quinta-feira, 23 de março de 2017

Recado do time do Cartão Verde!

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quarta-feira, 22 de março de 2017

Clássico temperado

Foto: Getty images

Hoje tem seleção! Há menos de um ano é bem provável que o aviso não fizesse você rever a agenda. Mas agora o papo é outro. Tite foi além do esperado e fez o torcedor voltar a se ligar na seleção. E que bem isso fez ao nosso futebol. Tite igualou recentemente uma marca que durou quase cinquenta anos. A de de ter vencido os seis primeiros jogos das Eliminatórias. Antes dele, a marca era do lendário, João Saldanha, comandante das feras que tempos depois nos dariam a inesquecível Copa de 1970. 

Os comandados de Saldanha na ocasião marcaram vinte e três gols, os de Tite têm dezessete. E se nos idos de 1969 a seleção levou dois gols nesse punhado de jogos, o time atual sofreu apenas um. Interessante notar que, mesmo com quase meio século entre as duas campanhas, conseguir fazer um gol no Brasil se revelou obra de uma mesma seleção, a colombiana. Com o detalhe de que o time de Saldanha diante dela levou dois mas fez seis. Enquanto a de Tite construiu um placar de dois a um. 

E também foi a Colômbia que na décima rodada segurou o Uruguai em casa. O empate por dois a dois permitiu que o time de Tite assumisse a liderança das Eliminatórias ao bater a Venezuela, na oportunidade, sem Neymar, suspenso. Por uma questão de regulamento em 1969 o Brasil não teve pelo caminho nem a Argentina, nem o Uruguai. E sejamos francos, quando lembramos que dessa vez a lista de resultados inclui um três a zero na Argentina a coisa encorpa. 

Uma vitória sobre a celeste, jogando em Montevidéu, fará desse primeiro momento de Tite algo ainda mais surpreendente. Em casa os uruguaios têm o retrospecto de seis vitórias em seis jogos e apenas um gol sofrido.É uma pena que os uruguaios não possam contar com o suspenso, Luiz Suárez, disparado sua grande estrela. Ainda que a celeste vá contar com seu artilheiro (e das Eliminatórias), Cavani, autor de oito gols até aqui.Também é de se lamentar a ausência do garoto Gabriel Jesus que até então travava com Neymar um duelo bacana pela artilharia brasileira dessa trajetória. Nos últimos seis jogos da seleção foram cinco gols de Jesus e quatro de Neymar.

Renato Augusto, questionado, sugeriu uma partida com jeitão de Libertadores. Quero acreditar que teremos futebol pra ir além disso. Você até pode dizer que o grande clássico sul-americano é travado com os argentinos, mas não dá pra dizer que falta tempero ao confronto. Brasil e Uruguai são os melhores times dessas Eliminatórias e, no caso do Brasil, há quem aposte que a vitória garantiria um lugar na próxima Copa. O jogo, de quebra, ainda fará de Oscar Tabarez, com cento e sessenta e oito partidas, o treinador que mais vezes dirigiu uma mesma seleção na história, deixando para trás o alemão Sepp Herberger. Tá temperado, ou não tá? 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Você ainda acredita no futebol?

Foto:LLUIS GENE/ AFP

Poderia abraçar outra questão. Não flertar com coisa que nas redações costumam ser chamadas de passadas. Ou frias mesmo, quando o português se faz mais claro. Fato é que a virada do Barcelona pra cima do PSG ainda ecoa. E isso mostra a sua magnitude. Não vou  me ater à simples questão do placar mas ao que ele foi capaz de revelar. O amigo que agora há pouco me parou aqui pra resgatar o tema se mostrava indignado com o fato de as pessoas não conseguirem perceber o quanto a câmera lenta muda a realidade. No que lhe dou toda razão. Acho que já disse até que na minha opinião comentaristas de arbitragem não deveriam ter esse direito. Deveriam aceitar com humildade o risco que seus iguais passam em campo. Ainda que hoje em dia já não dê pra dizer que os homens da arbitragem lá embaixo não saibam o que a imagem mostrou, o que as câmeras e seus recursos revelaram. Mas essa é questão simplória diante de tudo que a virada suscitou. 

Há outras  mais cabeludas, como o fato de tanta gente do meio ainda não ter tido a humildade de perceber que o futebol pode nos surpreender sempre. Dizer antes do fim que um jogo está decidido aos de bom senso deve ser visto só como um truque largamente usado por espertalhões para deixar no ar a impressão de que podem saber de antemão o que se dará em campo. E ao ler isto você, imagino, será capaz de lembrar imediatamente, sem grande esforço, de uma ou duas figuras que andaram por aí cravando essa.

Veja. O ponto crucial que notei em toda a discussão é que alguns da mídia tomaram uma posição tão extremada sobre a vitória catalã que foi difícil não ler nas entrelinhas que tudo só aconteceu por causa do árbitro. Não! Digo mais! Nas entrelinhas ficou a sugestão de que os que encantados com o ocorrido estavam sendo, de certa forma, ludibriados, vítimas de uma armação. Bom, ao chegarmos a este ponto fica muito claro que a desconfiança sobre a lisura do jogo só faz crescer. Ou melhor, que atingiu patamares nunca imaginados. Um jogo crucial do maior torneio de clubes do mundo em que o juiz deliberadamente tomou uma parte. 

