quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Quanto vale um amistoso da Seleção?

Pedro Martins/ MoWa Press


O futebol e sua dose de crueldade.. Quem diria que veríamos Tite passar de uma quase unanimidade a treinador imensamente contestado. O futebol praticado pela seleção é autopsiado a cada vez que o time brasileiro entra em campo. Abundam teorias a respeito do modo como o Brasil joga. Mas há algo acontecendo com o time que representa o país que não tem estado sob olhar  dos comentaristas e nem sob o olhar do torcedor, que em outros tempos tinha o escrete nacional como uma versão ampliada de tudo o que o time do coração representava e poderia proporcionar. Algo urdido nos bastidores, e que de tão profundo tem escapado até aos poucos jornalistas que ainda praticam a louvável versão investigativa do ofício. 

Às vezes, quando a conversa sobre futebol descamba para o comportamento sempre duvidoso dos cartolas costumo brincar dizendo que quem gosta de futebol somos nós, eles, que têm o futebol como um grande negócio, gostam mesmo é de dinheiro. Seria inocência acreditar que se de uma hora pra outra um craque avaliado em dezenas de milhões de euros deixa de jogar bem acabe, em pouco tempo, perdendo seu lugar entre os convocados. E talvez um levantamento sobre os empresários que estiveram por trás de cada  jogador da seleção nos últimos tempos nos desse uma ideia mais clara de como as coisas andam e qual a lógica que as convocações escondem. 

Mas não é só isso, imagino que quando Ricardo Teixeira, no apagar das luzes, vendeu os direitos de transmissão dos amistosos da Seleção Brasileira até 2022, os endinheirados que fizeram negócio com ele cresceram os olhos, como se diz. Mas o tempo passou e o time brasileiro perdeu o apelo, não se fez campeão do mundo ou algo do tipo, muito menos mostrou um futebol que o fizesse querer ser visto de perto por gente que, teoricamente, está muito distante do Brasil. Ainda que nem nós estejamos perto dela, muito pelo contrário. Pra ser mais claro, deixou de despertar o interesse daqueles que detém esse mercado. 

Desse modo se fez inevitável para quem tem os direitos ir vende-los em Cingapura, ou na Arábia Saudita, onde a seleção irá se apresentar no mês que vem. Quanto valia um amistoso da seleção na hora do negócio, quanto vale hoje, quem sabe ? Podemos realmente ter dificuldade para marcar um encontro com essa ou aquela seleção de renome da Europa como relatou o estafe brasileiro tempos atrás. E mesmo  jogando o fino talvez não tivéssemos uma Alemanha pela frente, mas não estaríamos vendo o que temos visto. Em outros tempos diria que os destinos improváveis se explicavam muito pelo interesse dos donos dos direitos mas quando se vê os estádios em que a seleção joga cada vez mais vazios, ou mesmo improvisados, alguma coisa isso quer dizer. 

Mas quem será capaz de interpretar esses símbolos? No meio de tudo isso o desgaste de Tite é evidente mas não creio ser justo negar a ele um ciclo inteiro com a Seleção. Até porque ele é apenas uma pequena engrenagem no meio dessa lógica mercadológica que a tudo esmaga. Certo está o torcedor, em sua infinita sabedoria instintiva, ligando cada vez menos pra Seleção e cada vez mais para o clube com o qual esteve realmente envolvido desde sempre. Tem sido o que lhe resta. Ainda mais agora que  Brasileirão voltou a entrar em cena no meio da semana.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

O estrangeiro



Foto: Celso Pupo/Fotoarena/Lancepress!


Hoje volto a seguir a linha dos personagens aproveitando que o momento tem nos oferecido algumas possibilidades. Não que creia cegamente que o eleito dividirá a história do nosso jogo de bola em antes e depois dele. Nada disso.  Mas desde que aqui aportou o português Jorge Jesus tem alterado o rumo da prosa.  Tenho lá minhas dúvidas dos milagres que devemos creditar a ele. E não vou fazer firula pra tentar explicar. Ora, se ouvimos desde sempre que com pouco tempo de trabalho não dá pra fazer nada, que um treinador precisa tempo, então, por que achar que nesses míseros quatro meses Jesus foi capaz de elaborar tudo que andamos vendo sob o manto rubro-negro?

Que o time da Gávea anda jogando o fino só um insensível seria capaz de discordar. Não lhe tiro o mérito, mas sou levado a crer que muitos foram os fatores que colaboraram para que as coisas se dessem desse modo. Desde as contratações estelares feitas para as laterais - que até mesmo o mais desatento torcedor seria capaz de notar que eram mesmo algo que destoava do resto do time - passando pelas contratações quase mágicas do volante Gerson e do zagueiro espanhol Pablo Marí.  Sobre os dois estou convencido: quem assinou o contrato estava convicto de que fazia bom negócio, mas o que tem visto em campo certamente está além das melhores expectativas.

E explicação pra isso é provável só seja encontrada no céu, ou melhor, nos astros, para não parecer um trocadilho barato sobre um time cujo comandante atende pelo nome de Jesus. A tradução de tudo isso pra filosofia barata seria dizer que esse Flamengo que aí está deu uma liga jamais vista. O que não deixa de ser uma dádiva, e também não lhe tira o mérito. Mas a grande qualidade de seu treinador talvez seja a sensibilidade pra entender tudo isso, sacar que tudo está em plena sintonia, e fazer pouco caso daquele velho papo que se ouvia lá pros lados da Gávea de que fulano não podia jogar com sicrano coisa e tal. 

E vos digo que o que mais me chamou atenção no jogo de ida das semifinais da Libertadores contra o Grêmio não foi, como diriam os mais antigos, o fato de o Flamengo ter se assenhorado do jogo e sim o nível de precisão do time. Devem ter pintado um erro aqui e ali mas quando o estiloso árbitro Nestor Pitana apitou o fim da partida tinha comigo a sensação de ter visto um time que não errou. Preciso, como poucas vezes vi.  E há ainda outra questão que vale ressaltar, a capacidade que o português mostrou de lidar de igual pra igual com a retórica malandra de seu oponente, Renato Gaúcho. Sabemos todos que nesse quesito - embora tenhamos muitos no cargo que se enquadram perfeitamente naquele velho estilo fala-muito - o treinador gremista tem estilo irretocável, ainda que de conteúdo muitas vezes duvidoso.

Mas Jesus lhe fez frente e é bom que Renato se cuide porque uma vez concretizado o que muitos por aí dão como provável o português, ao que tudo indica, não se furtará a lhe tirar uma casquinha. E a igualdade que Jesus conseguiu impor nesse velado bate-boca através da mídia diz muito. Pode ser uma boa prova de que o treinador rubro-negro ainda que não figure - como fez questão de apontar seu opositor - entre os grandes treinadores da Europa, captou muito bem o espírito da coisa, do nosso futebol e soube perfeitamente fazer disso um trunfo a mais, quando já tem muitos.  Volto a dizer: Renato que se cuide.


* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", de Santos/SP

terça-feira, 8 de outubro de 2019

futebol não é pecado


Ypiranga x Bahia - dec 30 -arquivo Infantes Aurinegros


O trecho abaixo é da matéria de Felipe Pereira, do portal UOL, sobre Irmã Dulce, que a partir do próximo domingo será declarada santa pela Igreja Católica, modo como já é vista e tratada pelos baianos há  muito tempo. Entre as dez curiosidades da vida de Irmã Dulce listadas pela reportagem
uma trata do futebol.

