quinta-feira, 2 de abril de 2009

Um olhar sobre o goleiro

Dias atrás a confissão do goleiro da seleção brasileira, Júlio César, de que em outros tempos “tinha medo do gol” me fez viajar no tempo. Fui jogador humilde. Moleque, jamais briguei por um lugar no ataque. Nunca me dei o direito de não voltar pra ajudar a defesa. Consciente de que iria satisfazer melhor a expectativa dos amigos se jogasse perto da área, ajudando a espantar o perigo.

Às vezes não resistia à tentação de avançar em direção ao gol, amparado na crença de que mesmo o maior perna-de-pau tem direito a um lance de sorte.

E na única vez que tentei fazer parte de um time de verdade foi para encarar a ingrata missão de defender a meta. Não foi por acaso. Há tempos ensaiava pontes magníficas nas peladas. E as ensaiava com a vontade e a determinação de um camicase, principalmente nos momentos em que os duelos eram travados na espaçosa garagem do prédio em que morávamos. O chão duro poderia ser um castigo a mais, poderia. Mas realidade e sonho se fundiam, e a ilusão de que estávamos sobre um gramado vencia a dor de jogar no azulejo bruto. Meus cotovelos viviam constantemente inchados por causa dessa ilusão.

Depois de cada bola interceptada lá no alto vinha uma breve narração para saudar um ídolo da posição:
_ Maaangaaaa!


De repente, as palavras de Júlio César me fizeram lembrar muito bem que para estar lá é preciso mesmo vencer o medo. Recordo que muitos na hora de assumir o posto, em geral depois de um par ou ímpar - ou de uma intimada mesmo - não resistiam e avisavam, em tom de súplica:
_ Não vale bicão! - que significava encher o pé. Carimbar o coitado embaixo da trave.

Sabíamos todos que, ao contrário das outras posições, usar toda a força era uma bela arma contra os arqueiros. Apesar disso há, ali naquele lugar, um prazer que só descobrem os que aceitam essa penitência que pode ser recebida de luvas.

Há um pacto diferente entre o goleiro e a bola. O goleiro não quer enchê-la de efeito, não quer dominá-la com o pé, não quer dar chapéu, lençol, toque de letra.

E pensar que esta semana quando a nação despertou envergonhada na manhã de segunda-feira, por causa da seleção brasileira, só havia a imagem de um goleiro para confortá-la.

É preciso deixar claro que escrevo este artigo antes da seleção entrar em campo para enfrentar o Peru. Mas quero deixar claro, também, que nem a mais magistral das exibições me faria mudar de idéia.

E se Dunga se rendeu ao virtuosismo de Júlio César contra o Equador terá sido o único momento em que meus olhos viram a mesma coisa que os dele, porque não é possível que ele veja o mesmo Gilberto Silva que eu vejo. Ou que os olhos dele não tenham visto em Hernanes aquilo que os meus vêem.

Sobre Ronaldinho Gaúcho nem se fala porque, nesse caso, eu é que não quero acreditar no que meus olhos têm visto.

4 comentários:

Cláudio Amaral disse...

Cláudio Amaral precisa falar com você: +11 9995-7621

Anônimo disse...

Amigo Vladir... Belo texto.
Me identifiquei muito com suas palavras. Pelo meu futebol também humilde e pela experiência de por vezes já ter sido um guarda-metas. Treinado por um tio goleiro quando eu era menino. Me encantava com as defesas as quais ele conseguia fazer.
Depois de crescido, pude jogar ao lado dele, dessa vez comigo na linha e ele não me decepcionava.
Mas creio profundamente naquela frase antiga "centroavante e goleiro não são meras posições. São de fato profissões!" Há uma magia ali debaixo daqueles três paus difícil de se explicar...

Quanto ao Dunga, jamais existirá um treinador no Brasil que gozará de unanimidade. Não acho o Dunga pior que o Parreira, por exemplo. E quanto ao Gilberto Silva e ao Hernanes, todos os técnicos que eu conheço tem suas "teimosias". Seja em clube ou seleção...

Podemos fazer uma lista de tais teimosias...

Ou você vai me convencer de que o Pará improvisado na nossa lateral esquerda não seria melhor do que o Triguinho?

Grande abraço.
Ton
waguaru@hotmail.com

Vladir Lemos, jornalista disse...

Caro Ton,

muito me alegra descobrir esse nosso traço em comum no futebol. Você sacou a alma do texto, por motivos óbvios, né? Quanto ao Dunga, acho que ele é legítimo. Só acho que ele deveria relaxar, essa coisa do enfrentamento com a imprensa só piora tudo pra ele.

Bom, e a lateral do Santos...diria as laterais. Ah! O Pará vai jogar, do outro lado, vejamos...

Abração

Vladir Lemos, jornalista disse...

Ô Claudio, será que podemos falar via e.mail?

vladirlemos@tvcultura.com.br

Abç