quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Viva os corneteiros!

O corneteiro é um nobre. Figura das mais notáveis no futebol. Pensando bem talvez só o secador seja páreo pra ele em importância nesse mundo da bola tão fértil para a tiração de onda. E hoje pinto aqui na área cheio de disposição para lhe fazer uma elegia. Não sem motivo. Não sei se vocês  viram com que dose de deselegância o jovem goleiro da nossa seleção sub-20, depois da vexatória campanha no Campeonato Sul americano, se dirigiu aos jornalistas. Palavrões à parte, acusou-os, inclusive, de cornetagem. Como se ser corneteiro fosse algo menor. 

O desabafo me deixou com a pulga atrás da orelha e vou já lhes dizer a razão. Ao ouvir aquilo fiquei com uma preocupação monumental. É que o modo de falar me fez levar em consideração a possibilidade de que um jovem que está sendo preparado para defender a meta da seleção brasileira não tenha nível de conhecimento suficiente para fazer a diferenciação. O que seria um quase analfabetismo ludopédico e o impediria de colocar as coisas no devido lugar. Ora, crítica é uma coisa,  cornetagem outra. E sou capaz até de entender que exista gente por aí que  confunda uma com a outra tão parecidas que são. Mas não um boleiro.Seja como for, sigamos.

O futebol sem a figura solene do corneteiro seria destituído de parte de sua alma. O corneteiro é tão fundamental que precisa estar presente sempre. E sabemos disso tão intuitivamente, que não raro nos flagramos fazendo esse papel ou damos de cara com gente as pessoas mais improváveis aceitando fazê-lo. Juizes, artistas, presidentes de clubes e até padres. Acho, inclusive, que não tardará o dia em que o San Lorenzo acabará colocando Sua Santidade, o Papa, nessa situação. 

Além do mais, a falta de humildade para as críticas, dado o exagero da reclamação, sugere que o jovem goleiro, Caíque, não esteja ciente de que nossa seleção sub-20, apesar de tantas derrapadas recentes, ainda é a maior vencedora do torneio com onze títulos, quatro a mais do que os uruguaios e seis a mais do que os argentinos. O que justifica expectativas. E foi a primeira vez em vinte e oito edições do torneio que o Brasil terminou pela terceira vez seguida fora das três primeiras colocações do hexagonal. Logo, não foi à toa - nem por cornetagem - que uma matéria sobre o assunto tenha tratado como tragédia o fato de o time brasileiro sub-20 não ter conquistado vaga para o Mundial da categoria. Ainda que eu ache que tragédia é outra coisa. Mas diante dos resultados sou capaz de perdoar a alusão. 


O que jamais perdoarei é que se trate o corneteiro como um qualquer. Dia desses ainda voltarei ao assunto para lhes contar a versão que mais gosto do que levou o sujeito que não pensa duas vezes pra soltar o verbo contra o seu time ser popularmente chamado de corneteiro. Até lá e sempre,respeito !

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Futebol não é ciência


Só não vê quem não quer: o jogo é outro. Ainda que muitos o vejam com os olhos de sempre. O tempo transforma tudo. Nesse sentido talvez fosse mais interessante tentar explicar porque que é que só nossas cabeças e nossas manias resistem tanto. Acredito que por gostar tanto do jogo de bola é que os homens quiseram fazer dele algo sem segredo, como desde sempre os homens têm tentado fazer com o mundo e com a própria existência. Assim nossa velha brincadeira se encheu de ciência. E cercado de tanto estudo e teoria o futebol virou o que temos visto. 

Como não aceitamos a principal lição que se poderia tirar de tudo isso, a de que tanto no futebol quanto na vida segue sendo impossível saber ao certo o que nos leva ao resultado esperado, já era tempo de perceber que pensar demais costuma jogar contra. Mas o que acho digno de nota é que o momento tem tornado muito claro o abismo existente entre o que o futebol foi e o que ele é. E a melhor maneira de dar conta disso é prestando atenção ao discurso dos treinadores.

Há em atividade profissionais de várias gerações. Alguns continuam acreditando na versão menos cientifica do jogo, em geral amparados num empirismo que não raro dá conta do recado. E há em ação os que representam a versão mais moderna da coisa. E aí eu citaria o nome do jovem Jair Ventura. Pois creio estar na boca dele o tipo de discurso que mais tem contribuído para tornar clara essa cisão. As falas do treinador do Botafogo, a meu ver, deixam transparecer um futebol esmiuçado, estudado, amparado em observações de fundo científico. 