" Primeira devoção foi ao futebol A morte da mãe obrigou o pai de Irmã Dulce a ser mais presente, e ele escolheu o futebol para unir a família. Todo domingo, ele levava as cinco crianças para o Campo da Graça, principal estádio da Bahia na época. A garota se tornou torcedora ferrenha do Ypiranga. Na década de 1920, o clube conquistou o campeonato estadual cinco vezes e era o principal rival do Vitória. Irmã Dulce gostava tanto de futebol que, quando aprontava alguma travessura, era proibida de ver os jogos. Esse era, para ela, o pior castigo.... "



Link para a matéria completa:

Fã de futebol, indicada ao Nobel...

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Um personagem original


O futebol brasileiro não empobreceu apenas no que diz respeito ao jogo, anda pobre de personagens. Coisas distintas embora intimamente ligadas. À parte a visível contribuição que tem dado em termos técnicos, Fernando Diniz, agora treinador do São Paulo, tem além de tudo se revelado um personagem de contornos singulares e por esse motivo importante. A afirmação poderia ser embasada tão somente no modo de atuação das equipes que tem comandado nos últimos anos e das quais o audacioso Audax provavelmente seja a maior expressão, ainda que Diniz tenha mostrado estilo antes, ao iniciar a carreira de treinador em times modestos que fizeram ele - logo de cara - bicampeão da Copa Paulista.

Mas acredito que o melhor retrato que possa ser traçado desse profissional esteja num detalhe sobre o qual tenho a impressão até de já ter citado. Se deu em palestra recente organizada pela CBF. Falaram por lá, exatamente nessa ordem, o técnico da Seleção Brasileira, Tite, depois o técnico Santista, Jorge Sampaoli e, por último, Fernando Diniz. A simples presença dele por lá já era muito significativa, esclarecedora. Todos sabemos que há um sem fim de nomes que poderiam ter lhe ocupado o lugar sem que isso causasse a menor estranheza. Sob certa ótica o que seria de se estranhar era justamente a presença de Fernando Diniz entre eles. Estava ali, ainda que totalmente despercebida,  uma prova do reconhecimento de sua importância para o futebol brasileiro. Qualquer outro nome soaria como mais do mesmo, Diniz, não.

É certo que ele está atrás de outros triunfos, mas inteligente que é deve ter consciência de que ganhar campeonatos amplificará sua liberdade e lhe trará horizontes muito mais largos na hora de pensar seus times. Mas além do significado de sua presença lá, o novo treinador do time do Morumbi tratou de deixar muito claro o que lhe faz diferente dos demais. Enquanto Tite e Sampaoli trilharam o caminho das explanações táticas ancorados em power points, Diniz subiu ao palco e de microfone em punho foi logo avisando que não usaria nenhum material daquele tipo para lhe dar suporte e desenhou um discurso que tinha como ponto de partida a angustia. Isso mesmo meus amigos, a angústia, que lhe tinha sido uma grande adversária nos tempos de jogador e que ele, de alguma forma, não queria que viesse a vitimar seus comandados. É, ou não é original?

De ar tímido, formado em Psicologia, visivelmente preocupado com sua formação intelectual - a não ser para aqueles para os quais a conquista de um título soa como a conquista do paraíso - Fernando Diniz não precisa se preocupar em provar coisa alguma.  Só os que não conseguiram ver o dna do que ele pensa refletido no modo de atuar do Athlético Paranaense pré Tiago Nunes, ou não perceberam o quão personalista era aquele Fluminense recém treinado por ele é que irão parir dúvidas a respeito da escolha feita pelo São Paulo.  Em última instância talvez o grande desafio de Diniz seja convencer o torcedor tricolor de que ele vale a aposta.  Outra grande distinção de Diniz está no fato de que neste momento de polarização em que se coloca Sampaoli e Jorge Jesus de um lado e os treinadores brasileiros de outro fica muito claro que o novo técnico do São Paulo não se parece em nada com os seus compatriotas.


* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", de Santos/SP

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O direito de torcer


Daqui alguns dias talvez você dê de cara com está notícia: o Irã finalmente permitiu que mulheres assistam a jogos no estádio. Se estiver diante de uma tela provavelmente a informação virá acompanhada de cenas de mulheres na arquibancada do estádio Azadi, em Teerã, o maior do país, sorrindo, acenando com entusiasmo. O governo, chamado de moderado , durante a Copa do Mundo da  Rússia até deixou que mulheres  fossem a esse mesmo estádio para acompanhar  os jogos do país contra as seleções de Espanha e Portugal, mas num telão.

Se a expectativa se tornar realidade o fato deve se dar no próximo dia dez de outubro quando o Irã receberá a seleção do Cambodja, em partida válida pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022.  Mas o que talvez não seja devidamente lembrado é que o anuncio da liberação feito pelo Ministério do Esporte não foi  exatamente por vontade própria. Há tempos a FIFA pressiona o país  ameaçando, inclusive, exclui-lo do próximo Mundial. 

Mas por trás de toda essa novela está a morte aterradora de uma jovem de vinte e nove anos, Sahar Khodayari, que em março,  disfarçada de homem, tentou entrar em um estádio. Queria ver o time dela, o Esteghalal Teerã, um dos clubes mais populares do país, enfrentar o al-Ain dos Emirados Árabes Unidos. Acabou presa e libertada dias mais tarde sob fiança. Mas no início de setembro ateou fogo ao próprio corpo diante do Tribunal Revolucionário Islâmico de Teerã. Corria o risco de pegar seis meses de prisão. Internada em um hospital, Sahar teve a morte anunciada justamente um mês antes da data do jogo entre Irã e Cambodja.

Relatos como o do jornalista iraniano-canadense, Maziyar Bahari, falam  que a família foi duramente intimidada e a jovem imediatamente enterrada, pois já tinha causado problemas demais. O moderado presidente iraniano havia acenado com algumas medidas nesse sentido. Tribunas extras para mulheres em vários estádios de Teerã, mas foi vencido pela resistência dos clérigos. A proibição vigora desde 1981, fruto da legislação instituída depois da revolução no final dos anos setenta. A liberação não será assim uma outra revolução. Haverá entradas separadas para as mulheres, reforço considerável na segurança. 

Mas basta pensar na realidade das mulheres por aqui para encontrar alguns parâmetros. Pense o quanto os estádios brasileiros "liberados" podem ser considerados desconfortáveis para as mulheres e será possível ter uma pequena noção do que as espera por lá. E, por favor, se forem fazer esse exercício de imaginação pensem em uma mulher chegando a um dos nossos estádios desacompanhada. Há muito a ser feito nesse sentido, é só lembrar do "Brasileirão" feminino jogado em gramados  terríveis, desse nosso jeito macho pseudo-moderno. 

Mas tão irreal como imaginar as moças sendo recebidas com flores por aqui é imaginar que essa questão cultural pudesse ser neutralizada com as armas de que dispõe a FIFA. Forçar mudanças, talvez. E, por isso, nesse sentido não me parece desprovido de razão afirmar que se a principal entidade do futebol mundial tivesse exigido essa liberação a essa altura, mesmo sem saber, teria salvado uma vida. E o cultuado Esteghalal Teerã teria a essa hora uma apaixonada torcedora a mais. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O gol que falta


Rubens Chiri- sãopaulofc.net


Vou contar uma história do tempo em que praticamente todos os treinos eram abertos para a imprensa. Rogério Ceni já era um reconhecido batedor de faltas. E uma vez encerrados os trabalhos reservava um tempo para aprimorar o fundamento que lhe fazia a fama. Coisa que quase nenhum repórter se dava a acompanhar. A essa altura, espremidos pelo tempo, tinham outras prioridades. Mas recordo bem de certo dia ter acompanhado tudo de perto. Provavelmente por estar preparando algum material ligado a esse tipo de treinamento ou a respeito do próprio arqueiro tricolor. 

