quarta-feira, 12 de junho de 2019

Evolução é jogar bonito



Amanhã a Seleção Brasileira estreia na Copa América. Como foi dito na época em que aqui se realizou a Copa de 2014 talvez  o interesse aumente na hora em que a bola começar a rolar. Pelo que recordo o raciocínio fez algum sentido naquele momento e o país já havia entrado totalmente no clima quando o sete a um alemão dissolveu por completo qualquer resquício de euforia e o nosso futebol foi parar no divã. Mas não demorou muito e acharam que ele poderia ter alta. Foi quando depois da chegada de Tite ao comando do time nossa seleção pareceu pairar sobre todas as outras ao disputar as Eliminatórias para a Copa da Rússia.  

De cara o time brasileiro sob novo comando mandou um três a zero no Equador sem tomar conhecimento da boa campanha adversária e da altitude de Quito. Era só o começo. O que veio a seguir foi mais impactante. Um três a zero na Argentina em pleno Mineirão, no melhor estilo espanta fantasma. E um pouco mais tarde um quatro a um no mítico Estádio Centenário em cima do Uruguai, que seguia com aquela aura assustadora de sempre. Partimos então para a Rússia ostentando uma campanha louvável. E lá descobrimos que um bom retrospecto pode não significar muita coisa. 

Voltamos pra casa depois de ter parado  nas quartas de final diante de um empolgante time belga. Eliminação que, pra variar, fez brotar um sem fim de teorias sobre o que teria levado o time brasileiro a sucumbir de maneira tão estrondosa naquele fatídico primeiro tempo. Mas se alguém disser que se aquele embate com a Bélgica durasse mais dez minutos a história teria outro final, confesso, seria capaz de enxergar algum sentido na teoria. Lembro de ter tido esse sentimento ao ver o VT do jogo tempos depois. 

Foto: FIFA/ Divulgação


Mas são águas passadas. E o naufrágio na Rússia não foi fatal para Tite. Sendo assim, se a última campanha nas Eliminatórias Sul-Americanas nos fez terminar dez pontos à frente do Uruguai e treze à frente da Argentina, e tendo em vista que de lá pra cá nenhuma das seleções que participaram do torneio mostraram nada que sugerisse uma mudança considerável, somos favoritos. Ou não somos?  

Além do mais,  o adversário da estreia será a Bolívia , vice-lanterna na mesma Eliminatória. E pra completar na segunda rodada iremos encarar a Venezuela que terminou na lanterna. Sejamos francos, por mais que não exista mais bobos no futebol é um início de trajeto confortável demais, na medida em que um torneio entre seleções pode ser confortável.  Sinto no ar uma expectativa enorme de como se comportará nossa seleção na ausência de Neymar. O que é salutar. E acho - como muitos por aí - que a Copa América está longe de ser um tudo ou nada para Tite.  

O que pode ser fatal para ele é a ausência de brilho, de um bom futebol.  Por essas e outras será possível, mais do que em outro momento até agora, notar claramente qual será a aposta que irá fazer. Colocar em campo um time preocupado com o resultado ou colocar em campo um time ousado, disposto a usar o poder ofensivo que ele notadamente tem a disposição. O detalhe é: a primeira opção deixará nosso treinador atrelado à dependência de conquistar o título. Mas a segunda, além de livrá-lo disso, provavelmente será a mais apropriada para convencer a torcida de que houve mesmo na nossa seleção alguma evolução.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Nosso bravo futebol feminino



Agora vai. Essa tem sido a sensação que me vem quando penso no nosso futebol feminino. Infelizmente não é a primeira vez. Espero que ela tenha voltado com maior precisão. E digo isso não pelo fato de estarmos na véspera da abertura Copa do Mundo de Futebol Feminino e também não tem nada a ver com as expectativas que alimento com relação ao time brasileiro. O retrospecto da equipe dirigida por Vadão dinamita a mínima empolgação. Nove derrotas nos últimos nove jogos. Mas há como neutralizar esse anticlímax. Estar ciente das dificuldades que nossas jogadoras enfrentaram. E como foram, ao longo da história, capazes de alcançar resultados infinitamente maiores do que as chances que tiveram.

Vale lembrar que enquanto alimentamos dúvidas sobre a campanha que a seleção masculina fará na Copa América as meninas no ano passado venceram a mesma competição de maneira invicta, marcando trinta e um gols e sofrendo apenas dois. Foi assim que garantiram um lugar no Mundial e outro na Olímpiada de Tóquio.  Ou seja, desafiar probabilidades é algo que foram obrigadas a fazer desde sempre. O que poderia ser dito também a respeito de outras tantas seleções femininas, inclusive a da Jamaica, a primeira  da região do caribe a conquistar uma vaga na Copa do Mundo, e nossa adversária do próximo sábado no jogo de estreia.




As Reggae Girlz, como são chamadas, só chegaram lá porque anos atrás a filha de Bob Marley, indignada com a situação que a equipe atravessava, através da Fundação que leva o nome de seu pai , liderou uma campanha mundial com a intenção de arrecadar fundos e reativar o time. Não há dúvida de que o Mundial será de grande valia. Ajudará a manter o futebol feminino em evidência no instante em que aqui ele ganha espaço. Pela primeira vez nossa seleção terá todos os jogos transmitidos pela maior emissora do país e esse  pode ser o maior  sintoma de que anda mesmo desfrutando de um outro status. 

Esse vento a favor, é bom que se diga, pouco tem a ver com a sensibilidade dos cartolas e mais com a exigência feita aos times que disputam a primeira divisão do futebol brasileiro de ter, a partir deste ano, um time feminino adulto e de base. Antes da tal exigência apenas sete dos vinte clubes que disputam o torneio mantinham a modalidade de forma estruturada. Nem por isso temos flertado com o ideal como bem lembrou a técnica do Santos e ex-comandante da nossa seleção feminina, Emily Lima, em recente entrevista ao programa Cartão Verde, fazendo questão de ressaltar que seguimos carentes de coisas básicas como ter as datas dos jogos dos campeonatos divulgadas com a antecedência adequada. Sem isso qualquer planejamento se torna impossível.



