quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Perdendo a cabeça



É difícil imaginar qualquer arte sem um mínimo de improvisação. E nem sonho que o futebol um dia volte a ter a alma do jazz, por exemplo, em que a improvisação lhe cumpre quase o papel de alma.  Não estranhe se digo que seria uma volta pois estou convencido de que o jogo de bola um dia foi exatamente isso. O que deve ter se dado para valer quando os espertos ainda não tinham visto nele uma mina de dinheiro. Mesmo depois disso o futebol não deixou dúvida de que tinha esse dom preservado. Ou alguém aí imagina que um Garrincha se dava ao trabalho de ensaiar seus dribles antes de aplicar os mesmos com cruel severidade. Os mais doutos talvez façam questão de me lembrar que o homem das pernas tortas  tinha consigo um repertório de dribles ate limitado, coisa com a qual estou inteiramente de acordo. Mas seria descabido afirmar que não era capaz de usar cada um deles com a riqueza que um músico como Miles Davis era capaz de tratar certos esquetes, dando-lhes uma aura de frescor e ineditismo. Renovando-os de tal forma que o público jamais se cansava deles e jamais ousaria interpretar os tais como mera repetição. 

Se já andamos dando de cara até com jogador que se recusa a comemorar um gol, o que estaria faltando?  Nunca me convenci do argumento, por exemplo, que justifica dar um cartão amarelo para o jogador que depois de viver um dos momentos mais esperados do futebol decide tirar a camisa. Claro, o patrocinador não quer numa hora dessas ser colocado para fora da festa. Ocorre que praticamente sempre que o autor de uma proeza dessa natureza é perseguido pelas lentes no instante seguinte, seja para uma foto ou para uma filmagem, está cercado pelos companheiros, todos vestidos,  o que de alguma forma garante a não exclusão de quem pagou para colocar a marca no uniforme. Se um dia todos eles resolvessem comemorar de torso nu a história mudaria de figura. Aliás, falta até hoje uma boa matéria com os jogadores explicando mais profundamente a simbologia desse ato de tirar a camisa.  


Quando no último sábado o jogador do Ceará Samuel Xavier pra comemorar um gol  foi em direção à sua torcida e ao dar de cara com o mascote do time cearense lhe roubou a cabeça da fantasia para extravasar toda sua alegria, por um momento imaginei que alguém tinha, enfim, conseguido driblar a caretice. Que ingenuidade a minha. O árbitro não tardou a mostrar-lhe o cartão amarelo.  Colocou o mascote em risco ? Ora, só se ele não pudesse ter a identidade revelada. Excluiu o patrocinador do momento? O árbitro diria depois, citando a regra, que ele cobriu a cabeça. Mas a regra deve ter sido pensada para casos em que se usa uma máscara. O que poderia virar manifestação política.  Em última instância o dono do apito puniu foi o improviso, tão raro, tão capaz de dar outro sentido às conquistas. De quebra diminuiu um pouco a chance de algo novo se dar aos olhos daqueles que insistem em assistir a um jogo de futebol. Estamos fadados, pelo visto, aos dedos apontados para o céu com olhar de súplica, aos dedões na boca imitando chupetas, àquele gesto de ninar ou, pior de tudo, aos coraçõezinhos esboçados com indicadores e polegares.  Resta torcer para que o futebol  vez ou outra faça a boleirada esquecer a regra, perder a cabeça.  

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O teor das entrevistas


Não sou velho mas sou do tempo em que um jornalista que ia a um treino de futebol tinha liberdade para escolher onde queria ficar e o jogador com o qual gostaria de falar. Contando assim pode dar a impressão de que foi quando Charles Miller pintou por aqui com uma boa de futebol debaixo do braço, mas essa era a realidade que se dava há menos de três décadas. E não houve gritaria capaz de impedir esse distanciamento entre a imprensa e os personagens do esporte  mais popular do nosso país. Em última instância não seria exagero dizer que a liberdade de imprensa tão reivindicada nos tempos atuais, em matéria de futebol, foi mandada pra escanteio. 

Logo, não deve causar espanto que as entrevistas concedidas com a intenção de saciar a necessidade dos veículos de comunicação venham cada vez mais revestidas de um linguajar previsível, quase cartorário. E como se não bastasse essa formalidade, essa comunicação de viés antes de tudo institucional, passamos a viver a sob a sombra do que se convencionou chamar de politicamente correto. Mas eis que outro dia dei de cara com uma declaração surpreendente, do tipo que não sobreviveria a peneira das assessorias e seria duramente reprovada em qualquer midia training, que pra quem não sabe é como uma simulação do contato de atletas - e profissionais em geral - com a imprensa. Cria-se a atmosfera de uma entrevista e ensinam como se comportar e o que dizer durante essa situação. 

A declaração de que falo passou despercebida. Foi dada por um dos nadadores brasileiros mais promissores da nova geração, Vinicius Lanza. Quando o repórter lhe perguntou a razão de ter se tornado nadador Lanza esbanjou sinceridade e disse: " Minha família tem tradição em pescaria. Os caras gostam de tomar uma na frente do rio e pescar. Então, meu pai, por segurança, me colocou na natação porque muitas vezes ele está só comigo no barco, foi uma forma de proteção mesmo. Tomei gosto pelo esporte, mostrei talento e fui levando. Já são dezoito anos nadando e estou feliz de estar chegando onde sempre sonhei". Lanza, que tem vinte e um anos, é a principal aposta do Brasil na natação para os Jogos Olímpicos de 2020. Por ínfimos cinco centésimos não esteve nos Jogos do Rio disputando os cem metros borboleta. 

Duas coisas merecem ser ditas. A primeira é que não foi por acaso que uma declaração sincera assim tenha se dado fora do futebol. Esse cerceamento pode até ser , de certa forma, algo que valha para todos os esportes que produzem personagens de apelo midiático, mas é infinitamente mais presente e duro no principal esporte do nosso país. E isso o empobrece. Quando se cobre outras modalidades a velha relação repórter atleta ainda é visivelmente mais intacta nesse sentido. E é óbvio que ela não traz só perigos. Rever essa relação de certa forma poderia humanizar um pouco mais o futebol, que anda tão profissional.  Quando o profissionalismo é do interesse dos que mandam nele, obviamente. Mas a segunda questão se faz ainda mais importante. O ensinamento maior que as palavras de Lanza revelam é a confirmação de que a chance da prática esportiva deve ser dada a todos.  O resto o esporte se encarrega de fazer. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

No embalo de Gabriel !


O Santos estará em campo hoje à noite para encarar o Grêmio, no Pacaembu. Mas fiquem tranquilos, não vou voltar a falar sobre a escolha do lugar do jogo. A bela vitória sobre o Vasco, em pleno Maracanã, sem dúvida terá feito do time dirigido por Cuca um tanto mais cascudo. E Gabriel a figurar entre os goleadores do torneio, depois de todo o bafo da arquibancada que andou sentindo, é motivo dos bons para o torcedor santista crer que é possível sim encarar o esquadrão de Renato Gaúcho. Não sei se é o caso de dizer de igual pra igual porque faz tempo que o tricolor gaúcho anda se mostrando diferente de tudo, mesmo quando se dá ao luxo de não levar a campo todos os titulares. 