Rogério tinha ali com ele alguns companheiros de time, a quem desafiava. E quem não gostaria de uma chance pra mostrar que poderia encará-lo nesse quesito? E era também uma maneira de dar um ar descontraído ao treinamento. Um jeito de afinar os movimentos brincando, tirando um sarro. O desafio diante do grande artefato de metal que imitava a barreira adversária não era exatamente colocar a bola no gol. Isso era fácil. Ganhava a parada quem conseguisse acertar o travessão! Dispensavam até o goleiro. Um descrente pode achar que ficamos ali um tempo sem ver alguém realizar tal façanha. Mas não, bastaram algumas cobranças e pimba! Rogério carimbou o travessão. E com uma força que permitia imaginar muito bem o desafio que representaria a qualquer um que tivesse a missão de defender a meta. Além dele naquele dia não vi mais ninguém conseguir. 

Digo isso tudo porque acabei de dar de cara com uma manchete evidenciando o quanto um gol de falta tem sido coisa rara no futebol brasileiro. Durante todo o primeiro turno foram apenas nove. Dois deles marcados por um zagueiro. Rafael Vaz, do Goiás. Perguntado sobre a quase proeza, Vaz, afirmou que a marca é fruto de muita dedicação e que costuma cobrar umas trinta ou quarenta por dia toda vez que acaba um treino. Ou seja, a receita pra se fazer um gol de falta continua a mesma, por mais que um gênio como Rivellino defenda ardorosamente a teoria de que nem a insistência é capaz de redimir a ausência do dom.  

E entendo a indignação dele toda vez que alguém lembra que pela seleção o último gol de falta foi marcado há quase meia década. Isso mesmo, cinco longos anos. Foi em 2014 em um amistoso contra a Colômbia. No Brasileirão as contas revelam que do ano passado para cá a média de gols de falta caiu de 0,71 para 0,47. Número que beira a pior marca da década, 0,44, registrada em 2016. As razões apontadas para essa escassez são muitas. Vão desde as mudanças implementadas nos treinamentos, que passaram a ser ditados pelos preparadores físicos e pelos fisiologistas, passando pelos rasos gramados atuais,o que impede, segundo alguns, que o pé do cobrador toque a bola muito por baixo. 

Citam também a melhor preparação dos goleiros, que além de mais ágeis estão mais altos. Difícil é saber o quanto hoje em dia um jogador profissional considera que valha a pena se dedicar a esse tipo de coisa. Um gol de falta pode não ter a exuberância de um gol de bicicleta nem a dose cavalar de surpresa contida num gol feito com um belo chute de primeira. Mas mesmo ensaiado à exaustão um gol de falta tem o frescor do improviso. Portanto, se dia desses seu time marcar um do tipo, seja um torcedor sensível, e lhe honre com uma comemoração à altura.



* artigo escrito para o Jornal "A Tribuna", de Santos/SP

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

O treinador



O treinador foi desde sempre personagem dos mais intrigantes do mundo do futebol. Graças a eles temos sido condenados a vira e mexe dar de cara com aquela velha questão que nos interroga a respeito da capacidade deles de ganhar, ou não, uma partida. Mas não quero ressuscitar esse questionamento que, enfim, sumiu das conversas para a salvação de todos. Outro lugar comum é dizer que eles ganharam importância demais. Um raciocínio com o qual é difícil não concordar quando se olha o futebol sob a perspectiva das últimas duas décadas. Os mais velhos irão lembrar que quando os anos noventa saíram de cena já tínhamos visto Luxemburgo viver dias de rei. Mas basta se entregar ao noticiário dos últimos dias e ficará comprovado  que os treinadores continuam desfrutando de um status invejável. 

Não que a chegada de Mano Menezes ao Palmeiras não merecesse muita atenção, ou que o discurso duro de Rogério Ceni depois da goleada sofrida para o Grêmio não fosse tema da maior importância. Entender onde mora exatamente esse exagero não é tarefa fácil, exige uma grande reflexão sobre o modus operandi da mídia, ou das possibilidades que a realidade lhe dá nos dias de hoje. Em linhas gerais, é possível que uma pergunta ajude a deixar mais claro o que quero dizer: quantas outras pessoas deveriam ser ouvidas a respeito de tudo que envolve a chegada de Mano ao Palmeiras ou a respeito do beco  sem saída com que Rogério Ceni se deparou ao aceitar ir para o Cruzeiro? 

A conclusão a que chego é que os treinadores pelo protagonismo que lhes foi dado são hoje a parte mais exposta dessa engrenagem. Jogadores torcem cada vez mais o nariz para conceder uma entrevista. No fundo o que os treinadores vivem é muito parecido com o que vive qualquer ser humano, inclusive os craques, altos e baixos. E isso vale para nomes que hoje soam grandiosos, como Osvaldo Brandão, João Saldanha, Aymoré Moreira e tantos outros. Mas talvez Telê Santana seja o mais indicado para apontar esse viés tão humano e imperfeito do qual nem os treinadores de futebol escapam. Não só porque também o viveu, mas principalmente por sua história ter se dado mais recentemente. Era a figura maior por trás da inesquecível seleção brasileira de 1982 mas contestado até o dia em que, à frente do São Paulo, conquistou a América e o mundo. Triunfos que definiram pra sempre o lugar de Telê nesse panteão. 

E os mais detalhistas irão lembrar o quanto o destino precisou ser caprichoso para que ele seguisse como técnico do tricolor na época. Falo disso porque neste momento em que dois estrangeiros ocupam a ponta da tabela do Brasileirão dando a impressão de que o fato incomoda muitos dos nossos treinadores, acho importante apontar que esse filtro do tempo deve ser a grande baliza. Sucesso efêmero muitos tiveram, mas para que um dia um Sampaoli ou um Jorge Jesus ocupem um lugar como o que a nossa história reservou ao húngaro Bela Guttmann, por exemplo, vai chão. Mas o que ninguém diz, e que ouvi dia desses de alguém que conhece bem o mundo do futebol, é que é quase uma ilusão achar que hoje em dia os treinadores têm muito poder. Esse, na verdade ,  está nas mãos dos diretores e dos agentes. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Secador: modo de pensar





Torcer é algo muito pessoal. Cada um tem seu estilo. Mas se você torce fatalmente você seca. Nem sempre com a mesma pegada. Conheço torcedores discretos que são secadores fervorosos. E secadores discretos que são torcedores fervorosos, embora o segundo caso seja mais raro. Nos últimos dias me vi cercado por secadores entusiasmados. Um efeito colateral da derrota do Palmeiras para o Grêmio pela Libertadores. Houve, para dar sentido a tudo isso, o fato de o Palmeiras se encontrar naquela condição de time a ser batido, menos pela beleza de seu futebol e mais pelo poderio financeiro. Posto que o Flamengo lhe roubou de vez dias depois no Maracanã provocando a queda de Felipão, o simpático.

E esse clima de secação descarada se renovou dias depois quando o Corinthians ficou frente a frente com o Fluminense pela Copa Sul-Americana. Não com a mesma intensidade, até porque a alquimia dessa coisa de secar pede na porção um resultado que o valide, aí o treco expande. O que não se deu. Mas  a sensação que me ficou é que Felipão moldou um time nada sedutor. O que é fatal para atrair secadores. Não são todos, pois existem os convictos, mas sou levado a crer que um time que joga de forma reconhecidamente bonita costuma diminuir muito essa torcida contra.

