quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Visitando o passado


O telefone chama. A ligação tem um quê de sentimental antes de ser puramente jornalística. No quarto toque alguém atende. Digo que gostaria de falar com o Sr Romualdo Arpi Filho. O homem do outro lado da linha diz que posso continuar, se trata dele mesmo. Procuro um discurso coerente para o convite. Exponho minha intenção mas o homem se esquiva com a habilidade de um boxeador. Diz, categórico,  que seu tempo passou, que a arbitragem mudou. Tento outro argumento como quem aposta em um drible. Afirmo que não precisamos nem falar exatamente sobre isso. As imagens das finais de Campeonato Brasileiro que apitou estão bem guardadas nos arquivos e que bastaria ter a visão dele sobre os grandes momentos que viveu exercendo a profissão e já daríamos sentido à gravação pretendida. 

Sou obrigado a acreditar no que ouço, na legitimidade da recusa. Estou ciente de que o personagem em questão não tem sido visto por aí. Então, decido me despir da figura de jornalista. Abro o jogo. Digo que no fundo o convite tem também um quê de acerto de contas com o passado. O meu passado. Conto que fui criado ali em frente a imobiliária que ele tinha em São Vicente. Sem tempo pra muitos detalhes deixo de dizer que guardo na memória um dia em especial. Zé Carlos, um moreno de pernas tortas, dono de uma ginga infernal,  tinha passado a semana dizendo que o Romualdo tinha prometido uma bola pra garotada. Zé Carlos, como interlocutor com o juiz famoso seria, claro, o fiel depositário do presente. E não é que numa segunda-feira o Zé tratou de sair tocando campainhas , convocando a molecada pra pelada porque o Romualdo tinha cumprido a promessa? 

Trazia debaixo do braço direito uma bola oficial, linda, novinha. E não era só isso ! Segundo tinha dito o Romualdo, era a bola do grande clássico travado no final de semana. Um Palmeiras e São Paulo, como esse jogado no último domingo. Aquilo enlouqueceu a garotada. Foi o doping perfeito pro nosso imaginário quase infantil. A bola rolou no terrão da Quintino Bocaiuva nos fazendo esquecer das pedras no caminho que levava ao gol. Bom, Romualdo declinou do convite. Atencioso me consolou prometendo quem sabe, no futuro, topar. Mas resistir ao encanto que se esconde na possibilidade de revisitar o passado não é pra qualquer um, reconheço. O primeiro árbitro brasileiro a apitar uma final de Copa do Mundo anda por aí tentando nos convencer de que a regra é clara, e essa recusa me deixou aqui imaginando o que diria a respeito de tudo o que temos visto o velho Romualdo, que foi o segundo. 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Os incomodados que mudem

Foto: Daniel Mundim
Esta semana começou com alguns dos maiores técnicos de futebol do nosso país reunidos no Rio. Era gente de reconhecida trajetória. Fizeram questão de dizer que tudo já estava acertado antes da chegada de Reinaldo Rueda ao comando do Flamengo. Mas não dá pra negar que o desembarque do colombiano causou incomodo. E nem precisaríamos pra isso ter ouvido as palavras de Jair Ventura, que se apressou em dizer que foi mal interpretado. Jovem, à frente de uma campanha simplesmente sensacional com o Botafogo e dono de um discurso moderno sobre o jogo, não precisaria ter questionado o espaço que é - ou não é dado - aos estrangeiros. Simplesmente porque espaço, normalmente, não é algo que se dá e sim algo que se conquista. 

Mas se há uma questão que considero primordial é a luta para que os cursos de treinadores da CBF sejam reconhecidos no exterior. Em qualquer ofício conquistar um mercado como o europeu jamais será tarefa simples e exigirá muito mais do que dominar uma língua estrangeira. Ao ter esse tipo de habilitação aceita os técnicos brasileiros terão vencido parte da burocracia que, além de tudo, costuma ser uma maneira velada de garantir certas reservas de mercado. Mas para ser justo nesse sentido os cursos dados por outras entidades ligadas à Conmebol também precisam ter validade para a CBF. 

Que essa união sirva de exemplo para os nossos jogadores que algumas temporadas atrás viram o limite no número de estrangeiros nos times brasileiros passar de três para cinco por time sem que, ao menos, alguém lhes tivesse consultado a respeito ou esclarecido o motivo da decisão. O velho manda quem pode e obedece quem tem juízo é que valeu. Faço esse paralelo porque acredito que muito do que serve para os técnicos deveria ser aplicado de alguma forma aos atletas também, como exigir que a situação deles só seja dada como regularizada depois que todas as dívidas com os mesmos forem quitadas. No caso dos jogadores talvez fosse o caso de, apenas depois disso, permitir que outro atleta seja inscrito no lugar daquele que saiu. 

