quinta-feira, 15 de junho de 2017

Demorô

Não se trata exatamente de uma gíria. É, digamos, uma malandragem gramatical. Não sei bem quando começou a ser usada. Mas não é coisa muito antiga. É possível que em meados dos anos noventa, quando  eu ainda podia ser tachado de jovem. De uma hora pra outra passou a ser um tal de demorô pra cá, demoro pra lá. Bastava pintar a deixa. Diante da mínima hesitação o interlocutor mandava um demorô. E a graça era que, bem usado, ele se revelava de um cinismo cortante, já que tornava ainda mais evidente o fato de algum ato tomado com certa lerdeza.

Vou tentar ser mais claro e desvendar a condição que fazia dele algo tão eficaz. Digamos que eu estivesse passeando pelos jardins da orla santista e encontrasse um desses cartolas da CBF pelo caminho. Em tom casual iniciaríamos uma conversa. Falaríamos das agruras do nosso futebol. Ele, fatalmente, diria que essa perseguição da mídia anda tornando tudo mais difícil. E, assim como quem não quer nada, eu lhe diria que é preciso tomar alguma  séria providencia com relação a arbitragem. Ele, sem titubear, responderia que a entidade, lógico, quer resolver essa questão o mais rápido possível. Lembraria do árbitro de vídeo. Aí tchum! Eu, arriscando criar uma enorme inimizade, sem pestanejar mandaria na lata:

_ Demorô !

É verdade que, pouco íntimo do cinismo que a expressão pode conter, ele talvez tomasse a colocação como uma crítica qualquer. Bom, espero que a essa altura os menos íntimos dessa gíria tenham sacado o que ela encerra. É que foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando vi a lambança que o árbitro da partida entre Avaí e Flamengo fez. No dia seguinte cheguei a até a ouvir um comentarista de arbitragem dizer que ele poderia ter feito o que fez já que o pênalti ainda não tinha sido cobrado. O problema é outro. Duvido que tenha voltado atrás movido apenas por reflexões. E se não foram apenas reflexões a regra foi violada e ponto. E olha que o lance é daqueles que nem mesmo o vídeo será capaz de levar à unanimidade. Aliás, triste dos que imaginam que esse recurso será o fim das polêmicas. Alguma coisa precisa ser feita, claro. De minha parte, pelo que aqui vai exposto, me limito a dizer simplesmente:


_ DEMORÔ!

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O futebol e seus veredictos


Sejamos sinceros. Imagine você na sua profissão tendo que ouvir, muitas vezes dito por pessoas de conhecimento duvidoso, que não é bom o suficiente para trabalhar numa grande empresa. Ou que com o que você tem mostrado poderia, no máximo, ser o reserva do gerente geral. É preciso muita fibra pra lidar com isso, e duvido até que exista nesse mundo alguém que, de um modo ou de outro, seja imune a críticas. Isso sem contar que quando se trata de futebol muitas vezes quem precisa lidar com esse tipo de desafio mal passou dos vinte anos de idade.

Ossos do ofício dirão os mais diretos. E eu nada teria contra esse tipo de discurso se ele fosse usado com certo equilíbrio e em casos onde tal veredicto se apresentasse como inevitável. A verdade pode ser cruel, sabemos. A questão é: quem pode se apresentar como dono dela?  Sempre duvido do que se apresentam nessa linha. Conheço um pouco os mecanismos que movem a crônica e não temo dizer que raciocínios desse tipo costumam ser amparados no argumento de que sem ser taxativo o que resta é apenas erguer um muro de discursos insossos.

Ora, jamais vou concordar com isso, nem apoiar a crença de que apenas a polêmica é capaz de temperar pra valer as conversas sobre o jogo de bola. O embate sobre pontos de vista existirá em qualquer conversa e será por si só a melhor das matérias primas. Tá pra nascer o que supere uma boa reflexão e um olhar interessante. E aí reside a armadilha da polêmica. Quando um sujeito coloca suas fichas nela é inevitável que mais cedo ou mais tarde, para alimentá-la, acabe se vendo obrigado a defender pontos de vista que não seriam exatamente os seus.

Acho intrigante quando a crônica, por exemplo, faz em coro um mea culpa. Como vem fazendo no caso do volante Casemiro, agora campeão da Liga dos campeões da UEFA com o Real Madrid. Mais segura ela talvez chegasse à conclusão de que as críticas, embora exageradas, faziam algum sentido. O jogador é que já não é o mesmo. Se aprimorou, teve a nobre oportunidade de ir trabalhar com quem sabe bem mais do que ele. Ou ser comandado por alguém como Zidane é comum? Sabe-se lá o que é capaz de tirar o melhor de cada um. Vai ver até que esse mar de críticas serviu  como combustível ao talento de Casemiro. O futebol é um enigma.

sábado, 3 de junho de 2017

A Realeza !

Foto: Getty


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Dinheiro não compra felicidade

Faz mais de vinte anos que a grana com grife passou a fazer a diferença no futebol brasileiro. Dos esquadrões marcantes montados pelos chamados grandes de São Paulo o único do qual consigo me lembrar sem que junto não me venha à cabeça o nome do patrocinador, é o São Paulo do início dos anos 90.  Logo depois veio o Palmeiras da Parmalat. E quando a década se fez mais madura foi a vez do Corinthians. Primeiro tabelando com um banco e depois com fundos de investimentos e sua dinheirama desde sempre suspeita. E assim nomes como Excell, Hicks Muse e MSI ficaram tão falados quanto os dos jogadores que eles trouxeram. 