Há quarenta anos o Brasil se livrava do decreto do governo de Getúlio Vargas que proibia a prática de esportes "incompatíveis com a natureza feminina". Decreto que durou quase quatro décadas. A vontade de falar da realeza de Marta, dos quarenta e poucos anos de Formiga e seu sétimo mundial, é sempre grande, mas o que quero realmente ressaltar é que dar de cara com nossa seleção brasileira feminina em campo é um bom motivo para crer que o mundo anda pra frente, ainda que a velocidade do avanço nos cause indignação. 

quarta-feira, 29 de maio de 2019

VAR: uma questão de soberania

 
Osvaldo Lima/ Photo Premium -Lance!
Dizem por aí que o torcedor só enxerga o que quer. Não há teoria capaz de fazer um cabra enxergar o que não está a fim. Pois acho que não foi e o caso do árbitro da partida entre Botafogo e Palmeiras que abriu a última rodada do Brasileirão. Mas não é do pedido de anulação aventado pelo time carioca que alega que a decisão veio depois do jogo já reiniciado que quero falar. Sei que talvez eu compre uma briga danada com os palmeirenses que estão cheios de motivos pra querer ver o que o árbitro no calor do jogo não viu. Ocorre que pra mim, sem o aparato da tecnologia, ele tinha visto tudo muito bem. 

Talvez o cartão amarelo para Deyverson pudesse ser colocado na conta dos exageros ou na conta do estilo do homem do apito, notadamente chegado ao uso indiscriminado do aparato. O lance do palmeirense com Gabriel estou convencido não se tratou de um pisão. Mas foi assim que  narrador, comentaristas e afins envolvidos com o lance o descreveram.  Caso não tenha visto o mesmo não cometerei a indelicadeza de deixa-lo boiando. Mas espero que ao fim da leitura, curioso, o leitor se ponha atrás da imagem para descobrir se olhando você terá visto o que eu vi ou se só vi mesmo o que eu queria ver. Fato é que chamado pelo pessoal da cabine do VAR para rever o ocorrido o árbitro se mostrou convencido de que tinha visto tudo ao contrário. 

Anulou o cartão amarelo que tinha dado ao atacante palmeirense e deu o para o zagueiro Gabriel do Botafogo e marcou pênalti. Pra mim não se tratou de um pisão. Houve um choque de pés? Houve. Mas estou convencido de que ao sentir o toque Deyverson dá uma forçada e cai. O que teria num primeiro momento provocado o cartão. Eu sei, não é fácil no turbilhão de uma partida de futebol, sendo induzido a uma interpretação, acabar não errando. E se fiz questão de destrinchar o lance é pra apontar um erro, e não o da marcação. Mas se é verdade que o árbitro em campo segue sendo o soberano para decidir as coisas do jogo é preciso acabar com essa conversa do pessoal lá da cabine chamar pra rever algo que o árbitro de campo já decidiu. Se for um lance flagrante, um impedimento ou algo que o valha, tudo bem. Faça-se o uso da tecnologia. Agora pra um lance interpretativo como esse que se deu no estádio Nilton Santos, não faz sentido. É decisão que joga contra a credibilidade do VAR, que nasceu tão cheio de boas intenções e viveu mais um final de semana terrível. 

O lance do Rodrygo na partida entre Santos e Internacional é outro exemplo. A boa imagem do aparato nesse momento de implantação passa muito pelo desafio da galera que está com o brinquedinho na mão ser capaz  de ficar quieta. Claro que usado de maneira comedida algo vai escapar. Mas alimentar a ambição ou trabalhar com olhos de lince achando que será possível livrar o futebol de todos os erros que os homens sempre cometeram não passa de ilusão. Começo a achar por isso que o maior desafio de quem controla esse VAR é tomar consciência de que, infelizmente, será preciso aceitar certos erros do homem do apito, de outra forma matarão a pretensa soberania que ainda juram dar a ele. E aí, ou mudam a lei, ou estarão fazendo um tremendo mal para o futebol brasileiro. 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

quarta-feira, 15 de maio de 2019

A sina de ser goleiro - em homenagem ao Sidão



Dentro de campo tudo parece envolvido por um imenso frenesi, menos o goleiro. A primeira impressão é que a posição o transforma num solitário. Um zagueiro pode ter vocação para a lateral, um volante jeitão pra jogar no meio e por aí vai. O goleiro, não, o goleiro tem de ser um predestinado. E nada parece ter o poder de livrá-lo dessa condição. Nem essa insistência moderna, mas nem tanto, de fazer com que os arqueiros usem os pés, troquem passes justamente ali onde tudo parece mais complicado. Diria que certas vocações são mais fáceis de se compreender, mas não parece o caso do sujeito que decide cuidar da meta. Condição, aliás, muito parecida com a daqueles que escolhem cuidar do apito. Seja como for fazer o que manda o coração nunca será descabido. 

O que sei é que ninguém parece mais servo desse tipo de ordem do que esses dois tipos. Se os argumentos aqui não soarem convincentes apele às memórias de infância e lembre quantas não foram as vezes em que as peladas de infância deram aquela esfriada simplesmente porque ninguém queria pegar no gol. Uma memória que também pode ser vista ao avesso, lembrando como a pelada de repente ganhava em importância quando pintavam na área pelo menos dois dispostos a fazer o papel. E olha que eu sempre topei a parada.  Voava na bola até quando o jogo se dava na garagem do prédio, desabando no chão duro. Certa vez, vendo meus cotovelos inchados de tanta imprudência e cansado de ver as advertências não causarem o mínimo efeito meu pai decretou: se quer pegar no gol vamos arrumar um lugar adequado pra você se quebrar.

Comprou pra mim um par de luvas e num sábado pela manhã me levou pra conversar com o treinador do glorioso  Itararé. Enquanto o Seo Ary lhe contava meu breve passado ao homem cravei os olhos no garoto que estava jogando no gol. Em cinco minutos fez duas pontes de arrepiar que me convenceram de que o banco de reservas tinha tudo pra ser o meu destino. Tudo isso me veio na cabeça depois de ver o goleiro Sidão, do Vasco, ser eleito cinicamente pelos internautas como o craque da partida contra o Santos, depois de ter errado feio no primeiro dos três gols que levou do time adversário.  Censurar o resultado exigiria uma decisão rápida e precisa que não veio. Exposto o arqueiro, vieram os pedidos de desculpas. Evidente ficou a crueldade das redes, não as do gol que em outros tempos ao balançar seriam as únicas anunciadoras dos castigos. 

