Esqueça de uma vez por todas o futebol romântico. Seu ambiente acolhedor. Os uniformes feitos de algodão. Os shorts apertados e curtos sem nada estampado no traseiro. Sou do tempo em que a cerveja ainda era uma consequência nada explícita do jogo de bola, do tempo em que curtíamos no intervalo, extasiados, na companhia segura dos nossos pais, uma velha e boa "caçulinha".
Mas o futebol, senhores, virou uma terra árida. Já não é possível chegar até a peleja relaxado, não conseguimos carregar pra arquibancada o astral sugerido pelos domingos. No fundo sabemos que a qualquer momento o bicho pode pegar, no pior dos sentidos. Até o sanduiche de pernil na porta do estádio é engolido com um olhar desconfiado que nos rouba o prazer do paladar. Como eram deliciosos os tremoços saboreados no Ulrico Mursa.
Dos idos de 1990 pra cá rolou muita paulada e muito blá-blá-blá. Os nossos promotores de justiça descobriram que as organizadas tinham o incrível poder de transformá-los em celebridades, elegíveis, inclusive. Ao longo dos últimos anos, como sempre, o futebol mexeu com o coração de milhões mas, infelizmente, deixou um rastro de algumas dezenas de mortos.
O vandalismo e as ameaças recentes envolvendo o Corinthians são apenas a ponta de um imenso iceberg. Responda de primeira: Você tem medo de ir ao estádio? Não!? Então saia por aí dizendo, sem medo de errar, que és alguém mais destemido do que a grande maioria. Um levantamento feito recentemente apontou que de cada cem brasileiros apenas um vai ao estádio e o principal motivo desse afastamento é a violência.
Quem está preocupado? O pay-per-view vai muito bem, obrigado. E se um dia o vazio dos estádios incomodar encheremos as arquibancadas por computador. A culpa não faz parte das regras que orientam o jogo dos donos do espetáculo. Só quem se dispõe a pegar um metrô, um trem, ou um ônibus em dia de clássico na imensa São Paulo é que sabe e sente o tamanho da dose de coragem necessária pra embarcar numa dessa. O que não se faz em nome de uma paixão. Seja ela cega ou não.
E não venham me falar em Estatuto do Torcedor porque depois dele - criado em 2003 - a coisa só piorou. Entre 2005 e 2008 foram vinte e cinco mortes ligadas ao futebol, direta ou indiretamente. Em nome da nossa segurança a Polícia Militar, já faz algum tempo, decidiu escoltar as torcidas organizadas até o campo de jogo. Seu desfile dantesco pelas ruas intimida o cidadão comum, paralisa o trânsito. A luz vermelha das viaturas acentua a imbecilidade de seus cantos belicosos repletos de ameaças.
3 comentários:
Vladir,
gostei muito do texto, infelizmente essa é a realidade que nós vivemos. No nosso país infelizmente nada é sério, o cara é preso, mas no dia seguinte está na rua de novo praticando outro crime. E pensar que ainda queremos fazer uma Copa do Mundo por aqui, como se tudo fosse ficar às mil maravilhas. Se os doutores da Fifa resolvessem assistir a um jogo de futebol no Brasil na arquibancada, no meio do povão, como vocês acham que eles se sentiriam na entrada e na saída, quando a Polícia simplesmente expreme os torcedores por um único portão, resultando naquele formigueiro que estamos habituados.
Abraço,
André
Vladir,
Seu texto é pra lá de reflexivo.
Lembro-me do primeiro jogo em que fui a um estádio. Não me recordo exatamente a data (acredito que tenha sido em 1993), mas sei que foi num São Paulo e Corinthians, no Morumbi, numa partida válida pelo Campeonato Brasileiro, terminada em 1 a 1, e que marcou o reencontro de Telê Santana com o Mário Sérgio (À época, estreando como técnico do Corinthians).
A caminho do estádio, aliás, já há poucos metros dele, dentro do carro do meu avô, um torcedor do corinthians desceu de seu carro, esticou o braço e puxou o meu boné do São Paulo.
Meu avô, num ato corajoso e ao mesmo tempo arriscado, sai do seu carro e foi atrás do "covarde", resgatando meu pertence.
Eu tinha 10 anos e essa foi a primeira experiência de violência que passei.
A segunda foi em 1995. Com meu avô, novamente, fomos assistir a final entre São Paulo e Palmeiras pela Supercopa Juniores. Sim, eu, com 12 anos, fiquei muito próximo àquela batalha assustadora que resultou na morte de um torcedor do São Paulo (Márcio Gasparin).
Os anos passaram e eu, já mais velho, passei a ir para os estádio acompanhado de alguns amigos e do meu irmão. Num jogo contra o Cruzeiro, pela Copa Mercosul (marcado pela contusão de Raí após entrada dura de Wilson Gottardo), na saída do estádio (dia de chuva fina e chata) fui abordado na Av. Giovani Gronchi por torcedores do próprio São Paulo. Não apanhei e nem morri (graças a Deus), mas perdi minha camisa do São Paulo.
Não parei de ir aos jogos. Pelo contrário. Até hj frequento, mas a violência, de lá para cá, só piorou.
Nada mais aconteceu comigo e nem presenciei mais nada, é verdade, mas confesso que é preciso todo cuidado do mundo quando se fala em ir para um estádio.
Uma coisa é certa: Se vc não procurar, dificilmente cairá dentro de uma briga. Mas todo cuidado é sempre pouco.
Falar que não tenho medo de ir a um clássico seria a maior mentira.
O futebol é paixão. Uma paixão que ultrapassa qualquer tipo de sentimento e que ignora raça, cor, sexo, condição social, enfim.
Já o saudoso Nelson Rodrigues dizia que "a base sentimental da torcida é o ódio, e não o amor. Sem o ódio não há torcida possível". Talvez isso explique muita coisa do que vemos/ouvimos. Isso talvez explique o que está vivendo Roberto Carlos.
O futebol deveria ser levado como pura e simples diversão. Há muitas coisas mais importantes na nossa vida: saúde, família, trabalho, etc.
AUTORIDADES: Quando acabarão com os bandidos infiltrados no futebol?
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