quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Longe do jet set



Duvido que com o apelo plástico atual, com seu deserto de dribles, chapéus e gols de falta o futebol conseguisse conquistar em nossa cultura o lugar nobre que foi seu um dia. E nem vou levar em conta o processo que elegeu aptos a frequentar estádios aqueles com um certo poder aquisitivo. Temos todos nestes dias um sem fim de argumentos para mal dizer o jogo. Mas há, ao mesmo tempo, um outro viés que tenta nos convencer de que ele vai bem, obrigado. Mais nítida do que essa visão antagônica é a sensação que tenho - e que já partilhei aqui - de que  a receita em prática pode desandar. E lhes digo a razão. 

É inocência achar que essa abertura ampla, geral e quase irrestrita aos estrangeiros não vá cobrar um preço. Ela não só está tirando o espaço de jovens talentos formados por aqui como está deixando muito claro também que influi nas oportunidades dos nem assim tão jovens. Pense, por exemplo, num atacante desses meio à moda antiga. Um centroavante pra ser mais exato. Quantos brasileiros temos na primeira divisão brilhando nessa posição? Poucos. A maior parte deles veio de fora. E o futebol pode ter mudado, os esquemas também mas um centroavante sempre será de grande serventia. Deyverson prova essa teoria. 

Por outro lado nosso futebol cresce economicamente a olhos vistos. A qualidade do jogo não. Mas talvez nada torne essa nossa hegemonia tão visível quanto a Libertadores, e não falo dos placares dilatados que Atlético Mineiro e Botafogo tatuaram na pele de seus adversários na rodada de abertura das semifinais do torneio, falo do domínio que os times brasileiros construíram na última meia década. Aos olhos sul-americanos podemos parecer integrantes do grand monde da bola, mas sabemos todos que não é bem assim. Estamos a anos de luz do que pode ser considerado o jet set, pra usar uma expressão que vem lá dos anos 1950 cunhada nos Estados Unidos por um cara chamado Igor Cassini, considerado o rei das fofocas sociais naqueles tempos idos. E o termo cai muito bem pois sabemos que jatinhos seduzem os grandes astros do futebol e não só eles. 

Semana passada Vini Junior pelo Real Madrid e Raphinha pelo Barcelona roubaram a cena no principal torneio de clubes da Europa. Brilharam tanto que um dos  jornais por lá ao dar de cara com o futebol praticado por Vini o considerou o melhor do mundo. E aquela altura todos pareciam acreditar que ele iria ficar com a bola de Bola de Ouro. Talvez seja o caso de seguir as principais Ligas do continente europeu que não se preocupam com o limite de estrangeiros mas determinam que os times tenham um certo números de atletas formados no país e, em alguns casos, nos próprios clubes. Dirão que tudo é uma questão de grana. E é, não dá pra negar.  As SAFs estão aí colocando fermento nas nossas cifras. 

Mas o sistema em si nada tem de novo. E ninguém parece se importar como futuro. Os garotos prodígio vendidos aqui continuam rendendo espetacularmente. E eles sempre toparão o negócio porque afinal o glamour está lá. Alguém que olhe as faturas não terá dúvidas do nosso crescimento futebolístico. Mas em campo o futebol jogado está longe de espelhar a excelência que os números sugerem. A fórmula praticada neste momento deveria servir para melhorar a qualidade do jogo, mas ela me deixa cada vez mais convencido de que andamos reinando num universo muito distante do jet set. Não por falta de jatinhos.  

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Me dá um dinheiro aí

A mobilização dos corintianos para pagar a dívida do estádio do time é um caso a ser estudado. O protocolo de intenções foi assinado na última sexta-feira.​ Confesso pra vocês que duvidei que a ideia fosse vingar. Não pela disposição dos fieis em ajudar, mas pela complexidade da operação. Não me passou pela cabeça que uma instituição pública como a Caixa fosse aceitar se envolver com tão singular operação. Mas o desenrolar dos fatos vai me jogando na cara que não deveria duvidar. Afinal, o banco já tinha aceitado entrar no negócio do estádio, cuja arquitetura jurídica desde sempre soou surreal. Mas pensando bem a Gaviões deve gozar de um histórico como pagador que põe no bolso a maioria absoluta dos clubes brasileiros. E ao longo da história já se mostrou capaz de grandes mobilizações. 