A parte louvável disso tudo foi a tranquilidade de Sidão pra lidar com a situação. Exibiu uma polidez de se tirar o chapéu. E olha que se tratou de uma saia justa daquelas que se tivesse sido tratada com destempero seria compreensível. Testemunha a constrangedora situação renovou em mim a sensação de que os goleiros, por natureza, estão mais aptos a lidar com os castigos, por mais injustos que sejam. Nunca vou esquecer do semblante triste do velho Barbosa, goleiro da Seleção Brasileira na Copa de 1950, lamentando carregar consigo o sentimento de cumprir uma pena que lhe soava eterna quando a maior pena imposta no país não podia passar dos trinta anos. Enfim, até a resignação nos goleiros  tem um que de coragem.  

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Messi não é Pelé



É impressionante o que uma polêmica, por mais barata que seja, ou as infindáveis comparações são capazes de provocar. Faz tempo que os espertos de plantão perceberam isso e não perdem a chance de transformar uma e outra em incremento de audiência. Na última semana, depois de o argentino Lionel Messi ter feito o que fez no jogo de ida da Liga dos Campões da Europa diante do Liverpool,  brotaram nos quatro cantos da crônica esportiva conversas querendo traçar um paralelo entre ele e Pelé. Bom, ao menos não é mais o Maradona, e isso de algum modo deve significar um mínimo progresso. Eu mesmo me vi diante da questão, proposta por um telespectador. Tentei uma finta rápida, mas sem deixar de tomar posição para não ser deselegante. 

Entendo o apelo do duelo que vai nisso implícito, mas considero qualquer tentativa de comparação vazia.  Nada ver com a bola que o Messi joga que é imensa. De longe pra mim o mais impressionante que vi, pois se dissesse que realmente vi Pelé estaria mentindo. E o atropelo que o Liverpool impôs ao time dele ontem nesse sentido pra mim não muda nada. Como boa parte das polêmicas e comparações o que essa entre o argentino de Rosário e o brasileiro de Três Corações ignora é a verdade, porque no fundo só deixando certas verdades de lado é possível levar esse tipo de papo adiante. Não é pela bola que joga que Messi jamais será Pelé. É, antes de qualquer outra coisa, pelo que representa. 

E não falo isso por crer, como muitos por aí, que Pelé foi até capaz de parar uma guerra. Recentemente o projeto de pós-doutorado de José Paulo Florenzano mostrou que a história não foi bem assim. E pra corroborar sua versão citou, inclusive, matéria deste jornal, escrita por Gilberto Marques, onde não há uma linha sobre esse tão alardeado ocorrido. Isso prova que Pelé é menor do que imaginamos? Jamais! O que isso prova é que a história é algo vivo, que vai evoluindo, trazendo para ela novos elementos. Comparar homens que construíram suas obras em tempos distintos terá sempre algo de distorcido.  Não vou apelar para que lembrem dos triunfos de Pelé em Copas, algo que não faz parte da trajetória do camisa dez do Barcelona, mas peço que imaginem a figura de Pelé em termos planetários, o que  o tal Edson representa na própria história do futebol mundial e, aos poucos , quero crer, irá ficando claro que não existe paralelo. 

Virá certamente um gaiato dizer que não se trata disso, se trata apenas do que cada um é capaz de fazer com uma bola no pé. E estaria aí o típico raciocínio que faz de conta que o todo não existe, e que tem sido, em última instância, o combustível de polêmicas e comparações. Mozart ou Beethoven? Jimi Hendrix ou Eric Clapton? Tenha dó. Considero Messi um gênio, não me entendam mal. Sou muito mais tocado pelo estilo dele do que pelo de Cristiano Ronaldo, outro jogador fenomenal. Nos últimos dias vi até comentaristas de economia e política seduzidos por esse duelo entre os dois. Um deles espantado até com o apelo que o assunto estava tendo junto aos ouvintes. Um efeito colateral do encanto que Messi vira e mexe tem renovado e do, por hora inigualável, papel que Pelé ocupa no imaginário de cada torcedor, na história.  

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Do genial Aldir Blanc


Trecho de "Antologia biriteira"


quarta-feira, 1 de maio de 2019

Mora na filosofia



Peço a vocês o direito de filosofar um tanto. Não é só pra fazer rusga ao governo que pelo visto não tem a filosofia em alta conta. O que não me espanta. O que me espanta - e já conversei isso com amigos - é o espaço que os filósofos conquistaram nos últimos tempos. Faz uns trinta anos fui aluno de uma faculdade de filosofia. Não era o meu caminho. Mas a passagem por lá, que durou pouco mais de um semestre, carreguei pra sempre.  Fez com que eu tivesse consciência do pensar. E quem pensa contesta. Naquele tempo era impossível imaginar que um dia um filósofo seria figura fácil em programas de TV e que seriam lidos e ouvidos com muito interesse. O que considero um progresso, especialmente para os filósofos.

Nada escapa da filosofia, nem o futebol. Não dá pra armar um time sem pensar, embora estejamos cansados de ver em campo times vazios de ideias. Mas escolhi o tema para chegar à palestra organizada pela CBF dias atrás que teve os técnicos Tite, Jorge Sampaoli e Fernando Diniz falando sobre seus conceitos. Logo, sobre seus modos de pensar. As explanações de Tite, talvez por suas ideias já serem tão conhecidas, não mexeram muito comigo. Mas as de Sampaoli me chamaram a atenção. E, devo dizer, depois de ter assistido a apresentação dele ao dar de cara com a partida entre Santos e Vasco, em São Januário, tudo pareceu fazer mais sentido. Falo de acertos e erros, que foram muitos aliás.