O Santista também se viu no último final de semana - depois de bater a Chape com um gol contra - nessa condição de secador. O rito  pedia aquela gorada pra cima do Flamengo que iria pegar quem? O Palmeiras! De onde se conclui que o secador é um sujeito totalmente livre de bandeiras. Mas só não podemos achar que o ato de secar não tem nenhuma lógica. Como tem. E das melhores, simples. Pra levar adiante o rito,  se precisar cruzar os dedos a favor desse ou daquele o fará sem a menor cerimônia. O secador é , com a licença do termo, um ateu futebolístico, ou melhor, um agnóstico. Afinal, não é assim um descrente de tudo.

Estamos todos cansados de saber que o secador tem, como quando está na condição de torcedor, um sem fim de rituais banais e esquisitos. Ou usar a mesma meia de lã, em pleno verão todo dia de jogo não é coisa de matusquela,  como diziam antigamente? Do jeito que está o Brasileirão o Flamengo no final de semana será o grande alvo dessa turba pra quem a tabela de classificação de um campeonato é quase um oráculo. E quem conhece bem o raciocínio de um secador sabe que ele não esmorece diante de nada, nem mesmo diante do mega desafio de ter de secar o líder quando este, além de tudo, no conforto de uma óbvia inversão de mando de campo, terá pela frente o lanterna do campeonato.


* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", de Santos

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Ele sonhou ser jogador



Esta semana tomei um Uber. No caminho com o tempo de viagem esticado pela vagar do trânsito da metrópole fiquei sabendo que o rapaz que me conduzia um dia tinha levado adiante o velho sonho de ser jogador de futebol. Lamentou a falta de vivência dele na época. Mas quem pode fazer tudo certo quando se tem quinze anos e pra dar conta disso topa ir morar sozinho, em outra cidade de outro Estado? Resistiu até onde deu. Mas o que me chamou  atenção no papo não foi exatamente essa história de enredo muito comum. Foi o que ouvi dele quando começamos a nos aproximar do destino. Disse que uma das prioridades que tinha era voltar pra academia, cuidar do corpo, se dar a chance de ter uma vida longa e com qualidade. Totalmente ciente de que passar boa parte do dia sentado, dirigindo, exigia um contraponto. Mas porque é que uma conversa tão trivial teria razão para estar aqui ? 

Digo a vocês que ela esconde a razão maior para que se trate o esporte como algo realmente valioso. O futebol ao qual ele se entregou um dia cheio de expectativas não fará dele o jogador que sonhou mas lhe deu uma consciência da necessidade de cuidar do corpo que nenhuma aula teórica seria capaz. E é disso que se fala quando se tenta promover a prática esportiva. E se trago o tema pra cá é pra fazer uma reflexão do meu próprio ofício. E ofícios são sempre imperativos. Tiveram seus dogmas e os parâmetros para exercê-lo definidos muito antes da nossa chegada. Mas sempre me incomodou, e continua me incomodando, que se trabalhe com ele praticamente ignorando essas questões e a  própria educação física. Talvez não seja, e sei que não é, exatamente o que um telespectador , um ouvinte ou um leitor procura quando vai atrás de um programa esportivo ou algo do tipo.

 Mas é preciso de alguma forma despertar a reflexão porque chegam a ser coisas totalmente distintas o esporte profissional e o amador. O primeiro deles muitas vezes com valores discutíveis do ponto de vista moral. E o outro cheio de apelo, que pode se dar o direito - nobre - de desdenhar de triunfos. É o esporte que realmente se revela um veículo pra que tomemos consciência do próprio corpo, dos benefícios da disciplina, palavra que sempre soa tão careta, e da interação que permite com o outro. O esporte é entre tantas outras coisas um meio para se fazer amigos, construir um círculo social com laços fortes, cheio de boas memórias. Daí a necessidade de fazer a criança tomar contato com ele rápido, de forma prazerosa. E dizem os especialistas, quanto mais cedo for maior será a probabilidade que o carregue com ela por toda a vida.

 Quanto mais rodados ficamos mais improvável que isso aconteça. Não sou ficcionista. Sei que qualquer tentativa nesse sentido depois dos cinquenta tem um quê de castigo. Enquanto batuco estas linhas duas coisas que já li e jamais esqueci me vieram à cabeça. Uma que o hábito é a nossa segunda educação. Logo, mudar hábitos é se reeducar. A outra que, ao contrário do que muita gente pensa, não é a cabeça que convence o corpo. Não tem essa de dizer "agora eu vou" e tudo se resolve. Nada disso. É o corpo que convence a cabeça. Você vai lá, pratica esporte, e a cabeça, as sensações irão lhe convencer de que é uma boa, que dá um barato bom e saudável. Enfim, reflexões de quem se sente na obrigação de falar do esporte como nem sempre se fala. 

* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", de Santos/SP

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Quem manda no futebol?




Até outro dia eu estava praticamente convencido de que a International Board, o órgão que cuida das regras, de dizer o que pode e o que não pode no jogo de bola, mandava e ponto. Aparando, claro, um descontentamento aqui outro acolá. Mas eis que ele foi peitado pelos cartolas do futebol inglês. E o que aconteceu por lá deve nos servir não só de lição como pode nos dar um norte nessa questão tão urgente que tem sido a utilização do VAR no Brasil. O cuidado com que o tema foi tratado por eles é um verdadeiro tapa na nossa cara. No ano passado usaram a Copa da Inglaterra e a Copa da Liga Inglesa como laboratório. Testaram o sistema em jogos da principal divisão sem que houvesse conversas  entre a cabine e o árbitro que apitava o jogo, ou reversão em virtude do que estavam vendo. Enfim, se certificaram de que a novidade não geraria o caos, como temos visto.

Situação totalmente diferente da que vivemos, primeiro com o presidente da CBF na época prometendo que o VAR seria implantado quase que imediatamente.  Não sei se lembram, mas foi depois daquele gol de mão anotado por Jô que deu ao Corinthians a vitória sobre o Vasco. Pura bravata. Quando muito tempo depois tudo estava decidido, na hora de pagar a conta foi aquele quiprocó. Mas a lição vai muito além do cuidado, do planejamento. Está também na coragem e nos pontos precisos  preservados pelos ingleses. Sim, eles preservaram antigas normas que a meu ver jamais deveriam ter sido alteradas. 

Sobre as mudanças não terem sido bem digeridas pelo Board o diretor técnico da Premier League foi direto. Afirmou que se trata de um assunto a ser definido pelas autoridades do futebol na Inglaterra, não por eles. E quando digo normas antigas, falo de apontar o impedimento quando ele se torna óbvio e, principalmente, preservar a interpretação na hora marcar penalidades em lances de bola na mão. Forçar os zagueiros a manter os braços atrás do corpo é algo antinatural, disseram. E lá, onde praticamente todas as arenas possuem telões, será mostrado o replay quando a marcação for alterada. E , vejam o detalhe, pela TV os telespectadores acompanharão as mesmas imagens usadas pelo VAR. O que evita esse limbo criado aqui, um verdadeiro vácuo, em que nem pela TV e nem da arquibancada é possível saber com exatidão o que está se passando.  

Outros cuidados são um desafio, desses que mesmo se tratando do futebol inglês prefiro ver para crer, como determinar a verificação das jogadas e tomar a decisão antes da celebração dos jogadores chegar ao fim. Mas é bom não duvidar. Seria quase humilhação pra nós. Mais do que a lição imposta por uma tecnologia, fica nesse capítulo também uma lição de postura. Peitar os poderosos exige coragem. Fica o exemplo para a CBF em relação à FIFA e ao Board, como também aos clubes brasileiros, sempre uns cordeirinhos,  que em nome de preservar a boa relação e os lucros aceitam colocar em risco o próprio negócio. Pode parecer exagero. Tudo bem, que o futebol não vai acabar não vai, mas como já disse se essa bagunça continuar a perda será inevitável. Se não perder grana, vai perder em emoção. E em matéria de futebol , emoção é dinheiro. Ou não é?