Uma coisa o santista pode comemorar de antemão: o fato de Tite ter tornado impossível a presença de Everton no time gaúcho. Tem dado gosto ver o rapaz em campo.  O jogador do time gaúcho anda num momento desses raros, cuja prova maior é conseguir desenhar jogadas até certo ponto previsíveis, sem que seus marcadores  consigam, no entanto, evitar que ela seja concluída de maneira fatal. Mas essa não é a única pista que Everton nos tem dado de seu grande talento, ou grande fase, vai saber. Fato é que ele tem conseguido também ir muito além, se revelando ao mesmo tempo o contrário disso, aquele tipo de jogador capaz de finalizar um lance de maneira tão complexa e improvável que o marcador ao dar de cara com a bola na rede fica com uma cara de quem diz: como é que ele fez isso? 

Se o nobre leitor quiser um exemplo claro do que estou tentando dizer, caso não tenha na memória, é só ir buscar por aí o gol marcado por ele diante do Fluminense. Mas a euforia santista há de encontrar amparo também neste momento muito além da ausência de Everton. E não estou falando do fato de o time santista ter quebrado um belo tabu, ao  conseguir vencer o Vasco no Maracanã pela primeira vez desde os idos de 1969, quando Pelé marcou por lá o lendário milésimo gol. Isso pode não passar de um mero detalhe, mesmo porque há quem sustente que o milésimo gol do rei não foi aquele. A euforia santista pode se amparar na crença de um certo efeito contagiante que o bom momento vivido  por Gabriel pode ter. Ele é, de longe, o jogador de quem mais se espera aquele sempre bem vindo poder de desequilibrar partidas. Mas nomes como Bruno Henrique, Rodrygo e até Pituca e Dodô podem aproveitar a onda e engrossar o caldo. 

A perversão do momento é que uma arrancada agora pode deixar pairar no ar a impressão de que tudo vai bem na Vila Belmiro e isso qualquer torcedor atento sabe que não é verdade. Quando dias atrás o técnico Cuca, depois de dizer algumas verdades não encontrou amparo nem nas declarações do ex-executivo de futebol, Ricardo Gomes, e ainda ouviu o presidente do clube dizer em resposta que ele "cuida do time" , talvez não tenha imaginado o quanto seria bom que essa distinção ficasse bem clara, e que tenha sido feita pelo próprio mandatário. O desconforto inicial de Cuca, imagino, deve ter se traduzido em alívio, pois estes dias que correm têm deixado muito claro que o time anda bem melhor do que o clube.   

* artigo escrito para o jornal " A Tribuna" , de Santos

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Eu sou mais a Vila !


Não sou um romântico. Bom, talvez seja. Mas a questão de fundo não é essa. Faz tempo que o Pacaembu é tido como um caminho natural para o Santos. Tô pra conhecer alguém que não se derreta pelo charme dele. Eu mesmo sou um apaixonado confesso. Ainda outro dia estive lá para um compromisso profissional no meio da semana. Era um dia de céu azul, sem jogo, desses que só agigantam a beleza do velho Paulo Machado de Carvalho. Não resisti. Fiquei ali admirando o espaço sem cansar. Reinava um silêncio desses estrondosos, do mesmo tipo que se costuma encontrar em certos templos. 

No Pacaembu tudo  parece tão exato que só de ouvir falar de concessão, privatização, não tarda a bater em mim um certo temor. Tenho grande dificuldade para entender como será possível gastar ali, em nome da modernidade, um sem fim de milhões sem lhe roubar a alma. Como outros apaixonados acho que se alguém quisesse realmente fazer alguma coisa pelo Pacaembu deveria pensar em implodir o Tobogã e deitar-lhe novamente no ventre a saudosa concha acústica. Mas mesmo enredado em todo esse feitiço ainda defendo que o lugar do Santos é na Vila Belmiro. Estou consciente, no entanto, que faço parte de uma minoria absoluta. 

Não me entenda mal, eu também acho que o Santos precisa jogar em São Paulo. Precisa faturar. Expandir a marca. Sou capaz de compreender todos esses argumentos. Mas considero longe do ideal a forma como o tema tem sido tratado. Será difícil me convencer, por exemplo, que o fato de o time ter conseguido duas vitórias seguidas no Brasileiro não tenha na fórmula um pouco da mística da Vila. Que time bom ganha em qualquer lugar eu sei. Mas aí o time ganha as duas, ganha confiança, e tem de sair pra fazer um jogo importante fora. Injustiças à parte, onde seria mais factível vencer o Independiente por três a zero? 

A escolha pelo viés financeiro não se ampara. Chegar às quartas de final significaria faturar pouco mais de três milhões de reais, quando a renda do jogo não deu um milhão. Tanto se fala sobre os deslocamentos que cansam os times, da logística, coisa e tal. Aí na hora de enfrentar os argentinos permitem que eles desçam em São Paulo e lá fiquem. Ora, por que não fazer o adversário descer na capital e ter de enfrentar outra viagem, encarar o trânsito complicado e desgastante de São Paulo, descer a serra, quem sabe dar de cara com uma operação comboio, que vira e mexe faz Santos parecer tão distante quanto Barretos? 

Sem contar que com uma estratégia bem pensada, com jogos bem escolhidos, talvez a mística do Alçapão - em que não tardará o dia em que só eu irei acreditar - poderia ser potencializada. E quando se pergunta à boca pequena pro elenco  fica difícil encontrar uma voz que lhe diga que não prefere atuar na Vila. É claro, não fiz toda aquela declaração de amor ao Pacaembu no início à toa, fiz para tornar evidente que nenhum estádio, em tempo algum, será igual a outro.  Logo, dizer que jogar na Vila , ou fora dela, tanto faz, ou será uma inverdade, ou será uma maneira velada de não admitir o seu papel e sua história.  

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Torcedor de cátedra


O saudoso Zé do Rádio era, sem dúvida, um torcedor de cátedra

Gosto do papo cotidiano sobre futebol. Nem sempre educado. Quase sempre temperado de palavrões. Com o alcance brutal das coisas despidas de meias voltas. Outro dia dei de cara com o maior filósofo corintiano que conheço. Cabra simples. Mas que tem o time sempre muito bem pensado na cachola. Depois do boa tarde fui tirando uma onda. Disse ter percebido que nos últimos tempos ele tem evitado aparições nas rodas em que a conversa sobre futebol costuma correr solta. O sujeito teimou que não era nada disso e, sem perder tempo, foi soltando as pérolas que trazia consigo. Palavras dele, literais: tamô sem time, tamô mal, esse ano não vamô ganha nada. Mas... sei lá! Diz pra mim não é de cair o queixo? Nesse sei lá caberia o mundo, a costura de mais mil prosas. E o arremate ainda veio com aquele verniz opaco na forma de um aviso, o de que desde sempre o time dele tratou com essa condição de desacreditado. 