Espero que o jornalismo elucide, ainda que por tabela, os bastidores da ideia, suas minúcias. Seria muito salutar para a legitimidade da empreitada que tivesse nascido de maneira espontânea. Mas a estreita relação entre organizadas e clubes me faz crer mais em um trama do que num arroubo de paixão. O que lhe emprestaria legitimidade. E ao ser criada neste momento em que a estrondosa dívida corintiana tem andado na ordem do dia ela ganha um quê de salvadora. Mudará um pouco o foco. Ajudará a acobertar o contra indicado modus operandi dos dirigentes que seguem gastando como se os cofres estivessem cheios e a dívida ameaçadora não passasse de intriga de adversários e opositores. 

Sou do tipo que não daria um centavo para aliviar a barra de cartolas. Mas tenho curiosidade pelo andamento e pelos argumentos que as doações irão revelar.  Ainda que muitos dos doadores, sem dinheiro para bancar a mensalidade de um plano de sócio, sigam alijados das arquibancadas da custosa Arena. A imensa maioria verá no ato de entregar a bufunfa uma prova de paixão. E é uma possibilidade já que ela nunca fez questão de andar de mãos dadas com a razão.  Só acho que isso tudo não deve ser entregue assim, para usar um termo tão antigo quanto vaquinha, de mão beijada. Os corintianos que vão colocar a mão no bolso deveriam exigir que a Gaviões se tornasse credora do clube. E futuras quitações deveriam servir para obras sociais. Seria um modo de engrandecer a torcida que ao longo da história tem se envolvido com boas causas. Outras nem tanto, é fato. 

Estou longe de ser um especialistas no assunto, mas deve existir um modo, se não esse de nominar a Gaviões como credora, de fazer com que a doação não se encerre nela. Que se exija uma contrapartida. Não consigo entender de outra maneira. A moda pode pegar, vai saber. E daria aos clubes uma margem de manobra que embora soe inventiva num primeiro momento pode vir a ser danosa. Nossos dirigentes estão longe de ser uma categoria que anda precisando de ajuda. Tudo o que eles não andam merecendo é ter moleza. O termo vaquinha traz com ele algo de sútil. Imagine se neste momento se falasse em arrecadação. Essa outra palavra possível que suscita tantas coisas. Fisco, entre elas. E se defendi aqui essas posições é porque desde meu tempo de moleque uma vaquinha ou ajudava a todos, ou ajudaria alguém que andava merecendo. E esse não é o caso dos nossos cartolas, insisto. Imagino que a essa hora  alguns deles silenciosamente andam esfregando as mãos e lembrando daquela velha marchinha de carnaval que diz: me dá um dinheiro aí.  

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Um provocador barato



Entre tantas constatações a que o futebol nos tem levado aquela que diz que o jogo anda chato costuma soar insistente. Mas é interessante notar que quando alguém vem com essa muitas vezes não quer colocar no divã o jogo. Quase sempre o comentário diz respeito aos que o praticam. Há por trás de tal colocação a saudade de certos personagens que com seu jeitão acabavam por emprestar alguma graça ao futebol. Foi-se o tempo em que artilheiros usavam os microfones dos repórteres para fazer apostas antes de um clássico e tal.  Sou capaz até de afirmar que foi com essa tática que muito jogador meia boca ao longo da história se fez notar e garantiu um lugar de destaque nela sem que a habilidade com a bola lhe fosse realmente fina. 

Nesse universo tivemos um fora de série, Dadá Maravilha, cujo virtuosismo retórico dispensava coadjuvantes ou desafiados tamanha era a capacidade dele para se autodefinir e se promover que não tenho medo de lhe apontar como exemplo mor dessa arte. Tipos eram muitos. Mesmo Renato Portaluppi, hoje treinador do Grêmio, quando jogador integrou esse time. Mas com um discurso cuja receita não disfarçava uma dose alta de malandragem e vaidade. Esse vazio mostra bem a pobreza do futebol já que até de personagens falastrões andamos carentes. E se aqui faço uma ode aos que deram notória contribuição para tornar menos chato o jogo aproveito pra dizer que tiro o chapéu para os que foram capazes de colocar na fórmula os adversários a tornando mais humana. 

Deyverson, o Deyvinho, que hoje veste a camisa do Atlético e virou notícia na vitória do time mineiro sobre o Grêmio dias atrás há tempos tenta um lugar no panteão dos folclóricos. Perguntado sobre o fuzuê que encenou com os adversários se defendeu dizendo que era assumidamente um provocador e que não teria como mudar de estilo. Foi acusado de querer crescer pra cima de um jovem lateral que iniciava pela primeira vez uma partida como titular. E, se assim foi, o ato se vestiu mais da velha malandragem do quede estilo. É fato que não tivesse Deyvinho vira e mexe marcado gols importantes seu viés presepeiro já estaria escancarado. Mas Deyvinho não é exatamente o cara do sarro saudável, do tipo que chama para cena um adversário. 

