quinta-feira, 28 de novembro de 2024

A glória eterna



O sábado promete ser de gala. A Libertadores, não é de hoje, seduziu todo mundo. Diria que até o mais radical nacionalista ludopédico, se é que eles existem, olham a tal Copa com aquele jeitão de quem às três da manhã procura alguém para ir dormir, como diria o rebelde Cazuza. E isso me faz lembrar que a malandragem promete ter uma papel importante no embate final entre Atlético Mineiro e Botafogo. Está aí um componente que desde sempre decidiu jogos. Não teria muita dificuldade em apontar o time carioca como dono do melhor futebol. Ocorre que há um sem fim de coisas que contribuem para o resultado final de um jogo. E em alguns quesitos os mineiros podem levar vantagem. A catimba é um deles. E não deixa de ser sintomática. O uso dela me faz crer que os comandados de Gabriel Milito, e ele  consequentemente, já sacaram que só na bola talvez corram risco maior de deixar o nobre título escapar.  

Também é fato que o Botafogo dá a impressão de ter vivido o apogeu nesta temporada mais ou menos no meio do segundo turno do Brasileirão, apesar do triunfo imenso no Allianz Parque. E ainda que um triunfo no Monumental de Núñez possa desdizer totalmente essa versão. É claro que é preciso deitar o olhar também sobre o Atlético, que desde a vitória sobre o River Plate não voltou a jogar a mesma bola. E o fato de ser no Monumental é outro viés que me faz pensar. Tenho gana de saber como é que nossos hermanos encaram essa hegemonia brasileira que anda se desenhando. Se a encaram como uma realidade com a qual é impossível brigar. Se a reduzem a um nefasto sintoma que faz brilhar quem pode gastar mais. Ou se na intimidade acabam por achar que são melhores e que dessa vez só não estão lá por obra desses infortúnios que muitas vezes fazem o futebol ser uma questão de sorte ou uma monumental obra do acaso. 

Mas entre todas as teorias que essa final vem desenhando talvez aquela que diz que no embate entre os dois pelo Brasileirão a grande tática foi esconder o jogo seja a mais verdadeira. E aí com um pouco de malícia seria possível dizer que o Galo se esmerou na tarefa. Mas é impossível dizer que o time mineiro não foi bem sucedido porque na ocasião o resultado complicou um tanto a vida do líder do Brasileirão. E nada melhor para o Galo do que desestabilizar um time que sempre teve sobre si o peso de ter de se provar. Eu tento imaginar o tamanho do desconforto que o botafoguense sente quando o papo toma esse rumo. Mas é preciso entender que é coisa que não dá pra driblar. Não quando o título brasileiro do ano passado lhe escorreu pelas mãos. 

O Botafogo infinitamente mais do que o Atlético tiraria proveito de uma final em dois jogos. O que temos visto nos leva a essa conclusão. Mas não é o caso. Quando se trata de decidir o título em noventa minutos perder a mão do jogo nem que seja por um minuto pode ser fatal. Mas pra lá de tudo o que foi dito aqui fica o gosto amargo da derrota mineira para o Juventude que fez o galo alcançar a marca de dez jogos sem vencer. E a vitória magistral do Botafogo sobre o Palmeiras na casa do rival, atual bicampeão do torneio. Mas talvez vença aquele que consiga compreender que o Brasileirão é uma coisa, a Libertadores outra.             

 

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Todas as fichas em El Emperador



Eis que a Série B estava começando quando me pus a conversar com um amigo santista sobre o Peixe. Naquele momento a campanha do Santos no Campeonato Paulista deveria servir para abrandar o pessimismo, mas estava longe de produzir esse efeito. O futuro se apresentava como uma grande interrogação. Estavam os santistas todos perdidos na aridez da segunda divisão. O amigo, homem de televisão, editor de imagens dos bons, sempre tratou as coisas do futebol com passionalidade. Foi fazendo juízo do elenco. Dizendo o que achava de cada um. Mas quando a conversa desaguou no camisa nove Júlio Furch a discordância passou a dar o tom. E começou quando eu disse ter simpatia pelo atacante, apelidado El Emperador, que eu considerava brigador e, portanto, sob medida para o campeonato que estava pra começar. 

Meio sorrindo, meio desafiador, aquele que divergia de mim passou a elencar com entusiasmo tudo o que ele considerava desabonar o atacante. Temo que movido pelo desgosto de estar alijado da elite do esporte bretão. Tentei elegantemente mostrar que mesmo que ele não fosse um Serginho Chulapa seria de grande utilidade pro time. Nunca fui do tipo que tenta convencer ninguém, coisa muito comum no meio em que transito. Compreendo que avaliações do tipo carregam muito do gosto pessoal mas também sou levado a crer que é preciso ter um mínimo de parâmetros para estabelecer se um jogador dá ou não dá caldo. Para minha surpresa, mais confiante do que nunca na retórica que ia construindo, o amigo propôs uma aposta. 

