quinta-feira, 18 de maio de 2017

O futebol no armário

Faz tempo que ele já não é o mesmo. Em outras épocas fazia um homem feliz com um calçado roto, empoeirado e, acreditem, até de pés descalços. Teve, desde sempre, um ar nobre  Mas trazia na alma algo de popular. Era figura fácil. Não foi por acaso que por estas plagas em determinadas gerações veio a ser a brincadeira-mor da garotada. E foi de tamanha simbiose com o nosso povo que, algumas décadas depois de ter chegado, se fez seu retrato, sua cara. Um desavisado qualquer pode até achar que isso não passa de um modo figurativo de expressar essa relação. Não é. Com sua grandeza foi além, muito além. Fez fama planetária. 

Mas a verdade é que o sucesso o transformou. Tornou-o afetado, talvez, não sei. O que eu sei é que a cada dia que passa tentam fazer dele algo mais exclusivo. Normal, portanto, que diante disso acabasse se distanciando de sua essência. Seus trajes andam cada vez mais caros. Uma camisa dele custa o que para muitos seria, e é, uma pequena fortuna. E que não venham lhe falar em camisas de algodão. Essas, faz tempo, deixou de usar. Um sem fim de tecidos sintéticos foram criados só por causa dele. Cujos criadores tiveram a audácia até de bolar algo que não deixasse mais nem o suor lhe pesar sobre o corpo. Graças a esse seu apetite para o requinte as chuteiras pretas, que outrora lhe eram quase uma marca, praticamente foram legadas ao esquecimento. 

Agora vejam, se faço esse relato é para avisá-los que vocês não devem se deixar levar pela aparência. Este senhor, pode ter alcançado um sucesso que nenhum outro semelhante seu ousou alcançar, mas infelizmente está longe de ser um exemplo moral. Sua única desculpa, se é que há uma, é a de refletir a pequenez dos homens que o cercam, a sociedade que o abraçou. Está longe de poder ser considerado transparente, embora insista em trazer consigo um discurso forte que tanta convencer a todos dessa sua intenção. Serve a um dono. E este é um detalhe importante. Juraria que ele é um homem bom, infinitamente bom, mas cruelmente corrompido por aqueles a quem entregou seu destino. Tivesse o mínimo de decência trataria homofobia, como trata o racismo. Mas o que vimos nos últimos dias foi o futebol acovardado diante de um suposto caso do tipo. 

Um jogador ameaçado em sua chegada com bombas. Com todas as instâncias envolvidas fazendo vista grossa ao ocorrido e apenas uns poucos da imprensa fazendo questão de não deixar o fato passar em branco. O alvo de seu preconceito foi um jogador que demonstrou ter confiança em si mesmo avisando que a resposta será dada em campo. Que o ambiente hostil não lhe intimide. O ameaçado não é um qualquer jogando bola. Tem títulos expressivos. Diante do fato a conclusão é óbvia. O futebol, por incrível que pareça, vai deixando evidente que anda mais atrasado do que a nossa própria sociedade. Que está longe ser moralmente moderno, digno do que o nosso tempo pede. Dá a impressão que segue com a capacidade de ser sensível às diferenças trancada em algum armário. Um armário que nem ele abre, e nem permite que seja aberto.               

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Na pressão !



Poucos são os treinadores no Brasil capazes de fazer silenciar a corneta da torcida. Cuca, que acaba de se apresentar, ou reapresentar, ao Palmeiras é um deles. E ainda que tenha construído num passado recente trajetória capaz de justificar sua contratação por qualquer clube do país, muito provavelmente foi por essa qualidade tão rara que ressurgiu como único caminho possível ao atual campeão brasileiro depois da demissão de Eduardo Batptista. E ainda que a escolha do treinador que agora sai de cena tenha sido tremendamente questionada desde o início não dá pra negar o fato de que o Palmeiras na ocasião tenha feito uma escolha que merecia ser reconhecida pois driblou o óbvio. 


Mas uma coisa é ter coragem de fazer a aposta e outra bem diferente é ter coragem para mantê-la. E tão raro quanto um treinador que aplaca a insatisfação da torcida é um dirigente que não se curva diante da pressão. O que não dá é pra se omitir, negar responsabilidades. O presidente do Palmeiras foi eleito no final de novembro e Eduardo Baptista anunciado no início da segunda quinzena de dezembro. Não que a dispensa tenha sido incompreensível. Qualquer um que tivesse gasto algumas dezenas de milhões para montar um time e o visse oscilar tendo pela frente uma fase de mata-mata cada vez mais perto poderia ter tomado atitude semelhante. 