 Atualmente a vez voltou a ser do Palmeiras que tem navegado num mar de dinheiro. Primeiro oriundo de um presidente que muitas vezes mais pareceu um mecenas e depois de um patrocinador de dar inveja a qualquer time da Série A. Os mais radicais poderiam levar essa conversa pro lado do doping financeiro, coisa que eu nem considero descabida de ser discutida. Mas escolhi o assunto porque a primeira manchete que me chamou a atenção neste início de semana foi uma que anunciava que o Palmeiras trabalha para afastar a pressão que veio com o alto investimento. 

O que eu sei é que, muito anos depois, o modelo de negócio travado entre o Palmeiras e a Parmalat era tido pelos entendidos como o exemplo a ser seguido. E isso só mudou, ou se apagou, quando a multinacional viu sua reputação ir por água abaixo. Mas há aí um detalhe histórico que deveria ser lembrado e que tanto o clube quanto o patrocinador deveriam ter em mente sempre: enquanto a parceria foi tida como um sucesso todas as partes envolvidas diziam pra quem quisesse ouvir que os resultados vieram muito antes do previsto, o que tinha facilitado tudo. 


Naquela época voltar a ser campeão brasileiro pareceu justificar o investimento, o que agora não parece ser o caso. Há uma insatisfação geral no ar. Só que ter mais do que os outros nunca foi garantia de satisfação. Existem muitos casos que podem ser usados pra comprovar essa teoria, inclusive, um certo Flamengo, centenário, cheio de talento, mas que virou sinônimo de que o dinheiro nem sempre compra a felicidade. Agora vejam. Nem tudo está perdido porque em matéria de futebol, também não faltam provas de que, às vezes, ele compra sim.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Tite no "El País"


No último post falei da posição adotada pelo técnico da seleção. E na entrevista que concedeu ao "El País", assinada por Breiller Pires, Tite voltou ao tema. E foi mais direto ainda. Bom de ler.

"Na minha atividade, eu posso e quero contribuir com a sociedade. O esporte educa. É a ferramenta de educação mais barata que o Brasil tem à disposição. Se for jogar uma peladinha de dois contra dois, tu tem de respeitar regras. O Sócrates falava muito disso. O futebol é um instrumento de educação. E qual é a contribuição que posso dar ao Brasil? O exemplo. Eu quero vencer por ser mais competente, mais ético e mais leal, com a autoestima elevada. O que significa autoestima elevada? É não precisar de subterfúgio para vencer. Eu posso ganhar tendo orgulho de ser melhor que o meu adversário. Dentro das regras do jogo, sempre. Isso eu acho do c…! Eu não preciso da arbitragem, só que quero que ela seja imparcial. Eu não preciso da malandragem. Eu posso ser melhor que isso".

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Que moral tem o futebol?


Querem saber do que gostei mesmo nos últimos dias? Além de ter visto o Vanderlei fazer mais uma defesa daquelas e Milton Mendes, técnico do Vasco, mostrar pulso e colocar o atacante Nenê no banco? O que eu gostei mesmo foi de ouvir o Tite falar em alto e bom som que a honestidade do garoto Rodrigo Caio pesou pra que ele aparecesse entre os convocados. O comandante do escrete nacional também deixou claro que a conduta tem com ele tratamento parecido com o que dispensa ao desempenho técnico. Rodrigo Caio, como Tite também fez questão de lembrar, fez uma Olimpíada irretocável. Acho até que já disse aqui que, de certa forma, o momento do São Paulo acabou ofuscando o bom rendimento do zagueiro tricolor. 

O bacana de ver o Tite fazer menção à nobreza que o jogador teve ao se mostrar íntegro no gramado é que, a meu ver, corrige um pouco as coisas. Já que o que, na minha opinião, era pra ser motivo de aplausos acabou sendo, antes de tudo, combustível para debates atravessados. E o bem intencionado Rodrigo Caio acabou ficando na mira de gente que está longe de pensar que integridade não rima com o jogo de bola. E não estou falando aqui de comportamentos extracampo. A vida é de cada um. E todo mundo pode fazer dela o que bem entender. Mas a receita exige que cada um tenha coragem para arcar com o preço da atitude que toma. 

Como disseram alguns o fair play de Rodrigo Caio não irá mudar o futebol, não o fará diferente. Realmente não fará. Mas não consigo imaginar em que mundo estaríamos se cada um se ocupasse de fazer apenas o que acredita ter a capacidade de mudar o mundo. Provavelmente a essa hora ainda estaríamos morando em cavernas. Pra mim o ato em si basta. E ponto. Como em qualquer campo da atividade humana os que apontam algum caminho merecem respeito. 

Não é o caso da Conmebol, por exemplo, que anda dizendo aos quatro ventos que moralizará o futebol sul-americano. Aí pune o Peñarol depois de toda a confusão vista na partida contra o Palmeiras com uma única partida com portões fechados e mais uma multa. Já que arrecadar nunca é demais. Decisão que só torna mais visível o vazio moral que corrói o futebol de dentro pra fora. Não quero acabar com a malandragem no jogo, não espero que ele seja praticado por gente com ar de santo. Apenas gostaria de ver nesse universo os poucos exemplos dignos tratados com a devida importância. E se há gente mesmo lá na Itália a fim de Rodrigo Caio, acho que ele deveria pensar seriamente no assunto.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O futebol no armário

Faz tempo que ele já não é o mesmo. Em outras épocas fazia um homem feliz com um calçado roto, empoeirado e, acreditem, até de pés descalços. Teve, desde sempre, um ar nobre  Mas trazia na alma algo de popular. Era figura fácil. Não foi por acaso que por estas plagas em determinadas gerações veio a ser a brincadeira-mor da garotada. E foi de tamanha simbiose com o nosso povo que, algumas décadas depois de ter chegado, se fez seu retrato, sua cara. Um desavisado qualquer pode até achar que isso não passa de um modo figurativo de expressar essa relação. Não é. Com sua grandeza foi além, muito além. Fez fama planetária. 