Sou capaz de admitir que diante de tudo que se sabe sobre apostas e afins hoje em dia isso não deve ser exatamente motivo de pasmo. Mas se passamos a tecer comentários amparados nessa desconfiança o que virá depois? Não seria o caso de colocar a mão no fogo pelo homem que em tarde tão ímpar foi encarregado do apito. A influência no resultado, quero crer, não foi maior do que as que temos visto por aí. Estou convencido de que o que se deu ali não se resumiu a isso. Houve futebol. Bom futebol. Neymar, depois do PSG fazer o gol, levou um chapéu na direita em jogada que acabou com a bola batendo na trave. Com que moral não estariam os espertalhões a essa hora se o time francês tivesse marcado mais um gol? É triste constatar que foi-se o tempo em que podíamos desfrutar - sem desconfiar - dos momentos grandiosos que o futebol oferece

quarta-feira, 8 de março de 2017

Seu futebol, sua vida

Foto: Antonio Alexandre Estre


Durante a minha infância e ainda na entrada da adolescência era sempre ele que se encarregava de fazer a bola rolar. Quando todos estavam naquela preguiça depois do almoço e a meninada se mostrava disposta a bater uma bola lá ia ele com a gente pro quintal ou para a praia. Nunca resistiu à brincadeira. Salvava a molecada do tédio e secretamente saciava uma vontade que tinha também. Quem o conhece sabe, sempre teve fome de bola.

Ao longo da vida foi dessas figuras indispensáveis para que o jogo aconteça. Aquele sujeito que trata de arranjar os uniformes, comprar a bola, acertar o local onde será travada a pelada. E, nesse caso, para desespero da minha tia, ainda levava o jogo de camisas pra lavar em casa. Devia ter prazer em vê-las tremular no varal. Agiu sempre como essa espécie de cartola informal que o jogo de bola sempre exigiu. Duvido que você não tenha conhecido alguém com vocação parecida ao longo da vida. Aquele amigo que sempre batia na sua porta com a bola embaixo do braço. Aquele que antes de se despedir fazia questão de lembrar uma vez mais que no dia seguinte tinha jogo contra a turma da rua de trás. 

Talvez seja poético demais, mas jamais será exagero dizer que boleiros com essa inclinação sempre foram verdadeiros semeadores de futebol. E que bem fizeram ao jogo ao longo da história! Logo, não foi à toa que a tristeza bateu quando, já aos setenta e dois anos de idade, o corpo reclamou dos movimentos que a brincadeira exigia. O bendito joelho, essa dobradiça tão vital. Só ela mesmo pra lhe fazer um ausente. Impedido de bater uma bolinha nunca foi o mesmo. Como poderia? Mas tratou de manter os laços como podia. Na sexta preparava a berinjela no azeite. As torradas. O petisco que ia acompanhar a cerveja depois da pelada. Não se deu por vencido. A paixão não deixaria. 

Encarou fisioterapia e até uma musculacãozinha. A barriga pronunciada nunca foi problema. E você pode duvidar, dizer que é história pra boi dormir, mas ele voltou, meu Tio Afonso voltou a jogar aos setenta e nove. O homem tá lá na meiuca, cheio de estilo, só distribuindo. Provando para os céticos que o campo é mesmo cheio de atalhos. E tem ido muito além deles, acreditem. Contou pra mim - com aquela empolgação que eu conheço desde moleque -  o que aprontou em campo outro dia ao ver o lateral descer em velocidade. Se adiantou um pouco. Teve a petulância de invadir a área. E quando mirou a bola vindo não resistiu. Se jogou na direção nela, de peixinho! A ousadia fez um silêncio súbito pairar no campo. Só quando teve que se levantar é que se deu conta do que tinha feito. Aos poucos os olhares preocupados foram sendo substituídos por outros que estampavam surpresa. Percebeu o risco que correu. Achou que valeu. Se sentiu um moleque de novo, vivo. Só ficou faltando o gol. Mas saibam: foi por pouco, muito pouco



dedicado ao meu Tio Afonso Estre

terça-feira, 7 de março de 2017

Libertadores ou Brasileirão ?



Vai começar a fase de grupos da Libertadores. Com a mudança do calendário o torneio continental irá rivalizar como nunca em importância com a principal competição do futebol brasileiro. Afinal, pra você, qual dos dois é mais importante?

Libertadores ou Brasileirão?  


quarta-feira, 1 de março de 2017

O ano vai começar

Diz a lenda que o ano só começa quando o carnaval acaba. Mas conhecendo bem este singular país não seria exagero dizer que o ano começa mesmo é na primeira segunda depois da quarta-de-cinzas. Pois você - como bom brasileiro - há de saber como é. Terminada a folia sobra só um restinho de semana e aí quando a gente pensa em trabalhar dá de cara com a sexta -feira e ninguém é de ferro. 

Agora, vamos falar sério. Por mais que esta maneira de pensar esteja arraigada no nosso imaginário ouso dizer que ela é um desrespeito com quem desde sempre não teve outra saída a não ser correr atrás da bola, nesse caso em sentido figurado. E o time dos que jamais tiveram outra saída é imenso. Quero crer, muito mais numeroso do que o time que espelha esse modus vivendi, essa grandeza. Talvez só mais uma questão, entre tantas, que acaba soando como verdade pela visão de mundo imposta por uma minoria. 