Não tardou e, no dia seguinte, ali na praia, água de cocô na mão, não dei de cara com o Cláudio que lá trabalha, são paulino, que entre um golpe e outro na casca dura da fruta deve andar com um sorriso no rosto que não se via há dezenas e dezenas de rodadas. Mas é bom que se diga que se trata de simpatia rara, dessas que jamais foi ameaçada pela fase dura que o time do Morumbi atravessou. E só um tricolor pra saber como o verbo no passado posto aqui soa como sinônimo de alívio. Devia-se, aliás, cunhar a expressão torcedor de cátedra. Pois nesses tipos é ela que cabe. Nos dias atuais em que a interpretação do jogo é banhada em números e afins os que ainda sabem destilar o bate bola usando como receita uma precisa combinação de coração e vivência e nada mais deveriam sair por aí dando aula. 

Agora mesmo deixei o lugar em que costumo almoçar e pude provar o gosto que o senhor Luiz Felipe Scolari anda dando aos palmeirenses. Entre o tempo que a máquina levou pra ler o código de barras da comanda e o rapaz me perguntar se queria o CPF na nota ouvi o avesso do que sugeriam artigos na internet e as matérias de jornal que tinha acabado de ler. Todas fazendo questão de lembrar que o Palmeiras  conquistar o Brasileirão a essa hora tem algo de quimera. Aí está o lance, o torcedor faz pouco caso do óbvio. É preciso entender essa lição. E olha que o papo desprezou os gols do Deyverson e as evidências de que Dudu está voltando  a ser aquele. O foco estava lá na frente. O encontro com o Botafogo - que o time tinha ontem à noite - era só uma breve escala.

Era dar conta dele e partir pro embate com o Inter no domingo. Ponderei que o time Colorado andava bem. Que estava dando um jeito de deixar o Beira-Rio lotado e que tudo indicava que guardava para o solene momento a estreia do atacante Guerrero. Ouviu tudo aquilo com o semblante de quem ouve um número de protocolo numa ligação de telemarketing. A teoria era: ganhar do Inter e aí segura, e ponto. Mas e o Beira-Rio, lotado? E o Guerrero esfregando as mãos pra brilhar na estreia? A réplica foi curta. Se esse ano já ganharam até na Bombonera não faria sentido nenhum ver temor nisso tudo. A gente sempre pode discordar. Arrisco até dizer que na maior parte das vezes em papos de futebol se faz isso só de picuinha. Mas isso é coisa para um torcedor de cátedra não pra um jornalista de carteirinha como eu. Bom, aí ele me deu boa tarde e foi cuidar da vida com cara de quem está louco pra ver o que vai dar domingo. 


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

E aí, o Santos cai ?

Nos últimos dias a pergunta que mais ouvi foi aquela que o torcedor santista, se não ouviu, talvez tenha proferido. E aí, o Santos cai? Os homens que comandam o clube, se já não estão, deveriam ficar de cabelo em pé. O motivo é óbvio: o simples fato de a questão andar nas cabeças e nas bocas  torna evidente o momento preocupante que o time atravessa. Não tardará para que alguém lembre que situação parecida o torcedor santista viveu na temporada passada quando ao fim dela acabou garantindo essa vaga na Libertadores. Vaga que Cuca e o elenco terão de defender na próxima semana encarando o Independiente, em Avellaneda. 

Tratar a temporada anterior e a presente como se fossem iguais pode ser fatal. A reflexão que faço é a seguinte, mas pra chegar até ela é preciso driblar certos dogmas porque quando se trata de futebol a impressão que tenho é a de que é muito raro que um clube preste tire lições da história vivida por um outro. O que não deixa de ser um dos muitos sintomas pouco nobres causado pela rivalidade.  Mas há sim um sem fim de exemplos que poderiam ser lembrados. Um deles, por exemplo, é o de que o Palmeiras em uma das vezes em que foi castigado com um rebaixamento era visto quase de maneira unânime como um time que não daria ao torcedor esse imenso dissabor. Diziam aqui e acolá: não é time pra cair. Pois caiu! 

Mas o grande  exemplo pra ser levado em conta na minha opinião é o do atual líder do Brasileirão, o São Paulo, que acaba de voltar a figurar na ponta da tabela depois de cento e quarenta e três rodas longe dela.  O calvário vivido pelo tricolor nos últimos tempos não foi, na minha visão, predominantemente técnico. Esteve em muitas ocasiões, inclusive, bem distante disso. Foi, antes de qualquer outra coisa, uma requintada mistura de elencos que não deram liga com um momento político conturbado, de administrações equivocadas e decisões desastradas. É possível que um time esteja acima de tudo isso? Certamente é. Mas o normal é que um certo caos político torne tudo muito mais difícil. E para embasar a urgência do momento poderia citar aqui várias notícias que andam preocupando os torcedores do time da Vila. Nesse sentido, não pode haver sintoma mais agudo do que um mandatário - em um brevíssimo espaço de tempo - ver cair por terra a convicção de boa parte daqueles que o ajudaram a se eleger. 

A falta de apoio é corrosiva e a nossa realidade nacional tem feito questão de nos lembrar isso dia após dia. A legitimidade é coisa impossível sem o voto, mas em geral precisa ser mantida com certos preceitos que estão além dele. E que não se enganem os que têm o dever de colocar o Santos em bom caminho porque a história que têm nas mãos só será honrada com algo que vá além daquele sentimento de salvação e alívio que costuma tomar o peito de quem se afasta de uma zona de rebaixamento. Posso até cometer a quase imprudência de dizer: não cai. E se digo quase imprudência é porque ao pé da letra ninguém está à salvo do purgatório do descenso. Agora, se algum dos envolvidos com o time santista a essa altura dos acontecimentos em sã consciência anda pensando assim eu retiro prontamente o que aqui vai escrito. E por hora mais não digo

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Fotografia - Ansel Adams


Denali and Wonder Lake, Denali National Park, Alaska, 1948











quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Os nossos guris

O Brasileirão tem neste momento mais que um artilheiro, tem um xodó. Pedro, o camisa nove do Fluminense, anda encantando todo mundo. E não é pra menos, tem dado gosto vê-lo em campo.  Mas a pergunta que me vem diante dessa constatação é como seria a maneira mais precisa de tratar alguém como ele. Não se trata de um dilema temporal, é uma questão de tratamento mesmo. Não sei se já notaram, temos uma tendência a nos referir sobre os talentosos descobertos, digamos, na flor da idade como meninos. Quando o peso de uma grande camisa muito provavelmente já os fez de algum modo maduros. E o interessante é que esse modo de trata-los costuma durar um bocado. 

O tempo vai passando, passando e o jogador em questão muitas vezes segue por anos sendo visto - e interpretado - como um jovem talento. Ora, que são todos jovens não resta dúvida. E, além do mais, para alguém na minha condição de nascido pouco depois do meio dos anos sessenta continuarão nessa condição mesmo quando estiverem à beira de pendurar as chuteiras.  Isso explica a razão pela qual não foram poucas as vezes em que percebi um espanto brotar no meio de certas conversas quando vinha à tona, por exemplo, a idade atual de Neymar.  Como assim vinte e seis anos?, disseram alguns. 

