Houve um tempo em que o esporte produzia heróis. Digo houve porque não é exatamente assim que a coisa se dá hoje em dia. Hoje as vitórias e as marcas costumam fazer nascer celebridades, o que é infinitamente diferente. Pode ser uma visão subjetiva, pois que seja. Falo isso porque quando me pego a imaginar os campeões de outros tempos vejo neles uma humanidade que os dias atuais se não extinguiram, no mínimo, tornaram difusa. E quando falo desses heróis nascidos de um mundo antes do dito moderno os concebo ainda com um quê de desbravadores. E estou convencido de que não é à toa. E se falo desses homens hoje é porque Wlamir Marques se foi. E ele, sem sombra de dúvida, era um deles. Ou ter sido campeão mundial de basquete nos idos dos anos cinquenta do século passado não era de algum modo trilhar um caminho totalmente desconhecido para um brasileiro?
Não, não se trata de uma sensação que nasceu com essa evidência da perda. Foram vários os momentos ao longo da minha trajetória profissional em que essa maneira de interpretar tamanhas façanhas foi se solidificando. Por exemplo, como quando certa vez conversei com outro grande herói do nosso esporte, um campeão do quilate de Wlamir Marques. O campeão era o também desbravador, Ademar Ferreira da Silva, primeiro bi-campeão olímpico do nosso país, que me contou com requinte como pareceu uma aventura por mares nunca navegados a ida e a chegada dele à Helsinque, na Finlândia. Isso sete anos antes do título mundial de Wlamir. Helsinque em que Ademar subiria ao lugar mais alto do pódio pela primeira vez.
A envergadura desses feitos poderia fazer com que essas nobres figuras tivessem pra nós um quê de inalcançáveis. Poderia. Mas heróis são diferentes de celebridades. Wlamir, em especial, foi um tipo de herói do qual sempre me senti um pouco íntimo. Não bastasse ele ter nascido em São Vicente, cidade onde fui criado, ter jogado no Tumiaru, clube onde tentei de várias formas encontrar algum traço de campeão em mim - fosse nadando, remando ou jogando basquete - há ainda uma história curiosa que sempre fez Wlamir, e o nome dele, parecerem coisa de casa. Como filho mais velho quando nasci ganhei o nome de um grande amigo de meu pai que ele queria homenagear e se chamava, Vladir.
Tempos depois, mais exatamente no ano de 1969, nasceu meu irmão. Então, pairou no ar a dúvida sobre que nome dar ao menino que chegava. Imperativo, segundo meu pai, era que se tratasse de um nome que fosse parecido. A partir daí ficou fácil. Wlamir, coincidentemente nascido no mesmo ano de meu pai, ainda brilhava nas quadras. Muitos anos depois, em minha segunda passagem pela ESPN, fomos colegas de emissora. Certa tarde ao encontrá-lo pelos corredores fiz questão de contar a história que, afinal, lhe era um tributo. Wlamir a ouviu e a recebeu com a elegância e a simpatia de sempre. Naquele dia fui embora feliz trazendo em mim a sensação de quem lhe tinha feito uma reverência.
Agora, em casa, quando lembravam dessa história a gente caçoava do meu pai dizendo que ele tinha criado mesmo era uma dupla caipira dada a sonoridade que acabou derramando sobre o nome dos filhos: Vladir e Vlamir. Mas interessante mesmo, ao longo do tempo, foi notar também a legitimidade que costuma envolver esse tipo de campeão. Lembro de ouvir Wlamir falar de basquete em certa ocasião e notar as pessoas ao redor totalmente atentas, como que sem poder por um instante sequer deixar de lembrar que estavam diante de um herói. O ouviam como se fosse um oráculo. Compreensível, fruto de uma geração tida como de ouro era considerado por muitos o maior. Ontem Wlamir Marques partiu, mas a história que ele deixa, ensina.
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