Mas se faço aqui essa abertura é pra dizer que o calendário atual do futebol brasileiro tem ao menos a virtude de colocar por terra isso tudo. O carnaval nem bem acabou e já vimos o São Paulo vencer na Vila depois de um longo jejum. O Corinthians vencer o Palmeiras em Itaquera com um a menos e com um gol solitário daquele que talvez seja o mais contestado atacante do futebol brasileiro. Vimos o Botafogo e o Atlético Paranaense enchendo suas torcidas  de orgulho, travando verdadeiras batalhas por um lugar na fase de grupos da Libertadores. E que batalhas. Daria pra dizer, como se diz por aí, que gente como o atacante Rodrigo Pimpão e o goleiro Gatito Fernandéz já ganharam o ano. O primeiro ao marcar e o segundo ao evitar gols que deram outro horizonte ao time carioca. 

Até mesmo esse Mirassol que acaba de conhecer a primeira derrota no Campeonato Paulista, mas que ainda ostenta a segunda melhor campanha do torneio na frente de muita gente grande merece registro entre os acontecimentos deste ano que dizem alguns nem teria começado. E vai dizer pro Xuxa, artilheiro do Mirassol e do Paulista, que o ano ainda vai começar, vai lá. Mas como nem só de grandes feitos e feito um país. E pra que não digam que nosso futebol passou a ser exemplo, tivemos aquela bagunça na semifinal do Campeonato Carioca, quando quarenta e oito horas antes da partida a torcida ainda nem sabia se Vasco e Flamengo iriam jogar e onde. 

Cá entre nós, o futebol brasileiro tá longe de ser exemplo. E toda essa pressa no fundo só o torna mais imperfeito do que já era. Seja como for, não custa tentar, vamos copiar o calendário do velho futiba, vamos mandar pro Congresso, pro Senado. Vamos fazer quem decide o rumo dessa nação entrar em campo sem pré-temporada. Sem descansar as setenta e duas horas que prometem colocar qualquer atleta em forma de novo. Quem sabe não chegaremos à conclusão de que o sujeito que bolou esse nosso calendário atual na verdade é um gênio. E se não virar, que valha a mais velha lei do futebol: não deu resultado a gente troca.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Futebol e carnaval



O futebol já não é aquele e o carnaval também não. Os dois foram de alguma forma transmutados. Ou, para ser mais claro, tiveram a alma tocada - e ferida - por outras intenções. Pela grana, pela TV. Ainda assim continuam sendo os grandes espelhos do nosso povo, ainda que espelhos não sejam. 

Se alguém os quisesse mais puros, na medida da pureza possível nestes dias que correm, deveria pensar, antes de tudo, em separá-los. Não que tenhamos de tirar da avenida a bola e os homens que com ela nos pés nos encantaram. Não! Pelé, Zico, Rivellino, que ainda outro dia estava lá no meio da folia, merecem e seria praticamente inevitável que em dado momento não fossem levados pra avenida. Ou para o Sambódromo, melhor dizendo, já que foi-se o tempo em que o desfile se dava na avenida. 

Não há nada mais legítimo do que o carnaval se apropriar de tudo o que retrata e revela nossa gente. Mas falo sobre um outro tipo de relação que temos visto se dar entre os dois. Das torcidas organizadas que, podendo trilhar outros caminhos, aos poucos vão fazendo o carnaval, paulistano em especial, se vestir com a fantasia de uma rivalidade que não deveria jamais se fazer presente na mais popular das nossas festas. Não é à toa que hoje quem cuida da tabela dos jogos, ou da ordem de apresentação das escolas, tem de cuidar pra que um certo tipo de carnavalesco não encontre um outro, pra que um certo tipo de torcedor não vá pra rua no mesmo momento que um outro. Civilidade e segurança neste nosso país, faz tempo, não passa de um anseio.

E que me perdoem os que dão a vida por isso. Não sou um sujeito obtuso. Não a ponto de achar que tanto o futebol quanto o carnaval poderiam ter virado o que viraram sem que nosso povo lhes tivesse emprestado os sentimentos, o coração. Mas gostaria de ver um carnaval sem dinheiro público, um futebol com mais alma. Coisa que tivemos um dia. Pense na nossa miséria de dribles, na saudade que chegamos a sentir de ver um gol de falta. Pense na duvidosa qualidade de um samba-enredo atual. Qual deles hoje em dia faria frente ao algum desses que o tempo transformou num clássico? 

Lembro bem do dia em que tomei o Metrô e vi piscar no letreiro de aviso pela primeira vez a seguinte mensagem: em dias de jogos evite usar a camisa de seu time. Lembrei disso agora ao tentar achar uma razão para que o futebol tivesse se misturado dessa maneira ao carnaval. Não encontrei. Pra mim o futebol no carnaval só deveria ser permitido entrar pelo viés da reverência. Reconhecido pelo que carrega de cada um de nós. Mas não deve ter sido por acaso que o pensador russo Mikhail Bakhtin escreveu certa vez que o carnaval"não é forma puramente artística de espetáculo...ele se situa na fronteira entre a arte e a vida". Ou seja, essa mistura um tanto nociva entre nosso futebol e nosso carnaval nos retrata.