Não deixo de considerar que toda profissão tem suas peculiaridades e imagino que muitas delas fujam da nossa compreensão por mais que a proximidade cotidiana nos dê a impressão de entender a realidade vivida por estes profissionais. Outra coisa que me chamou a atenção no encontro é ter visto em uma das meses gente como Paulo Roberto Falcão e Zico, o que me fez lembrar que o primeiro nunca escondeu que há tempos largou tudo o que fazia porque tinha como objetivo maior se dedicar ao trabalho como treinador e, ainda assim, até hoje não ter conquistado um lugar nesse mercado. E o segundo porque sempre deixou claro que só topa encarar a bronca se for no exterior, diz ele que a fidelidade ao Flamengo não o permite trabalhar por aqui. Não duvido do tamanho da fidelidade do Galinho, duvido é do poder de sedução do nosso futebol. Ou seja, alguma coisa precisa mesmo mudar.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O Brasileirão já tem dono?

Ale Frata/Folha press

Não me entendam mal. Não se trata de papo de secador. Mas pode acontecer de tudo neste Brasileirão, menos o Corinthians deixar escapar o título. Seria um mico monumental. Andei provocando o assunto por aí, assim como quem não quer nada, e o que senti foi que uma considerável maioria acredita piamente que não tem pra ninguém, que os fiéis corintianos - discretamente, por favor - podem ir pensando na festa. Entendo perfeitamente a avaliação, mas depois de tudo que já vi o futebol aprontar prefiro dizer que mais arrazoado é ficar na miúda. 

Tudo quanto é motivo já foi apontado como ameaça ao Corinthians e o escrete de Fábio Carille nem arranhão sofreu. E se o time conseguiu seguir impávido mesmo na ausência de Jadson, fica difícil crer que uns dias de descanso poderiam se transformar em ameaça real a esse semi-reinado alvinegro. O jogo contra o Vitória no próximo sábado, em Itaquera, marcará a volta a campo do time que anda dando nó na cabeça de muita gente. Haja dialética pra elucidar as façanhas dessa equipe que tem encarnado como poucas a capacidade que o jogo de bola tem de desafiar conceitos.

No meu modesto modo de ver as coisas não é o aproveitamento quixotesco, nem o surreal número de faltas cometidas a marca registrada desse time. É na lucidez e na capacidade do treinador de manter os pés no chão - os dele e os de quem ele comanda - que mora o segredo do sucesso. Na última coletiva antes do descanso, Carille foi informado de que o time dele apesar de estar distante de ser o time que mais fica com a bola no campeonato era, ao mesmo tempo, o que ostentava o maior número de passes certos. Um deslumbrado certamente não teria resistido e teria tentado explicar a razão de ter alcançado a proeza. 

Mas o que fez Carille? Confessou ao interlocutor que os números apresentados eram uma surpresa pra ele e que não tinha ali uma explicação, mas que aquilo o intrigava também e que, nos dias que teria sem jogos pela frente, tentaria estudar o que o Corinthians andou fazendo pra, quem sabe, elucidar a razão que tem levado o time a ostentar mais esse feito. Sensacional ou não? Torço pra que hora dessas algum repórter lembre disso e lhe questione a respeito. Tenha ele o encontrado o motivo ou não. Os que tratam o futebol com o devido respeito não se sentiriam desapontados se a resposta depois de uma investigação fosse um sincero: não sei como explicar. Se tem uma coisa que o futebol adora driblar é a razão. E o Corinthians de agora é prova viva disso. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Quando um drible traz a alegria de um gol


Veja o link abaixo. O elástico do garoto do Feynoord não é coisa assim " do outro mundo"
embora aplicado com maestria. O legal é ver a alegria do companheiro que o ajuda a se levantar
do gramado ( e a dele mesmo). Porque depois do lance, claro, deram um jeito de parar o rapaz.

Elástico do juvenil do Feynooord

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A magia da camisa 10

Christian Hartmann?Reuters

As gordas cifras da transação que tirou Neymar do Barcelona podem, de certa forma, representar o apogeu do que os mais ácidos têm chamado de futebol-gourmet. É bem provável que tenha sido. Mas eis que sou surpreendido pelo entusiasmo de um colega de redação que viu naquele " mis en scene" todo um detalhe do futebol de raiz. No começo considerei o entusiasmo exagerado. Mas não era. Ele falava da devoção à camisa 10, que mesmo que tenha sido por vias tortas deu as caras na festa armada no Parque dos Príncipes, em Paris. Permanece viva! 