* artigo escrito para o jornal " A tribuna", de santos

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Cartão Verde - 26 anos no ar



Passa lá, diz o que achou!           








quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A terra da fantasia


"Estão todos na terra da fantasia". A frase foi dita por Jurgen Klopp o atual técnico campeão de clubes da Europa, comandante do Liverpool. A cutucada veio em hora oportuna. Pouco antes de o time dele disputar a Supercopa da Inglaterra com o Manchester City, do notável Pep Guardiola. Klopp afirmou que o adversário estava entre os quatro times que podiam se dar ao luxo de gastar um rio de dinheiro a cada janela de transferências. Pep se defendeu dizendo que não era bem assim, que existia o fair play financeiro para equilibrar as forças. 

Mas essa coisa de terra da fantasia é termo muito apropriado. Está pra nascer o economista capaz de elucidar a lógica que move o mercado do futebol. Os números, creio, até já desfilaram aqui.  Notem. A receita dos  quatro grandes clubes de São Paulo nos últimos dez anos aumentou em setenta por cento. Seria muito salutar que o salto tivesse sido dado em virtude de administrações primorosas. Mas sabemos que não é o caso.  A negociação dos direitos de transmissão dos jogos é apontada como a grande responsável pelo salto, mas ela também tem lá seus detalhes singulares. Incrível também é ficar sabendo que apesar desse faturamento inflado as dívidas desses clubes cresceram na mesma proporção. 

Outra frase incrível, capaz de fazer o torcedor do Fluminense se sentir num sonho, foi dita pelo técnico do Peñarol depois de o time dele ser eliminado pelo tricolor carioca da Copa Sul-Americana. Na coletiva depois do jogo de volta - nova derrota, dessa vez por dois a um - Diego Lopez foi claro ao definir o que tinha vivido. Disse ele: foi mais difícil que o Flamengo. Time, aliás, que por estas bandas também poderia ser acusado pelos adversários de viver na terra da fantasia. Ou o torcedor rubro-negro não se sente num conto de fadas? Não ao ver o que anda vendo em campo, mas ao se dar conta de que o time dele agora tem Rafinha de um lado, Filipe Luiz do outro. Entre compras e vendas o time da Gávea movimentou apenas nesta temporada quase meio bilhão de reais, pra ser mais exato, 468 milhões. 

Olhando aqui do hemisfério sul dá pra dizer que Klopp falou de barriga cheia. No ano passado o time dele gastou como nunca, como avisava uma certa manchete tempos atrás. O quarteto apontado por ele - e que soa óbvio - é formado pelo Manchester City, pelo Barcelona, pelo PSG e pelo Real Madrid. Os quatro são os grandes protagonistas desse reino da fantasia. Talvez fizesse bem ao treinador alemão, sem dúvida um dos grandes treinadores do futebol mundial, tomar consciência de que se ele não está nesta terra da fantasia, está na condição de nobre com posses capazes de seduzir muita gente. O que nunca será pouco. 

E por falar em tricolor, o São Paulo acaba de colocar o seu torcedor nessa onda. A chegada de Daniel Alves, seja pra jogar na lateral ou no meio campo,  soa como um sonho. A festa foi grande e a expectativa também é. A crer no que foi dito por gente entendida no assunto o novo contratado do time do Morumbi é do tipo capaz de convencer um elenco inteiro da capacidade de triunfo. Uma espécie de agente catalisador da vitória. Que assim seja, porque o futebol brasileiro anda carente de fantasia. E com a cartolagem faturando cada vez mais alto nada mais justo do que deixar o torcedor se sentir parte dela. 


* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", de Santos/SP

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O feito de Sampaoli



Eis que cento e oito rodadas depois o Santos voltou a liderar o Brasileirão. Mais notável do que isso é perceber o time presente em tudo quanto é conversa que se trava sobre o jogo de bola. Agora de envaidecer mesmo é saber que o time santista se encontra nessa condição reconhecido como uma equipe que joga bonito. Ainda que seja verdade: nesse sentido o momento pobre que o nosso futebol atravessa ajuda a amplificar consideravelmente essa virtude. 

Não acho difícil de entender quando Sampaoli diz que o maior adversário da equipe a partir de agora pode ser a própria equipe. Qualquer pessoa envolvida com esporte sabe que chegar lá é uma coisa, se manter, outra, mais desafiadora ainda. Poderia citar o Palmeiras como exemplo, mas é preciso levar em consideração que  são realidades diferentes. O time da Vila tem foco total no Brasileiro enquanto o time alviverde disputa outros torneios ao mesmo tempo, um deles com apelo suficiente para rivalizar com o nacional.  

E há outros fatores que merecem atenção.  Certas caneladas que a direção santista vira e mexe insiste em dar. Dias atrás foi muito estranho ouvir Sampaoli dizer que não sabia da chegada de Paulo Autuori para ser o diretor de futebol do clube. Nada contra Autuori, que teve o conhecimento e a vivência no futebol exaltados pelo argentino quando falou sobre o assunto.  O Santos tem lá sua hierarquia, não é decisão para o treinador. Mas boa comunicação e transparência nunca são demais. 

O tipo de coisa que deixa no ar a impressão de que a excelência que tem sido vista em campo não se alcança fora dele. O momento é de contrapartida. Pois se o treinador colocou o time nessa condição merece ter atendidos seu pedidos de contratação, merece que lhe seja dado um atleta capaz de suprir o vazio deixado pela saída de Jean Lucas, que me impressionou com seu estilo elegante de tratar a bola e pelo visto ia se encaixando no elenco de maneira rara. 

Não se trata de pedir pra gastar o que não se tem. Embora saibamos todos que o Santos tem insistido em gastar caminhões de dinheiro com contratações que não seduziriam nem o mais inocente dos negociantes. Parte daquela lógica toda própria do mundo do futebol. E se falo de questões administrativas é porque em certo sentido estar ciente de que ao trazer Jorge Sampaoli para comandar o time se fez algo ousado e é preciso capitalizar em cima disso. 

As pessoas a essa altura já esqueceram que na época trazer para o futebol brasileiro um profissional com mercado na Europa, que tinha feito o Chile campeão de uma Copa América e que tinha acabado de comandar a seleção argentina em uma Copa do Mundo soava meio improvável. Mas toda essa euforia, é verdade, esconde um detalhe muito importante, o campeonato está no começo, o ano em que estamos é que dá a impressão de estar já lá na frente. 

 De qualquer forma, o momento do time santista é especial. Quando vi a Vila cheia no último domingo me veio à cabeça o fato de que em outros tempos até os torcedores dos outros times tinham vontade ver o time santista jogar. O Santos de Sampaoli deixa, por hora, a impressão de que pode fazer algo assim. O que  seria um feito fenomenal.

* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", de Santos/SP - 01/08/2019

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Ando com saudade



Se há uma verdade nessa era pós-árbitro de vídeo é que ele transformou todos nós em idiotas da objetividade, como bem escreveu o Ruy Castro dias atrás.  Éramos felizes e não sabíamos meus amigos. Como presumo que era feliz o Nelson Rodrigues, que cunhou o termo numa época em que os tais desfilavam por aí em absoluta minoria. Mas o tempo passou e a impressão que tenho é a de que foram aumentando, aumentando e já eram quase maioria quando essa citada tecnologia pintou na área pra resolver o jogo. Ou melhor, para embolar o meio de campo.