Mas entre a geração mais antiga e essa mais nova há ainda uma outra, representada por treinadores que misturam um pouco das duas. E o detalhe aí é notar que esse discurso moderno na boca deles não soa tão encaixado. E não os culpo. Trata-se de um discurso que eles tiveram de incorporar sem, de repente, ter realmente a convicção de que apontam o melhor caminho. Usam as tecnologias, se informam do que anda acontecendo pelo mundo mas estão - por uma questão meramente temporal - presos a certos conceitos. Veja, não estão errados.

É um caminho sem volta? Sim, por hora não vejo outro com tantos adeptos. Adiante, quem sabe, algum iluminado irá sacar que é preciso uma dose mais adequada de tecnologia. E que uma dose de velhos métodos - deve haver algum - também poderia fazer bem ao jogo e, o melhor de tudo, trazer resultado. Ma se isso acontecer, não será já. Possivelmente daqui alguns anos quando o mundo começar a sacar que não deveríamos viver de olhos tão grudados em smartphones, tablets e afins. Há muitos lugares pra se buscar conhecimento. 

O tema está posto e não deve ter sido por acaso que o técnico Rogério Ceni, depois da derrota do time dele para o Audax, diante do revés e da supremacia numérica do tricolor, fez questão de lembrar que o futebol não é matemática ou ciência exata. Eu vou além. Digo que, apesar de toda a contribuição científica, o futebol jamais será ciência. Embora exista um exército fazendo força para transformá-lo nisso.  

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sem essa de professor ! Treinador !


A FBTF - Federação Brasileira dos Treinadores de Futebol - que tem no técnico santista, Dorival Júnior, seu vice-presidente, se movimenta para tentar aprovar o projeto de lei 7560/2014, proposto pelo Deputado José Rocha, da Bahia. A intenção é regulamentar a profissão no país. O projeto, como uma forma de homenagem, ganhou o nome de Caio Júnior.Os envolvidos têm a intenção de organizar uma manifestação no início de março, quando treinadores do Brasil e do exterior, que se dispuserem, entrarão em campo vestindo uma camisa com o logotipo da Lei.

Dorival Júnior, por sinal o treinador mais longevo da Série A do futebol brasileiro, deu a seguinte declaração ao site globoesporte.com:

– Nossa intenção é regulamentar a profissão, oferecendo segurança para os profissionais de todas as divisões. Com a procura por direitos e de um tempo mínimo à frente de um clube de futebol, sem ficar pulando de galho em galho. Perto de 70% dos treinadores do país, por exemplo, não têm carteira assinada. Isso é inconcebível em um país que ama tanto o futebol. Nós ficamos para trás.

Deve-se pensar na questão das contrapartidas, pra evitar o que hoje costuma ser chamado de "dança das cadeiras". Um dos entraves é o Conselho Regional de Educação Física, que não quer abir mão da exigência do diploma da área. Um debate importante e uma regulamentação que já deveria ter sido feita há tempos e que pode dar imensa contribuição ao nosso futebol.. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

2017: De olho no calendário !

Foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo /Arquivo

Se tem uma coisa da qual o futebol brasileiro carece é de gente com atitude. Nesse sentido gostei muito de ter dado de cara com a entrevista concedida pelo técnico Paulo Autuori, pouco antes de o time comandado por ele, o Atlético Paranaense, estrear na Libertadores. Com categoria, diria até com elegância, Autuori foi duro ao criticar a CBF. E disse uma coisa que, embora soe óbvia, é algo pra se ter em mente sempre. A saber, o sucesso da seleção não é o sucesso do futebol brasileiro. 

Claro, o início do trabalho realizado pelo técnico Tite inevitavelmente faz pairar no ar a sensação de que o nosso futebol encontrou um rumo. O que se dá, acredito eu, por um detalhe muito interessante, que merece ser destacado: o lugar que a seleção continua ocupando no imaginário do torcedor. A seleção, de um jeito ou de outro, continua sendo um dos grandes signos da nossa relação com o jogo de bola. Logo, quando algo de bom se dá com ela recebemos, quase instintivamente, uma descarga de contentamento, pra não dizer de alívio.