Dá pra compreender. Alguém que passa a fazer sucesso tão cedo e de modo quase sempre contundente tem a imagem fortemente fixada no imaginário do torcedor.  E até por desejo se quer que aquela  boa primeira impressão, aquela meninice, perdurem. E nisso somos privilegiados. Há décadas tem sido parte da nossa história ver meninos de dezessete anos fazendo chover com a bola nos pés. Está aí o Rodrygo, do Santos,  para servir de amparo à minha teoria. Tão precoce e ao mesmo tempo tão capaz de dar conta da responsabilidade de ser o que o time da Vila Belmiro tem tido de mais alvissareiro nesta temporada. Na idade dele, dezessete, não há margem pra dúvida, pode chamar de menino, não tem erro.

Já no caso de Pedro, com suas dezenas de jogos pelo time profissional do time das Laranjeiras e seus vinte e um anos, é possível enxerga-lo como um profissional quase pronto no que diz respeito às potencialidades.  Ser maduro é outra coisa. E se o tema aqui se impôs, serei sincero, foi também como pretexto para encher a bola dessa garotada que de algum modo tem salvado o futebol brasileiro da modorra. Rodrygo, Pedro e também o corintiano Pedrinho, que bem poderia - pelo futebol que tem - ser chamado de Pedrão, são provas cabais de que há sim como driblar a falta de beleza do jogo, como lhe dar outra vida. 

E o mais cruel de tudo nem é o fato de que os caminhos usados pelos mercadores do jogo de bola muitas vezes não tenham o talento no sentido mais puro como principal requisito, mais cruel é saber que tudo isso nos condena a ver esses meninos em breve fazendo não a nossa alegria, e sim a de torcedores do outro lado do Atlântico.  E na ausência desse jeito de tratar a bola, na ausência desse arroubo que só a meninada é capaz de provocar, normal que o futebol brasileiro carregue consigo um certo ar de ultrapassado, quase velho.  

terça-feira, 31 de julho de 2018

Felipão, Cuca, Neymar !




Desde aquela velha questão, pra sempre sem resposta, que nos incita a dizer se técnico ganha ou não ganha jogo até as mais elaboradas e modernas teorias sobre o papel e a importância deles há a realidade nua e crua a se impor sobre o assunto. Falo de algo evidente,  o fato de que mesmo contra a vontade deles muitos são vistos como um remédio infalível para aplacar certas dores de barriga. Em suma contrata-se , acima de tudo, a figura, o personagem. Daí vir a ser normal que os mais indicados para esse tipo de uso tenham perfil disciplinador, personalidade forte. E como não é possível adequar tudo, boa parte das vezes, o contratado não se mostra afinado com a proposta de jogo e de administração que o clube vinha praticando até a chegada dele. 

Na minha modesta opinião talvez esta seja a melhor forma de explicar a contratação de Luiz Felipe Scolari. Não se trata de dizer se esse tipo de escolha dará resultado. Até porque, ao menos por aqui, o remédio verdadeiramente infalível para todas as dores, inclusive as de cartolas e treinadores, atende por outro nome: resultado. É sabido que Scolari tem uma longa  história com o Palmeiras, mas é justamente essa história que explica e justifica o descontentamento e a desconfiança de parte da torcida alviverde neste momento. Estão lá guardadas no tempo as conquistas e seu peso enorme, como lá estão também muitos outros detalhes para se levar em conta, inclusive, aqueles que se deram além dos limites da própria Academia.


Mas se a contratação de Luiz Felipe Scolari tem entusiastas e descontentes a contratação de Cuca, para comandar o Santos pelo que senti fez a maior parte dos torcedores santistas respirar aliviada. A apreensão pelo anuncio do novo treinador só se agigantava  e tinha ares de temor. Ainda que seja preciso admitir, contudo, que a figura de Cuca tenha também certo ar medicamentoso. Na década que separa a primeira passagem dele pela Vila e esta volta Cuca se consolidou como um dos grandes treinadores do país. Conquistou a Libertadores com o Atlético Mineiro, o Brasileiro com o Palmeiras, foi trabalhar no futebol chinês. Mas quando passou pela Vila na primeira vez viu o time entrar na zona de rebaixamento logo depois da primeira partida e foi embora quatorze jogos mais tarde sem vê-lo sair de lá. Jair Ventura também parecia uma contratação certeira dirão os pessimistas. Mas seria imprudente não reconhecer que Cuca tem muito mais janela, está nitidamente em outro patamar. A semelhança reside apenas no fato de que uma vez mais ele chega ao time santista quando a situação exige um trabalho como um quê de salvamento. 


E o mesmo pode ser dito de Neymar que precisa ser salvo, urgentemente, dessa sequência de bolas fora que parece não ter fim. Sei que o jornalismo soa cada vez mais como um intruso no mundo do futebol, mas jamais vou considerar normal que alguém tido como o grande nome do futebol brasileiro na atualidade não tenha tido a hombridade, ou dignidade, de conceder uma entrevista coletiva até agora, quando já se faz tarde demais. Porque falar com a imprensa quando se está em um evento do próprio Instituto ou tentar dialogar com o mundo através de uma propaganda ou do Instagram é outra coisa. E visivelmente não é a solução. O remédio aliás, nesse caso, é um só também: jogar muita, mas muita bola. 

quarta-feira, 25 de julho de 2018

O reino do futebol

 
O reino do futebol profissional é impiedoso. Dado a fazer pouco caso da lógica. Cruel com os inocentes. Se é que eles existem por lá. Tudo bem, há alguma verdade escondida nas entrelinhas quando se diz que hoje em dia não tem de essa de amor pela camisa, que o vai e vem de jogadores não deixa nem os torcedores saberem de cor qual a escalação atual do time para o qual torcem. Mas infinitamente mais certeiro, no entanto, seria apontar o dedo para os homens que comandam o jogo. A nenhum deles interessa verdadeiramente que um jogador permaneça durante toda a carreira no mesmo clube, e muito menos que a rotação de atletas sob sua tutela se modifique tão lentamente que permita ao torcedor reviver a sensação de ter seu time titular na ponta da língua. O motivo é simples e vale pra qualquer coisa em que esteja sob os efeitos dessa entidade abstrata e poderosa chamada mercado: a roda tem de girar. 

O desmanche que maltrata o torcedor é o mesmo que enriquece os homens da bola. Até porque quando se desmonta um time é preciso refazê-lo. E a possibilidade de faturar ocupa as duas pontas do negócio. Nos últimos dias, quando se falou muito sobre a saída de Rodriguinho do Corinthians, ouvi gente aqui e ali fazendo questão de lembrar que em boa parte das vezes o próprio jogador tem interesse em sair. Difícil resistir a tamanhas cifras. Mas nesse caso também vale fazer certas ressalvas. A realidade que se impõe no caso é aquela na qual quem pode mais chora menos. Poucos são os atletas com cacife para encarar esse jogo em pé de igualdade. Em linhas gerais a coisa só se decide de maneira boa para a parte dita mais fraca quando se junta a fome com a vontade de comer. Ou seja, quando os interesses do cartola ou do clube coincidem com os do jogador. 

