quinta-feira, 28 de março de 2024

A nobreza de ser grande

Raul Baretta/ Santos FC


Não faz muito tempo no meio de uma conversa sobre futebol com um amigo ele me fez uma pergunta dessas para as quais qualquer resposta não soa definitiva. É como aquela outra, tão ouvida por aí, que nos exige dizer se técnico ganha ou não ganha jogo. A questão era: um time deixa de ser grande?  E eu me peguei imaginando a figura de um nobre que depois de umas tantas bolas fora acaba por ficar só com o título, com a comenda, quando tudo o que o cerca já não se renova com ar de realeza e ele passa a viver das lembranças de um passado que o tempo vai fazendo cada vez mais distante.  Dando aqui um drible na lógica, diria que um clube pode continuar respeitado pelo que já representou mas no presente se apequenar.  

Talvez um bom viés para analisar isso seria enxergá-los pelo faturamento. Afinal, nenhum nobre seria tido como nobre com seu poder de compra sendo dilapidado dia após dia. Entre os quatro ditos grandes clubes paulistas há notadamente um recorte. Neste momento de um lado estão Corinthians e Santos. Do outro, Palmeiras e São Paulo. O time santista , entre tantos desafios, tem vivido sérios dilemas que passam justamente por sua capacidade de faturar. Já teve boas provas de que ela melhoraria sensivelmente se ele abraçasse a ideia de ir jogar fora da Vila mais famosa do mundo. Mas tem arroubos que são herança dos tempos em que ninguém duvidava de sua grandeza e podia sonhar em ter tudo o que os rivais conseguiram. Ter uma Arena, por exemplo. 

Mas a realidade recente mostra que hoje em dia querer construí-la à beira-mar o confinaria a um reino que talvez não venha a propiciar faturamento aos menos parecido com o de seus concorrentes. Mais ambicioso e digno de sua própria história seria construí-la, então, onde reinam os outros, na capital. Já o Corinthians que, todos sabem bem, anda com as finanças arruinadas nos remete a algum nobre perdulário desses que se negam a admitir que a realidade mudou.  No mínimo, diria que nos dois casos eles se fizeram, ou têm se tornado, realmente menores do que foram um dia. Se ainda são grandes é uma questão de ponto de vista, de perspectiva. 

Neste cenário ninguém renovou mais sua condição de nobre do que o Palmeiras. Não bastassem os títulos, que soam como comendas, há ainda o faturamento em constante evolução. E aí é possível dizer o que for. Que com esse recurso todo o time teria que brilhar mais, que tem por isso a obrigação de sempre encarar o Flamengo de igual pra igual. A torcida do Palmeiras poucas vezes na história pôde estar tão satisfeita. E ai de quem ousar dizer que o time do velho Parque Antártica não segue sendo um grande. E ainda que falte ao São Paulo uma trajetória recente farta de grandes títulos ele é o único dos outros três rivais alviverdes que pode lhe fazer frente a essa altura. 

Não só porque andou papando um título aqui, quebrando um tabu acolá, mas porque tem colocado pra girar a engrenagem que pode verdadeiramente fazer um clube ganhar outra estatura: a de ter numerosa torcida. E a torcida do São Paulo, que anda lotando o Morumbi jogo após jogo, deveria causar inveja a todos os que venham a ser assombrados por esse dilema de ser ou já não ser grande. Até porque isso remete a outra dessas perguntas cujas respostas a elas nunca soam definitivas, que é: poderá existir algum dia time grande sem uma grande e presente torcida? Não por acaso quando o Santos joga na capital, com estádio lotado, dá a impressão de revelar outra estatura. 

quinta-feira, 21 de março de 2024

A mais pura tradução do jogo

Vou dizer uma coisa pra vocês. Vivo há várias décadas cercado de gente que dedicou a vida a esmiuçar o jogo de bola. Gente com talento reconhecido para tal. O que faz com que eu me sinta um afortunado. E, claro, gosto também de desfiar minhas teorias a respeito, ainda que tenha pra mim que no ofício de apresentador que exerço deva me dedicar mais ao questionamento, a informar, a conduzir conversas situando fatos, colocando-os em seu mais preciso contexto. Mas tenho um apreço imenso pela maneira como o futebol é tratado quando afastado de ambientes ditos profissionais. Nos botequins, nas filas de supermercado. Ai daquele que por ventura se afastar dessa fonte. 