Outro grande sinal que me veio com a declaração de Autuori foi a coerência dele. Em dezembro de 2015, quando os integrantes do movimento chamado Bom Senso foram até a porta da CBF para fazer uma manifestação e ler uma carta de protesto que pedia, entre outras coisas, a renúncia do presidente da entidade... lá estava Paulo Autuori. E se a memória não me trai foi o único treinador a dar as caras. Daquela época pra cá o Bom Senso perdeu força e os outros nomes de expressão que marcaram presença no ato não voltaram a falar com tamanha veemência sobre essa nossa realidade. 

E vale lembrar também que dois anos antes, em 2013, Autuori já tinha feito muita gente por aqui lhe olhar torto por ter dito que os treinadores brasileiros estavam defasados. Dessa vez  voltou a falar sobre o tema, não correu dele não, e até apontou o que nos levou a essa defasagem. E não deixou de nos lembrar, como tem feito também o Tite, da perversidade do nosso calendário. Por isso, se tem uma coisa à qual devemos ficar atentos a partir de agora é o que esse novo calendário irá fazer com o futebol brasileiro. As mudanças recentes farão competições importantes como o Brasileirão e a Libertadores serem disputadas em paralelo.

Em outras palavras, parecemos seguir na direção inversa àquela que gente que entende do riscado nos têm apontado. Chega a ser desolador constatar que depois de tantos escândalos o principal esforço feito pelos homens que comandam o futebol foi jogar mais uma dose de fermento em alguns dos seus principais torneios para que a realidade deixe de ser uma ameaça ao crescimento do faturamento. Diante disso tudo a temporada que agora começa terá a virtude de nos mostrar quais serão os efeitos colaterais das últimas cartadas dadas pelos cartolas. Temo que ao fim dela Autuori esteja parecendo ainda mais lúcido do que agora.  



* A entrevista  na íntegra pode ser lida aqui: 
http://bit.ly/2jYKxl8

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O novo técnico do Palmeiras

Foto: Antônio Carneiro/Pernambuco Press

Assumir um dos grandes times do país. Sob o vapor da euforia causada pela conquista de um título de Campeonato Brasileiro. Coisa que o clube não vivia há mais de meia década. Assumir o posto que era ocupado até alguns dias atrás por um treinador que, talvez, só não seja visto como páreo para o atual técnico da seleção brasileira. O desafio aceito por Eduardo Baptista e proposto a ele pelo Palmeiras é imenso.

Eduardo chegou lá trilhando um longo caminho como preparador físico. Nessa condição, tendo como suporte toda a vivência do pai, Nelsinho Baptista, conheceu o cotidiano profissional de clubes como Flamengo, Santos, Corinthians. Ao se tornar treinador no Sport, do Recife, conseguiu algo que costuma ser raro aos treinadores: tempo para trabalhar. Foi reconhecido na qualidade de campeão estadual e da Copa do Nordeste.  

Mas pelo que disse na época sentiu que o tempo no Sport estava pra terminar. Fez, então, o  quase óbvio caminho de quem se mostra capaz, acertou com um time de ponta, o Fluminense. Com ele, que tinha chegado no início de setembro, o Flu não caiu, mas foi eliminado na Copa do Brasil. O que sobrou de fôlego o estadual do ano seguinte consumiu e Eduardo se despediu das Laranjeiras antes de fevereiro deste ano terminar.

O capítulo seguinte vivido pelo ex-zagueiro, de carreira breve, que chegou a ser Campeão da Copa São paulo de Futebol Júnior com o Juventus, foi comandar a Ponte Preta, que como o torcedor deve lembrar deu caldo. Com ele o time de Campinas encerrou o Brasileirão em oitavo lugar. Ainda não tenho uma opinião formada a respeito de como o torcedor palmeirense o vê, Sob o ponto de vista do clube, me pareceu uma escolha diferenciada, que driblou o óbvio em matéria de contratação de treinadores. E isso não é pouco quando se trata de futebol brasileiro.   

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Enfim... o recurso eletrônico !

Foto: Reuters

O mais triste no fato de o juiz da partida entre o Kashima Antlers e o Atlético Nacional não ter tentado - no primeiro lance da história do futebol "oficialmente" analisado de modo eletrônico - que o jogador em questão estava impedido é dar margem para que o erro seja apontado como decisivo para o resultado do jogo. Verdade? Exagero?