Fiz de conta que não tinha ouvido, tratei de deixar no ar a impressão de que não tinha entendido. Mas ele insistiu ainda mais veementemente e bradou que se Furch fizesse mais do que três gols no torneio ele me dava uma garrafa de whisky. Vejam vocês. E ele, talvez, seja um sujeito tão pouco íntimo de apostas quanto eu. Bom, tratei de brincar dizendo que se ele queria me dar uma garrafa de whisky eu a aceitaria de bom grado. Aí ele rindo reiterou: o cara é grosso, não faz, mais do que três não faz. Movido mais pela amizade do que pela possibilidade de me dar bem o fiz notar que seriam longas trinta e oito rodadas. Era muita descrença. Já tinha entendido que o camisa nove não lhe inspirava a mínima confiança mas a proposta seguia sendo descabida. 

O que seu sei é que no fim de mais algumas risadas e cornetadas a aposta tinha sido aceita. Furch teve seus desafios durante a temporada. Ainda no Paulista lidava com uma lesão. Ficou afastado. Viu Wendell chegar e tomar um espaço que era dele. Amarga o maior jejum desde que passou a vestir o manto santista. E chega à ultima rodada da Série B com apenas três gols marcados. O que tem sido motivo de muito sarro, vocês podem imaginar.  Eu já aceitei o fato de que tenho uma garrafa de whisky pra pagar. Nessa história estou mais de Carille - que confiou no camisa nove como pôde - e menos como a direção santista que pelo que tem sido noticiado não conta com Furch para a temporada do ano que vem. 

Mas ainda não estou convencido de que apostei mal. Foram as circunstâncias. Disputasse o Santos mais dez temporadas da Série B com Furch ele daria conta da marca que me faria um vencedor em nove. Vá lá, em oito. Quem sabe ele não me vinga nessa rodada derradeira. Seria engraçado. O que me consola é que isso tudo tem servido pra eu lembrar muito de uma lição que aprendi com meu pai. E ele, por sua vez, com o pai dele. A lição é a seguinte: Filho, teima, mas não aposta.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

O calendário é inocente



Faz tempo que o calendário se impôs como um grande tema do futebol brasileiro. Mas é bom não confundir as coisas. Nem por isso se fez  popular. Talvez devido a complexidade que o cerca. Não lembro de vê-lo pintar na área em resenhas entre amigos ou algo do tipo. E isso não quer dizer que o jornalismo esportivo erra ao focar nele. Mas se trata de uma equação sem solução na minha opinião. A menos que os que cuidam do futebol resolvam cortar a própria carne, já que a única medida eficaz seria aliviá-lo, enxugar torneios ou extingui-los. E não é de hoje que toda vez que essa conversa se dá a mira fica nos campeonatos estaduais, que ao longo do tempo já sofreram transformações mas nunca na medida que solucionaria o problema. 

Tanto é assim que a CBF acaba de anunciar mudanças para a temporada de 2025. Em linhas gerais os Estaduais serão antecipados e, por tabela, o Brasileirão também. Iniciará em março. Todo esse movimento tem por trás a necessidade de lidar com o novo formato do Mundial de Clubes da FIFA que na temporada que vem será disputado entre 15 de junho e 13 de julho. Ou seja, consumirá um mês. Quatro times brasileiros estarão lá. Palmeiras, Flamengo, Fluminense e o campeão da Libertadores deste ano. A CBF faz contorcionismo para que o Mundial não tenha efeitos colaterais no futebol brasileiro. Por efeitos colaterais entenda-se um choque total com nosso futebol. Os times brasileiros envolvidos com ele teriam de jogar nas janelas internacionais, reservadas aos jogos de Eliminatórias , por exemplo. E certamente o fariam seriamente desfalcados. 

Mas note-se que se trata só de antecipação, diminuição de datas, nunca! Não digo desde que começou a ser jogado, mas desde que o futebol passou a ser sinônimo de grandes lucros foi condenado à expansão para saciar o mercado. Cria-se o que eles chamam de outras entregas. Aumenta-se o número de jogos e cria-se assim um facilitador para a hora de negociar contratos. Ainda não inventaram jeito mais eficaz de turbinar os valores do que dizer que se passará a oferecer mais do que o cliente já tem. O que torna muito justo o descontentamento e as ameaças de greve feitas por certos astros do futebol europeu, que deveriam passar a pensar em fazer contratos que estipulassem um teto de partidas disputadas. Mas isso é um devaneio meu. 