A lição que fica é velha conhecida, a lógica e o sistema fazem do treinador o único penalizado. Para a crueldade do nosso futebol o único antídoto continua sendo uma boa dose de bons resultados. Está aí o técnico corintiano Fábio Carille pra provar. Só ele teve a capacidade mais contestada que a de Eduardo Baptista neste início de temporada. Até porque se imaginava que o elenco estelar montado pelo Palmeiras fosse capaz de esconder certas limitações. E talvez fosse. Mas a direção palmeirense não estava nem um pouco a fim de pagar pra ver. 

Humilde, equilibrado, hábil no trato com a imprensa, Carille fez do Corinthians o rei dos clássicos no Campeonato Paulista. Na verdade fez mais, montou um Corinthians que, a meu ver, foi muito mais competitivo do que o Palmeiras.  É, mas  quando a gente acha que já viu tudo em matéria de futebol, que somos capazes de decifrá-lo, ele trata de nos apresentar um viés intrigante. Ou não é intrigante que um jogador como Cristiano Ronaldo, que anda voando em campo, se veja obrigado a ouvir vaias jogo após jogo? Isso mesmo quando sai de campo depois de marcar três gols diante de um rival como o Atlético de Madrid? 

Juro, nessa pedi ajuda a um amigo espanhol. Achava que algum detalhe tinha escapado do noticiário por aqui. Eis que ele, então, me rebate com contundência, admitindo que o gajo tem jogado muito, mas muito mesmo, mas que infelizmente é uma figura insuportável. Fiquei a ponto de dizer que os madridistas eram todos uns mal agradecidos. Mas pensei um pouco e cheguei a conclusão que a relação de uma torcida com um time tem algo da relação de marido e mulher e que, portanto, ninguém deve meter a colher. E que peça pra sair aquele que não aguentar a pressão.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Um conselho


Se conselho fosse bom não seria dado de graça. Vixe, olha eu aqui de novo com uma frase dessas que todo mundo já ouviu alguma vez na vida. Mas que o leitor não ache que algo dito insistentemente deva ser tomado como verdade. Há, no entanto, frases que estão mais perto dela. É o caso daquela que diz, por exemplo, que uma mentira dita mil vezes se torna verdade. A vida e o jornalismo estão aí pra provar que se essa precisa ao menos faz muito mais sentido do que outras.

A vida tem me ensinado que, mesmo dado de graça, um conselho pode ser valioso. O segredo é dar uma boa peneirada. Por isso, aconselharia Felipe Melo a seguir o que lhe foi dado pelo ex-jogador Edmundo. Ao se ver obrigado a comentar o comportamento do jogador do Palmeiras, Edmundo, sugeriu que ele tome muito cuidado com o que diz e faz para não ficar marcado. Mesmo se tratando de alguém que passou longe de ter em campo um comportamento exemplar, Edmundo sabe como poucos o preço de ser, como ele mesmo se considerou, um cara intempestivo.

Ganhar a antipatia de quem cobre o futebol não é uma boa, disse ele. O que Edmundo nunca poderá dizer é que a antipatia por ele nasceu à toa. Fosse o mundo do jornalismo um pouco mais exigente provavelmente ele não teria conseguido até hoje um microfone pra chamar de seu. Hoje, mais maduro, menos intempestivo, entrega de bandeja um conhecimento que provavelmente lhe custou caro. Mas, como escreveu certa vez um velho cronista, se pudéssemos aprender com a cabeça dos outros evitaríamos muitas cabeçadas. 

É claro que a imprensa tem um papel fundamental nisso tudo. Sob o pretexto de que o futebol anda carente de personagens diferentes dá a comportamentos desse tipo certa preferência. O risco vem embrulhado com o papel brilhante do sucesso, do protagonismo. O diferente costuma nesses casos acreditar que é capaz de entender profundamente como a mídia se comporta, chega a crer que a domina. A torcida compra a ideia, se alimenta dessa intempestividade, faz dela uma bandeira. Só que lá no fim saem desse circo todos ilesos, menos a figura central de quem se terá pra sempre uma imagem muito bem definida, e da qual o sujeito dificilmente conseguirá se livrar.

Erros não há quem não os cometa em maior ou menor número, mas os desse tipo costumam vir acompanhados por algo mais cruel do que amargar um arrependimento.. O preço a pagar é alto. E há que se levar em conta que não é só com valentia que será possível livrar o futebol dessa chatice que anda reinando. Basta olhar pra história do futebol e ver quantos valentes já não se curvaram diante desse tipo de castigo. O toque dado por Edmundo foi desses que passaria no teste da peneira, entende? Mas pode ter sido dado tarde demais.