Mas a lição que fica é uma que todos os simpatizantes do "recurso" não fizeram questão de levar muito em conta: ele não terá capacidade pra diminuir expressivamente a presença das intituladas polêmicas na hora de interpretar os lances. A complexidade do futebol - ou talvez a do olhar do homem sobre ele - não permite. Usá-lo pra dizer se uma bola ultrapassou, ou não , a linha do gol é uma coisa. Imaginar que armado de tal recurso a interpretação do jogo será simples, quase inocência.

De qualquer modo, o Kashima tá de parabéns!

E o Atlético Nacional também por tudo o que fez
e que sabemos...não foi pouco.       

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O Cuca e o Osvaldo

Foto: Agência Palmeiras
Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Os dois treinadores citados acima podem ser vistos, sob certa ótica, como as notícias do dia. Cuca está de peito aberto em entrevista que abre o caderno de esporte da FOLHA. E os navegantes do mundo virtual também encontrarão o homem que levou o Palmeiras ao título do Brasileiro em entrevista concedida à ESPN nos bastidores da premiação do Troféu Bola de Prata. Dias atrás já tinha considerado muita precisa a resposta dada por ele ao ser questionado sobre o que disse Renato Gaúcho sobre a necessidade de um treinador estudar.

Cuca driblou a polêmica fazendo o entrevistador ver o óbvio. Em linhas gerais, afirmou ser bem diferente do colega. Disse que se ele dá tudo pra não entrar em polêmica, Renato, por sua vez, quase não consegue falar sem criar uma. Cuca foi além, afirmou que " se não sentir falta, talvez nem volte ao futebol".Sugeriu ainda querer notar se o futebol sentirá a falta dele. Confessou cansaço mental. Falkou da dificuldade que é lidar com todo um elenco. Da relação que mantém com os bichos. E fez ver também o quanto o rótulo de supersticioso lhe foi imposto pela mídia, ao comentar sobre a calça vinho que gosta de vestir.  ão é só o campo que revela as razões de um sucesso.

Sucesso que Osvaldo de Oliveira esteve longe alcançar no breve tempo em que esteve no comando do Corinthians neste final de temporada. E quando digo sucesso é porque considero que se tivesse conseguido colocar o time na Libertadores de alguma forma teria sido bem sucedido. Fosse qual  fosse o futebol apresentado. A pressão sobre o presidente do clube é grande. E se o mandatário realmente disse ao treinador que ele seguiria no comando independentemente do que acontecesse este ano, a situação é mais delicada ainda. Osvaldo ficará? A pergunta deve ser respondida logo.

Mas seja qual for o ofício, trabalhar em ambiente hostil nunca é o ideal. Mas quando se trata de técnicos de futebol talvez isso venha a ser comum. Pode ser. Sendo assim é até possível que resida aí um dos muitos motivos para o grande número de demissões que vemos a cada temporada. Diante disso não descarto a possibilidade de que não continuar no cargo seja uma decisão acertada até mesmo para Osvaldo de Oliveira. De outro modo, terá deixado transparecer uma certa queda por desafios do tipo tudo ou nada.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A hora é de Cristiano Ronaldo ?

Foto: AP

Cristiano Ronaldo acaba de ser eleito o "Bola de ouro" da France Football. Repete, portanto, o feito de 2008 quando foi eleito pela primeira vez. O português também ganhou o prêmio em 2013 e 2014, período em que a revista francesa se uniu à FIFA na premiação. Não é o mais laureado, Façanha que pertence ao preciso Lionel Messi que até hoje já desfrutou do momento cinco vezes. Cruyff, Platini e Van Basten foram eleitos três vezes cada.

Para quem viu o argentino levar a melhor na última vez deve ter sido um alento. E vale lembrar que Cristiano Ronaldo está também entre os três que disputam o prêmio de melhor do mundo da FIFA, ao lado de Messi e Antoine Griezmann. O vencedor será anunciado no início do mês que vem. Campeão da Copa dos campeões da Europa e da Eurocopa, até então inédita para Portugal, difícil dizer que não é a hora dele.

Muito se diz do gajo, que tem uma história de vida daquelas e uma vaidade que parece maior que o mundo. Mas não dá pra não  reconhecer o alto nível físico e técnico que atingiu e que , incrivelmente, vem mantendo há muito tempo. E por isso os que não escondem de ninguém que querem chegar lá devem o ter como personagem no qual se espelhar. 

