quinta-feira, 20 de novembro de 2014

As entrevistas


Não é só o jogo, as entrevistas de futebol também dão o que falar. Os repórteres que as alimentam são acusados - como é do conhecimento de todos - de sempre perguntarem as mesmas coisas. E o efeito colateral dessa falta de riqueza interrogatória seria provocar as respostas de sempre também. Verdade e mentira. Se o país desse às entrevistas sobre política ou economia a atenção que dá as que são feitas tentando elucidar algo sobre o tal jogo de bola a conclusão não seria muito diferente. E não custa lembrar que cada assunto tem lá seus horizontes. 

Levir Culpi e Marcelo Oliveira, comandantes dos times mineiros que farão a grande final da Copa do Brasil, têm mais em comum do que, simplesmente, uma visão sobre o futebol. Os dois têm um discurso rico sobre ele. De Levir foram várias as passagens interessantes que puderam ser ouvidas na coletiva dada por ele depois do jogo de ida da decisão. Destaco aqui a comparação feita entre os jogadores Luan e Jesus Dátolo. Disse o treinador atleticano que os dois aparentemente não têm nada a ver, têm estaturas diferentes, jeitos diferentes, mas que carregam um espírito muito parecido, se entregam ao jogo de forma parecida e que essa simbiose muito tem dado ao Galo. Parece raso mas, feita do jeito que foi, é de uma profundidade incomum nesse cotidiano dos clubes. 

Minha avó paterna costumava dizer que a fala deveria ser dada aos homens em metros, o que os obrigaria a pensar mais antes de usá-la. Mas sabe como é. Falar é fácil, na teoria. E não quero aqui cair naquela conversa de que nas entrevistas de futebol muitos tentam assassinar a nossa língua. Ignoram a conjugação dos verbos, os plurais e por aí vai. Pra mim, mais interessante é capacidade que elas revelam de criar provas contundentes de que é possível ser muito claro sem ser exatamente preciso. 

E, pensando nisso, foi justamente nas falas do pós jogo entre Atlético e Cruzeiro que ouvi, uma vez mais, alguém sacar um "nonde" e encaixá-lo no papo. Isso mesmo. Não sei se já notaram. O "nonde" tem sido muito colocado em jogo nesse campo para substituir algo como o "em que" ou um modesto " no qual". Não entendeu? Eu explico.  Por exemplo, o boleiro é convidado a discursar sobre a partida que acabou. Depois de dizer que seu  time fez um bom jogo manda um "nonde". Algo do tipo " fizemos um bom jogo 'nonde' o time conseguiu se impor...". Prestem atenção, não vai demorar muito e vocês irão dar de cara com um nonde por aí. E o mais interessante, ele fará todo o sentido, que soará correto não digo. Mas acho mesmo interessante notar essa capacidade que a comunicação nos dá de nos fazermos claros, ainda que imprecisos.

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