Na última rodada do Brasileirão, desgostoso com o que tinha acabado de ver a turma da arbitragem decretar no jogo entre o time dele e o Atlético Mineiro, o ex-goleiro e hoje treinador do Fortaleza, Rogério Ceni,  deixou no ar a seguinte questão: como é que você vai ser a favor de um instrumento que te atrasa o jogo em dez minutos e todos em lances interpretativos? A desafiadora  pergunta me fez pensar em outra:  como é que o futebol virou o que virou sendo tão dependente dessa bendita interpretação? 

Por essas e outras começo a suspeitar que algo se rompeu nessa cadeia e isso deveria ser motivo de muito estudo e cuidado por parte de quem tem o poder de decidir o destino do jogo de bola. A realidade não deixa dúvidas. É tarde demais pra se voltar atrás. E também não é o caso. Mas ou alguém dá um jeito de corrigir a rota ou o estrago a médio prazo irá se revelar. Essa questão da agilidade, ou da falta dela, que as palavras de Rogério Ceni fazem questão de apontar, é o sintoma mais evidente da falta de objetividade na hora de usar o recurso. 

E isso tem ficado claro, não só porque o tempo médio até a definição está muito acima do que se observa mundo afora, bem como as análises têm ido buscar suas justificativas em pontos cada vez mais distantes do lance que verdadeiramente deu origem a consulta através do VAR. Isso quando estamos todos cansados de saber que no rebuliço de uma bola aguardada dentro de área será sempre possível peneirar, de câmera na mão, um sem fim de violações à regra. Ou vão dizer que a coisa tem se dado dessa forma porque nosso futebol é muito mais complexo do que os outros? 

Sabe, eu sinto saudade do tempo em que até as análises táticas eram semeadas na crônica esportiva com parcimônia.  Saudade do tempo em que mesmo os grandes interpretes do jogo tinham a humildade de construir um ponto de vista que ia de encontro ao que rondava a cabeça do torcedor comum. Juarez Soares , que infelizmente nos deixou esta semana, era um mestre nisso. Hoje em dia muitas vezes tenho a impressão de que o torcedor não raro tem de se esforçar sobremaneira para compreender o que está sendo dito.  

Esse verniz catedrático com o qual andam cobrindo o futebol incomoda, ainda que comparado ao uso feito desse árbitro de vídeo que aí está seja claramente uma ameaça menor. Mas nem tudo está perdido. O futebol brasileiro ainda tem Everton Cebolinha pra exibir. Por pouco tempo ao que tudo indica. Mas tê-lo aqui entre nós até agora me surpreende. Ah! E não custa lembrar outra do Tio Nelson: o VT é burro!  Não se esqueçam disso.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Respeito é bom !



Sabemos que vivemos num pais singular. Ou você conhece outro onde a lei precisa pegar?  E algumas, sabemos, não pegam, como dizem. Lembro dessa nossa incomoda singularidade para falar do futebol feminino. Terminada a Copa da modalidade dias atrás não faltaram manchetes anunciando o sucesso do torneio, cuja final teria tido mais público aqui do que nos Estados Unidos. E não custa lembrar: o time norte-americano era um dos finalistas e acabou se sagrando pela quarta vez campeão mundial. O problema com o futebol feminino não é bem esse, mas de certa forma faz lembrá-lo pois a CBF - pressionada pela FIFA - impôs a lei e o clube da Série A que não tivesse sua versão feminina estaria impedido de jogar o Brasileirão este ano.  Não que dado o descaso com que a maioria sempre tratou o futebol feminino  a decisão não tenha sido merecida. 

Sei  que o futebol feminino não é unanimidade e imagino o humor de certo leitor que tenha chegado até aqui interessado mesmo é no futebol de sempre, o masculino. Mas outras leituras, em especial as sobre política, já devem ter dado pistas de que o papel do jornalista é criar certos desconfortos. Talvez seja o caso de colocar logo em campo a declaração de uma das jogadoras do Sport Recife, que foi a razão de eu ter escolhido o tema. As palavras da atleta Sofia Sena podem sim - como afirmou a coordenadora do time pernambucano - terem sido ditas no calor da hora. Sob o peso de quem  tinha acabado de levar de nove a zero do Santos. Mas tem lá sua dose de verdade. 

Sofia, disse o seguinte: Elas (as jogadoras do Santos) treinam todos os dias e a gente mal tem horário pra treinar. Elas convivem com a bola e a gente mal toca na bola. Falta foco do clube em nós. Falta o investimento que a gente não tem de nenhuma forma. Se vira do jeito que pode , tem um horário, uma professora para ensinar vocês, uma bola e se vira aí, o resto a gente que resolve. Eu acho que isso não ganha jogo. A gente pode ter raça, vontade, amor, mas isso não vai ganhar jogo. E estava dito. Interessante notar o grau de consciência a respeito da realidade ao admitir que nem a raça , nem a vontade e nem amor irão resolver a questão. Possibilidade que o torcedor, inocente, gosta muito de cultivar. Mas Sofia está perto demais do futebol para acreditar nisso. 

A realidade é que o Sport, bicampeão estadual, dissolveu todo o departamento da modalidade semanas antes do Brasileirão começar. Mas para não acabar excluído tratou de montar uma equipe às pressas. Alguns times têm problemas financeiros é verdade, outros, como parece ser o caso do Santos, se mostram compromissados com a modalidade.  O que não quer dizer que estão salvos. Ontem, na  véspera do jogo contra o Iranduba, em Manaus, a treinadora Emily Lima fez questão de mostrar as jogadoras do time santista dormindo no saguão do hotel, depois de uma longa viagem, com escala, porque não havia quarto para elas. A logística, que é feita por um empresa contratada pela CBF, também esteve entre os motivos apresentados pela coordenadora do Sport ao justificar a indignação de Sofia.  Pelo que temos visto a verdade sobre o futebol feminino no Brasil é que os clubes se viram de uma hora pra outra tendo de lidar com ele - forçados por uma lei - e o administram neste momento sem terem consciência do que pode e representa. Sem respeito, enfim.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Tite e Sartre




Esdras Martins/ O Fotográfico












A Copa América passou sem pelo visto ter feito com que o torcedor mudasse o seu conceito a respeito da Seleção. E por falar nela, o técnico brasileiro em uma de suas últimas coletivas do torneio  ao ser questionado sobre o motivo que o levava naquele momento a não adiantar aos jornalistas a escalação do time que colocaria em campo justificou a atitude dizendo, entre outras coisas, que se o fazia era com a intenção de não ser sempre o mesmo. A resposta, espirituosa, soaria mais apropriada ao time, vira e mexe acusado de atuar de maneira previsível.



Mas se levada a cabo, a resposta é também promissora, pois se ele vier mesmo a ser outro, o  time também será. Não que não tenha virtudes. O que acho é que no fundo a Seleção precisa de algum caos criativo, ou algo que o valha. Um apelo forte pra fisgar o torcedor. Algo na linha Everton Cebolinha e tal. E uma resposta dessa sugere reflexos também na hora de convocar o escrete. Mas desconfio que no fundo Tite gostaria de ter dito que se não entregava  a escalação era por ter aprendido a lição durante a última Copa, quando a acusação que ouviu foi outra, a de que ao entregar de bandeja a escalação teria facilitado a vida dos adversários.



Enfim, o ofício de treinador sempre será um mistério para nós, simples mortais. Só eles, talvez, poderão ter alguma noção do quanto ganham ou não ganham um jogo, ou onde reside neles o exato ponto em que a convicção vira teimosia. O título da Copa América pode não vir a ser fundamental para a permanência de Tite mas lhe deu alguma musculatura.  Ele ainda não teria decidido se fica.  Mas se ficar o desafio é imenso. Diminuir o abismo que nos separa do futebol praticado pelos grandes da Europa. Abismo que quanto mais o tempo passa mais se faz evidente. O torcedor a essa altura não liga pra isso.