Mas a verdade é que o sucesso o transformou. Tornou-o afetado, talvez, não sei. O que eu sei é que a cada dia que passa tentam fazer dele algo mais exclusivo. Normal, portanto, que diante disso acabasse se distanciando de sua essência. Seus trajes andam cada vez mais caros. Uma camisa dele custa o que para muitos seria, e é, uma pequena fortuna. E que não venham lhe falar em camisas de algodão. Essas, faz tempo, deixou de usar. Um sem fim de tecidos sintéticos foram criados só por causa dele. Cujos criadores tiveram a audácia até de bolar algo que não deixasse mais nem o suor lhe pesar sobre o corpo. Graças a esse seu apetite para o requinte as chuteiras pretas, que outrora lhe eram quase uma marca, praticamente foram legadas ao esquecimento. 

Agora vejam, se faço esse relato é para avisá-los que vocês não devem se deixar levar pela aparência. Este senhor, pode ter alcançado um sucesso que nenhum outro semelhante seu ousou alcançar, mas infelizmente está longe de ser um exemplo moral. Sua única desculpa, se é que há uma, é a de refletir a pequenez dos homens que o cercam, a sociedade que o abraçou. Está longe de poder ser considerado transparente, embora insista em trazer consigo um discurso forte que tanta convencer a todos dessa sua intenção. Serve a um dono. E este é um detalhe importante. Juraria que ele é um homem bom, infinitamente bom, mas cruelmente corrompido por aqueles a quem entregou seu destino. Tivesse o mínimo de decência trataria homofobia, como trata o racismo. Mas o que vimos nos últimos dias foi o futebol acovardado diante de um suposto caso do tipo. 

Um jogador ameaçado em sua chegada com bombas. Com todas as instâncias envolvidas fazendo vista grossa ao ocorrido e apenas uns poucos da imprensa fazendo questão de não deixar o fato passar em branco. O alvo de seu preconceito foi um jogador que demonstrou ter confiança em si mesmo avisando que a resposta será dada em campo. Que o ambiente hostil não lhe intimide. O ameaçado não é um qualquer jogando bola. Tem títulos expressivos. Diante do fato a conclusão é óbvia. O futebol, por incrível que pareça, vai deixando evidente que anda mais atrasado do que a nossa própria sociedade. Que está longe ser moralmente moderno, digno do que o nosso tempo pede. Dá a impressão que segue com a capacidade de ser sensível às diferenças trancada em algum armário. Um armário que nem ele abre, e nem permite que seja aberto.               

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Na pressão !



Poucos são os treinadores no Brasil capazes de fazer silenciar a corneta da torcida. Cuca, que acaba de se apresentar, ou reapresentar, ao Palmeiras é um deles. E ainda que tenha construído num passado recente trajetória capaz de justificar sua contratação por qualquer clube do país, muito provavelmente foi por essa qualidade tão rara que ressurgiu como único caminho possível ao atual campeão brasileiro depois da demissão de Eduardo Batptista. E ainda que a escolha do treinador que agora sai de cena tenha sido tremendamente questionada desde o início não dá pra negar o fato de que o Palmeiras na ocasião tenha feito uma escolha que merecia ser reconhecida pois driblou o óbvio. 


Mas uma coisa é ter coragem de fazer a aposta e outra bem diferente é ter coragem para mantê-la. E tão raro quanto um treinador que aplaca a insatisfação da torcida é um dirigente que não se curva diante da pressão. O que não dá é pra se omitir, negar responsabilidades. O presidente do Palmeiras foi eleito no final de novembro e Eduardo Baptista anunciado no início da segunda quinzena de dezembro. Não que a dispensa tenha sido incompreensível. Qualquer um que tivesse gasto algumas dezenas de milhões para montar um time e o visse oscilar tendo pela frente uma fase de mata-mata cada vez mais perto poderia ter tomado atitude semelhante. 

A lição que fica é velha conhecida, a lógica e o sistema fazem do treinador o único penalizado. Para a crueldade do nosso futebol o único antídoto continua sendo uma boa dose de bons resultados. Está aí o técnico corintiano Fábio Carille pra provar. Só ele teve a capacidade mais contestada que a de Eduardo Baptista neste início de temporada. Até porque se imaginava que o elenco estelar montado pelo Palmeiras fosse capaz de esconder certas limitações. E talvez fosse. Mas a direção palmeirense não estava nem um pouco a fim de pagar pra ver. 

Humilde, equilibrado, hábil no trato com a imprensa, Carille fez do Corinthians o rei dos clássicos no Campeonato Paulista. Na verdade fez mais, montou um Corinthians que, a meu ver, foi muito mais competitivo do que o Palmeiras.  É, mas  quando a gente acha que já viu tudo em matéria de futebol, que somos capazes de decifrá-lo, ele trata de nos apresentar um viés intrigante. Ou não é intrigante que um jogador como Cristiano Ronaldo, que anda voando em campo, se veja obrigado a ouvir vaias jogo após jogo? Isso mesmo quando sai de campo depois de marcar três gols diante de um rival como o Atlético de Madrid? 