Diria que a hora é dele, sim. Mas sabe como é... temos aí um detalhe: uma vez separados, o Bola de Ouro é escolhido apenas por jornalistas, e o Melhor do Mundo da FIFA por votação popular, por jornalistas e pelos capitães e técnicos de seleções. O que pode revelar que a preferência de alguns não seja a mesma de outros. Mas se não fizerem disso uma simples questão de gosto...dará Cristiano Ronaldo! Não acham?

sábado, 10 de dezembro de 2016

Essa é do Brasil pós-Copa


Não que o CADE seja rápido pra resolver grandes questões. Os mais atentos irão lembrar que o órgão demorou quase uma década e meia para decidir sobre como deveriam ser negociados os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. E, ainda assim, quando decidiu levou um drible daqueles e nada fez para que o que tinha sido decidido fosse respeitado. 

Pois o nosso Conselho Administrativo de Defesa Econômica recentemente firmou um acordo de leniência com a Construtora Andrade Gutiérrez. Acordo no qual constam detalhes sobre a formação de cartel entre as empreiteiras para fraudar licitações referentes a construção e reforma de estádios para a Copa do Mundo. 

É dessas leituras que "espantam" por, no fundo, não nos causar espanto. Como tanta coisa que anda sendo revelada sobre nosso futebol e sobre nosso país. Claro, como poderíamos nos espantar?Vivíamos tendo essas revelações como parte da realidade. Só não havia fatos, comprovações. Trata-se da mesma sensação que nos tomou quando grandes dirigentes do mundo da bola acabaram em cana durante uma estada naquele luxuoso hotel da Suíça. 

Ou alguém duvidava que não era assim? Com tudo acertado antes. Com preços turbinados pra poder dar conta de pagar todo mundo. Jamais bastou dizer que era só comparar o preço dos estádios que estavam sendo erguidos por aqui com outros erguidos ao redor do mundo. Isso sem falar em todas as benesses, todas as isenções. Até o aço e o cimento das Arenas os envolvidos quiseram trazer com subsídios. 

E pouco se fala sobre o que está sendo acordado.Seja na esfera esportiva, política, ou outra qualquer. O que foi tratado não teve contestação. Terá sido coisa tão equilibrada e legítima assim? Ou nossos homens de bem estão perto de fazer nosso país, além de tudo, passar a ser visto como o país em que o crime passou a compensar? Ao menos para os que têm bons advogados. Aos que ostentam cacife pra jogar esse jogo.


* Leia matéria de Pedro Lopes e Vinicius Konchinski sobre o assunto:
http://bit.ly/2hjlp5K


    

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Outra do Brasil pós-Olimpíada

Basta ler o primeiro trecho da matéria de Aiuri Rebello e Guilherme Costa, do UOL, São Paulo.
A sensação que fica é a de que tudo é mesmo uma esculhambação.

Trecho:

O TCU (Tribunal de Contas da União) encontrou irregularidades em pelo menos 61% das verbas públicas destinadas ao esporte brasileiro nos últimos três anos, em todos os níveis. Em relatório publicado na última quarta-feira (07), o órgão apontou uma série de problemas em repasses de Lei Agnelo/Piva e Lei Pelé feitos pelo governo federal a COB (Comitê Olímpico do Brasil), CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), CBC (Confederação Brasileira de Clubes) e dez confederações escolhidas por amostragem. Segundo o texto, de um total de R$ 337 milhões, pelo menos R$ 207 milhões são passíveis de devolução à União

A matéria completa pode ser lida aqui:
http://bit.ly/2h8wwOg 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O futebol sobrevive

Estou no meio de uma gravação. Olho da cadeira de onde estou sentado. Tenho à minha frente o ex-goleiro do São Paulo e da Seleção Brasileira, Waldir Peres, e ao lado dele, o ex-ponta-esquerda Zé Sérgio. A conversa segue. E ao mesmo tempo em que ouço o que está sendo dito minha cabeça me transporta pra um tempo em que eu era menino. Repentinamente a imagem do garoto que eu era se forma. O chute vem no alto, do lado direito. Sem pensar muito em atiro em direção à bola. Ao tocá-la a comprimo entre as duas mãos. Quando vem a certeza de que não irá mais me escapar solto o grito: Waldir Peeeres! Isso enquanto meu corpo desaba no chão de cimento da garagem do velho prédio em que morávamos castigando um pouco mais meus cotovelos. Não há dor nisso, nada. 