Esta aí o Dudu do Palmeiras pra provar a teoria. Dias atrás o atacante palmeirense confessou que gostaria de ter tomado outro rumo depois de ter recebido uma sedutora proposta do futebol chinês. Tão logo fez a confissão tratou de ressaltar ao repórter que o entrevistava que tinha ficado triste, sim, não que estava. Era coisa pra fazer a vida. É claro que o clube deve ver o lado dele. Notem que estamos aqui falando de dois casos de natureza diferente. Mas se defender posições é do jogo o que quero salientar é que enquanto uns lamentam outros esfregam as mãos. 

E não quero me despedir sem falar da saída de Jair Ventura do Santos. Fosse eu dirigente na época teria feito exatamente o mesmo. O trabalho dele à frente do Botafogo foi de encantar. E era mais do que suficiente para avalizar a contratação. Jair cometeu erros, não deu liga, sei lá, mas também foi prejudicado por essa realidade de mercado. De partida, fez questão de lembrar que do ano passado pra cá vinte e três atletas deixaram o Santos. Outra coisa que pouca gente percebeu é que aquele Botafogo, além de bem dirigido viu certos jogadores, não uns, mas vários deles, vivendo momentos que muito provavelmente foram os melhores que tinham vivido até então. Comparando um elenco com o outro era possível concluir que uma vez na Vila Belmiro o jovem treinador teria tudo para ir mais longe. Ocorre que o momento de alguns jogadores do elenco que ele chegava para comandar viviam um momento totalmente oposto, mostrando  um futebol opaco como jamais tinham mostrado. Por isso achar que o Santos poderá ir muito longe  com o elenco jogando o que jogou até o último final de semana beira a ilusão. 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Sentimento pós-Copa


É engraçado que  esteja tão viva em mim a sensação do bode que se apoderou da torcida brasileira depois de terminada a Copa do Mundo que foi disputada por aqui. Nem de certos jogos restou recordação tão duradoura. E olha que depois do que vivemos diante da Alemanha seria para dar graças a Deus por ter o Brasileirão de volta. Mas não foi o que se viu e sentiu, como talvez o nobre leitor também lembre. Nos últimos dias, em momentos diferentes, me perguntaram ou me instigaram a dizer o que tinha achado da Copa que acaba de entrar para a história. Dizer que foi melhor que a disputada por estas bandas poderia se revelar impreciso. O calor do momento pode causar sérias distorções na análise. Ouso dizer, no entanto, que o Mundial da Rússia, foi simpático, exalou um magnetismo. Amparado provavelmente nos cenários e na história local riquíssima.  

Do ponto de vista técnico e tático me parece distante de conseguir  um lugar de destaque na história. Se analisado com algum rigor talvez tenha sido na verdade mais o ocaso do que a aurora de certas ideias a respeito do futebol. O jogo cadenciado e a veneração pela posse de bola são alguns exemplos do que tento dizer. Fato é que desde a última segunda-feira quando os principais times do país voltaram a campo há uma suave angústia nos cercando. Ou seria impressão? Sem contar que o período da Copa, no fundo, serviu para tornar evidente como são tratados com infinitas diferenças os campeonatos brasileiros de  outras divisões. Davam o futebol brasileiro como parado quando na verdade sua versão B seguia adiante. 

Se escolho o tema é porque alimento aqui comigo certa curiosidade sobre o sentimento que nos aguarda nos próximos dias. Na teoria o futebol deveria melhorar depois do tempo que  as equipes tiveram pra treinar. Mas sabemos todos que o jogo de bola não é uma ciência exata. A rodada que o Brasileirão nos reservou parece com vigor para não deixar que certo bode volte a se abater sobre nós pós- Mundial. Depois de clássicos como esse que se deu ontem à noite no Maracanã entre Flamengo e São Paulo, hoje a outra metade da rodada se desenrolará.  E se Vasco e Fluminense nesse volta partirão de posições na tabela que não temperam muito o embate, Santos e Palmeiras devem ter sobre si um pressão considerável. O time da Vila que descansou este tempo todo em um incômodo décimo quinto lugar enquanto o Palmeiras seguirá tendo sobre si uma cobrança que há tempos tem feito qualquer mínimo percalço ter um ar de tragédia. 

E pra fechar essa rodada de retomada  a Arena da Baixada será palco de um encontro do Atlético Paranaense com um Internacional que ao sair de cena era promissor e passou esse período de Copa com lugar garantido no respeitável G4.  Já o Atlético, um dos primeiros a voltar a campo, mandou embora o técnico Fernando Diniz nessa parada e três dias atrás foi eliminado da Copa do Brasil, além de ocupar a penúltima posição da tabela no Brasileirão, minando a proposta de jogo sempre muito original de seu ex-treinador. Pedir à torcida do Furacão que reconheça a coragem de Fernando Diniz, que poderia muito bem ter aberto do mão do que pensa para manter o emprego, seria pedir demais. Ou seja, a fatia mais cortejada do futebol brasileiro está de volta, seduzindo o grosso da mídia. Resta saber se terá brilho suficiente pra não nos fazer sentir de novo aquele velho sentimento vivido por muitos de nós há quatro anos.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Futebol na Casa das Rosas


Dia Mundial do Rock






                                                                           Assista
                                                                      Led Zeppelin

quarta-feira, 11 de julho de 2018

O árbitro de vídeo

Rivellino me disse outro dia que considera o VAR, o árbitro de vídeo,o grande personagem desta Copa. Eu fiquei matutando. Fato é que o futebol nunca saiu do controle dos poderosos. E seu instrumento-mor de comando sempre se chamou arbitragem. Um mecanismo capaz de domar até o que é o grande diferencial desse esporte: a capacidade de fazer triunfar um escrete improvável. Qualidade que o faz ainda maior e que a torcida venera, ainda que reze pra que não venha a vitimar seu time. Há também os sorteios, os regulamentos, mas esse é outro papo.  

Pensem se haveria alguma possibilidade de um árbitro um tanto rebelde vir a ser um árbitro FIFA. Ter certo comando da arbitragem não é algo que se dá de modo claro, obviamente. E pra bom entendedor meia palavra basta. O futebol pela sua natureza talvez dispense até as palavras. Acho até que já propus cena parecida aqui em outra ocasião. Mas imagine o Infantino, presidente da FIFA, em uma recepção oficial, pouco antes de uma grande decisão conversando sobre o confronto e deixando claro que seria muito bom se tal seleção ganhasse. Depois, como quem não quer nada, na hora de se despedir do árbitro que em breve apitará tal contenda se despedisse dele dizendo - simplesmente -  que espera que ele faça um bom trabalho. 

O que uma frase dessa poderia sugerir? O que teria a intenção de comunicar? Colocaria em risco a tranquilidade de queM estará com o apito? Por essas e outras, penso eu, se quisermos um árbitro de vídeo verdadeiramente justo o ideal seria tirar o poder de decidir quando ele será usado das mãos daqueles que sempre foram os donos dessa possibilidade. E nem vem ao caso aqui lembrar de certos lances, como aquele pênalti escandaloso do alemão Boateng em cima de Berg, jogador da Suécia. O tipo de lance que qualquer um revendo a imagem daria o pênalti. Mas não deram. Eu, de minha parte, digo que usado desta maneira o árbitro de vídeo, no mínimo, seguirá sendo visto com reservas.  