A certa altura  Sampaoli disse que prega valores e sempre reforça que o escudo e a bandeira estão acima dos jogadores. O que segundo ele os leva a atuar de uma forma que tem muito mais  a ver com o protagonismo do que com o ficar esperando. Ou seja, nossa falta de atitude pode ser uma questão cívica. Fácil de entender quando o escrete nacional faz tempo parece ter deixado de pertencer ao país. Não era o que eu procurava mas sem querer temo ter encontrado a razão da nossa seleção não ter a atitude que se espera dela e que nos enerva há tempos.

Mas a grande figura foi mesmo o técnico do Fluminense, Fernando Diniz,  que subiu ao palco dispensando o auxílio de power points e afins. Coisa elogiável, pois sabemos todos que eles são um perigo. Quem além de Diniz seria capaz de inserir num papo desses sobre futebol e esquemas táticos a angústia como tema? Ninguém! Mas, Diniz, psicólogo formado, deve ficar esperto porque depois de atacar a filosofia e a sociologia tudo me faz crer que o governo atual não tardará a fazer da psicologia também algo a ser combatido.

Poderia enaltecer aqui a ousadia dele como treinador ao propor um jogo que privilegia os fundamentos, que não se rende ao resultado, que se recusa ao reducionismo defensivo. Pelo que entendi a razão que o faz correr todos esses riscos é, acima de tudo, livrar o jogador que comanda da tal angústia que o castigou durante todo o tempo em que ele viveu como atleta. Ser tratado como coisa é muito ruim, afirmou, incomodado. Mas para Diniz a maior distorção do futebol  é tratar os que jogam bem como seres superiores. Declaração que vem a calhar na semana em que Neymar fez o que fez  e ao dar uma entrevista pouco antes tinha defendido que os fora-de-série merecem tratamento diferenciado. Por essas e outras imaginar que será possível mudar o futebol sem levar em conta a necessidade de pensá-lo não passa de ilusão. Enfim, é preciso filosofar, sempre, Sr presidente!

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Os meninos




Foto: Ivan Storti

O menino é figura primordial no futebol.  Deveria ser encarado como patrimônio imaterial como o próprio jogo. Não nego que no início de tudo gente mais crescida foi quem colocou a roda pra girar, mas a grande engrenagem foi desde sempre o menino. E perdoem se vou cravando o tema assim no masculino neste tempo em que o politicamente correto não costuma perdoar.  É que a trajetória que quero relatar foi escrita assim. Em outras palavras, traço estas linhas inspirado por uma matéria que li no último domingo e que falava da relação que o técnico Jorge Sampaoli estabeleceu com garotos que tinham o hábito de acompanhar os treinos do time santista de cima de uma árvore.  

O tema já tinha me tocado dias antes ao dar de cara com um registro do amigo e fotógrafo Ivan Storti do momento em que o argentino passeava pelo CT rodeado pela garotada. E é por causa da realidade que hoje cerca todo menino que ando convencido de que o futebol não será no futuro o que foi no passado. O mundo mudou o menino, logo o futebol jamais poderá ser o mesmo. Talvez os que têm hoje a minha idade pertençam à última geração em que o jogo de bola se fazia a grande sedução. A modernidade trouxe outras. A relação do menino com a bola foi um dia tão forte que considero que os que se devotaram ao jogo e à ela estão mais do que aptos a falar de futebol em qualquer instância. De certo modo, inclusive,  me amparo muito nisso pra exercer meu ofício, pois jogador profissional nunca fui. E a essa altura jamais serei. 

Difícil saber se os garotos de Sampaoli resistiram a outras seduções ou se são crianças que foram privadas delas. De uma forma ou de outra - e haja lirismo nisso - são crianças à moda antiga,  devotas do velho e bom jogo de bola.  Meninos que se fossem encontrados por aí de forma abundante como em outras décadas me fariam crer que ainda é possível manter alguma esperança de que um dia o futebol voltará a ser o que foi. Embora ache que o lugar acabará ocupado por diversões como o cartola FC ou qualquer outro tipo de e.sport, ainda que sobre esse eu não saiba quase nada, nem como se joga. 

O tema me fez recordar uma história que eu vivi como repórter naquele mesmo CT, no dia de sua inauguração. Se já contei aqui peço perdão mais uma vez, agora pela senilidade. Verdade é que levaram o Pelé lá pra solenidade, se não me engano só havia um campo pronto. O resto era improviso. O Rei do Futebol ia chegar e acreditem não havia uma única bola no lugar.

Mas havia ali, lado a lado, com a imprensa vários garotos que tinham pulado o muro e ido lá ver tudo de perto. Apelei a um deles. Pedi pra que me arrumasse uma bola. E o menino cumpriu a missão à risca, e rápido. Foi a bola que Pelé colocou no meio do campo e veio dominando  até mandar pro gol, com ele mesmo narrando a jogada e dizendo que tinha sido o autor do primeiro gol marcado naquele lugar. Terminada a solenidade fui devolver a bola ao garoto, já assinada pelo Pelé, e lhe fiz uma oferta por ela. O menino, de olhos brilhando, não topou. Sempre fico pensando que fim  terá levado. Mas algo me diz que apesar de sua importância tenha voltado a rolar e aos poucos foi perdendo o nobre autógrafo do Rei. E é por acreditar nisso que eu digo: o menino é figura primordial no futebol.         

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Nosso deserto de gols



Talvez a essa altura mais do que uma memória o que vou dividir com vocês seja uma idealização do passado. Mas dela estou convencido. Lembro bem que no meu tempo de moleque o gol nem sempre era um indicador de qualidade, embora num primeiro momento pudesse parecer. Placares elásticos eram coisa de pelada requenguela. Salvo exceções, como em tudo nessa vida. Jogo bom pra valer, aqueles aguardados, redundavam em placar apertado. Nesse quesito o dois a um era um clássico. E, lógico, quando se sabia que o time da rua de trás andava jogando o fino, e que uns dois ou três por lá tinham sido vistos exibindo um futebol de se admirar a molecada se reunia para falar de estratégias. Mas retranca era quase um palavrão.