Quando volto ao papo decido dividir com eles o que em mim se revelou como uma dúvida: será que as crianças hoje em dia ainda gritam o nome de alguém na empolgação inocente que o futebol costuma provocar? Para dar sentido ao que está sendo dito explico a razão da pergunta. Falo da minha mania de moleque de gritar os nomes dos jogadores que eu gostava, e que não era só o nome do Waldir que me saltava da boca. O de Zé Sérgio também. Mas é bem verdade que minhas escapadas pela ponta eram bem menos brilhantes do que eu conseguia ali embaixo da trave, ou na maior parte das vezes entre um chinelo e outro mesmo. 

É, mas o mundo girou e o tempo já não me dá o direito de saber - e muito menos desfrutar - do que podem as crianças hoje com uma bola nos pés. Hoje só me é dado descobrir as emoções de quem flerta, muito de perto, com meio século de vida. E se isso vem à tona agora nesta linhas é em razão de tudo o que vivemos nos últimos dias, em razão de uma tragédia ter inundado de lágrimas a página mais bonita que o futebol brasileiro escreveu nesta temporada. E que ao dilacerá-la revelou uma face do futebol que andava escondida e que eu, com minha descrença, dava até como perdida. A face que faz desse jogo de regras simples um catalisador da nossa emoção. Que nos permite comungar com quem nunca vimos, que nos permite sentir a dor de alguém que sequer conhecemos. 

Um jogo que desde sempre se alimentou de emoções profundas, honestas, e que ao dar de cara com essa combinação já rara, se agiganta. O vivido deixa entre tantas lições a de que o futebol segue entre nós com sua alma intacta. Dependendo, como sempre, do homem, de boa intenção, de ser tratado com nobreza. Oportunistas existirão sempre. Gente que se contenta com o universo medíocre dos resultados idem. Gente que se nega a vestir a cor do rival. Mas enquanto houver aqui, ali e acolá, um menino voando em direção a uma bola, com um sorriso estampado no rosto gritando o nome de alguém que o faça sonhar... o futebol sobreviverá. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Palmeiras: brilhante e regular


É fácil entender a razão que levou o Palmeiras ao título: não ter dado mole para o azar. Ou mais catedraticamente falando,mostrar em campo uma regularidade que passou longe de todos os outros times. Em especial do Santos que, no final das contas, se viu no papel de ser o grande desafiante da esquadra palmeirense. E que se não conseguiu levar às últimas consequências essa possibilidade foi justamente por não ter demonstrado tal virtude, a de ser regular. 

Mas mesmo sem ela a temporada do time da Vila Belmiro obteve o reconhecimento do torcedor, que não costuma fazer isso diante de qualquer situação. E é bem possível que esse contentamento venha do fato de o futebol da equipe santista ter se imposto como dos mais vistosos entre todos os que vimos ao longo desta temporada.  E até pelo time ser dono desse tipo de jogo explicar a falta de brilho de algumas apresentações do Santos se revelou também um desafio. Talvez estejamos diante de um time dono de um tipo de futebol que depende muito da inspiração e quando ela não vem a coisa engrossa. 

Não que eu ache justo o veredicto que anda aí exposto de que o time do Palmeiras não apresentou um futebol de encher os olhos. Digo que aceito tal colocação, mas como um crítica do conjunto. Ainda assim seremos obrigados a reconhecer que só um conjunto que funciona pra valer alcança a tal regularidade. E individualmente, há brilho sim. Afinal, estamos diante do Palmeiras de Gabriel Jesus, que mesmo que não tenha causado o mesmo arroubo depois de um certo momento mostrou-se virtuoso. O Palmeiras de Zé Roberto, que pode já não ter o fôlego ideal em lances que exijam certa explosão mas que sabe das coisas. O Palmeiras de Yerry Mina, Jaílson e por aí vai. 

E não custa lembrar como esse elenco palmeirense era visto quando Cuca baixou na Academia. Um elenco que de tão grande e diverso afirmavam ser impossível de administrar. Um elenco sem um miolo, sem um time definido. Tarefas que Cuca tomou pra si e cumpriu com louvor. E ao levar em conta o destino do treinador, apresentado no último mês de março, até no tamanho do contrato ele acertou. Seja por uma questão pessoal que o impediu de continuar, ou tivesse sido por uma proposta surreal da China, a verdade é que no lugar dele outros poderiam ter crescido o olho e batido o pé por um contrato maior, já que dinheiro não tem sido há algum tempo o problema do Palmeiras. Mas Cuca ao chegar assinou só até dezembro deste ano. Portanto, se despede sem viver o que é quase uma regra entre aqueles que ocupam esse tipo de cargo: dizer até mais sem ter cumprido o contrato até o fim. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Meus sentimentos...

