quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Nosso futebol sem saída



Os primeiros capítulos da novela vivida pelo Flamengo na semana passada no Equador, se vendo em outro país precisando trazer de volta ao Brasil seis jogadores infectados por Covid, tendo de armar uma logística que além disso permitisse levar até lá outros quatro para substituí-los, já seria mais do que suficiente para provar que ter em andamento a Libertadores do jeito que está é um descalabro. Mais bizarro do que esse capítulo só mesmo o segundo provocado pela situação. As autoridades de Guayaquil analisando tudo que estava acontecendo, decidindo - como parecia mandar o bom senso - suspender a partida, para em seguida tomarem uma invertida das instâncias superiores que permitiram a realização do jogo.

Um enredo que deixa tão na cara a queda de braço que tem se desenrolado nos bastidores desde que se passou a falar na volta do futebol. O Equador, enquanto país, teve nas mãos, uma chance incrível de se mostrar digno de elogio. Mas como dá pra notar falou mais alto o compromisso com o que poderia ser - e era - do interesse da Conmebol do que uma quase abstrata preocupação com a saúde dos atletas e dos envolvidos com o evento. Toda essa esbórnia redundou num verdadeiro surto que se abateu sobre o clube rubro-negro atingindo jogadores, comissão, diretoria. E tudo seguiu como antes, por incrível que pareça. A razão é óbvia. Ao decidir manter a Libertadores do jeito que estava e o Brasileirão também, os homens do futebol colocaram a navalha no próprio pescoço. Não há uma data para respiro. 

O calendário está esgotado. E diante disso aceitar um adiamento seria comprometer tudo. Correr o risco alto de um efeito dominó. Em outras palavras, esses torneios com suas doses cavalares de jogos terá de ser mantido a qualquer preço. E a postura quase mórbida do Flamengo desde o início, voltando aos treinos sem autorização, deu a esse cenário todo um quê de efeito retroativo, colateral. Mas que ao mesmo tempo condena a todos pagar pela imprudência, quicá com a própria saúde. Mais incrível que isso só mesmo a insensibilidade de se levar adiante a discussão sobre a volta da torcida.  Como se falou aos quatro ventos, convocar uma reunião com participantes remotos para discutir se outros podem estar juntos beira a piada, de mau gosto obviamente. 

A exigência de alguns cartolas de que a volta só se desse se a resolução valesse para todos tinha um ar de argumento feito sob medida para forçar o libera geral.  Mas tudo foi por água abaixo quando o governo paulista disse não, sem titubear, apontando decisões técnicas. E, notem, tendo pela frente um jogo da Seleção Brasileira pelas Eliminatórias que será disputado em São Paulo. Em sintonia com a postura adotada na maior parte do tempo a resolução soou como uma bola entre as pernas da cartolagem. Até porque da parte de quem comanda o futebol essa pregação por igualdade tem um ar  de história pra boi dormir, já que em muitos casos, e no caso do Brasileirão, inclusive, aceitaram que a bola voltasse a rolar com os times vivendo estágios de volta e preparação totalmente distintos. Enfim, em matéria de futebol em tempos de pandemia o bom senso respira por aparelhos, poucos parecem dispostos a salvá-lo. 

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