* Pra quem gostou do tema segue abaixo o link da matéria escrita por Alvaro Costa e Silva no Ilustríssima do último domingo sobre o desenvolvimento do samba-enredo como gênero.

http://bit.ly/2lhKAGH 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Viva os corneteiros!

O corneteiro é um nobre. Figura das mais notáveis no futebol. Pensando bem talvez só o secador seja páreo pra ele em importância nesse mundo da bola tão fértil para a tiração de onda. E hoje pinto aqui na área cheio de disposição para lhe fazer uma elegia. Não sem motivo. Não sei se vocês  viram com que dose de deselegância o jovem goleiro da nossa seleção sub-20, depois da vexatória campanha no Campeonato Sul americano, se dirigiu aos jornalistas. Palavrões à parte, acusou-os, inclusive, de cornetagem. Como se ser corneteiro fosse algo menor. 

O desabafo me deixou com a pulga atrás da orelha e vou já lhes dizer a razão. Ao ouvir aquilo fiquei com uma preocupação monumental. É que o modo de falar me fez levar em consideração a possibilidade de que um jovem que está sendo preparado para defender a meta da seleção brasileira não tenha nível de conhecimento suficiente para fazer a diferenciação. O que seria um quase analfabetismo ludopédico e o impediria de colocar as coisas no devido lugar. Ora, crítica é uma coisa,  cornetagem outra. E sou capaz até de entender que exista gente por aí que  confunda uma com a outra tão parecidas que são. Mas não um boleiro.Seja como for, sigamos.

O futebol sem a figura solene do corneteiro seria destituído de parte de sua alma. O corneteiro é tão fundamental que precisa estar presente sempre. E sabemos disso tão intuitivamente, que não raro nos flagramos fazendo esse papel ou damos de cara com gente as pessoas mais improváveis aceitando fazê-lo. Juizes, artistas, presidentes de clubes e até padres. Acho, inclusive, que não tardará o dia em que o San Lorenzo acabará colocando Sua Santidade, o Papa, nessa situação. 

Além do mais, a falta de humildade para as críticas, dado o exagero da reclamação, sugere que o jovem goleiro, Caíque, não esteja ciente de que nossa seleção sub-20, apesar de tantas derrapadas recentes, ainda é a maior vencedora do torneio com onze títulos, quatro a mais do que os uruguaios e seis a mais do que os argentinos. O que justifica expectativas. E foi a primeira vez em vinte e oito edições do torneio que o Brasil terminou pela terceira vez seguida fora das três primeiras colocações do hexagonal. Logo, não foi à toa - nem por cornetagem - que uma matéria sobre o assunto tenha tratado como tragédia o fato de o time brasileiro sub-20 não ter conquistado vaga para o Mundial da categoria. Ainda que eu ache que tragédia é outra coisa. Mas diante dos resultados sou capaz de perdoar a alusão. 


O que jamais perdoarei é que se trate o corneteiro como um qualquer. Dia desses ainda voltarei ao assunto para lhes contar a versão que mais gosto do que levou o sujeito que não pensa duas vezes pra soltar o verbo contra o seu time ser popularmente chamado de corneteiro. Até lá e sempre,respeito !

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Futebol não é ciência


Só não vê quem não quer: o jogo é outro. Ainda que muitos o vejam com os olhos de sempre. O tempo transforma tudo. Nesse sentido talvez fosse mais interessante tentar explicar porque que é que só nossas cabeças e nossas manias resistem tanto. Acredito que por gostar tanto do jogo de bola é que os homens quiseram fazer dele algo sem segredo, como desde sempre os homens têm tentado fazer com o mundo e com a própria existência. Assim nossa velha brincadeira se encheu de ciência. E cercado de tanto estudo e teoria o futebol virou o que temos visto. 

Como não aceitamos a principal lição que se poderia tirar de tudo isso, a de que tanto no futebol quanto na vida segue sendo impossível saber ao certo o que nos leva ao resultado esperado, já era tempo de perceber que pensar demais costuma jogar contra. Mas o que acho digno de nota é que o momento tem tornado muito claro o abismo existente entre o que o futebol foi e o que ele é. E a melhor maneira de dar conta disso é prestando atenção ao discurso dos treinadores.

Há em atividade profissionais de várias gerações. Alguns continuam acreditando na versão menos cientifica do jogo, em geral amparados num empirismo que não raro dá conta do recado. E há em ação os que representam a versão mais moderna da coisa. E aí eu citaria o nome do jovem Jair Ventura. Pois creio estar na boca dele o tipo de discurso que mais tem contribuído para tornar clara essa cisão. As falas do treinador do Botafogo, a meu ver, deixam transparecer um futebol esmiuçado, estudado, amparado em observações de fundo científico. 

Mas entre a geração mais antiga e essa mais nova há ainda uma outra, representada por treinadores que misturam um pouco das duas. E o detalhe aí é notar que esse discurso moderno na boca deles não soa tão encaixado. E não os culpo. Trata-se de um discurso que eles tiveram de incorporar sem, de repente, ter realmente a convicção de que apontam o melhor caminho. Usam as tecnologias, se informam do que anda acontecendo pelo mundo mas estão - por uma questão meramente temporal - presos a certos conceitos. Veja, não estão errados.