O compromisso com o ataque era uma questão moral. Razão pela qual mesmo levando em conta a necessidade de se distribuir uma canelada aqui, uma chegada forte acolá, nunca se mandava pra escanteio a vontade de vencer. Até porque ninguém queria voltar pra casa como integrante de um time de mãezinhas, que era o termo usado na época pra situações do tipo. E ainda porque os jogos de campeonato eram raros e assim sendo um empate era de pouca valia. No máximo servia para evitar um sarro, e no caso da fama do time adversário andar turbinada tudo o que poderia dar  ao adversário era um certo verniz de esquadra respeitável. 

Ocorre que no futebol profissional ( leia-se cheio da grana) um jogo passou a valer muito, por isso arrisca-se pouco e o resultado é este que está aí: um deserto de gols. Deserto refletido na manchete de tom urgente que tenho em mãos ao batucar estas linhas. Urgente, sim, e não é pra menos. A digníssima avisa que no último final de semana cinco das onze finais disputadas não deram aos torcedores o direito de um mísero grito de gol. É o triunfo da covardia sobre a ousadia por mais que os analistas tenham na ponta da língua uma explicação tática para o ocorrido. É verdade, cada duelo tem uma história e há mesmo de existir entre eles um zero a zero de respeito. Mas de algum modo essa pobreza estatística nos grita alguma coisa , e suspeito que seja nossa indigência futebolística. 

No mais, se há uma beleza a resistir em relação ao jogo de bola é essa esperança que se renova no torcedor, insistentemente,  apesar de todas as evidências em contrário. A esperança de que aquele clássico ou aquela final irá  redimi-lo. Irá, enfim, lhe dar algo de saboroso. Paixão mais louca essa que teima em não sucumbir a esse mar de desapontamentos. Falem o que for, expliquem os entendidos o que quiserem, futebol sem gol tem gosto de saudade, cheira a vazio. O gol ,velho Parreira, é detalhe sim senhor, mas detalhe indispensável. Enfim, como seria bom se os finalistas todos num acesso de insanidade entrassem em campo no próximo final de semana obcecados por ele. Fazendo questão do gol, orgulhosos até de terem deixado de ter a defesa como primeira arma e, assim meio que sem querer, dessem ao jogo de bola uma ingenuidade que ele  tinha no nosso tempo de moleque e que foi fundamental para que nos apaixonássemos por ele.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Um capítulo insuperável

Renato Pizzutto/BP Filmes
A história do Campeonato Paulista continuará a ser escrita no final de semana mas seu penúltimo capítulo, o clássico entre Palmeiras e São Paulo, dificilmente será superado em matéria de acontecimentos.  Tudo bem, o capítulo escrito por Santos e Corinthians teve muito charme, graças ao time de Sampaoli que se mostrou valente. Enquanto o Corinthians deu à sua torcida uma classificação envergonhada, depois de um jogo que também acabou com uma disputa por pênaltis. Disputa que se não vem a ser uma loteria, como dizem, é quase sempre impiedosa. Mas não há comparação. Tomara que eu esteja errado.

E se os capítulos que ainda serão escritos conseguirem superar este penúltimo que seja em razão de grandes lances ou detalhes enriquecedores como a boa vibração dessa geração de garotos são-paulinos e não por nenhuma ocorrência que possa se revelar mais desastrada do que a encenada pelo técnico Luiz Felipe Scolari  ao dizer que  depois de ver o assistente de vídeo anular um gol do time dele pensou em tirar os jogadores de campo. E não deixemos de levar em conta - para poder medir o tamanho da bizarrice - que Deiverson , o autor do tento, estava realmente impedido. Logo, a anulação correta. 

Eu até acho que caberia discutir se um pé na frente do último marcador deveria mesmo ser razão para invalidar um momento tão sublime do jogo. Mas aí se trata de uma outra questão, que jamais serviria de amparo a uma atitude como a sugerida pelo treinador palmeirense. Mas bizarrices são bizarrices, sabemos todos. Aproveito e uso a citação para servir de ponte com uma outra questão. Faz tempo que ouvimos dizer que os treinadores ganharam muita importância. Talvez esteja aí uma grande prova.  Felipão teria mesmo poder pra tal, ou se tivesse acontecido não teria passado de uma sandice? Até onde vai o poder de Felipão no clube?  

Se imaginarmos tudo o que representa o Palmeiras jogando uma semifinal, os milhões ali investidos, a vontade de cada jogador do elenco, os milhares de torcedores nas arquibancadas e levarmos em conta que ele poderia, sem consultar ninguém, ter alçada para decretar uma coisa dessas é de arrepiar.  É fato que atos intempestivos nunca precisaram de alçada, mas ser intempestivo tem limites.  Será que Felipão com sua falta de paciência evidente, em especial  com a imprensa, tinha visto quantas injustiças o tal assistente de vídeo tinha reparado só no dia anterior em outras semifinais estaduais? Demorando uma eternidade é verdade.  Mas essa também é uma outra questão. 

O acusam de não ser um treinador moderno. Coisa que em última instância ninguém tem obrigação de ser. Agora, não aceitar algo moderno e que em termos gerais não foi imposto, que teve a anuência dos clubes, beira a rabugice.  Este fato já seria suficiente pra dar ao penúltimo capítulo da trama um tom de insuperável. Mas fora ele tivemos o destino sendo caprichoso. Ricardo Goulart - que Felipão fez questão de ir buscar lá na China - errando um pênalti depois de despontar como um dos maiorais do elenco alviverde. O goleiro tricolor Tiago Volpi fazendo uma defesa memorável, no minuto seguinte colocando tudo a perder cobrando mal um pênalti que poderia ser decisivo, e na sequência , com outra defesa , voltando a ser herói. Detalhes de um enredo difícil de superar. Isso sem falar na cavadinha sensacional de Gonzalo Carneiro. Madre mia. Bom, que venham as finais.    

quinta-feira, 4 de abril de 2019

OSCAR SCHMIDT... NO CARTÃO VERDE !


É logo mais, 22h30, ao vivo, na TV CULTURA


quarta-feira, 3 de abril de 2019

Esse tal de VAR

Estamos todos diante de um momento raro. E o conselho que lhes dou é aproveitá-lo ao máximo. Tudo passa nessa vida e com o que vou aqui registrar não será diferente. Falo do surgimento do árbitro assistente de vídeo que acaba de chegar para mudar de vez o universo de boleiros e afins. Já escutei por aí que se trata da maior inovação do futebol mundial desde que a Holanda de Rinus Michels nos idos de 1974  mostrou que era possível  ao futebol flertar com o caos, e em grande estilo.  