Incrível que vá sobrevivendo a uma época em que, para se ter um apelo mercadológico e diante da limitação que se impõe de se poder ter apenas um dez em cada time, jogadores de todo o mundo trataram de abraçar os mais variados números. Mais justo seria até alguns times não terem direito a ela. Talvez nem fosse exagero implantar um exame fundamentado em técnica e elegância pra que um jogador obtivesse esse direito. Isso mesmo, penso que de tão grande a camisa dez só deveria ser dada a alguém por puro merecimento. 

Neymar chegou ao PSG e tomou pra si a 10. Vejam só, tanta gente andou dizendo que ele se foi porque no Barcelona não tinha o protagonismo, porque fulano lhe fazia sombra. Pode ser tudo especulação, mas a 10 é algo que no Barcelona, sem dúvida, Neymar não teria direito. A menos que esperasse a vez. Isso por mais gente fina que Messi seja. Fiquei, então, imaginando o que não passou na cabeça do argentino Pastore, que até então envergava a tal camisa no PSG e depois de cede-la foi visto no último sábado jogando com a vinte e sete. 

Não li nada sobre, mas estou certo de que o número não foi escolhido à toa. Como já disse, hoje toda camisa necessita ter um significado atrelado ao número. Sem isso perde-se um apelo de marketing. Bom, o futebol pode gourmetizar, pode se transformar seja lá como for, mas jamais enxergaremos a camisa 10 como uma qualquer. Eu pelo menos estou convencido de que jamais conseguirei. 

Provavelmente pelo fato de ter escrito alguns anos atrás com o amigo jornalista André Ribeiro um livro sobre o tema. O que com certeza me deixou mais sensível ao discurso do amigo aqui da redação que viu na exigência da 10 a sobrevida do futebol com uma dose de romantismo. Sim, foi Pelé que a fez diferente de todas as outras. E pode parecer incrível mas foi levado a ela por inúmeras coincidências. Talvez a predileção, a exigência, fosse, em última instância, do deus do futebol. Se Neymar queria um desafio, está posto: honrar com todas as letras a camisa 10. Futebol pra executar a tarefa o rapaz tem de sobra. Passaria no teste.  
 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Fernando Diniz: um olhar nobre sobre o " jogo de bola"

Pensando o futebol !

video

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O Santos, a Vila, o Pacaembu

Conheço torcedores de tudo quanto é tipo, de tudo quanto é time, mas não conheço um que não tenha se rendido ao charme do Pacaembu. De onde concluo que não se trata de sedução histórica porque não nos faltam estádios dignos de duelar com o distinto Paulo Machado de Carvalho. Ainda que a última Copa tenha roubado a alma de boa parte deles. O Pacaembu nos últimos tempos parece aquela moça que deixou passar demais o tempo e agora semeia entre a família a preocupação de arrumá-la um par. E o Santos há tempos é tido como pretendente. 

Ocorre que o time santista se portou como alguém mais inclinado à solteirice e os responsáveis pelo estádio decidiram buscar um par no exterior. Todo cuidado com o tema é pouco, de outro modo é a Vila Belmiro que pode acabar em situação similar a do Pacaembu. Não ignoro seu apelo monetário. Mas pensar só no dinheiro joga contra a razão de ser de um time de futebol. Hoje falta sensibilidade até para perceber quais são os jogos que devem ser jogados em casa e quais não. E, como ouvi outro dia, essa é uma estratégia que bem feita teria a capacidade de engrandecer as partidas disputadas na Vila. Há quem diga que quando os atletas deixam no ar a preferência por atuar ali estão levando em consideração o fato de não precisarem se deslocar e tal. Mas não quero crer que uma viagem de menos de cem quilômetros, quando se faz outras tão mais longas, seria razão. Acredito na mística da Vila. 

Fato é que o destino do Pacaembu voltou a ser notícia agora que foi aprovada em primeira votação a sua concessão. O que o coloca, a meu ver, mais perto do destino reservado a boa parte dos nossos grandes estádios. Um tombamento nunca os livrou da descaracterização. Na dúvida, olhe uma foto do Maracanã atual. Torço muito pra que seja dado ao Pacaembu um futuro tão nobre quanto seu passado. O que não é fácil. Entendo os entusiastas dos jogos em São Paulo, por razões já ditas. Mas os números que mostram um Santos tão imbatível lá quanto na Vila são contestáveis. Quem sabe até os que não concordam comigo possam ter visto alguma diferença no jogo contra o Flamengo jogado na Vila e este de ontem que se deu por lá. E não tô falando da bilheteria, claro.