Uma imagem que me vem quando penso nisso é aquela "marra" que o Ronaldinho Gaúcho ficou famoso por usar, sabe? Falo aquela de olhar pra um lado e mandar a bola pro outro. Movimento simples, mas eficaz como poucos. E cuja maior virtude talvez esteja no fato de desconcertar o marcador. Enfim, buscar a tradução de uma imagem, de um lance, olhando pra onde ninguém estava olhando, driblando o olhar comum. O que quero dizer a vocês é que procurar a interpretação do jogo no meio campo do cotidiano é das coisas mais valiosas e mais prazerosas na minha modesta opinião. A alma das boas crônicas que, por este motivo, creio, seduzem tanto. Um jeito legítimo de traduzir o jogo com um viés deliciosamente cru e cruel,  que muitas vezes nem mesmo o mais refinado especialista consegue. 

Sem contar que muitas coisas interessantes ficam pelo caminho. Vejam o caso do Nova Iguaçu que vinha fazendo boas campanhas nas duas temporadas recentes e agora, depois de eliminar o Vasco, irá decidir o título do Campeonato Carioca com o poderoso Flamengo. Li, quase sem acreditar, que seu treinador, Carlos Vitor, está no clube há trinta e dois anos. Lá chegou depois que o atual vice-presidente, na época diretor de futebol, o viu jogando uma pelada nos idos de 1992. Cal, como é chamado, foi jogador por seis temporadas. Virou treinador. Passou  por todas as categorias de base do clube. A começar pelo sub12. Mais tarde foi incorporado à comissão técnica permanente. E aí está, colhendo os frutos dessa trajetória. Personagem que me fez lembrar do britânico, Alex Ferguson, que comandou o Manchester United, da Inglaterra, por longos vinte e sete anos.  

Mas mesmo com essa história singular pouca coisa li na mídia sobre Carlos Vitor, chamado carinhosamente por seus comandados de CalDiniz, ou CalDiola, em alusão a treinadores mais famosos e laureados que ele. E é assim, porque o olhar do jornalista também é treinado, como são os times. Somos todos preparados para executar o que se fez nossa tática. Por isso, adoro ouvir o que se diz por aí, digamos, despretensiosamente. Algo na linha do que ouvi  outro dia um senhor na feira contar em tom de segredo para o corintiano boa praça, vendedor de limão. Disse ele baixinho que, já garotão, tinha trocado de time. Veja só que confissão! Tinha deixado de ser são paulino para virar santista. E o corintiano, naquele tom cru e cruel dos papos informais, abriu um sorriso imenso e sentenciou: "Olha aí,  se livrou de uma eliminação no último domingo, mas não do sofrimento. Tá parecendo eu".

quinta-feira, 14 de março de 2024

O futebol do nosso jeito



Que o nosso futebol não prima pela plástica deixou de ser novidade faz tempo. Não sei se seria correto justificar essa realidade apontando uma pobreza técnica. Por falar nisso, acho interessante termos visto nos últimos tempos os times brasileiros sendo inundados de estrangeiros, em sua maioria sul-americanos, e quase nada ser dito sobre os efeitos colaterais que isso poderá produzir. É de se supor que com o futebol brasileiro fazendo valer sua supremacia financeira sobre os outros times do continente uma melhora substancial na qualidade do jogo venha a ocorrer. Alimento sobre a questão teorias mais profundas, que versam sobre os desdobramentos que isso pode ter no que chamamos de nosso jeito de jogar. 

Considero improvável que tudo isso se dê sem provocar uma certa fusão de estilos. Gostaria de acreditar que o futebol brasileiro é dono de uma personalidade forte, capaz de moldar tudo isso a seu modo. Mas não sei se é o caso. Ainda mais neste momento da história em que tanto se fala que se acabamos desse jeito é por ter deixado de lado nossa verdadeira escola de bola para seguir outras. Talvez o que possa ser dito sem medo de errar é que o jogo por aqui produz cada vez menos encantamento. E se há nessa constatação algo de técnico, há sem sombra de dúvida também algo que passa pela educação, pela civilidade. 

E aí vou me dar o direito de filosofar mais ainda dizendo que esse viés seria facilmente explicável ao aceitarmos que o futebol foi desde sempre o espelho da nossa sociedade. Hoje em dia a sensação que tenho é a de que essa falta de educação, de civilidade, salta aos olhos no nosso cotidiano. No trânsito cada vez mais agressivo, nos motoqueiros ignorando na cara dura as leis de trânsito, nas pessoas não fazendo a mínima questão de exercer a gentileza. Em última instância também é de uma cara de pau tremenda a cera que os goleiros andam desenhando em campo. Os artifícios todos pra se tirar proveito de certas situações de jogo. Uma realidade na qual o entrevero recente entre os dirigentes são paulinos e palmeirenses só se fez uma espécie de apogeu dessa falta total de respeito. 