Modestamente vos recordo que havia adiantado: depois do VAR nada seria como antes. Aliás, nada jamais foi. Mas agora a coisa é séria. E se querem uma dica das boas eu lhes dou: da próxima vez que for encontrar aqueles amigos para quem falar de futebol é quase uma religião leve consigo uma cópia das regras do tal árbitro de vídeo.  Verá que lances como aquele do Campeonato Paulista do ano passado quando o juiz em plena final  deu  - e depois tirou - um pênalti para o Palmeiras é fichinha perto do que pode provocar um protocolo do Var numa mesa de bar, ou numa roda de gente interessada pelas questões do tipo. 

Será inevitável, no entanto, em dado momento pintar algum espertinho que dirá que esse ou aquele lance é uma questão de interpretação. E a partir daí estará instalada a bagunça. Essa mesmo que andamos farejando por aí.  Confesso pra vocês que no fundo já não sei se a discordância  nasce do fato de querer abraçar a evidência da interpretação ou do fato de achar que seria possível não estar num momento ou outro condenado a ela.  O que eu sei e, se não me engano, também  foi dito aqui anteriormente, é que houve um tempo em que a interpretação tinha algo de viável.

Desde o início se falou muito - ainda que isso em nenhum momento tenha passado a ser prioritário na cobertura esportiva - sobre a necessidade de se gravar as conversas entre as partes. O árbitro em campo e a rapaziada que fica trancada na sala. Na Copa, por exemplo, essas conversas foram gravadas, mas a FIFA tratou de não permitir a divulgação. Seria transparência demais pra ela.  Como proibições em geral têm o poder de turbinar nossa imaginação, penso que o que se tem conversado por lá deve andar tendo teor  e estilo muito parecido com os papos  que os torcedores andam travando por aí.  


A certa altura diz lá o regulamento que  as decisões originais tomadas pelo árbitro não mudarão, a menos que a revisão de vídeo claramente mostre que a decisão foi um erro claro e óbvio.  Como se em matéria de futebol certos lances passam longe de serem óbvios e claros. Enfim, sugiro que o pessoal lá da salinha segure um pouco a onda. Pois empolgados com o brinquedinho tenho a impressão de que andam dando palpite a torto e a direita e deixando a autoridade lá embaixo em certas roubadas sem tamanho. 

Mas isso é problemas deles. À você que se diverte tirando aquela casquinha do rival ou alimentando pontos de vista discutíveis só pra ver o circo pegar fogo o momento é único. Agora se, por outro lado, estiver cansado do assunto vale lembrar que à noite Santos e Portuguesa Santista estarão em campo, um pela Copa do Brasil e o outro brigando por um lugar na elite do futebol paulista. Tudoo sem VAR, como antigamente. 

quinta-feira, 28 de março de 2019

Hoje é dia de Cartão Verde !



Passa lá pra bater um papo com a gente! No twitter: #cartaoverde
Silas, ídolo do São Paulo nos tempos de jogador -  e que recentemente 
comandou o São Bento - é o nosso convidado de hoje.

TV Cultura, ao vivo, 22h30.

A velha caixa de surpresas

A veia do futebol segue a jorrar surpresas. Ou não foi surpreendente o que se viu acontecer nessas quartas de final do Campeonato Paulista? Dirão alguns que os grandes mostraram sua força e nada de novo se esconde aí.  Pode até ser, mas ver o Red Bull fazer o que fez , em especial nos primeiros quinze minutos do jogo de ida diante do Santos, foi de intrigar. Um nível de desacerto e falta de concentração que não rimava com a campanha que o time construiu. Não tinha perdido para os grandes, tinha chegado ao ao mata-mata com um sequência de vitórias de se tirar o chapéu. 

Por outro lado, deve-se reconhecer que há também um jeito de não encarar o ocorrido como surpresa, afinal, o Santos - na média - tinha sido o que foi na hora decidir. A questão é: quem apostaria seu dinheiro depois de ter visto  a equipe da Vila comandada com pompa por Sampaoli  ser derrotada pelo Novorizontino e mais tarde ser goleada  pelo Botafogo? A esses digo que a surpresa está mais até no fato de o time santista ter jogado como quem não tinha desfalques consideráveis, isso depois do time misto ter naufragado em Ribeirão Preto. O zero a zero da volta pra mim só reforçou a impressão de que aquele desacerto do Red Bull na largada lhe tirou as asas. 

Do Palmeiras até me acanho um pouco de falar porque já ando cansado de dizer que faria muito bem a todos, ao futebol, ao patrocinador e ao clube que o time fosse , digamos, um pouco mais plástico. Terminado o jogo de ida me peguei pensando se o próprio Felipão olhando tudo da beira do campo secretamente não se sentia desapontado vendo o time apresentar em campo o que apresentou. E agora, depois de sacramentar a classificação com a goleada por cinco a zero, fico pensando se ele não deu uma dura no time dizendo que precisava colocar ao menos uma cereja no bolo. Fato é que do alto de uma campanha cem por na Libertadores, com vaga garantida na semifinal do Paulista a blindagem promete resistir a qualquer cornetada. 

Mas quem diria que seria a Ferroviária, dona da campanha de números mais acanhados entre os oito candidatos às vagas das semifinais, que iria dar a maior contribuição para esse ar surpreendente que teve o início das quartas de final?  Jogando de igual pra igual com o Corinthians, time que era só evolução, com a defesa encorpando e com Carille alcançando um aproveitamento do tipo que o fez se tornar um dos técnicos mais respeitados do país. O que por sua vez é surpreendente também.