Juro, nessa pedi ajuda a um amigo espanhol. Achava que algum detalhe tinha escapado do noticiário por aqui. Eis que ele, então, me rebate com contundência, admitindo que o gajo tem jogado muito, mas muito mesmo, mas que infelizmente é uma figura insuportável. Fiquei a ponto de dizer que os madridistas eram todos uns mal agradecidos. Mas pensei um pouco e cheguei a conclusão que a relação de uma torcida com um time tem algo da relação de marido e mulher e que, portanto, ninguém deve meter a colher. E que peça pra sair aquele que não aguentar a pressão.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Um conselho


Se conselho fosse bom não seria dado de graça. Vixe, olha eu aqui de novo com uma frase dessas que todo mundo já ouviu alguma vez na vida. Mas que o leitor não ache que algo dito insistentemente deva ser tomado como verdade. Há, no entanto, frases que estão mais perto dela. É o caso daquela que diz, por exemplo, que uma mentira dita mil vezes se torna verdade. A vida e o jornalismo estão aí pra provar que se essa precisa ao menos faz muito mais sentido do que outras.

A vida tem me ensinado que, mesmo dado de graça, um conselho pode ser valioso. O segredo é dar uma boa peneirada. Por isso, aconselharia Felipe Melo a seguir o que lhe foi dado pelo ex-jogador Edmundo. Ao se ver obrigado a comentar o comportamento do jogador do Palmeiras, Edmundo, sugeriu que ele tome muito cuidado com o que diz e faz para não ficar marcado. Mesmo se tratando de alguém que passou longe de ter em campo um comportamento exemplar, Edmundo sabe como poucos o preço de ser, como ele mesmo se considerou, um cara intempestivo.

Ganhar a antipatia de quem cobre o futebol não é uma boa, disse ele. O que Edmundo nunca poderá dizer é que a antipatia por ele nasceu à toa. Fosse o mundo do jornalismo um pouco mais exigente provavelmente ele não teria conseguido até hoje um microfone pra chamar de seu. Hoje, mais maduro, menos intempestivo, entrega de bandeja um conhecimento que provavelmente lhe custou caro. Mas, como escreveu certa vez um velho cronista, se pudéssemos aprender com a cabeça dos outros evitaríamos muitas cabeçadas. 

É claro que a imprensa tem um papel fundamental nisso tudo. Sob o pretexto de que o futebol anda carente de personagens diferentes dá a comportamentos desse tipo certa preferência. O risco vem embrulhado com o papel brilhante do sucesso, do protagonismo. O diferente costuma nesses casos acreditar que é capaz de entender profundamente como a mídia se comporta, chega a crer que a domina. A torcida compra a ideia, se alimenta dessa intempestividade, faz dela uma bandeira. Só que lá no fim saem desse circo todos ilesos, menos a figura central de quem se terá pra sempre uma imagem muito bem definida, e da qual o sujeito dificilmente conseguirá se livrar.

Erros não há quem não os cometa em maior ou menor número, mas os desse tipo costumam vir acompanhados por algo mais cruel do que amargar um arrependimento.. O preço a pagar é alto. E há que se levar em conta que não é só com valentia que será possível livrar o futebol dessa chatice que anda reinando. Basta olhar pra história do futebol e ver quantos valentes já não se curvaram diante desse tipo de castigo. O toque dado por Edmundo foi desses que passaria no teste da peneira, entende? Mas pode ter sido dado tarde demais.               

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O passado e o presente do futebol



Somos um povo sem memória. Até os mais esquecidos devem lembrar de ter ouvido essa frase ao menos uma vez na vida. E vou além, digo que como se não bastasse não tê-la, muitas vezes a temos transformada, imprecisa, moldada para vender o peixe de quem tinha mais poder quando foi escrita. O mote me vem agora porque o momento soa propício para defender um ponto de vista que trago comigo faz tempo. Não é de hoje que tenho a sensação de que se tem uma coisa para a qual o amor do brasileiro pelo futebol serviu foi para ajudar a preservar a sua memória. E assim driblar um pouco essa nossa mazela. 

O único temor que alimento ao defender este ponto de vista é ter sido influenciado pelo fato de durante boa parte de minha vida profissional ter andado às voltas com esse tipo de trabalho. O que pode ter me dado uma visão equivocada. Claro que nem todos os esforços realizados nesse sentido tiveram a divulgação ou a metodologia ideal. Mas nas últimas décadas dei de cara com um verdadeiro batalhão se ocupando de escrever sobre desde o mais nobre artilheiro até aquele que nem todos conhecem, mas que para determinado grupo ou autor foi o maioral. E o mesmo vi se dar com a história de times. 

No final de semana que se aproxima uma das páginas mais cantadas do futebol brasileiro estará em evidência e será incansavelmente revisitada. O lendário título paulista de 1977 que, vencido pelo Corinthians pôs fim a um longo jejum de títulos e, dizem, só fez crescer a legião de fiéis do time do Parque São Jorge, hoje pomposamente instalado em Itaquera. Por uma dessas coincidências do destino os dois finalistas daquele torneio, Corinthians e Ponte Preta, praticamente exatos quarenta anos depois, ficarão frente a frente para disputar outra final do mesmo campeonato. Campeonato que muita gente por aí preferia que já nem existisse mais. 

E há ainda uma outra questão que vem junto com essa fixação pelas coisas do futebol, por sua memória e que me incomoda muito. A comparação que, em geral, acaba sendo feita entre o passado e o presente, quando nem sempre uma coisa tem a ver com a outra. Procurar analogias é do jogo, adorna o papo, mas elas precisam, como tudo, de bom senso. A própria importância do futebol hoje é diferente. Basta dizer que a marca de 138 mil torcedores registrada no segundo jogo das finais de 1977 é, simplesmente, até hoje e, provavelmente será pra sempre, a maior da história do Morumbi.  