É um caminho sem volta? Sim, por hora não vejo outro com tantos adeptos. Adiante, quem sabe, algum iluminado irá sacar que é preciso uma dose mais adequada de tecnologia. E que uma dose de velhos métodos - deve haver algum - também poderia fazer bem ao jogo e, o melhor de tudo, trazer resultado. Ma se isso acontecer, não será já. Possivelmente daqui alguns anos quando o mundo começar a sacar que não deveríamos viver de olhos tão grudados em smartphones, tablets e afins. Há muitos lugares pra se buscar conhecimento. 

O tema está posto e não deve ter sido por acaso que o técnico Rogério Ceni, depois da derrota do time dele para o Audax, diante do revés e da supremacia numérica do tricolor, fez questão de lembrar que o futebol não é matemática ou ciência exata. Eu vou além. Digo que, apesar de toda a contribuição científica, o futebol jamais será ciência. Embora exista um exército fazendo força para transformá-lo nisso.  

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sem essa de professor ! Treinador !


A FBTF - Federação Brasileira dos Treinadores de Futebol - que tem no técnico santista, Dorival Júnior, seu vice-presidente, se movimenta para tentar aprovar o projeto de lei 7560/2014, proposto pelo Deputado José Rocha, da Bahia. A intenção é regulamentar a profissão no país. O projeto, como uma forma de homenagem, ganhou o nome de Caio Júnior.Os envolvidos têm a intenção de organizar uma manifestação no início de março, quando treinadores do Brasil e do exterior, que se dispuserem, entrarão em campo vestindo uma camisa com o logotipo da Lei.

Dorival Júnior, por sinal o treinador mais longevo da Série A do futebol brasileiro, deu a seguinte declaração ao site globoesporte.com:

– Nossa intenção é regulamentar a profissão, oferecendo segurança para os profissionais de todas as divisões. Com a procura por direitos e de um tempo mínimo à frente de um clube de futebol, sem ficar pulando de galho em galho. Perto de 70% dos treinadores do país, por exemplo, não têm carteira assinada. Isso é inconcebível em um país que ama tanto o futebol. Nós ficamos para trás.

Deve-se pensar na questão das contrapartidas, pra evitar o que hoje costuma ser chamado de "dança das cadeiras". Um dos entraves é o Conselho Regional de Educação Física, que não quer abir mão da exigência do diploma da área. Um debate importante e uma regulamentação que já deveria ter sido feita há tempos e que pode dar imensa contribuição ao nosso futebol.. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

2017: De olho no calendário !

Foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo /Arquivo

Se tem uma coisa da qual o futebol brasileiro carece é de gente com atitude. Nesse sentido gostei muito de ter dado de cara com a entrevista concedida pelo técnico Paulo Autuori, pouco antes de o time comandado por ele, o Atlético Paranaense, estrear na Libertadores. Com categoria, diria até com elegância, Autuori foi duro ao criticar a CBF. E disse uma coisa que, embora soe óbvia, é algo pra se ter em mente sempre. A saber, o sucesso da seleção não é o sucesso do futebol brasileiro. 

Claro, o início do trabalho realizado pelo técnico Tite inevitavelmente faz pairar no ar a sensação de que o nosso futebol encontrou um rumo. O que se dá, acredito eu, por um detalhe muito interessante, que merece ser destacado: o lugar que a seleção continua ocupando no imaginário do torcedor. A seleção, de um jeito ou de outro, continua sendo um dos grandes signos da nossa relação com o jogo de bola. Logo, quando algo de bom se dá com ela recebemos, quase instintivamente, uma descarga de contentamento, pra não dizer de alívio.

Outro grande sinal que me veio com a declaração de Autuori foi a coerência dele. Em dezembro de 2015, quando os integrantes do movimento chamado Bom Senso foram até a porta da CBF para fazer uma manifestação e ler uma carta de protesto que pedia, entre outras coisas, a renúncia do presidente da entidade... lá estava Paulo Autuori. E se a memória não me trai foi o único treinador a dar as caras. Daquela época pra cá o Bom Senso perdeu força e os outros nomes de expressão que marcaram presença no ato não voltaram a falar com tamanha veemência sobre essa nossa realidade. 

E vale lembrar também que dois anos antes, em 2013, Autuori já tinha feito muita gente por aqui lhe olhar torto por ter dito que os treinadores brasileiros estavam defasados. Dessa vez  voltou a falar sobre o tema, não correu dele não, e até apontou o que nos levou a essa defasagem. E não deixou de nos lembrar, como tem feito também o Tite, da perversidade do nosso calendário. Por isso, se tem uma coisa à qual devemos ficar atentos a partir de agora é o que esse novo calendário irá fazer com o futebol brasileiro. As mudanças recentes farão competições importantes como o Brasileirão e a Libertadores serem disputadas em paralelo.

Em outras palavras, parecemos seguir na direção inversa àquela que gente que entende do riscado nos têm apontado. Chega a ser desolador constatar que depois de tantos escândalos o principal esforço feito pelos homens que comandam o futebol foi jogar mais uma dose de fermento em alguns dos seus principais torneios para que a realidade deixe de ser uma ameaça ao crescimento do faturamento. Diante disso tudo a temporada que agora começa terá a virtude de nos mostrar quais serão os efeitos colaterais das últimas cartadas dadas pelos cartolas. Temo que ao fim dela Autuori esteja parecendo ainda mais lúcido do que agora.  