 E, por último, como bem disse um são-paulino que acabou de passar por aqui, imbatível mesmo é o destino que praticamente forçou o tricolor a levar a campo um time diferente. E não é que deu certo?  E alguém aí vai dizer que ouvir aqui e acolá que o time do Morumbi tinha feito a melhor partida do ano diante do Ituano não é de causar surpresa? Enfim, digo a vocês que desde o início achei que ao menos um dos grandes iria ficar pelo caminho. Errei. Mas ter os quatro ditos grandes nas semifinais não deixa de ser uma surpresa, afinal, neste século é apenas a quinta vez que eles se encontram nessa condição.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Lucros e dividendos



Os ditos pequenos que garantiram um lugar nas quartas de final do Campeonato Paulista tiveram aproveitamento considerável. Vale lembrar que houve um momento, inclusive, que nenhum grupo tinha um grande na liderança.  Volto ao assunto pra reforçar a impressão de que se escondem nessa realidade não só questões técnicas e de preparação mas, principalmente, um certo doping emocional já que o torneio  faz muito mais sentido e é infinitamente mais vital para times como Ituano, Novorizontino, Red Bull e afins. 

A realidade esconde também certa soberba dos barões do futebol paulista uma vez que, exceção feita ao Palmeiras, o Estadual se apresenta pra eles como a mais real possibilidade de título ao longo de toda a temporada. E já aviso que dos incomodados pela crueldade da análise talvez só os corintianos tenham direito de considerá-la exagerada. Sobre os outros afirmo que se ocorrer o contrário o sucesso terá um quê de zebra. Acho ainda a contribuição dos pequenos muito mais à altura do que é oferecido pelo Campeonato Paulista. 

Digo isso amparado no nível de competitividade que mostram, consideravelmente melhor do que os dos times ditos menores dos outros estaduais. Para que tenham uma ideia o time que ganha menos por direitos de transmissão no Paulista fatura quase o mesmo de toda a premiação do Campeonato Pernambucano. E em matéria de grana quem mais se aproxima do Paulista é o Carioca, mesmo assim o valor total das cotas do Paulista é trinta e um milhões de reais maior. Não custa dizer também que os quatro grandes de São Paulo colocam no bolso dezessete milhões que, em caso de triunfo, viram vinte e dois.  

Dito de outra forma, significa que o quarteto abocanha pouco mais de sessenta por cento de toda a verba da TV. E tendo em vista o futebol apresentado pelos chamados pequenos sou levado a crer que se o dinheiro fosse dividido de forma mais igual iriam complicar as coisas de vez. Diante desses números aquela velha imagem de um futebol paulista decadente, com os times do interior flertando sempre com a falência, não parece fazer tanto sentido assim. Mas a economia do jogo de bola tem uma lógica toda própria.  Claro, seria muito bom que um dia fosse atrelada à nossa.  

Vejam, nos últimos quatro anos a pobreza extrema no nosso país cresceu trinta e três por cento.  No entanto, no mesmo período, pasmem, os clubes brasileiros dobraram a arrecadação com a venda de jogadores. Quase três mil transações geraram acordos de três bilhões e setecentos milhões de reais. Não, não estou louco.  Somente na temporada passada, ano em que  se registrou o maior movimento desse período, setecentos e noventa e dois jogadores profissionais deixaram o Brasil rumo ao exterior, o que significou um faturamento total de um bilhão e quatrocentos milhões. 

Não é de hoje que os números do futebol brasileiro trazem consigo um ar surreal. Mas o que deve espantar é que tenhamos diante dos olhos toda essa pobreza, não só entre as quatro linhas mas para muito além delas. Um descolamento perverso onde quem fatura pra valer são sempre os mesmos, enquanto quem verdadeiramente merece ser reconhecido são os que conseguem fazer alguma diferença recebendo migalhas. Pelo visto é só aí que o  futebol brasileiro se faz um retrato fiel da nossa realidade.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Estamos evoluindo


Sabe como é. O futebol moderno - como disse um dia nosso nobre maestro sobre o próprio Brasil - não é para principiantes.  Foi-se o tempo em que expressões como jogar sem a bola provocariam antes de qualquer outra coisa um risinho cínico. Não faz muito tempo ainda era possível encontrar por aí quem procurasse com os olhos no meio de um papo sobre futebol alguém com quem tirar uma onda depois de ouvir o termo. Já não tenho visto, donde concluo que o termo está consagrado. E na esteira dele passaram a definir também certos times como desinteressados pela bola. Ou não é disso que se fala quando se diz que um time não quer a bola? 

Como nosso destino é a constante evolução ouso dizer, guardando aqui comigo certa vaidade pelo que a conclusão pode trazer consigo de vanguarda - que estamos prestes a entrar de vez num outro estágio, um estágio superior: o dos times que não querem jogar futebol.  Isso mesmo. Não se revele ultrapassado. Lembre da estranheza que lhe cercou quando ouviu pela primeira vez um sabichão chamar um passe de assistência. É isso mesmo que estou falando. Estamos vendo, ainda que distraidamente, o surgimento de equipes que de tão abastadas e tão lapidadas pela motivação agora entram em campo querendo só o resultado e, claro, a glória e os dividendos de levantar a taça no final da temporada.

Levar o Campeonato Paulista a sério é coisa de quem pensa pequeno. Ficar gastando futebol quando já se tem o placar mínimo na casa do adversário também. Tenham a santa paciência. Depois de toda a grama que comeu até chegar ao estrelato só faltava agora querer que um treinador se  deixe corroer pela culpa de não dar ao torcedor um pouco de graça. Isso é coisa de comentarista que vive de procurar pelo em ovo. Já dizia o professô lá da base que futebol bonito não dá futuro pra ninguém. E essa coisa de beleza, de plástica, é papo de intelectual que perdeu o rumo e foi parar na crônica esportiva. Onde já se viu, quem vai jogar bola quer é ser boleiro. Se quisesse ser artista iria fazer teatro , música. Ia pintar quadro.  

Tudo bem. Não se pode dizer que esse argentino que pintou na área aí não ande causando um rebuliço, mudando um jogo sei lá quantas vezes, se mostrando descontente com um zero a zero mesmo jogando na casa do adversário. Coisa de maluco. Agora, quem garante que tudo isso não passa também de uma tática? Não pra ganhar jogo, mas pra chamar a atenção, ficar em evidência.  E não me venham falar em futebol europeu. Eu também me deliciei vendo o Ajax jogar.  Achei o máximo o que o Manchester fez com o endinheirado Paris Saint Germain, mas confesse, quantas vezes você já ouviu e concordou que os caras lá estão a anos luz de distância das nossas peladas? 