O futebol brasileiro voltou a entrar em cena ontem à noite. E guardou para o primeiro capítulo pós Copa América grandes jogos, que levaram a campo algumas das principais equipes do país. E depois de amanhã, quando for a  vez do Brasileirão, que terá logo de cara o Grêmio encarando o Vasco e um pouco mais tarde o jogo entre São Paulo e Palmeiras, a página estará virada de vez. No mesmo horário do clássico paulista o vice-líder do Campeonato, o Santos, também estará em campo, frente a frente com o Bahia. Se o torcedor quer saber mesmo é do time dele, continua o mesmo. Agora se o técnico Tite, em alguma medida, conseguirá ser outro como sugeriu, o tempo nos dirá. E como a Copa do Catar será disputada entre os meses de novembro e dezembro de 2022, os cartolas decidiram começar as Eliminatórias Sul-Americanas mais tarde. Só em março do ano que vem a Seleção Brasileira começará a disputar uma vaga no próximo Mundial.

O inferno são os outros, disse certa vez o filósofo e escritor, Jean Paul Sartre. Sugerindo que o problema do homem é que nossos projetos pessoais entram em conflito com o projeto de vida dos outros.  Que somos sempre responsáveis pelas consequências de nossas ações coisa e tal.A frase ficou famosa.  Imagino Tite a proferindo, tendo em mente a imagem de jornalistas, cartolas e torcedores. Estaria bem amparado no raciocínio. Por outro lado, não deixará de ter razão o torcedor que ao ter ouvido a citada resposta dele tenha pensado consigo que em matéria de Seleção Brasileira o céu pode ser o outro. 


* artigo escrito para o Jornal "A Tribuna", Santos /SP

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A torcida e o Mineirão

Foto: Guilherme Piu

Ouvi dizer por aí que a torcida anda azeda. Ouvi até  ela ser acusada de andar jogando contra. Compreendo a colocação. E ao contrário dos que se mostram preocupados com ela, eu afirmo que se isso é fato deveria ser motivo de comemoração. Uma torcida descontente é, em última análise, prova de evolução. Evolução da sua capacidade crítica, como nunca perco a chance de deixar aqui escrito nas entrelinhas. Não desprezo, por outro lado, a possibilidade de  que esse humor alterado seja sintomático. Um sinal de esgotamento, um cansaço, a paciência chegando ao fim. Afinal, ela sempre trata de enviar antes algum sinal. E não é pra menos, se aqui do lado de baixo do Equador nem jogos entre seleções andam dando muito caldo que dirá o nosso futebol do dia a dia. 

O sentimento que disso transborda é compreensível. Se entregar com devoção a uns noventa e poucos minutos de jogo e receber em troca dois ou três lances de gol, não poupemos palavras, é caso evidente pra se repensar a relação. Ao mesmo tempo é possível vislumbrar nisso uma grande demonstração de que o jogo de bola ainda envolve alguma dose de paixão, esse sentimento que desde sempre fez pouco caso das evidências.  Caso não esteja convencido faça o teste. Seja lá onde for, provoque um papo de futebol e verá que não tardará a aparecer uma figura de contornos conhecidos, molhando as palavras com a ânsia dos abstêmios, de olhos meio tristes, dizendo pra quem quiser ouvir que já não aguenta mais, que não vê a hora dessa pompa toda acabar para que ele possa, enfim, matar a saudade de ver o time dele em campo. 

E é amparado nesse entrega que afirmo: a torcida pode tudo, pode querer ser cruel, condescendente, o que for. E tá pra nascer quem tenha moral para enquadrá-la, para dizer assim, lhe olhando nos olhos, como deveria se comportar. Digo mais, vejam esse Brasil e Argentina que acaba de rolar agigantado pelo que significou em termos históricos. Esse jogo foi outra prova de que o coração da torcida é livre, que ela está longe de ser injusta. E mesmo que muitas vezes vá além do jogo de bola está preso a ele. Aí, Daniel Alves jogou o fino, Gabriel Jesus e Coutinho foram na onda e, de repente, o Mineirão, que foi pra mim antes de qualquer outra coisa um estádio monumental -que certo dia teve sua imponência desafiada pelo chute potente de Nelinho que tratou de chutar uma bola pra fora dele - virou exatamente o que tinha dito o técnico Tite a seu respeito dias antes do embate com os argentinos.  

Pois perguntado sobre os fantasmas que poderiam ali assombrar o time brasileiro o técnico da seleção tratou de pesar as coisas e recordar também que foi no Mineirão que bateu a Argentina por três a zero e que tinha sido ali que tinha visto a torcida mais em sintonia com o time dele.  Ouvi sim relatos de uma breve vaia, mas endereçada ao Presidente da República que mesmo sem marcar um único gol até agora resolveu dar uma desfilada pelo gramado para tirar uma casquinha. Mas isso é detalhe. Bacana foi perceber que esse Brasil e Argentina personificou o sonho possível do torcedor brasileiro , o barato dos adereços, da rivalidade, que foi sempre infalível na hora de apimentar encontros. Rivalidade que, segundo o treinador da nossa seleção, só se tem com quem se admira. Sei não,  Seo Adenor, sei não.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

A vaia


Eu sei, hoje à noite tem Brasil em campo de novo. Mas quero propor outro tema. Uma reflexão. Que me perdoem os entusiastas. Os que se entregam a um modo de torcer quase cego quando o assunto é a seleção brasileira. E nesse momento é bom que se frise que falo da masculina. O que vou colocar aqui não tem nada a ver com o jogo propriamente, nem com a vontade de ver esse ou aquele jogador na condição de titular. Até porque nem sou capaz de afirmar que tenha existido um tempo em que um jogador em ótima fase  tenha tido plena garantia de que teria essa condição assegurada. Há uma lista imensa de preteridos ao longo do tempo que poderia servir de amparo à minha suspeita. O jogo de bola desde sempre teve interesses que transbordaram as quatro linhas ignorando o que se dava dentro delas. 

Quero falar é da vaia. Coisa que andou assombrando o escrete brasileiro no início dessa Copa América.  E já queria mesmo antes de Daniel Alves dar aquela tremenda bola fora dizendo que quem vaia a Seleção vaia o país. Não entendeu nada.  E pelo jeito também não deve ter notado que o país a anda merecendo. ​A vaia é muito mais do que simplesmente o antônimo do aplauso. O aplauso não é tão complexo. A vaia é. E é um patrimônio do torcedor, sua grande arma. A vaia é de uso geral. Costuma causar quase sempre efeito imediato. E por incrível que pareça quase nunca é decantada. A vaia é acima de tudo elegante, dispensa absolutamente o acompanhamento de qualquer palavrão. Quase sempre se revela justa mesmo quando traz com ela algo de escárnio. 

E quanto mais densa, arrisco dizer, mais se veste dessa qualidade. Não é a toa que, em geral, quase sempre se manifesta amparada por uma multidão. Não que não se possa vaiar sozinho. É possível, mas chega a soar como uma traição à sua natureza. A vaia é capaz de traduzir sutilezas do que só um torcedor vê e sente.  Tem em si a beleza da rebeldia, mas não se encerra nela. É muito mais. A vaia é como um trunfo, e traz consigo a beleza das coisas que não pertencem aos catedráticos, aos entendidos. A vaia é o povão. Quer coisa mais linda? 

Impiedosa, e como. A vaia tá sempre de flerte com a indignação. Mas quando digo que é impiedosa não a pense como algo puramente cruel.  Muitas vezes ela é o desafio que o homem precisa pra se superar. E nessa condição já ajudou a escrever lindas páginas ao longo da história. Talvez a mais famosa delas amparada naquela vaia imensa que Julinho Botelho ouviu certa vez no Maracanã ao ocupar o lugar do mítico Mané Garrincha. Vaia que numa alquimia rara se deixou transformar num aplauso capaz de se tornar eterno. Prova cabal de que mesmo temida traz em si a beleza das coisas que se deixam reinventar.  