* A entrevista  na íntegra pode ser lida aqui: 
http://bit.ly/2jYKxl8

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O novo técnico do Palmeiras

Foto: Antônio Carneiro/Pernambuco Press

Assumir um dos grandes times do país. Sob o vapor da euforia causada pela conquista de um título de Campeonato Brasileiro. Coisa que o clube não vivia há mais de meia década. Assumir o posto que era ocupado até alguns dias atrás por um treinador que, talvez, só não seja visto como páreo para o atual técnico da seleção brasileira. O desafio aceito por Eduardo Baptista e proposto a ele pelo Palmeiras é imenso.

Eduardo chegou lá trilhando um longo caminho como preparador físico. Nessa condição, tendo como suporte toda a vivência do pai, Nelsinho Baptista, conheceu o cotidiano profissional de clubes como Flamengo, Santos, Corinthians. Ao se tornar treinador no Sport, do Recife, conseguiu algo que costuma ser raro aos treinadores: tempo para trabalhar. Foi reconhecido na qualidade de campeão estadual e da Copa do Nordeste.  

Mas pelo que disse na época sentiu que o tempo no Sport estava pra terminar. Fez, então, o  quase óbvio caminho de quem se mostra capaz, acertou com um time de ponta, o Fluminense. Com ele, que tinha chegado no início de setembro, o Flu não caiu, mas foi eliminado na Copa do Brasil. O que sobrou de fôlego o estadual do ano seguinte consumiu e Eduardo se despediu das Laranjeiras antes de fevereiro deste ano terminar.

O capítulo seguinte vivido pelo ex-zagueiro, de carreira breve, que chegou a ser Campeão da Copa São paulo de Futebol Júnior com o Juventus, foi comandar a Ponte Preta, que como o torcedor deve lembrar deu caldo. Com ele o time de Campinas encerrou o Brasileirão em oitavo lugar. Ainda não tenho uma opinião formada a respeito de como o torcedor palmeirense o vê, Sob o ponto de vista do clube, me pareceu uma escolha diferenciada, que driblou o óbvio em matéria de contratação de treinadores. E isso não é pouco quando se trata de futebol brasileiro.   

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Enfim... o recurso eletrônico !

Foto: Reuters

O mais triste no fato de o juiz da partida entre o Kashima Antlers e o Atlético Nacional não ter tentado - no primeiro lance da história do futebol "oficialmente" analisado de modo eletrônico - que o jogador em questão estava impedido é dar margem para que o erro seja apontado como decisivo para o resultado do jogo. Verdade? Exagero?

Mas a lição que fica é uma que todos os simpatizantes do "recurso" não fizeram questão de levar muito em conta: ele não terá capacidade pra diminuir expressivamente a presença das intituladas polêmicas na hora de interpretar os lances. A complexidade do futebol - ou talvez a do olhar do homem sobre ele - não permite. Usá-lo pra dizer se uma bola ultrapassou, ou não , a linha do gol é uma coisa. Imaginar que armado de tal recurso a interpretação do jogo será simples, quase inocência.

De qualquer modo, o Kashima tá de parabéns!

E o Atlético Nacional também por tudo o que fez
e que sabemos...não foi pouco.       

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O Cuca e o Osvaldo

Foto: Agência Palmeiras
Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Os dois treinadores citados acima podem ser vistos, sob certa ótica, como as notícias do dia. Cuca está de peito aberto em entrevista que abre o caderno de esporte da FOLHA. E os navegantes do mundo virtual também encontrarão o homem que levou o Palmeiras ao título do Brasileiro em entrevista concedida à ESPN nos bastidores da premiação do Troféu Bola de Prata. Dias atrás já tinha considerado muita precisa a resposta dada por ele ao ser questionado sobre o que disse Renato Gaúcho sobre a necessidade de um treinador estudar.

Cuca driblou a polêmica fazendo o entrevistador ver o óbvio. Em linhas gerais, afirmou ser bem diferente do colega. Disse que se ele dá tudo pra não entrar em polêmica, Renato, por sua vez, quase não consegue falar sem criar uma. Cuca foi além, afirmou que " se não sentir falta, talvez nem volte ao futebol".Sugeriu ainda querer notar se o futebol sentirá a falta dele. Confessou cansaço mental. Falkou da dificuldade que é lidar com todo um elenco. Da relação que mantém com os bichos. E fez ver também o quanto o rótulo de supersticioso lhe foi imposto pela mídia, ao comentar sobre a calça vinho que gosta de vestir.  ão é só o campo que revela as razões de um sucesso.

Sucesso que Osvaldo de Oliveira esteve longe alcançar no breve tempo em que esteve no comando do Corinthians neste final de temporada. E quando digo sucesso é porque considero que se tivesse conseguido colocar o time na Libertadores de alguma forma teria sido bem sucedido. Fosse qual  fosse o futebol apresentado. A pressão sobre o presidente do clube é grande. E se o mandatário realmente disse ao treinador que ele seguiria no comando independentemente do que acontecesse este ano, a situação é mais delicada ainda. Osvaldo ficará? A pergunta deve ser respondida logo.

Mas seja qual for o ofício, trabalhar em ambiente hostil nunca é o ideal. Mas quando se trata de técnicos de futebol talvez isso venha a ser comum. Pode ser. Sendo assim é até possível que resida aí um dos muitos motivos para o grande número de demissões que vemos a cada temporada. Diante disso não descarto a possibilidade de que não continuar no cargo seja uma decisão acertada até mesmo para Osvaldo de Oliveira. De outro modo, terá deixado transparecer uma certa queda por desafios do tipo tudo ou nada.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A hora é de Cristiano Ronaldo ?