E eu sei que concordou até quando ouviu que nem parece o mesmo jogo o que eles andam jogando lá, que é outro futebol etc e tal.  Mas, por favor, sem complexo de vira latas. Acredite no que estou dizendo. Depois do time que não quer a bola estamos vendo o surgimento dos times que não querem jogar futebol, eu já disse.  O que prova por a mais b de que não estamos parados no tempo , não. Nossa rota de evolução nunca teve nada a ver com a dos gringos, ainda mais os tidos desenvolvidos. Por que é que só no futebol ia ser diferente? 

sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia Internacional da Mulher


* Poster alemão de 1914 - em comemoração ao Dia Internacional da Mulher - reivindicando
   o direito ao voto feminino.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Depois do carnaval

Foto: Arquivo Diário de Pernambuco


Olha, se o ano começa depois do carnaval o Campeonato Paulista começa bem depois dele. Sejamos sinceros, jogo à vera só quando essa folia de momo que acaba de passar tiver dispersado suas cinzas e muita gente já estiver de olho no calendário à procura de um outro feriadão. E não é pra menos, a realidade que tem se apresentado exige uma dose de ilusão de que é possível, ao menos por uns dias, fazer de conta que podemos esquecê-la. E, por favor, não me entendam mal. Continuo sendo um ferrenho defensor dos estaduais por tudo o que representam para o nosso futebol. Sei que vou comprar briga.  O problema não são os estaduais, que têm atrás de si uma história imensa que os une às mais profundas raízes do futebol brasileiro. Podem até acabar tudo bem. Tudo passa.  


Mas que sejam colocados os pingos nos is. O que vejo é uma certa retórica que deixa no ar, sugere, que campeonatos, como o Paulista, são os culpados. Andam caindo de maduro. Jamais vou aceitar enxergar a coisa por essa ótica. Caindo de maduro estão os sábios dirigentes  que os deixaram chegar a este ponto. Que reduziram, e aí volto a apontar o Paulista, mais de cem anos de história a um torneio em que doze de suas dezoito datas fazem quase nenhum sentido. Isso sem falar em todas as artimanhas já tramadas para que os ditos grandes não terminassem diminuídos pelos tidos como pequenos. Por isso tudo acho até difícil de estabelecer o que é falta de qualidade técnica e o que é desinteresse nessas partidas sem sal a que ficamos expostos. 

Quando disseram, por exemplo, dias trás que o Santos conquistou um resultado bom ao empatar em zero a zero com o Palmeiras fora de casa, entendi a lógica do raciocínio, mas cá com meus botões fiquei pensando se no fundo os analistas todos não foram iludidos por um desinteresse velado que mesmo os protagonistas do jogo não conseguem perceber, se dar conta. Em razão disso tenho tendência para acreditar piamente em comentários como o que escutei outro dia de um torcedor desses raiz, que ainda curte ver um jogo sem se importar se é do time dele. O amigo de tal perfil que cito aqui outro dia tinha se deliciado adivinhe com que embate? Bragantino e Novorizontino. Isso mesmo. Peleja que acabou empatada por um a um, roubando  dos dois times do interior a chance que tinham no momento de assumir, ao menos temporariamente a liderança de seus grupos. 

Em outras palavras, para os times menos abastados de história e de grana talvez o Paulista tenha realmente começado quando a bola rolou. Mas temo que só pra eles. Quem ousará dizer que esse ou aquele grande começou bem a temporada se no primeiro mata-mata for aniquilado? Creio que até a aura mágica de Sampaoli racharia diante de uma eliminação do tipo.  E notem que ao longo dos últimos anos temos visto times de menor tradição fazer por merecer o triunfo sobre os gigantes. A crença é que se dão bem por começar a treinar antes. Tudo bem. Mas isso não deve explicar tudo. Enquanto isso, a Libertadores vai entrando em cena cheia de pompa.  E pouco importa se ela passou a ser a tal outro dia. Ou que tenha começado a "desfilar" quando Campeonatos como o Paulista já tinham praticamente a idade que ela tem hoje

sexta-feira, 1 de março de 2019

Pablo Neruda - Orégano

Cuando aprendí con lentitud
a hablar
creo que ya aprendí la incoherencia:
no me entendía nadie, ni yo mismo,
y odié aquellas palabras
que me volvían siempre
al mismo pozo,
al pozo de mi ser aún oscuro,
aún traspasado de mi nacimiento,
hasta que me encontré sobre un andén
o en un campo recién estrenado
una palabra: orégano,
palabra que me desenredó
como sacándome de un laberinto.

No quise aprender más palabra alguna.

Quemé los diccionarios,
me encerré en esas sílabas cantoras,
retrospectivas, mágicas, silvestres,
y a todo grito por la orilla
de los ríos,
entre las afiladas espadañas
o en el cemento de la ciudadela,
en minas, oficinas y velorios,
yo masticaba mi palabra orégano
y era como si fuera una paloma
la que soltaba entre los ignorantes.

Qué olor a corazón temible,
qué olor a violetario verdadero,
y qué forma de párpado
para dormir cerrando los ojos:
la noche tiene orégano
y otras veces haciéndose revólver
me acompañó a pasear entre las fieras:
esa palabra defendió mis versos.

Un tarascón, unos colmillos (iban
sin duda a destrozarme)
los jabalíes y los cocodrilos:
entonces
saqué de mi bolsillo
mi estimable palabra:
orégano, grité con alegría,
blandiéndola en mi mano temblorosa.

Oh milagro, las fieras asustadas
me pidieron perdón y me pidieron
humildemente orégano.

Oh lepidóptero entre las palabras,
oh palabra helicóptero,
purísima y preñada
como una aparición sacerdotal
y cargada de aroma,
territorial como un leopardo negro,
fosforescente orégano
que me sirvió para no hablar con nadie,
y para aclarar mi destino
renunciando al alarde del discurso
con un secreto idioma, el del orégano.