quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ô peixe !


Foi esta semana. Ainda na segunda-feira. Eu vi. A coisa não estava sacramentada. Faltava o cerimonial, o juramento. Mas o baixinho já estava lá... na imensidão dos prédios oficiais de Brasília. E alinhado. De terno escuro. O jeito de falar, intacto, era o do velho boleiro. Não teve jeito, destoou. Estranho ouvir um político falando com jeito de jogador de futebol. Quem sabe uma mera questão de treino.
Inquirido sobre suas nobres intenções, como sempre costuma acontecer aos deputados, o eterno camisa onze citou as crianças e me fez lembrar do Pelé, que segundo definição do próprio Romário, calado é um poeta. O que devemos esperar? Discursos recheados de gírias, peixe? Ou é tua intenção mudar de estilo? Não creio.
Seja qual for a tática, fique de olho aberto, bem aberto. Há muita coisa em jogo. Muitas crianças, viu? Esse sim é um jogo pra valer. Como você nunca viu. Esqueça o futebol. Futebol não passa de um esporte influente. Olha, poucos são os países deste planeta que poderiam te dar tamanha torcida. E com todos torcendo a favor. Perceba o tamanho do sonho. Da responsa.
O macete é ser vigilante. Por que por mais que a gente deseje - e queira - a marcação aí é frouxa, dá mole, não se faz dura como deveria. E esse é o tipo de coisa que amolece a disposição e a moral dos homens. Digo mais. Você acaba de entrar em um reino onde não faltarão espertos querendo te mostrar os tais atalhos pra ganhar o jogo. Mestres em fazer a correria sem se cansar, entende? Pura tentação.
Peixe, fica de olho porque essa vida no planalto pode te deixar parecido com os outros homens. Coisa que você nunca foi. Quem te viu em campo sabe bem disso. Dos tantos gols que já vi nessa vida é teu um dos que mais me dão prazer em rever. Brasil e Holanda, 1994. Um avanço rápido pela esquerda. Bebeto cruza. A bola vem a meia altura, desenhando uma curva para baixo. Entras em velocidade pelo meio da área. Marcado de perto. De olho na bola. De repente, ela pinga. E você, com um passo de balé, intui o momento exato de tocá-la. Com o bico da chuteira, corpo no ar, a manda pro gol. Domínio absoluto da arte.
Juro que não queria acreditar. Quando o repórter perguntou em quem você iria se espelhar para exercer teu legítimo mandato, por um instante, prendi a respiração. Saíste pela tangente sem deixar um nome sequer. Posso compreender. Não é uma tarefa simples buscar exemplos nesse deserto de ídolos que virou a nossa política. Criteriosamente escolhidos os bem intencionados daí talvez não sejam suficientes para montar um único time.
E mais, Brasília não tem praia. Louvados sejam os recessos. Não esquente, por certo ao redor do Lago Paranoá não faltarão quadras de areia para que possas brincar teu futevôlei. Além disso, a vida, essa sim uma verdadeira caixinha de surpresas, é bondosa, você bem sabe. Portanto, você há de encontrar alguns bons parceiros nessa enorme bancada.
Não esqueça apenas que aqui fora a onda da torcida continua sendo a mesma. O que a gente quer, e precisa, é de alguém que entre pra valer nas divididas. Como disse o artista, a gente quer é ver gol. Não precisa ser de placa. Ô peixe, o que a gente quer é ver gol.

4 comentários:

Fernando Richter disse...

Futebol e Política. Combinação que não costuma dar muito certo. Aliás, já tivemos outros exemplos disso.

Na minha opinião, o cara que foi ídolo no esporte e que construiu uma imagem posistiva não deveria, jamais, entrar nesse mundo sujo e podre da política.

Não vou entrar nessa questão porque eu prometi a mim mesmo que não falaria mais de assuntos que me irritam. Mas acho que vc entendeu onde quero chegar.

Um grande abraço.

Vladir Lemos, jornalista disse...

Caro Fernando

Concordo com sua opinião. As duas coisas não dão liga mesmo.
Digo mais, a coisa é proporcional. Quanto maior a carreira que o sujeito construiu no esporte, maior o risco e, provavelmente, a perda.

Abç

Fernando Richter disse...

Vladir,

Obrigado pela resposta.

Pois é. É muito triste quando a gente tem um ídolo no esporte e de repente ele resolve se envolver nesse mundo. Ficaria extremamente decepcionado se o mestre Telê Santana (que infelizmente já não está mais neste plano e que com certeza, se estivesse, jamais toparia um cargo público) resolvesse ser vereador, deputado, enfim...

Tem mais, acho que se o cara resolve entrar no mundo político, ele deve fazer o seu papel (honestamente, claro) como político. Hoje, na internet, sairam várias fotos de Romário aproveitando o dia na praia. Cadê o compromisso desse cara com a sua nova atividade? Será que ele sabe o que vai fazer lá em Brasília?

Difícil...

Bom, aproveito para elogiar, mais uma vez, o Cartão Verde. A propósito, tive o prazer de conhecer o programa quando ainda era apresentado pelo meu amigo pessoal (jogo no time dele desde 2000) Flávio Prado. Espero poder um dia assistir ao seu programa ao vivo, já que hoje há um jeito diferente de debate, mais descontraído, mas sem perder a linguagem inteligente de se falar de futebol.

Um grande abraço,
Fernando Richter
@fernandorichter

Fernando Richter disse...

Vladir, por falar nisso, dê uma olhada na capa do Jornal Extra, do rio de Janeiro. http://t.co/dLhsSS7

Abraço.