Foto: AP

Cristiano Ronaldo acaba de ser eleito o "Bola de ouro" da France Football. Repete, portanto, o feito de 2008 quando foi eleito pela primeira vez. O português também ganhou o prêmio em 2013 e 2014, período em que a revista francesa se uniu à FIFA na premiação. Não é o mais laureado, Façanha que pertence ao preciso Lionel Messi que até hoje já desfrutou do momento cinco vezes. Cruyff, Platini e Van Basten foram eleitos três vezes cada.

Para quem viu o argentino levar a melhor na última vez deve ter sido um alento. E vale lembrar que Cristiano Ronaldo está também entre os três que disputam o prêmio de melhor do mundo da FIFA, ao lado de Messi e Antoine Griezmann. O vencedor será anunciado no início do mês que vem. Campeão da Copa dos campeões da Europa e da Eurocopa, até então inédita para Portugal, difícil dizer que não é a hora dele.

Muito se diz do gajo, que tem uma história de vida daquelas e uma vaidade que parece maior que o mundo. Mas não dá pra não  reconhecer o alto nível físico e técnico que atingiu e que , incrivelmente, vem mantendo há muito tempo. E por isso os que não escondem de ninguém que querem chegar lá devem o ter como personagem no qual se espelhar. 

Diria que a hora é dele, sim. Mas sabe como é... temos aí um detalhe: uma vez separados, o Bola de Ouro é escolhido apenas por jornalistas, e o Melhor do Mundo da FIFA por votação popular, por jornalistas e pelos capitães e técnicos de seleções. O que pode revelar que a preferência de alguns não seja a mesma de outros. Mas se não fizerem disso uma simples questão de gosto...dará Cristiano Ronaldo! Não acham?

sábado, 10 de dezembro de 2016

Essa é do Brasil pós-Copa


Não que o CADE seja rápido pra resolver grandes questões. Os mais atentos irão lembrar que o órgão demorou quase uma década e meia para decidir sobre como deveriam ser negociados os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. E, ainda assim, quando decidiu levou um drible daqueles e nada fez para que o que tinha sido decidido fosse respeitado. 

Pois o nosso Conselho Administrativo de Defesa Econômica recentemente firmou um acordo de leniência com a Construtora Andrade Gutiérrez. Acordo no qual constam detalhes sobre a formação de cartel entre as empreiteiras para fraudar licitações referentes a construção e reforma de estádios para a Copa do Mundo. 

É dessas leituras que "espantam" por, no fundo, não nos causar espanto. Como tanta coisa que anda sendo revelada sobre nosso futebol e sobre nosso país. Claro, como poderíamos nos espantar?Vivíamos tendo essas revelações como parte da realidade. Só não havia fatos, comprovações. Trata-se da mesma sensação que nos tomou quando grandes dirigentes do mundo da bola acabaram em cana durante uma estada naquele luxuoso hotel da Suíça. 

Ou alguém duvidava que não era assim? Com tudo acertado antes. Com preços turbinados pra poder dar conta de pagar todo mundo. Jamais bastou dizer que era só comparar o preço dos estádios que estavam sendo erguidos por aqui com outros erguidos ao redor do mundo. Isso sem falar em todas as benesses, todas as isenções. Até o aço e o cimento das Arenas os envolvidos quiseram trazer com subsídios. 

E pouco se fala sobre o que está sendo acordado.Seja na esfera esportiva, política, ou outra qualquer. O que foi tratado não teve contestação. Terá sido coisa tão equilibrada e legítima assim? Ou nossos homens de bem estão perto de fazer nosso país, além de tudo, passar a ser visto como o país em que o crime passou a compensar? Ao menos para os que têm bons advogados. Aos que ostentam cacife pra jogar esse jogo.


* Leia matéria de Pedro Lopes e Vinicius Konchinski sobre o assunto:
http://bit.ly/2hjlp5K


    

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Outra do Brasil pós-Olimpíada

Basta ler o primeiro trecho da matéria de Aiuri Rebello e Guilherme Costa, do UOL, São Paulo.
A sensação que fica é a de que tudo é mesmo uma esculhambação.

Trecho:

O TCU (Tribunal de Contas da União) encontrou irregularidades em pelo menos 61% das verbas públicas destinadas ao esporte brasileiro nos últimos três anos, em todos os níveis. Em relatório publicado na última quarta-feira (07), o órgão apontou uma série de problemas em repasses de Lei Agnelo/Piva e Lei Pelé feitos pelo governo federal a COB (Comitê Olímpico do Brasil), CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), CBC (Confederação Brasileira de Clubes) e dez confederações escolhidas por amostragem. Segundo o texto, de um total de R$ 337 milhões, pelo menos R$ 207 milhões são passíveis de devolução à União

A matéria completa pode ser lida aqui:
http://bit.ly/2h8wwOg 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O futebol sobrevive

Estou no meio de uma gravação. Olho da cadeira de onde estou sentado. Tenho à minha frente o ex-goleiro do São Paulo e da Seleção Brasileira, Waldir Peres, e ao lado dele, o ex-ponta-esquerda Zé Sérgio. A conversa segue. E ao mesmo tempo em que ouço o que está sendo dito minha cabeça me transporta pra um tempo em que eu era menino. Repentinamente a imagem do garoto que eu era se forma. O chute vem no alto, do lado direito. Sem pensar muito em atiro em direção à bola. Ao tocá-la a comprimo entre as duas mãos. Quando vem a certeza de que não irá mais me escapar solto o grito: Waldir Peeeres! Isso enquanto meu corpo desaba no chão de cimento da garagem do velho prédio em que morávamos castigando um pouco mais meus cotovelos. Não há dor nisso, nada. 