Talvez o jeito seja dar aos times a possibilidade de pedir a revisão. O que foi sugerido por um outro amigo interessado no tema. Acho que a maior prova de que o árbitro de vídeo pode ser manipulado reside, por exemplo, na  constatação de que o mesmo foi infinitamente menos usado a partir do momento em que a Copa entrou numa fase, digamos, mais delicada. Talvez tenha sido por prudência. Vá lá. Mas uma certa hibernação é evidente. Trata-se, neste caso, da velha necessidade de não só ser mas parecer correto. Ainda que a CBF e os clubes não tenham chegado a um acordo sobre a conta a pagar, mais cedo ou mais tarde o futebol brasileiro terá de lidar com ele. Não custa ir refletindo sobre. 

No mais, da Seleção Brasileira teremos tempo pra falar. Deixo claro que sou do time que daria mais uma Copa ao Tite, com ressalvas, mas daria. Já o vivido por Neymar deixa no ar, sugere, que na ausência de um futebol grandiosos, o comportamento de um craque pode lhe corroer a imagem. A lembrança de Maradona me faz crer que  só quando o futebol é maior do que as pisadas de bola há alguma possibilidade de perdão. Mbappé, menos, mas também. Agora, não esperem que eu venha a dizer um dia o que é bom comportamento, ou como alguém deve se comportar. Neymar parece estar pagando um preço caro pelo seu.   

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Futebol moleque


Teve gente que se incomodou quando em um dos gols do Brasil o lateral Marcelo chegou no autor do mesmo, Philippe Coutinho, dando um tapinha seco no pescoço dele.  Eu me lembrei dos meus tempos de menino. Achei interessante. Tudo que o futebol tem mostrado é que não permite pontes com o tempo em que o jogo de bola era só uma diversão. Coisa que em algum momento, ainda que breve, ele foi pra muitos de nós e para qualquer um dos que defendem a camisa do Brasil na Rússia neste momento. Poderia ter sido coincidência, mas não. 

Eis que no jogo entre Dinamarca e França vejo uma verdadeira roda em volta do garoto Mbappé lhe enchendo de petelecos. A imagem recuperada em câmera lenta escancarava a brincadeira. Mostrava que eram petelecos daqueles pra valer. A orelha do camisa dez francês ia se dobrando ao toque de cada dedo. O peteleco talvez seja a maior prova de que um time anda bom de astral. É um ato que exige cumplicidade. Intimidade. De outro modo vira briga. Ou virava na minha época. 

Mas a fase de grupos se foi. Os jogos foram ficando cada vez mais sérios, pesados. De modo que não voltei a ver nada nessa linha de lá pra cá, nenhum sinal que pudesse me fazer manter a crença de que no fundo, existe sim, algo que liga o mundo do futebol endinheirado à sua versão mais simples. Algo que sugerisse que de alguma forma o futebol moleque resiste, apesar de tudo.  Interessante destacar que que esses lances foram protagonizados por duas seleções que podem vir a se encontrar em uma das semifinais e não deve ter sido por acaso. 

Rápido e leve o time francês envolveu os argentinos tendo como alma as disparadas de Mbappe que, de certo modo, não deixam de ser um tipo de travessura. E o cascudo time brasileiro, se bem observado, deixa transparecer também certa meninice, especialmente na ginga insistente de outro camisa dez, Neymar.  Um Brasil e França, portanto, me faz crer que teria muito mais a oferecer do que um encontro com os uruguaios, de onde é bem provável veríamos ( ou veremos) brotar um jogo mais bruto, repleto de cenas, verdadeiros teste para a verve dramática e teatral de jogadores como Suárez e Neymar. 

Mas pra chegar lá será preciso amanhã à tarde tirar de cena o time belga. Apesar do rosto de menino do talentoso De Bruyne, a quem tempos atrás dediquei todo este espaço, há ali algo de pragmático. O que faz o jeitão de Bruyne parecer mais um disfarce. Até porque ele tem vinte e sete anos e um futebol de gente grande, muito grande. Detalhes técnicos e táticos à parte, a Bélgica tem alma inglesa. E no futebol inglês como é possível notar, muitas vezes até os mais jovens tem ares de senhores. Uma da provas é o outrora cortejado Wayne Rooney.  E não é por acaso. 

Roberto Martínez o espanhol que comanda a seleção belga jogou e consolidou a carreira como treinador na terra da rainha. Além disso, é lá que atua a maioria absoluta de seus titulares. Martinez assumiu o cargo três dias depois de Tite e como ele sofreu até aqui apenas uma derrota. Não fosse essa Copa tão surpreendente diria com mais convicção que o Brasil carrega certo favoritismo, como não é digo que o desafio de Tite para seguir adiante será provar que foi capaz de encontrar a medida ideal de racionalidade para um futebol que sempre teve alma de moleque.  

sexta-feira, 29 de junho de 2018

É tudo esquema !


O futebol virou essa brincadeira esquisita de evitar que o outro faça um gol. A conclusão parece inevitável. Não que em outros tempos não tenham tido essa intenção os menos afortunados de talento.  Sou capaz de admitir limites, mas vejo nisso uma pobreza de espírito, para não dizer de intenções. Acho que deveria ser tratada com maior insistência a possibilidade, ainda que ínfima, de se marcar um gol.  Uma jogada ensaiada. Sei lá. Aproveitar já que tudo é esquema no futebol atual. A sensação que cultivo é a de que existia tempos atrás um brio nesse sentido, por mais fragilizados que pudessem ser certos escretes. Não se admitia a falta de bravura. 

De maneira que quando um time ou um personagem do jogo se via com as perguntas feitas ameaçado pela evidência de suas próprias fraquezas, sacava da cartola um discurso mais corajoso a sugerir que as coisas não seriam tão fáceis assim para o time considerado favorito. No mínimo seria bom pra disfarçar, tentar dar um nó na cabeça dos adversários, uma vez que o tal do nó tático não se fazia possível.  E pelo que li nem a matemática oferta algum amparo aos devotos da retranca. Ao menos até a Coréia ter feito o que fez com a Alemanha os números mostravam que o número de zebras na Rússia era menor do que o registrado nas edições anteriores. 

Diante disso sugiro como saída aos tidos como frágeis abrir um treino para a imprensa, armar lá um time fantasia com três atacantes. Nada da velha e manjada linha de não sei quantos na defesa. Imagina o burburinho. Ora, nem é preciso jogar bola pra saber que nada mais terrível para alguém que entra em uma disputa do que se revelar previsível.  Trata-se de tarefa hercúlea transformar em algo possível fazer do menos talentoso dos times campeão do mundo. Muda-se de nível evitando riscos, isso basta, dá pra entender. 

