Semana passada encerrei minha "pensata" neste espaço dizendo que não faria juízo daqueles que acompanham futebol e torcem o nariz quando alguém coloca no meio da conversa sobre o jogo de bola questões que dão a impressão de que cairiam melhor no caderno de economia. Mas é fato que a grana que anda circulando por aqui de tão vultosa rende cada vez mais manchetes de ares contábeis. Não que a abordagem não se justifique, pelo contrário. Talvez fosse o caso, inclusive, de usar os atributos do jornalismo investigativo - tão em desuso por aqui - para elucidar de onde brotam exatamente tão abundantes cifras. Pra quem passou ao largo de todas as manchetes desse tipo trago alguns dados.
No início deste ano os vinte times da Série A, pela primeira vez desde a criação da janela de transferências em 2022, ultrapassaram a barreira do bilhão de reais gasto. Barreira que voltou a ser batida no início deste mês com o encerramento da segunda janela. Esses números parrudos, segundo relatório da FIFA, fizeram o Brasil figurar entre os dez países que mais gastaram no planeta. Não sei porque, mas resisto a dizer investiram. Espelhado nisso está um crescimento vertiginoso, mesmo se compararmos a primeira janela do ano passado com a deste, quando o salto foi de setecentos milhões para um bilhão e cem milhões. No caso da segunda, notem bem, o valor saltou de trezentos e vinte e nove milhões para um bilhão e vinte milhões. Num olhar distraído, tudo seria devidamente justificado pelos investimentos que vieram com as SAFs. Ainda que entre os quatro clubes que mais contribuíram para esta soma apenas dois estejam nessa condição. A saber, Botafogo, Cruzeiro, Flamengo e Palmeiras.
De onde veio boa parte da bufunfa, então, é questão que segue em aberto. Tenho palpites. Mas seria muito bom que a qualidade técnica crescesse na mesma proporção. Nosso futebol anda carente desse brilho. Já houve momento que tendo dado de cara com o triunfo de um time desses tidos como de menor expressão acabei secretamente enaltecendo a conquista também por ser um bom exemplo de que o dinheiro ainda não determinava tudo em matéria de futebol. E sou levado a crer que momentos assim virão a ser cada vez mais raros. Pode-se duvidar de muita coisa nesse mundo, há quem duvide inclusive de que a terra seja redonda, mas duvidar da soberania do dinheiro exige um outro desajuste.
Agora, o que me preocupa é esse risco insano ao qual esse disparate econômico expõe, em especial, os torcedores dos endinheirados. Mas não só a eles e sim todos os que gostam de falar de futebol, de tentar desvendá-lo. Não estando imunes nesse caso também os que fazem disso um ofício, os que desse modo ganham a vida. Porque diante desse abismo entre os clubes a beleza da vitória de um time rico poderá se ver reduzida a obrigação. E mesmo a vitória do pequeno, do modesto, ainda mais rara do que sempre foi correrá o risco de ser interpretada como incompetência de quem se fez favorito, menos pelo futebol que apresenta, e mais por aquilo que gastou, que representa. Sendo mais explícito, imagine ao que isso tudo nos deixou exposto. Algo como termos os argumentos no meio de um calorosa resenha friamente refutados porque, afinal de contas, seu time gastou uma fortuna e tinha a obrigação de vencer.