o nível de regularidade absurdo que costuma se exigir deles o tempo ainda tratou de tornar a missão ainda mais desafiadora, porque como se sabe foi-se o tempo em que se exigia dos arqueiros habilidade apenas pra jogar com as mãos. E reza a lenda  que o gol costuma ser o destino dos que não têm talento suficiente para tratar a bola com os pés. Não era o caso de Waldir Peres, mítico goleiro do São Paulo, falecido no último domingo. 

Para os mais jovens a melhor maneira de explicar de quem se tratava é recorrer à definição dada pelo amigo e jornalista Celso Unzelte: Waldir Peres foi o Rogério Ceni da época dele. E se não fosse o Rogério até hoje seria o jogador que mais vezes vestiu a camisa do tricolor paulista. Foi com Waldir Peres misturando sua técnica apurada com uma dose generosa de malandragem que o São Paulo conquistou o Campeonato Brasileiro de 1977. E isso quando o time do Morumbi não tinha em sua galeria nenhum título de âmbito nacional. Nem Robertão, nem Rio-São Paulo, nada. Aos interessados em maiores detalhes sugiro recorrer à internet. Irão dar de cara com um retrato fiel do futebol brasileiro praticado nos anos 70. 

Waldir Peres esteve em três Copas do Mundo. Na de 1982 não foi perfeito no jogo de estreia, mas seguro e maduro que estava não deixou que um erro - insistentemente lembrado até hoje  - compromete-se seu futebol. Carrego comigo a impressão de que ele trazia nos olhos o desconforto dos homens que se sabem, de certa forma, injustiçados. E não seria sem razão. Para um goleiro de tamanha envergadura aquele detalhe do jogo contra a União Soviética merecia ter sido relevado, mesmo por aqueles que não o consideravam o melhor. 

No nosso último encontro recordo que lhe perguntaram porque sorria depois de levar um gol. E Waldir respondeu que não faria sentido chorar. O que me faz levar em conta que, talvez, o desconforto que citei aqui não passe de um engano. E não pense vocês também que ele acabou no gol por outra razão que não fosse talento. Digo isso, porque naquele dia, Rivellino, abusando da intimidade, depois de dizer que o Babão era terrível, um grande goleiro, afirmou que no dois toques Waldir era gênio, tinha facilidade pra jogar na linha. E eu, de minha parte, se escrevo estas linhas é porque quando era moleque adorava jogar no gol. E quando calhava de fazer uma grande defesa não perdia a chance de gritar bem alto: Waldir Peres!   

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O enredo do Brasileirão


A arrancada do Corinthians nas primeiras rodadas do Brasileirão deixou no ar a possibilidade de o campeonato perder a graça. Não há dúvidas de que um desfecho relâmpago na corrida pelo título esfriaria tudo. Mas prefiro pensar, por hora, que apressado se faz tirar qualquer conclusão do que temos visto. Esse início maluco, desconfio, é apenas o futebol zombando - mais uma vez - da nossa pretensa e equivocada capacidade de prever o que ele nos reserva. Os corintianos nunca estiveram tão orgulhosos de serem tidos tempos atrás como a "quarta força". 

Por outro lado temos nisso um começo de Brasileirão surpreendente. E pra mim é essa uma das virtudes mais nobres desse jogo de bola. Assim, de repente, o Corinthians se revelou o time a ser batido. Um time com a fina capacidade de tirar máximo proveito do conjunto, um time comandado por um treinador que está longe de ser tido estrela. E esses detalhes devem ser levados em conta diante da realidade que temos vivido. Tenho a nítida sensação que a matemática, que tem tornado clara a diferença que separa o Corinthians dos outros, fará também multiplicar a pressão a cada nova rodada. Isso sem falar na secação dos adversários que a esta hora já anda elevada à décima potência. 


Por falar na nobre arte de secar vale aqui fazer alguma reflexão sobre a realidade vivida pelo time do São Paulo. De alguma forma parece existir aí uma prova do quanto os interessados em futebol resistem em concebê-lo como um jogo de alma impiedosa e imprevisível. Nesse sentido, desde que virar a mesa não se fez mais possível, temos visto de tudo. Times que tinham elenco pra não cair, mas caíram. Times que pareciam que jamais iriam cair, mas caíram. E ainda assim sinto pairar no ar certo desdém com relação a essa possibilidade quando se fala do São Paulo. Sou capaz de entender onde se amparam as opiniões, mas acho prudente levar a possibilidade em conta, até para que as atitudes para tirar o time desse limbo em que se encontra sejam mais contundentes. É isso que o momento pede. 

O passado dos pontos corridos tem deixado claro que o calvário do descenso, via de regra, não tem se dado somente pela falta de um time competitivo mas principalmente por uma combinação de fatores que juntos levam ao abismo da degola. E fatores pra formar este caldo não faltam à história recente do time do Morumbi. Corinthians e São Paulo, cuja rivalidade nos últimos anos foi às alturas, provam neste momento que o Brasileirão que andamos testemunhando pode não ser uma maravilha mas tá longe de ter até aqui um enredo banal.