Outro detalhe, importantíssimo. O acaso. Ele mesmo. Não espero um dia ouviranalistas o levando em conta, mas que ele no futebol também é o senhor de tudo, ah isso é. Basta analisar um lance de Brasil e Costa Rica, por exemplo. Atentem para o gol brasileiro que nos permitiu respirar.  Lá está ele, o retumbante acaso. Tenho um amigo cruel que aposta com quer que seja que a tal linha de cinco é mais difícil de ver do que saci-pererê. Certo dia estávamos reunidos, uns oito ou dez, assistindo um jogo, não lembro bem qual. E, de repente, tcham! Um deles não perdeu a chance de cutucar. Apontou a televisão de repente gritando olha lá, olha lá a linha de cinco. Pra quê? Foi tratado com um desdém ainda mais cruel pelo descrente, que lhe respondeu com soberba, tirando onda, que queria ver era a linha persistir quando a bola estivesse rolando. E ainda completou com - mais crueldade ainda - questionando o sujeito se a linha em questão era pra funcionar com o jogo em andamento ou não. Não deu outra, acabou o papo. 

sábado, 23 de junho de 2018

Nem prosa, nem poesia


Permita-me chegar sem meias palavras. Esperava mais da seleção de Tite. Em primeiro lugar pela crença no talento individual dos jogadores. Coisa na qual continuo tendo uma fé cega mesmo ciente de que atravessamos a era da exaltação do coletivo. E veja, isso não significa não reconhecer seu valor e importância. Mas nada como a realidade para dissolver nossas convicções. Nesse sentido testemunhar o sofrimento vivido por outras seleções de prestígio tidas como sérias candidatas ao triunfo-mor do futebol me fez baixar a bola. Digo mais, o início modesto e sem grandes arroubos pode ser até um bom indício. Estamos na média. Ter deitado e rolado logo de cara poderia ser sinal  de um apogeu prematuro. 

Seja como for, atravessei o primeiro tempo de Brasil e Costa Rica com a sensação incômoda de quem cruza um deserto. Que um esquema cauteloso neutralize um outro com sérias intenções de alcançar o gol adversário vá lá. Agora dar de cara com uma seleção tentando tratar disso sem a mínima pitada de improviso e ousadia sinceramente me soa pobre. Deixa a impressão de que o que tem nos roubado o horizonte é o excesso de obediência ao esquema. ada de um drible que soasse como surpresa, uma arrancada. Foi preciso meia hora de bola rolando pra sentir o time brasileiro vivo, com Neymar ficando frente a frente com o goleiro Navas. 

Tite, é claro, sacou o que se passava. E ao colocar Douglas Costa em campo no segundo tempo no lugar de Willian deixou transparecer que o Brasil necessitava realmente de algo diferente. Com Douglas Costa o lado direito, tão apagado, ganhou alguma importância no enredo da partida. Enfim, o Brasil que se via em campo parecia pulsar. Gabriel Jesus mandou a bola no travessão. Neymar por pouco não marcou. A essa altura a urgência da situação já tinha feito o treinador brasileiro tirar Paulinho de campo e dar a Roberto Firmino o lugar que era dele. 

Mas a sombra de um segundo empate seguido se agigantava e desafiava, principalmente, os nervos do camisa dez brasileiro. Neymar, como se não bastasse a atmosfera do jogo, andou às turras com o árbitro holandês e deve ter pensado ter lhe convencido das más intenções adversárias quando o viu marcar um penalti para o Brasil, sofrido por ele. Puro capricho do destino. Pois o holandês pediu ao assistente de vídeo pra rever a cena. Não tardou e voltou pra lhe dizer que tinha visto nela apenas uma encenação. Indignado com a decisão Neymar levou um cartão amarelo e provocou, por tabela, um outro, dado a Philippe Coutinho. 

Foi justamente nesse ponto da história que me veio a ideia do título acima,  já vou lhes dizer porque. Por falar em capricho do destino, quando tudo parecia perdido, o dono do apito - muito atento - levou em conta a cera dos costa riquenhos e decretou que o jogo teria mais seis minutos. No primeiro deles Coutinho fez um a zero. E quando até mesmo o sexto já tinha se passado, Douglas Costa, em gesto grandioso, tocou a bola pra Neymar fazer um gol que não tardaram a dizer poderá lhe fazer mudar de astral. 

Bom, é famosa aquela afirmação do cineasta italiano Pasolini  dizendo que o futebol brasileiro era poesia enquanto o praticado por outros era prosa. Foi-se o tempo em que o futebol brasileiro tido como arte atraia figuras desse porte como um imã. Não sou do tipo que se deixa levar pelo placar. Tendo visto o que vi até aqui não descarto a possibilidade do título, não faço juízo do choro doído do Neymar ou de seu silêncio. Só estou convencido de que nosso futebol atual não é nem prosa, nem poesia. Anda mesmo é com um quê de auto-ajuda. Se é que me entendem.            

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O que a Copa nos reserva?


Se tem alguém que chega por cima nessa Copa é o nosso treinador. Ouso dizer que Tite, sob certa ótica, tá mais na fita do que Neymar, sobre quem pesou alguma dúvida, se não em relação ao futebol que pode jogar, com relação a condição física, depois de ter sofrido uma lesão que o tirou de cena por meses. Embora nos dois últimos amistosos tenha mandado pra escanteio tudo isso. O time brasileiro já foi virado ao avesso. Nenhum detalhe provavelmente passou despercebido pelo imenso batalhão de analistas. De tudo que li e ouvi por aí, se você deixou escapar e não deu de cara com a reflexão do mestre Tostão sobre o meio campo e os laterais brasileiros deixo aqui a dica. Vá atrás. No mais, com humildade tentarei  dar uma leve engrossada  leve nesse caldo. 

Não faz muito tempo apostar que o Brasil teria Casemiro, Paulinho e Fernandinho juntos era coisa que muita gente duvidava. Foi só agora, tempos atrás, quando o Brasil  voltou a ficar cara a cara com os alemães que o trio ganhou ares de viabilidade. Mas como se tratava de um jogo no qual a derrota tinha tudo pra tomar outras proporções muita gente acreditou que se tratava de uma formação pontual. Diante do perfil do jogador brasileiro sei que parece loucura apostar num time comedido do ponto de vista da criação. Mas se tenho uma desconfiança é a de que durante a Copa pode ocorrer um certo choque entre a expectativa do torcedor e as prioridades de Tite. 

Sabe aquele Corinthians que após fazer o primeiro gol não demonstrava ânsia para aproveitar o embalo? É mais ou menos isso que eu imagino. E não vai aqui nenhum juízo de valor. Por mais romântico que eu seja é preciso admitir que  não há momento no mundo - que não seja entre esses benditos sete jogos - em que aquela súplica de mandar a bola pro mato porque o jogo é de campeonato faça mais sentido. Não me entendam mal. Não estou insinuando que a seleção tem um quê de Corinthians, por mais que o caminho do que se vê tenha sido aberto com o comandante do nosso escrete levando o time do Parque São Jorge a lugares que seus fiéis seguidores quiseram desde sempre chegar. Mas acho que por mais talento que se tenha reunido, e nesse sentido é preciso admitir que o temos em quantidade de fazer inveja a muita gente, a figura de Tite irá se impor e nos ofertar um time cerebral.  O que não é pouca coisa. 