Quando volto ao papo decido dividir com eles o que em mim se revelou como uma dúvida: será que as crianças hoje em dia ainda gritam o nome de alguém na empolgação inocente que o futebol costuma provocar? Para dar sentido ao que está sendo dito explico a razão da pergunta. Falo da minha mania de moleque de gritar os nomes dos jogadores que eu gostava, e que não era só o nome do Waldir que me saltava da boca. O de Zé Sérgio também. Mas é bem verdade que minhas escapadas pela ponta eram bem menos brilhantes do que eu conseguia ali embaixo da trave, ou na maior parte das vezes entre um chinelo e outro mesmo. 

É, mas o mundo girou e o tempo já não me dá o direito de saber - e muito menos desfrutar - do que podem as crianças hoje com uma bola nos pés. Hoje só me é dado descobrir as emoções de quem flerta, muito de perto, com meio século de vida. E se isso vem à tona agora nesta linhas é em razão de tudo o que vivemos nos últimos dias, em razão de uma tragédia ter inundado de lágrimas a página mais bonita que o futebol brasileiro escreveu nesta temporada. E que ao dilacerá-la revelou uma face do futebol que andava escondida e que eu, com minha descrença, dava até como perdida. A face que faz desse jogo de regras simples um catalisador da nossa emoção. Que nos permite comungar com quem nunca vimos, que nos permite sentir a dor de alguém que sequer conhecemos. 

Um jogo que desde sempre se alimentou de emoções profundas, honestas, e que ao dar de cara com essa combinação já rara, se agiganta. O vivido deixa entre tantas lições a de que o futebol segue entre nós com sua alma intacta. Dependendo, como sempre, do homem, de boa intenção, de ser tratado com nobreza. Oportunistas existirão sempre. Gente que se contenta com o universo medíocre dos resultados idem. Gente que se nega a vestir a cor do rival. Mas enquanto houver aqui, ali e acolá, um menino voando em direção a uma bola, com um sorriso estampado no rosto gritando o nome de alguém que o faça sonhar... o futebol sobreviverá. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Palmeiras: brilhante e regular


É fácil entender a razão que levou o Palmeiras ao título: não ter dado mole para o azar. Ou mais catedraticamente falando,mostrar em campo uma regularidade que passou longe de todos os outros times. Em especial do Santos que, no final das contas, se viu no papel de ser o grande desafiante da esquadra palmeirense. E que se não conseguiu levar às últimas consequências essa possibilidade foi justamente por não ter demonstrado tal virtude, a de ser regular. 

Mas mesmo sem ela a temporada do time da Vila Belmiro obteve o reconhecimento do torcedor, que não costuma fazer isso diante de qualquer situação. E é bem possível que esse contentamento venha do fato de o futebol da equipe santista ter se imposto como dos mais vistosos entre todos os que vimos ao longo desta temporada.  E até pelo time ser dono desse tipo de jogo explicar a falta de brilho de algumas apresentações do Santos se revelou também um desafio. Talvez estejamos diante de um time dono de um tipo de futebol que depende muito da inspiração e quando ela não vem a coisa engrossa. 

Não que eu ache justo o veredicto que anda aí exposto de que o time do Palmeiras não apresentou um futebol de encher os olhos. Digo que aceito tal colocação, mas como um crítica do conjunto. Ainda assim seremos obrigados a reconhecer que só um conjunto que funciona pra valer alcança a tal regularidade. E individualmente, há brilho sim. Afinal, estamos diante do Palmeiras de Gabriel Jesus, que mesmo que não tenha causado o mesmo arroubo depois de um certo momento mostrou-se virtuoso. O Palmeiras de Zé Roberto, que pode já não ter o fôlego ideal em lances que exijam certa explosão mas que sabe das coisas. O Palmeiras de Yerry Mina, Jaílson e por aí vai. 

E não custa lembrar como esse elenco palmeirense era visto quando Cuca baixou na Academia. Um elenco que de tão grande e diverso afirmavam ser impossível de administrar. Um elenco sem um miolo, sem um time definido. Tarefas que Cuca tomou pra si e cumpriu com louvor. E ao levar em conta o destino do treinador, apresentado no último mês de março, até no tamanho do contrato ele acertou. Seja por uma questão pessoal que o impediu de continuar, ou tivesse sido por uma proposta surreal da China, a verdade é que no lugar dele outros poderiam ter crescido o olho e batido o pé por um contrato maior, já que dinheiro não tem sido há algum tempo o problema do Palmeiras. Mas Cuca ao chegar assinou só até dezembro deste ano. Portanto, se despede sem viver o que é quase uma regra entre aqueles que ocupam esse tipo de cargo: dizer até mais sem ter cumprido o contrato até o fim.