Não bastasse as conversas sobre futebol de uns tempos pra cá terem se reduzido aos mandos e desmandos do VAR, agora se colocou no bafafá do jogo de bola  a falta de educação dos dirigentes. E por tudo o que temos visto sou levado a crer que no fundo, no fundo, eles até acabam por enxergar no que lamentamos uma oportunidade para ganharem voz, para ganharem mídia. E, em geral, esse tipo de comportamento, que não deveria existir, perversamente tem se derramado justamente sobre os clássicos, sobre os jogos mais importantes. 

Em outras palavras, acabam minando as páginas que deveriam ser as mais admiradas, as que deveriam proporcionar a quem gasta seu tempo e dinheiro esse tal encantamento que se faz cada vez mais raro. Uma semana atrás exatamente estava vendo o jogo do Vasco com o Água Santa que, em pleno estádio de São Januário, depois de levar dois gols tinha conseguido a virada aos quarenta e dois do segundo tempo, para em seguida ver o Vasco empatar nos acréscimos. Ou seja, o futebol ia mostrando ali sua veia cativante, surpreendente. Mas aí se estabelece uma enorme confusão. E fica lá o jogo de bola reduzido a algo de se lamentar. Como tem acontecido tantas vezes.   

quinta-feira, 7 de março de 2024

Duas cenas do nosso futebol

Foto: Vinicius Gentil/Olaria AC


Antes de chegarmos ao requinte desta nossa era do chamado futebol nutella muita água passou por debaixo da Ponte. Muito gente suou , arriscou as canelas e ficou pelo caminho literalmente para que alguns poucos hoje, com a bola nos pés, pudessem desfrutar do status de celebridade. Que como temos visto tem feito muitas vítimas. Mas o futebol resiste e duas páginas escritas na semana passada me fizeram crer que o futebol raiz ainda tem viço. Seja lá o que futebol raiz queira dizer. As duas foram, de certa forma, um drible na obviedade de que o jogo de bola só pode nos fazer feliz quando nos oferta a pseudo-anfetamina da vitória. 

Uma dessas páginas foi escrita no estádio Ulrico Mursa de tanta tradição, com a Portuguesa Santista voltando a fazer um jogo de torneio nacional depois de dezoito anos.  Espaço de tempo que sempre foi visto como suficiente pra que alguém tome juízo. Mas essa é outra questão. A outra página se deu no estádio da Rua Bariri, no Rio de Janeiro, campo do Olaria. Diga-se de passagem, dois estádios que honram a tradição permitindo que  o jogo de bola se desenrole em cenário que vai se fazendo cada vez mais raro: um gramado natural. Talvez seja exagero dizer que tanto a Briosa quanto o Olaria foram vitimados pelo regulamento estapafúrdio da Copa do Brasil.

Mas se reclamassem que tiveram de jogar sob a sombra da injustiça, não lhes tiraria a razão. Pra quem não sabe a primeira fase do torneio reza que o time melhor posicionado no ranking tenha o direito do empate. Posso imaginar que algum iluminado tenha levado em conta que conceder o direito a uma disputa por penaltis aos teoricamente mais fracos - e já donos do mando - poderia favorecer o anti-jogo por parte dos anfitriões. Seja como for, a meu ver, essa desigualdade aniquila a equidade. No caso do jogo do Olaria com o São Bernardo se viu o placar apontando zero a zero até os quarenta e sete do segundo tempo. Não é de se estranhar que precisando vencer o time da casa tenha se exposto mais no fim e levado o gol. Afinal, era a única saída. 



Em Ulrico Mursa o enredo do jogo foi outro. O Caxias fez um a zero pouco antes do final do primeiro tempo.  E diante disso normal que o segundo tempo tenha se desenrolado com muitas faltas, com os visitantes apostando em se defender mais do que atacar. E fazendo uso da enrolação que no futebol costuma se chamar de cera.  A Briosa e o Olaria acabaram eliminados. Ficou a sombra desse regulamento maluco provocado certamente pela falta de datas do nosso calendário futebolístico. 

Mas em Olaria nada foi motivo para colocar a torcida pra baixo. Mesmo sabendo do favoritismo do adversário, o dia de debutante do clube na Copa do Brasil agitou as ruas do bairro. Fez brilhar a história de um clube que tem cento e oito anos.  E quando o juiz apitou o fim da partida não se viu desânimo. Foram ouvidos aplausos. Não vi como se deu o final do jogo em Ulrico Mursa mas posso imaginar que , de certa forma, estavam as duas torcidas irmanadas na sensação de que o futuro pode lhes reservar boas alegrias. Momentos que só foram possíveis por causa das Copas que mantém os times ativos durante o segundo semestre. No caso do Olaria a Copa Rio. E no da Portuguesa Santista a Copa Paulista, vencida pelo clube pela primeira vez no ano passado. E que vão mostrando que nem só de nutella vive o nosso futebol.