... a todos os atingidos pelo acidente.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Fidel - por Eduardo Galeano


Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.
E nisso seus inimigos têm razão. seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo. E nisso seus inimigos têm razão.Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes. E nisso seus inimigos têm razão.
Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.
E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.
E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia a la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar.
E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.
E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha.
Do livro "Espelhos, uma história quase universal", tradução de Eric Nepomuceno. Publicado no site Outras Palavras.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Olhando a tabela do Brasileirão!

Tive a impressão de ter ouvido em algum momento que as últimas três rodadas do Brasileirão deste ano teriam todos os jogos disputados no mesmo horário. Recorri ao Google e nada encontrei que amparasse isso. Mas encontrei lá uma notícia de 2010 anunciando que nas das últimas rodadas os jogos do Brasileirão daquele ano seriam todos no mesmo horário. Se foram mesmo...a ver. 

Mas não foi este ano que andamos para trás. Nos anos que se seguiram a 2010 esse cuidado se deu só na derradeira rodada. E, de cara, quando olho a tabela isso me causa incômodo. Botafogo e Corinthians disputam uma vaga na pré-Libertadores, por exemplo. E o que se dará? O time carioca entrará em campo uma hora antes de seu adversário direto. É um detalhe, é! Mas não é certo.

Os menos chatos do que eu dirão que os jogos-chave estão posicionados no mesmo horário. E eu vos digo: o que são exatamente jogos-chave? Dizer uma coisa dessa é como aquela chamada que anuncia o jogo mais importante da rodada. Jogo principal pra quem, ô cara pálida?, seria o caso de perguntar. A importância depende do coração de cada torcedor.

O Internacional, por exemplo, estará em campo às cinco da tarde do domingo. Vai receber o Cruzeiro, no Beira-Rio. O time colorado tem três pontos a menos do que o Vitória, que está uma posição à frente, e neste momento é o primeiro time fora da zona de rebaixamento. Mas o Vitória só entrará em campo ás oito da noite. O que pode significar ter de lidar, além de tudo, com a pressão exercida por uma possível vitória do Inter. Ou com a "tranquilidade" de saber que o Inter não venceu.

E assim vamos. O Grêmio, outro exemplo, só quer saber da Copa do Brasil, certo? Certo. Mas vamos supor que o Botafogo perca e o Corinthians também. Então, uma vitória poderia colocar o time gaúcho entre os seis primeiros, e esse pode não ser o objetivo do time, mas saber que se, de repente, algo der muito errado na Copa do Brasil, ainda haverá a possibilidade de chegar à Libertadores pelo Brasileirão não deixa de ser confortante. E se os resultados de Corinthians e Botafogo por ventura acontecerem o Grêmio estará sabendo, pois só entrará em campo às sete e meia da noite do domingo.

Colocar todos os jogos no mesmo horário seria um problemão para a grade de programação da TV ? Sim, mas nem tanto. Conteúdo para ser exibido existe. Do que não se abre mão nesse caso é da possibilidade de tirar o máximo proveito do produto comprado. Ainda pra que isso seja preciso deixar o futebol brasileiro um pouquinho menos justo.               

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Hoje é dia de Cartão Verde !


E o nosso convidado  é o presidente do Santos FC, Modesto Roma Júnior. Pinta lá na área pra fazer uma tabelinha com o nosso time! Entramos em campo às 22 hs, ao vivo, na TV Cultura.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

São Paulo FC : A vez de Rogério Ceni?

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

De todas as impressões que trago comigo sobre a temporada do São Paulo a que alimento com mais convicção é a de que ela acabou até ofuscando um pouco o belo momento vivido pelo jovem Rodrigo Caio. Mas é só uma observação. Pois o assunto que se impõe no tricolor paulista é a possível chegada do ídolo, Rogério Ceni, para ocupar o lugar deixado por Ricardo Gomes, demitido hoje.

Ouvi gente por aí falar no Rueda, atual treinador do Atlético Nacional. Embora não conheça seus métodos detalhadamente, pela trajetória que vem construindo soa como um ótimo nome. Erro seria fechar as portas para um profissional de fora depois de o clube de ter vivido tudo o que viveu ao optar por Osório, e mais tarde por Bauza. Sigo considerando olhar para além das nossas fronteiras uma virtude. 