A vaia tem um amargor insuportável. É sintomática.  A vaia é profunda. E se tem um antídoto este exige uma fórmula feita na hora, especialmente manipulada para cada situação.  O que não é fácil. O caso de Tite é emblemático nesse sentido. Dizer que o homem não entende do riscado é descabido. E por mais que diante da Bolívia o time brasileiro tenha conseguido dilui-la com três gols, o ressurgimento dela nas arquibancadas da Fonte Nova, em Salvador, sugere a exigência de métodos mais eficazes para anulá-la. Enfim, a vaia, meus amigos,  mesmo indesejada, é linda.    

quarta-feira, 19 de junho de 2019

A camisa você precisa sentir

Luiza Gonzalez/ Reuters


Estamos aí. Entre a Copa do Mundo Feminina e a Copa América. Em abstinência total do Brasileirão. Sobre a Copa vi gente indignada e intrigada. A indignação vinha de uma jornalista inconformada com a quantidade de gente questionando as cinco estrelas nas camisas usadas pela nossa seleção feminina. Compreensível. Tinha vislumbrado na insistência um ar de reprovação. Sobre esse tema gostei mais do ar intrigado de um velho amigo que veio me fez a respeito a seguinte pergunta:  Se as meninas vencerem o Mundial nossa seleção masculina passará a usar uma camisa com seis estrelas? Pertinente, muito pertinente, quanto sabemos das patacoadas que nossos cartolas são capazes. Apesar de achar que não tem como ser de outra forma. Afinal de contas vestimos - e isso ficou mais claro do que nunca - a mesma camisa. Fiquemos, então, com o  velho dito pois se perguntar não ofende também não deve ser motivo pra indignação. 

Bom, vivido um outro tanto dei de cara com alguém na internet confessando o prazer de ver a goleira argentina em ação contra a Inglaterra. E na esteira do entusiasmo classificando a Copa como um Mundial de arqueiras de encher os olhos. Mas estamos cansados de saber que vivemos uma época de polarização absoluta. Aí não tardou e ouvi alguém sugerir que o gol era um problema para as meninas.  Grande demais. E que talvez fosse o caso de torná-lo um pouco menor para as moças. Não que eu queira jogar toda e qualquer diferença para escanteio. Homens e mulheres sabidamente têm lá suas particularidades. Mas o momento pede outra maneira de encarar o tema. Imagino que a essa altura o mínimo que podemos lhes dar é essa igualdade. No tempo de jogo, no peso da bola, no tamanho do campo. Se muitos já enxergam diferenças  onde tudo é igual, ao aceitar diferenças não tardaríamos a ouvir alguém dizer que o futebol feminino é outra coisa. 
Bernardett Szabo/Reuters

De minha parte prefiro acreditar na evolução que tenho visto. E quem assistiu a uma Copa Feminina tempos atrás sabe do que estou falando. A evolução é gritante. De intrigar, e talvez indignar mesmo, é ter ficado sabendo que Marta  não tinha um patrocínio na chuteira quando entrou em campo para enfrentar a Austrália. Simplesmente a maior detentora de títulos de melhor jogadora do mundo, única atleta a marcar gol em cinco Mundiais e maior goleadora da história das Copas, já que ao enfrentar a Itália  deixou para trás o alemão Klose. Mas em matéria de indignação é bem provável que nada seja páreo para a dos argentinos com a seleção deles. 

E olha que íamos por caminho parecido quando o juiz apitou o final do primeiro tempo no Morumbi entre Brasil e Bolívia. Qual teria sido o destino do time de Tite se tivéssemos debutado diante dessa Colômbia que liquidou o time de Messi com duas jogadas fatais é coisa que não saberemos jamais. Ainda bem.  Para nos parar por hora bastou a Venezuela. Quem sabe também os comandados do outro Lionel, o Scaloni, treinador argentino, não fazem uma exibição convincente diante do Paraguai logo mais aplacando um pouco o descontentamento de Maradona, que depois do tombo ao encarar a Colômbia disse que a Argentina poderia perder até de Tonga. Mas disse uma verdade, que pode servir a eles, a nós e a todos: a camisa você precisa sentir.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Evolução é jogar bonito



Amanhã a Seleção Brasileira estreia na Copa América. Como foi dito na época em que aqui se realizou a Copa de 2014 talvez  o interesse aumente na hora em que a bola começar a rolar. Pelo que recordo o raciocínio fez algum sentido naquele momento e o país já havia entrado totalmente no clima quando o sete a um alemão dissolveu por completo qualquer resquício de euforia e o nosso futebol foi parar no divã. Mas não demorou muito e acharam que ele poderia ter alta. Foi quando depois da chegada de Tite ao comando do time nossa seleção pareceu pairar sobre todas as outras ao disputar as Eliminatórias para a Copa da Rússia.  

De cara o time brasileiro sob novo comando mandou um três a zero no Equador sem tomar conhecimento da boa campanha adversária e da altitude de Quito. Era só o começo. O que veio a seguir foi mais impactante. Um três a zero na Argentina em pleno Mineirão, no melhor estilo espanta fantasma. E um pouco mais tarde um quatro a um no mítico Estádio Centenário em cima do Uruguai, que seguia com aquela aura assustadora de sempre. Partimos então para a Rússia ostentando uma campanha louvável. E lá descobrimos que um bom retrospecto pode não significar muita coisa. 

Voltamos pra casa depois de ter parado  nas quartas de final diante de um empolgante time belga. Eliminação que, pra variar, fez brotar um sem fim de teorias sobre o que teria levado o time brasileiro a sucumbir de maneira tão estrondosa naquele fatídico primeiro tempo. Mas se alguém disser que se aquele embate com a Bélgica durasse mais dez minutos a história teria outro final, confesso, seria capaz de enxergar algum sentido na teoria. Lembro de ter tido esse sentimento ao ver o VT do jogo tempos depois. 

Foto: FIFA/ Divulgação


Mas são águas passadas. E o naufrágio na Rússia não foi fatal para Tite. Sendo assim, se a última campanha nas Eliminatórias Sul-Americanas nos fez terminar dez pontos à frente do Uruguai e treze à frente da Argentina, e tendo em vista que de lá pra cá nenhuma das seleções que participaram do torneio mostraram nada que sugerisse uma mudança considerável, somos favoritos. Ou não somos?  

Além do mais,  o adversário da estreia será a Bolívia , vice-lanterna na mesma Eliminatória. E pra completar na segunda rodada iremos encarar a Venezuela que terminou na lanterna. Sejamos francos, por mais que não exista mais bobos no futebol é um início de trajeto confortável demais, na medida em que um torneio entre seleções pode ser confortável.  Sinto no ar uma expectativa enorme de como se comportará nossa seleção na ausência de Neymar. O que é salutar. E acho - como muitos por aí - que a Copa América está longe de ser um tudo ou nada para Tite.  

O que pode ser fatal para ele é a ausência de brilho, de um bom futebol.  Por essas e outras será possível, mais do que em outro momento até agora, notar claramente qual será a aposta que irá fazer. Colocar em campo um time preocupado com o resultado ou colocar em campo um time ousado, disposto a usar o poder ofensivo que ele notadamente tem a disposição. O detalhe é: a primeira opção deixará nosso treinador atrelado à dependência de conquistar o título. Mas a segunda, além de livrá-lo disso, provavelmente será a mais apropriada para convencer a torcida de que houve mesmo na nossa seleção alguma evolução.