Não custa lembrar que muitos dos desafios que jogadores de outros tempos encaravam tinham até uma pegada social pois a moeda cansou de ser doação de cestas básicas. Confesso que considero Deyvinho figura simpática mas a provocação dele redunda em desserviço para o futebol brasileiro onde encenações grotescas só engrossam a chatice do jogo.  Já entrou para a história o lance na final da Libertadores diante do Flamengo em que Deyverson se atira ao chão, simulando dores lancinantes, sem se dar conta de que o leve toque que tinha recebido nas costas havia sido dado pelo juiz da partida. Um caso explícito em que um gol importante acabou - sem que se notasse - lhe servindo de atenuante. De outra forma justificaria o veredicto de que tem mais vocação para a comédia do que para o futebol.  Além do mais, até hoje o único provocador verdadeiramente elogiável que conheci atendia pelo nome de Antônio Abujamra. Que aliás, me disse mais de uma vez que tinha jogado no Internacional e, creiam, mandado para reserva o lateral Oreco, por sua vez reserva de Nilton Santos na Copa de 58. Se liga, Deyvinho! 

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

A Seleção e o Santos



Hoje à noite a Seleção Brasileira estará em campo. Terá pela frente o vice lanterna das Eliminatórias, o Chile. Em outros tempos tal encontro talvez não despertasse maior preocupação, mas esse tempo passou. E como o embate se dará na capital chilena não foi incomum nas últimas horas dar de cara na crônica esportiva com prognósticos que pedem cautela. Que falam em jogo complicado. E não dá pra dizer que sejam comentários descabidos. Mesmo porque neste momento o honrado escrete nacional repousa na quinta colocação com o mesmo número de pontos da Venezuela. Mas a Venezuela, atentem, pode até dizer que anda fazendo boa campanha. A ver como se sai hoje diante da Argentina. 

Tudo depende do ponto de vista. Nos jogos anteriores o Brasil venceu o Equador, que está acima. Mas perdeu para o Paraguai, que está abaixo. Não é de hoje que a Seleção vem encolhendo treinadores, se é que me entendem. Dorival que se cuide porque, no popular, essa é uma Data Fifa pra sair da lama. Afinal, depois do vice lanterna teremos direito a um encontro com o lanterna Peru, que a depender dos resultados poderia sair dessa condição mas para isso amanhã teria de, pelo menos, vencer o Uruguai. A situação é tão esquisita que por mais que o torcedor se mostre descontente a cada convocação é difícil imaginar que os nomes mudem radicalmente. Boa parte dos que já deram a cara deve permanecer, mesmo com idas e vindas, até a próxima Copa do Mundo. 

E se tem uma coisa muito clara na minha opinião é que a Seleção não está dando liga. Há quem diga que não temos jogadores fora de série, não deixa de ser verdade, mas estou convencido de que com o que temos - e com alguma dose de magia - seria possível ir além. Quem sabe até resgatar um quinhão do respeito e da simpatia da nossa maltrata torcida. E por falar no humor da torcida, a do Santos deu outra azedada neste começo de semana. A euforia de um jogo que poderia levar o Peixe de volta à liderança da Série B desaguou em derrota para o Goiás. E já faz tempo a relação dos torcedores com o treinador santista tem sido uma questão. 

Carille visivelmente não vem aliviando. A torcida também não. Mas nunca repensar essa relação se fez tão necessário. E urgente! No sábado, quando o Santos voltar à Vila Belmiro para receber o Mirassol, candidatíssimo a uma das vagas, nada será mais sábio do que apoiar o time.  E que já preparem os ânimos porque será inocência esperar um time de encher o solhos. No máximo um time fazendo uma apresentação acima da média parece plausível. E Carille, que andou dizendo que o clima que encontra nas ruas é diferente daquele que tem sentido nas arquibancadas precisa perceber o óbvio: não são os que ficam pela rua que se encarregam de dar o tom no estádio. 

Ah, e que o comandante santista tenha a sensibilidade de perceber que nessa reta final de campeonato voltar a não dar as caras em uma coletiva pós-jogo seria algo muito inadequado.  Maus exemplos nesse sentido andam fartos por aí. E certas reponsabilidades são intransferíveis. É absolutamente compreensível que, do alto de toda experiência que adquiriu, Carille não queira mais engolir sapos ou fazer média. Que se mostre muito seguro a respeito do que pensa e faz. Mas flertar com a antipatia jamais será boa tática. E, além do mais, voltar à elite do futebol brasileiro é algo que parece encaminhado, jamais garantido.