Com relação à chegada de Rogério Ceni, considero o momento inoportuno, não só pela rapidez com que se dará a volta, mas principalmente pelo fato de acreditar que, em qualquer profissão, pular etapas envolve um risco considerável. No entanto, Rogério conhece profundamente o universo do futebol, e mais ainda o clube com o qual esteve envolvido desde sempre. 

Diante da mínima possibilidade de ter sido lembrado porque - além de tudo o que sabe - ajudaria a acalmar a torcida, ou porque enxergam nele uma espécie de trunfo político, deveria cair fora. Até nisso o passar do tempo seria bem receitado. Escolhido em outro momento poderia se livrar de qualquer dúvida do tipo e, penso eu, estaria mais propenso a pensar em um São Paulo realmente modificado, que já não tenha nada a ver com o São Paulo que ele deixou ainda há pouco.              

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sobre mídia, representação política e... literatura !



Submissão, o último livro de Michel Houellebecq, já pintou aqui no blog como dica de leitura. É realmente provocadora a sensação que toma o leitor mais atento ao cenário político-cultural francês depois  de percorrer estas páginas. Houellebecq faz uma trama  ficcional, mas a situa tão perto temporalmente que acaba criando em nós uma tensão nascida do fato de nos fazer perceber que toda aquela realidade imaginada é factível. 

É  interessante também como o personagem principal - de início tão refratário aos acontecimentos - vai se deixando seduzir pela nova realidade que se apresenta. E como se não bastasse há o fantasma da direita extrema...tão real. Houellebecq esteve no Brasil dias atrás. Em entrevista para a repórter Úrsula Passos falou sobre a relação que mantém com a mídia e sobre um certo vácuo deixado pelos políticos. Palavras que dão a impressão de refletir uma realidade que parece nossa também. Leia abaixo um pequeno trecho da conversa. 


***

Por que a crítica estrangeira lhe tece mais elogios do que a francesa?
Eu reconheço que o ódio entre mim e a quase totalidade da mídia francesa é tão forte que se tornou inexplicável para mim. É um mistério. Bem, não que seja mesmo um mistério, mas quando discutimos há, por vezes, um tal nível de violência que nada se entende. Eu não sei como chegamos a isso, mas nos detestamos, eu e a mídia francesa. De verdade. Sinceramente, isso é muito forte. Talvez haja erros dos dois lados.
Mas do seu lado, por que esse ódio?
Eu já insultei muitos jornalistas e jornais –e fui muito insultado por eles também. Isso foi crescendo e já dura cerca de 20 anos.
E no entanto o senhor continua muito lido na França.
Essa é uma das vantagens de ser insultado pela imprensa, porque a população odeia a imprensa, então as pessoas estão do meu lado. Há uma relação muito ruim entre a mídia e a população.
E por que os franceses odeiam tanto a mídia?
Porque a mídia fala sempre a mesma coisa, é irritante, é tudo formatado, é pura propaganda centrista. Mas os franceses detestam também os políticos, detestam os juízes, detestam, na verdade, o poder. Fala-se muito da Frente Nacional, mas a progressão da Frente Nacional ainda é menor que a das abstenções nas eleições. A primeira escolha é a de se abster.
Os franceses participam cada vez menos da vida política...
Sim, eu não sei desde quando, mas nos últimos tempos se tornou uma coisa impressionante. Os franceses não se sentem representados, não sentem que algum partido os represente. O problema não é a corrupção –claro, quando há um escândalo isso não ajuda–, mas no geral os políticos franceses são menos corruptos do que em muitos outros países. A causa são mesmo os atores políticos e o que eles propõem. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Tite, o encantador de serpentes?


A imagem foi sugerida pelo zagueiro Lugano, do São Paulo, ao falar sobre Tite, o técnico da seleção. O depoimento foi gravado para o programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, que irá ao ar amanhã. Poderia reduzir o que foi dito pelo uruguaio como um erro de avaliação. Fica essa primeira impressão, seguida de outras menos nobres. Mas se levarmos em conta o futebol e o estilo de Lugano dá até pra entender a razão de tal predileção. Reconheço que a primeira passagem de Dunga pelo comando do time nacional merece respeito e que Tite precisará trabalhar muito bem pra conseguir uma igual em matéria de conquistas. Mas, resultados à parte, há muitas outras coisas das quais nosso futebol anda carente e que Tite parece infinitamente mais preparado para proporcionar.