Quem pegar os jornais daquela época verá que a cidade de São Paulo parou, aulas foram suspensas nas escolas. Houve um verdadeiro frenesi. Ou seja, um passado bem preservado, é rico, necessário e revelador.  Deixa claro, por exemplo, que contestar a arbitragem  foi desde sempre um sintoma do jogo. A Ponte e o Corinthians atuais pouco têm daquele tempo, como o futebol que veremos no Moisés Lucarelli parecerá outro. Mas será um momento perfeito pra desfrutar daquela que, talvez, seja a grande virtude de se ter a memória bem preservada: poder entender e sentir melhor o que o futuro nos trará. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Tite no Cartão Verde! Um convite.


Elogiar Tite neste momento é chover no molhado. Mas se há alguma liberdade permitida ao jornalista, além da informação, é o relato do vivido ao se apurar um fato ou notícia. O que não costuma ser comum. Valoroso nestes dias atuais é ter opinião. Vivemos na era da opinião. Costumo dizer aos amigos de ofício, ou aos que se interessam por ele, que atualmente quando alguém abre o jornal, se é que ainda abre, o sujeito vai primeiro nas linhas onde repousam opiniões... deixando pra depois a própria notícia. 

Mas é justamente um relato do vivido que quero deixar aqui como convite pra que vocês acompanhem o papo que o time do Cartão Verde travou com o técnico da seleção, e que será exibido nesta quinta às 22h30, pela TV Cultura. Tite tem neste momento um sem fim de escudos. Classificou a seleção para a próxima Copa com a rapidez que ninguém ainda tinha feito, caiu nas graças da torcida, inclusive daquela considerada mais azeda, fez o futebol brasileiro voltar a figurar no topo do ranking da FIFA, mas segue sendo o profissional de sempre, que se apresenta pro papo desarmado. 

Estampada no olhar e na fala firme está a segurança de quem venceu todas as etapas. Da segundona do Gaúcho ao degrau que costuma ser visto como sinônimo de glória. E só quem vive o meio do futebol sabe como isso é raro. Tite achava que chegaria lá antes? Achava. Mas mesmo tendo admitido a frustração fez questão de dizer a si mesmo: " agora não vai ficar chorando pelos cantos. vai trabalhar!" E foi !


Na conversa não escondeu o receio que teve de ver a seleção colocar toda a trajetória que ele tinha construído a perder. Pagou pra ver. Figura neste momento num altar de onde os homens inevitavelmente são tirados, ou de onde, passado o tempo, deixam de ser fervorosamente cultuados. Consciente disso afirma sem titubear que está pronto até pra perder uma Copa. Mas evita que a esperança morra em nós quando afirma, por exemplo, que o que ele preza no último terço do campo não é técnico que determina, é o lúdico, o criativo. Confesso que chega a ser difícil de acreditar. E o poder de convencimento de Tite - como é de se supor também - não é pequeno. E como Tite está longe de ser mais do mesmo não ouso duvidar. Chego mesmo a torcer. Espero que gostem do programa.  

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Quando o futebol surpreende

O que se diz é que o futebol, mais do que qualquer outra modalidade, tem uma veia imprevisível. Um jogo em que tudo é possível, por mais que a grana trabalhe dia a após dia no sentido de formar esquadrões imbatíveis, ou de montar uma panelinha de afortunados. O sucesso da empreitada é indiscutível. Não é qualquer um que pode pedir lugar na patota dos abonados Chelsea, City, PSG, Real Madrid, Barcelona e por aí vai. Discutir a origem do dinheiro de cada um, como manda a etiqueta, é coisa que não se faz. Só que não é de acontecimentos dados neste panteão que quero falar, por mais que uma sapecada do PSG ou da Juventus pra cima da nobreza catalã da bola dê muito pano pra manga. 

O normal entre os endinheirados é, em geral, não existir diferenças gritantes. Mas, como se sabe também, isso não impede a ostentação ou a exibição de um invejável poder de compra, arma infalível pra se deixar claro quem se é ou, visto de outra forma, pra deixar claro que se está longe de ser qualquer um. Também não é do chocolate imposto pela Ponte ao poderosíssimo Palmeiras que quero falar. Mas admito que se trata, sim, de uma reflexão provocada pelo time de Campinas e seu placar de respeito pra cima dos palestrinos. 

É que há algo grandioso camuflado em resultados dessa estirpe. Não tenho medo de afirmar que desde os mais remotos tempos um resultado inesperado oxigena o futebol, dá a ele um vigor. É como se nos obrigasse a lembrar, a levar em conta, que ali entre as quatro linhas continua existindo lugar pro sonho, pro triunfo dos que podem menos. Quando um time dito pequeno triunfa sobre um outro cheio de recursos, de histórias e de poderes, deixa pairando no ar a beleza que se esconde no suor do trabalho diário. Dá luz a quem deu um duro danado e no fim de um dia de trabalho teve razão pra acreditar que valeu a pena tanta labuta. Na maior parte das vezes tudo volta a ser como antes depois de uma vitória desse tipo. Mas que a danada é bonita, ô se é.