Aos que duvidam é só tentar conter a sanha de criação de uma rapaziada que tenha consciência absoluta de que joga o fino e descobrirá que a missão é ingrata.  No mais não me espanto com o descaso com que o torcedor brasileiro andou encarando esta Copa. Lembro que a anterior começou impressionando logo de cara, ainda que os jogos tenham causado alvoroço mais por questões emocionais do que técnicas propriamente. Mas do jeito que anda o futebol brasileiro as seleções não precisarão fazer exibições magistrais pra nos divertir mais do que tem nos divertido o futebol brasileiro.  Enfim, quem sou eu pra dizer como a seleção tem que jogar, qual é a dose de cuidado que deve administrar em cada situação. Já ficaria bem feliz em ver em campo um time minimamente capaz de manter um estilo independentemente do placar. Quimera? Talvez.  

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Tratado geral sobre o palpite


Que atire a primeira pedra aquele que nunca cometeu o ato. Vá além, confesse que provocado você nunca resistiu. Pode até ter titubeado um pouco ao ser convidado. Mas diante da menor insistência se entregou. E, por favor, não pense em nada mais caliente. Estou falando da nossa mania de palpitar. Um dia alguém irá fazer um tratado sobre o assunto. Um dia o palpiteiro será virado ao avesso como já fizeram com aqueles que se ocupam com a vida os outros. Isso mesmo, não tardará o dia em que esse nosso hábito será dissecado. Algo na linha do que fez  o psiquiatra, José Ângelo Gaiarsa, quarenta anos atrás,  ao escrever um livro que trazia uma análise sociológica, filosófica, histórica e psicológica sobre a fofoca, intitulado de "Tratado geral sobre a Fofoca". 

E terá sido por merecimento porque se há uma face desafiadora no futebol é essa que nos dá a ilusão de achar que é possível saber de antemão o que o jogo de bola nos reserva. Peço desculpas aos de memória privilegiada, estou ciente de que o tema já andou por aqui. Mas é que quanto mais reflito, mais essa questão dos palpites  parece se aprofundar. Minhas últimas reflexões a respeito me levaram a considerar, por exemplo, que pode haver uma maneira de tirar algum proveito de todas as bolas fora que esse tipo de pratica costuma produzir. Vejam. Dias atrás fui convidado a dizer como terminaria o placar do clássico entre Palmeiras e São Paulo. Junto comigo, um campeão do mundo, e dois jornalistas rodados, mas rodados mesmo. Daqueles pra quem o futebol teoricamente não teria muitos segredos. 

Eis que nenhum dos palpiteiros foi capaz de apontar sequer o Palmeiras como vencedor. E nem estou falando de cravar o placar, porque aí seria demais. O Palmeiras jogava em casa, tem um time respeitável, por mais que a torcida ande lhe pegando no pé e, além de tudo, jamais tinha perdido para o tricolor no estádio onde o confronto se daria.  Mas abraçamos fervorosamente a negação. Por essas e outras começo a achar que dever existir uma lógica escondida por trás dessa imprecisão que desde sempre andamos proferindo  sobre o resultado de certas partidas. Sempre defendi que o que mata os profissionais que se colocam nessa situação é lidar muito com o racional, esquecendo de outros fatores. 

Mas a última bola fora me deixou com uma ponta de desconfiança de que profissionais do ramo, ou não, somos todos muito impressionáveis quando o assunto é futebol. Só uma forte impressão justificaria a aposta em bloco num São Paulo que, afinal, se encontra visivelmente em estágio muito menos avançado do que o adversário alviverde. Querer trabalhar com a razão seria a pior tática? Os intuitivos levam alguma vantagem nisso? Os ardorosos estão fadados a não ver o óbvio? Torço pra que não tarde o dia em que um teórico venha a esmiuçar o assunto. Mas não vamos deixar passar a oportunidade, né?  Diga,, por favor, como vai ficar o Corinthians e Santos de hoje à noite. E o clássico entre o poderoso Grêmio e o Palmeiras. Arrisca um palpite?

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Uma indignação imensa

Marcelo Pinto/APlateia

Sábado a tarde a TV mostrava o supra-sumo do futebol mundial. Real Madrid e Liverpool tinham semeado no nosso imaginário a possibilidade de um grande espetáculo, da diversão à vera  com um jogo de bola.  Mas as ruas estavam longe de ter o burburinho de sempre, e não era por causa daquela partida. Havia um país de terceiro mundo parando aos poucos lá fora. E era o nosso país. ​Ver o promissor egípcio, Salah, sair de campo chorando, lesionado, depois de rolar de braço dado com zagueiro Sérgio Ramos pelo gramado trouxe consigo um sentimento de tristeza. O jogo já não era o mesmo e o Brasil, talvez, também não.

O surrealismo que se revelava no enredo daquele confronto que se desenrolava num estádio distante de Kiev parecia transbordar e inundar nossa realidade. Como podia o goleiro do Liverpool ao repor a bola acertar o pé de Benzema dando um gol ao Real Madrid, que parecia tão acuado? Como podia alguém estender uma faixa pedindo intervenção militar no meio daquela caravana de caminhões que eu tinha visto recebendo acenos efusivos das calçadas e que soava cheia de sentido? Aí veio o gol incrível do Bale, o frango bizarro do tal goleiro do time inglês. E a única certeza que eu tinha é que estava diante de um daqueles momentos que se eterniza na gente. Como a morte do Tancredo, o deplorável confisco. 

Só não sabia se era pelo inusitado do jogo ou pela melancolia das notícias que o narrador ia se encarregando de salpicar entre uma jogada e outra que um suave desespero ia se fazendo presente. E o final de semana passou como se fosse um qualquer. Com o céu azul de outono infinitamente mais bonito do que uma final da Champions. Com as crianças construindo seus castelos de areia, vigiadas pelos pais que já não podiam dizer que não sabiam de nada. No final do domingo quando liguei o rádio pra ouvir as notícias do pós-rodada e dei de ouvidos com informes de última hora que  revelavam um governo que se desdobrava - ou dobrava - quis me surpreender. Mas seria inocência demais. 

E me vieram à mente, então, as palavras do lúcido, Eduardo Batista, técnico do Coritiba, nos alertando que  não deveríamos nem pensar em jogo diante de tudo que se descortina diante de nós. E que se hora dessas a bola parar de rolar, se não tiver jogo, não tem problema. Palavras que acusaram a cara de pau de quem anda comandando o que nosso destino tem de comum, o assassinato velado que certos homens púbicos cometem ao se corromper. O título que vai acima também saiu da boca de Eduardo Baptista, bem dito. Entre uma rodada e outra ficamos assim, correndo o risco de descobrir que só tinha nos restado o circo e que não tinham tido competência nem mesmo para nos deixar convictos de  poder comprar o pão. 

Para um povo que tem tanto pra se preocupar, tanto pra conquistar, se o Santos não vence, se o São Paulo está invicto, se o Flamengo ousou tomar pra si o lugar mais nobre da tabela, deve mesmo fazer cada vez menos sentido. Mas os postos voltaram a ter gasolina, embora eu não consiga crer que o Brasil tenha voltado a andar.