Foi esse mecanismo que transformou o novo formato da Liga dos Campeões em algo esdrúxulo. A maneira antiga com os times divididos em grupos e com alguns disputando um play off com as equipes oriundas da competição que está um nível abaixo, ainda que tenha sido manipulada, soava perfeita. Mas muda-se a forma, e com ela a dinâmica do campeonato também. Ver o Real Madrid ocupar o décimo sétimo lugar de uma tabela elucida bem o que esse tipo de transformação provoca. E isso não quer dizer que ele não venha a ser novamente campeão. Acompanhar uma competição de trinta e seis participantes na qual vinte e quatro deles terminarão a fase classificados, ainda que em situações um tanto distintas, não é algo estimulante. E como copiamos tudo que vem de lá - e desse modo a Conmebol poderia turbinar suas entregas - é só uma questão de tempo para que a Libertadores  venha a ter esse formato também. É por isso que eu digo: podemos discutir o calendário, mas o calendário é inocente.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Um treinador raro

 


O time do Botafogo vem jogando muito. E falar de jogadores como Luiz Henrique e Igor Jesus seria chover no molhado. Ainda que tenha a impressão de que soando tão maduros em campo a juventude dos dois passe despercebida. Os dois têm vinte três anos. São garotos. Júnior Santos, que está voltando, trem trinta. Mas eu gostaria de falar é sobre o treinador do time da estrela solitária. Sob a ótica do tempo e do futebol Artur Jorge desembarcou outro dia por aqui. Mais precisamente em abril. Houve um momento em que até andou falado, mas em linhas gerais não tem provocado grandes análises sobre sua figura. Não virou estrela. O que não é comum. Os técnicos, faz tempo, estão sempre em evidência. E isso se deve, na minha opinião a um comportamento moderado. 

Acho louvável essa discrição. Pode ser, inclusive, o que explica parte do sucesso dele. Estar na liderança de um campeonato como o Brasileiro e na final da Libertadores é pra poucos e  tão representativo que faz ter um quê de chover no molhado também a frase inicial dessa minha reflexão. Mas vou lhes dizer porque a mantive: porque estou convencido disso, mas não de que isso faça do Botafogo favorito a ficar com o mais desejado título do futebol do nosso continente. Vejo no Atlético Mineiro, como bem definiu um companheiro de profissão, um time cascudo. E essa é uma qualidade que não se deve desprezar em decisões do tipo que irão enfrentar. 

Mas voltando a Artur Jorge, ele chegou aqui, como outro portugueses, sem que seu currículo ostentasse conquistas dessas que costumam render por muito tempo, mesmo que seu dono nunca volte a viver glórias parecidas. Artur foi um beque central desses que se ligam a um clube de maneira singular. Dá pra dizer que passou toda a carreira de jogador defendendo o Braga. E sempre me intrigou esse caminho desenhado pelos portugueses no futebol brasileiro nos últimos anos. Não consigo crer que não houve algo de supersticioso nas contratações que se seguiram à de Jorge Jesus e sua triunfante passagem pela terra onde cantam os sabiás. Cada vez mais cercados de prédios, infelizmente. Tanto é assim que, vira e mexe, alguém diz que Jesus irá voltar.  

Pelo que lembro agora, Artur Jorge só pisou na bola quando depois de classificar o Botafogo para as semifinais da Libertadores ralhou com um repórter que havia questionado um de seus comandados sobre o fato de o time ter deixado escapar o título brasileiro na temporada passada. Foi tão mal que impediu o jogador de responder a questão. E se lembro o episódio é porque mesmo com toda a minha admiração pela figura e trabalho imaginava que as próximas semanas poderiam colocar a polidez de Artur Jorge à prova, não na Libertadores, que será decidida em jogo único e na qual um insucesso fará parte do jogo, mas no Brasileirão a história poderia ser outra. Um revés desses com viés surreal despertaria questionamentos indigestos. Que seriam injustos, mas também inevitáveis. 

Agora, depois da derrocada do Palmeiras na arena corintiana e a vitória incontestável do Bota no clássico contra o Vasco tudo se abrandou demais. Ainda que o caminho lhe reserve um confronto com o Palmeiras seu principal perseguidor, quatro dias antes da decisão continental. De qualquer forma, o Botafogo pode se tornar um vencedor desses raro e Artur Jorge tem tudo pra fazer ele chegar lá com uma discrição também rara entre os treinadores. Não que o clube esteja sem alguém que semeie declarações contestáveis na crônica esportiva. O manda-chuva, John textor, tem se encarregado desse papel com afinco.