Esta aí um dos jeitos que o futebol tem de imitar a vida. A vitória do pobre jamais terá a retumbância da vitória dos nobres. Porque diante dela os que tem voz costumam se ocupar mais com a explicação da derrota do que com a exultação do triunfo. E os mais atentos sabem bem a força que se fez, nos regulamentos dos Estaduais, para evitar surpresas do tipo. Mas elas resistem e isso é lindo. O pequeno que vence acordará sempre maior do que era. O resultado surpreendente é uma arma que o futebol tem pra nos avisar - vez ou outra -que também há mais mistérios entre o homem e bola do que pode imaginar nossa vã filosofia. Ah! E aproveito pra deixar aqui os parabéns ao tricolor Rodrigo Caio que teve, em campo, a coragem de remar contra a maré

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Pacaembu: a casa da mãe


A trajetória que o Santos desenhou ao longo dos últimos anos no Campeonato Paulista deve ser levada em conta. Não se trata de uma sequência qualquer, ainda que não sirva para aplacar o descontentamento da torcida com o time neste momento. Ao longo dos últimos oito anos os santistas viveram o início de temporada com direito a um cer to apogeu, mesmo que nem sempre a presença na final - ou a conquista do título - fosse garantia de que o resto do ano seria uma maravilha, o que nem sempre foi. Verdade também que a citada trajetória serve para amplificar o insucesso, ainda mais quando ele se dá com o time fazendo uma das piores campanhas dos últimos anos no torneio estadual. Se o vice no Brasileiro do ano passado foi surpreendente, cair nas quartas do Paulista foi o avesso disso. Por mais que parte da torcida santista, empapuçada de Estadual, não faça questão de esconder que anda querendo é a Libertadores. Desconfio, inclusive, que o desgosto venha exatamente daí, do fato da queda no Paulista sugerir que se não deu no Paulista, na Libertadores é que não vai dar.

Como sempre acontece no futebol brasileiro a queda será intimamente ligada à capacidade de alguns. Se há um álibi pra isso é o fato de o time santista não ter perdido a vaga para uma equipe qualquer. A Ponte Preta - faz tempo - anda se mostrando time capaz de encarar os ditos grandes do nosso futebol. E ainda que eu ache que no segundo jogo, em especial no primeiro tempo, esqueceu um pouco disso, chega às semifinais com méritos. Há números provando isso e nem é o caso citar. Como acho ainda que no primeiro tempo, depois de ter aberto o placar, o Santos não parecia ter urgência de fazer o segundo gol, quando sob certa ótica deveria. Trata-se de um time maduro, seguro, entrosado, mas até esses devem ter, vez ou outra, o ímpeto de um trator. 

E me desculpem se o discurso soa velho e provinciano mas nada me tira da cabeça de que se tem uma coisa que o clima da Vila favorece é essa efervescência que não vi pós primeiro gol. Imagino o quanto um milhão e meio de renda faz diferença, mas quando será que vamos aprender que o dinheiro quase sempre joga contra o futebol? Tá pra nascer o dirigente que leve em conta o que se pode perder, não ganhar. E nesse sentido não só em termos financeiros. A menos que alguém acredite que não conseguir chegar onde os outros chamados grandes chegaram fará bem pra alguém. Dias atrás o volante santista Thiago Maia, esteve no programa Cartão Verde, na TV Cultura, que eu apresento, e diante da velha questão: Vila ou Pacaembu? Se saiu com uma resposta primorosa, dizendo que a Vila era como a casa dele e o Pacaembu como a casa da mãe. Ótima analogia. Concordo que a casa da nossa mãe costuma ser como a nossa, mas a verdade é que depois de algum tempo não existe nada como a casa da gente. Seja pra desfrutar as alegrias, seja pra sarar o que o destino tratou de nos reservar. E, além do mais, diante da dificuldade sempre é possível convidar a mãe pra ir até lá.  

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Torcer já não basta !

O Brasil como se sabe não é nação de fácil interpretação. Chego a ter compaixão dos ditos brasilianistas. Gente que formada em outras plagas baixa por aqui cheia de boas intenções e entrega. E acredito não cultivar esse sentimento sem razão. Ver o que se passa nestes trópicos e interpretar o que aqui se dá é uma coisa. Compreender, outra, bem mais complexa. Isso sem contar a mutação. Por certo o Brasil de hoje não é o Brasil de outros tempos. Tá aí o futebol pra comprovar. E se dúvida havia nesse sentido depois dos jogos das quartas de final do Campeonato Paulista devem ter caído por terra. O jogo de bola que encantava o torcedor agora o assombra. No pior dos sentidos. Ou não foram assombrosas as partidas que se deram? Talvez seja o caso de inocentar apenas a peleja entre Palmeiras e Novorizontino, desde que carreguemos conosco uma dose de complacência.

Gostaria muito que este amargor interpretativo fosse só um sintoma do saudosismo a que os anos nos condenam. O velho papo de que antigamente tudo era melhor. Mas não vem daí o meu desespero. Faz tempo aprendi com Tio Nelson que o futebol é só a coisa mais importante entre as coisas menos importantes. O que me aflige é a evidência de que o futebol segue sendo puro reflexo desse nosso catadão aqui, que ultrapassa os duzentos milhões. Nessa ladeira tem ido tudo o que nos é caro e necessário. Ou alguém aí da arquibancada seria capaz de levantar e gritar que não tem essa, que estou misturando as coisas, que socialmente estamos muito melhor do que futebolisticamente? Nada!

 Não há setor em que possamos dizer "jogamos por música". Nossa justiça, por exemplo, joga sem velocidade alguma. E nesse marasmo tome contra ataque. Dias atrás, enfim, o Superior Tribunal de Justiça validou a troca de informações entre o Ministério Público Federal e o Departamento de Justiça dos EUA no caso FIFA. Isso um ano e meio depois da prisão dos dirigentes na Suíça. Não comemorem! Alguém duvida que a essa hora a defesa já tenha na cabeça uma tática armada pra dar mais uma travada no jogo? 

