segunda-feira, 3 de julho de 2017

Rogério Ceni: o preço da aposta

Rubens Chiri/São Paulo

Por mais que a imprensa, às vezes, possa se equivocar a respeito de alguns assuntos sou levado a crer que ela foi muito bem ao interpretar o que significava a chegada de Rogério Ceni ao comando do time do São Paulo. Exageros de avaliação à parte o que se ouviu foi um coro afirmando que aceitar a missão assim de primeira, sem ter passado algum tempo trabalhando em categorias menores não era o ideal. Aliás, está aí também a prova de que a trajetória dele como jogador desde o início lhe propiciou um respaldo sem igual. Poucos são os que se veriam nessa condição sem receber como resposta um imenso descrédito. Mas tendo visto o que Rogério foi capaz de fazer como goleiro mais sensato foi não duvidar. 

De sua chegada ao comando até ontem Rogério encontrou todo o respaldo que imaginava que teria. E protegido por esse respaldo conseguiu a façanha de emendar uma sequência de eliminações que talvez não deixasse em pé nem mesmo treinadores com uma Copa do Mundo no currículo. Do time com jeitão promissor que levou à campo no início do ano já não havia nem sinal. Rogério pode até dizer que não esperava viver tudo o que viveu, mas a probabilidade de tudo se dar como se deu era grande, e se ele não percebeu não foi por falta de aviso. Rogério tinha dito outro dia, categoricamente, que não desistiria do trabalho que empreendia. Um tipo de declaração que soaria mais valente se dada com o campeonato terminando. 


O futebol proposto por ele não vingou, mas foram nas declarações dadas pelo agora ex-treinador depois de cada revés que o descaminho se fez evidente. Quanto mais a situação complicava mais seu discurso parecia se apartar da realidade. E não podia existir sintoma pior. Rogério Ceni em sua passagem pelo comando do time tricolor criou uma espécie de elegia das derrotas. Ainda tenha sido com a boa intenção de enaltecer o que por ventura estivesse dando certo. Mas a estratégia acabou dando um motivo a mais para a torcida repensar o apoio ao eterno ídolo. 

Na derrota para o Flamengo a situação atingiu o ápice. Dizer que o árbitro tinha inventado uma falta, que a barreira do time dele estava a dez metros da bola, e ver todos esses argumentos caírem por terra quando à noite os programas de esporte colocaram em campo os recursos da tecnologia, tornou tudo muito óbvio. A passagem de Rogério Ceni pelo comando do time pode vir a custar uma temporada. Talvez não seja descabido pagar esse preço em nome de uma história bonita como a construída por ele. Só não era o momento. Como parece ter ficado bem claro.

4 comentários:

Adilson Delaim disse...

Parabéns, Vladir. Você foi incisivo, bem no cerne da questão, ou no cerne do Ceni.

Vladir Lemos, jornalista disse...


Caro Delaim, tempos atrás escrevi aqui sobre o mea culpa que a crônica esportiva fez sobre o Casemiro. O caso do Ceni é o contrário. O veredicto se mostrou preciso, né? Outro detalhe interessante. Ceni é o oposto do Carille neste momento, em todos os sentidos, inclusive,
no modo de se preparar para o cargo. E a partir desse ponto tudo se explica. Esse é o meu ponto de vista.
Um abraço.

Cristiano Ikari disse...

Texto excelente!! Não somente os jornalistas mas cos torcedores também sabiam, exceto os que aceitam ganhar até com gol de mão. Um abraço!

Vladir Lemos, jornalista disse...


Cris, acho que todos sabiam. Mas alguns, só uns poucos, fingiam não saber
porque tinham a ganhar colocando o ídolo lá. E o ídolo que tinha tudo pra perceber , rodado que é, se deixou levar e acabou pagando a maior parte do pato.