Evidências de que as coisas aqui têm o padrão do futebol, infelizmente, não nos faltam. Nossa saúde, nossa (in)segurança, nossa política, que em matéria de involução tem deixado pra trás qualquer adversário. Nossos clubes, que sugados de seu poder nada falam ou fazem. E aí, inevitável, sempre me volta incômoda questão. Que paixão funda é essa que mesmo em face de tamanho desencanto não nos deixa parar de amar? Quem sabe algum brasilianista tenha a resposta. A verdade é tenho medo de perguntar porque ela pode vir óbvia e dilacerante: pra mudar... torcer já não basta, caro brasileiro! 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Sobre literatura e poesia

Ricardo Mituti é um companheiro de ofício, amante das palavras e, recentemente, me deu o prazer desse papo sobre literatura e poesia.

https://m.youtube.com/watch?v=ELoqziAwMBk.

De Temer pra Tite. Carta ou bilhete ?



Acabo de ler o que se chamou de carta. Falo das palavras de Temer para Tite. Tática clara pra tirar uma casquinha do brilho que ora se derrama sobre o escrete nacional. Uma missiva de sete, oito linhas, E ainda que seja possível sentir entre elas o espírito da Dona Lúcia, acho que em tamanho mais se assemelha aos recadinhos que ajudaram a fazer a fama do técnico Juan Carlos Osório, ex-São Paulo, que gosta de endereçar bilhetinhos aos seus comandados. Recurso, aliás, que até Rogério Ceni usou no mês passado quando o  tricolor enfrentou o Novorizontino. Ou seja. Carta nada! Bilhete, vai!

O futebol tá chato !

Por mais que o futebol ande pobretão em termos técnicos continua, e continuará, produzindo astros. Está na alam do negócio. Dizem que a mídia gosta de fabricar heróis e o futebol jamais reclamou. Um jogador elevado às alturas turbina as cifras. E matar a galinha dos ovos de ouro é coisa que não se faz. A mídia anda tão decisiva que o bandeirinha insultado por Messi, o que levou o argentino a ser suspenso, confessou que nem entendeu os insultos na hora e que só teve ideia do ocorrido quando viu a repercussão. O mecanismo explica porque hoje em dia se cola tão fácil o rótulo de craque em atletas que sequer engraxariam as chuteiras de um. 

Os elegidos estão aí e todos os conhecem muito bem. Não só pelo jeito de falar, mas pelas namoradas, pela invejável multidão que alimentam via redes sociais. Mas na semana passada um personagem de outra estatura midiática me chamou a atenção. Na busca de uma pauta para tratar do jogo entre Palmeiras e Mirassol eis que o jornalista, Emilio Botta, usou como gancho o reencontro do goleiro Vagner, do time do interior paulista, com o time alviverde, equipe com a qual ainda tem contrato até 2019. Vagner começou a interessar à grande imprensa quando em 2014 foi um dos destaques do Ituano, que tiraria o título paulista do Santos, graças a uma defesa feita por ele na disputa por penaltis. 

Depois disso foi procurado por times grandes mas acabou indo para o Avaí. Com o time catarinense foi do céu ao inferno. Viveu a alegria da volta à primeira divisão e na temporada seguinte a dor do descenso. O insucesso não lhe impediu o progresso. Acabou contratado pelo Palmeiras. E quis o destino que uma lesão afastasse o goleiro Fernando Prass dos granados e lhe alçasse à condição de titular. Mas o que era pra ser o apogeu não durou mais do que três partidas. Sem jogar bem viu o companheiro Jailson crescer- cair nas graças da imprensa - e ficar com a oportunidade que parecia dele. 

E foi simplicidade pra descrever o que viveu que Vagner me assombrou. Tratou o insucesso de modo cru. Disse ter sido um erro dele mais do que qualquer outra coisa. Não foi medo. Não era para ser, avisou. Em seguida admitiu que o que lhe resta é correr atrás e se tiver outra oportunidade fazer bons jogos. Quando o Avaí caiu, com lágrimas nos olhos, o arqueiro fez questão de lembrar dos campos de treinamento cheios de lama e dos salários atrasados. Lembrou ao repórter, ao ser questionado a respeito, que as cotas de televisão quando chegam muitas vezes são usadas pra saldar dívidas antigas, e que esperar melhorias nos gramados soava como fantasia. Afinal, se o clube não tinha conseguido nem bancar salário em dia, seria ingenuidade esperar melhorias no Centro de treinamento. E pra não deixar dúvida finalizou dizendo que hoje em dia o futebol dos times pequenos está largado.

Digo pra vocês que vi ali uma transparência que não tenho visto nas figuras que a mídia tem elegido nas últimas semanas. Jogadores como o palmeirense Felipe Melo, como o  são-paulino Maicon. Figuras que, coincidentemente, entre uma declaração e outra - dessas que a crônica gosta de explorar - fizeram questão de nos lembrar que o futebol anda chato. Aliás, frase das mais ouvidas nos últimos tempos. Concordo com eles. Mas se está chato não é por acaso.    

sábado, 25 de março de 2017

Canalhas !



Canalha!!! Bom, o fato de ser chamado assim e abrir um sorriso matreiro já deixa ver que João Carlos Albuquerque é figura singular. E também é atrás desse sorriso que se esconde o mais original apresentador esportivo da TV brasileira. A fórmula do Canalha é misturar sinceridade e verdade em doses que podem até incomodar o telespectador, mas que em geral o cativam. A mania de chamar os outros de Canalha gerou, inclusive, uma tremenda saia justa anos atrás com Jô Soares, que ligou pra tirar satisfação e acabou seduzido, se transformando em grande amigo do... Canalha! 
Quem conhece o João - e quem o conhece mesmo de outros tempos o chama na verdade de João Veronese - sabe que se trata de um cara criado no Bairro de Pinheiros, em São Paulo, que andou pelo mundo, conhece cinema italiano como poucos, muito poucos, e por isso escreve há décadas um livro sobre o tema, que eu desconfio ele tem medo de terminar, pois terá colocado fim àquele que é seu grande barato. E já que estamos falando de barato, outro grande prazer do João é tocar. E tocar com personalidade. Encarando entoar clássicos de Elton John e afins.
Hoje ele estará em Santos, se encarregando da trilha sonora enquanto Xico Sá rabiscará autógrafos no seu mais novo livro, o primeiro sobre futebol: A pátria em sandálias da humildade. Uma reunião de crônicas nas quais Xico destila toda a sua sabedoria sobre o homem e o jogo de bola, jamais deixando de incluir no caldeirão outros temas que lhe são muito caros, como sexo, por exemplo. Bobinho ele, né? A humildade, palavra que vai estampada na capa do livro, aliás, cai muito bem nesse dois cabras, que como os interessados poderão comprovar jamais se deixaram enfeitiçar pelo estrelismo mala que costuma infectar muita gente que fica na mira das câmeras de televisão ou que são por outros dotes tidas como figuras públicas.
Vai ser ali na calçada da Realejo, a partir das seis e meia da noite. Não se trata de um local desconhecido, nem pro Xico - que nunca perde a chance de confessar sua simpatia por este nobre município, dizendo que dia desses ainda vai de mala e cuia pra lá - e muito menos pro João, que se formou no velho segundo grau no mesmo colégio que eu, o Martim Afonso, ali às margens da Baia do Gonzaguinha, em São Vicente. E no início da carreira soltou a voz nos microfones da Rádio Universal e mais tarde na Atlântica, ao lado de nomes como Walter Dias.

E como se isso fosse pouco, o músico Julinho Bittencourt ainda ficou de aparecer pra dar uma canja com o Canalha. Julinho, que foi o responsável pela trilha sonora que embalou as noites da minha geração e de muitas outras, anteriores e posteriores. E isso no tempo em que balada era só o que alguns cantores andavam fazendo aqui e acolá. A mim bastaria os amigos lá reunidos pra dar um nó na agenda e tratar de cruzar a  Praça da Independência em direção a tão agitado pedaço de calçada. Estarão lá, que eu sei, vários de seus habitués, e hoje também essa dupla pra lá de especial, que vem de fora, e por quem eu tenho a maior estima. E aí, sabe como é, né? Não dá pra deixar passar. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Recado do time do Cartão Verde!

video

quarta-feira, 22 de março de 2017

Clássico temperado

Foto: Getty images

Hoje tem seleção! Há menos de um ano é bem provável que o aviso não fizesse você rever a agenda. Mas agora o papo é outro. Tite foi além do esperado e fez o torcedor voltar a se ligar na seleção. E que bem isso fez ao nosso futebol. Tite igualou recentemente uma marca que durou quase cinquenta anos. A de de ter vencido os seis primeiros jogos das Eliminatórias. Antes dele, a marca era do lendário, João Saldanha, comandante das feras que tempos depois nos dariam a inesquecível Copa de 1970. 

Os comandados de Saldanha na ocasião marcaram vinte e três gols, os de Tite têm dezessete. E se nos idos de 1969 a seleção levou dois gols nesse punhado de jogos, o time atual sofreu apenas um. Interessante notar que, mesmo com quase meio século entre as duas campanhas, conseguir fazer um gol no Brasil se revelou obra de uma mesma seleção, a colombiana. Com o detalhe de que o time de Saldanha diante dela levou dois mas fez seis. Enquanto a de Tite construiu um placar de dois a um. 

E também foi a Colômbia que na décima rodada segurou o Uruguai em casa. O empate por dois a dois permitiu que o time de Tite assumisse a liderança das Eliminatórias ao bater a Venezuela, na oportunidade, sem Neymar, suspenso. Por uma questão de regulamento em 1969 o Brasil não teve pelo caminho nem a Argentina, nem o Uruguai. E sejamos francos, quando lembramos que dessa vez a lista de resultados inclui um três a zero na Argentina a coisa encorpa. 

Uma vitória sobre a celeste, jogando em Montevidéu, fará desse primeiro momento de Tite algo ainda mais surpreendente. Em casa os uruguaios têm o retrospecto de seis vitórias em seis jogos e apenas um gol sofrido.É uma pena que os uruguaios não possam contar com o suspenso, Luiz Suárez, disparado sua grande estrela. Ainda que a celeste vá contar com seu artilheiro (e das Eliminatórias), Cavani, autor de oito gols até aqui.Também é de se lamentar a ausência do garoto Gabriel Jesus que até então travava com Neymar um duelo bacana pela artilharia brasileira dessa trajetória. Nos últimos seis jogos da seleção foram cinco gols de Jesus e quatro de Neymar.

Renato Augusto, questionado, sugeriu uma partida com jeitão de Libertadores. Quero acreditar que teremos futebol pra ir além disso. Você até pode dizer que o grande clássico sul-americano é travado com os argentinos, mas não dá pra dizer que falta tempero ao confronto. Brasil e Uruguai são os melhores times dessas Eliminatórias e, no caso do Brasil, há quem aposte que a vitória garantiria um lugar na próxima Copa. O jogo, de quebra, ainda fará de Oscar Tabarez, com cento e sessenta e oito partidas, o treinador que mais vezes dirigiu uma mesma seleção na história, deixando para trás o alemão Sepp Herberger. Tá temperado, ou não tá?