O tema não é novo. Há tempos os torneios estaduais minguaram. E, por mais que possa parecer, a razão de sua teimosa sobrevivência não está na tradição, está nas cifras que sustentam. O que vale, principalmente, para o Campeonato Paulista. De longe o mais abastado entre seus semelhantes. Talvez o tema se faça um tanto sem sentido para os mais novos, que já os conheceram despidos de trajes nobres. A coisa mudou tanto que chego a ter a impressão de que hoje em dia um título estadual
não teria apelo suficiente para livrar verdadeiramente um time grande da sensação de jejum e de toda cobrança que se dá na ausência de triunfos.
Foi-se o tempo em que um Estadual cumpria o papel que cumpriu a edição paulista de 1977 quando o Corinthians ao bater a Ponte Preta levou a fiel torcida até o céu que o jogo de bola sempre promete. Com direito a suspensão das aulas e outras tantas alterações no cotidiano só possíveis quando esse tipo de caneco era cultuado pra valer. Nem seria preciso recuar tanto no tempo para explicitar o que a história fez com eles. As duas finais entre Palmeiras e Corinthians no início dos anos noventa, lembro bem, ainda tinham aura nobre, provocavam uma mobilização considerável. Mas sou obrigado a reconhecer que àquela altura a rivalidade entre os dois, é bem possível, já cumpria sem que se percebesse o papel de turbinar importâncias.

Final 1995 - Foto: Ricardo Correa -Placar
E essa decadência, tão evidente, este ano ganhou outra dimensão. Não bastasse a diminuição das datas reservadas a eles, o ajuste do calendário que adiantou o início do Brasileirão o condenou de vez à sombra. Sou capaz de entender as razões. Não sou um lunático disposto a bradar contra os times mistos, os times poupados, os times de base no lugar do profissional. Nada disso. Apenas acho que isso tudo abriu um precedente e, amparados nele, muitos resolveram jogar contra os estaduais também. A CBF que, quando viu a bola pingando na área com a necessidade de mexer no calendário em ano de Copa, não pensou duas vezes para lhes tomar algumas datas, já que isso viria a servir por tabela para minar e mandar recado a quem tinha se revelado oposição.
Mas, na minha opinião, o golpe que parece ter levado os estaduais às cordas, em especial o outrora chamado Paulistão, é uma mescla que une a inoperância dos dirigentes ao comodismo dos treinadores. Ao menos é essa a impressão que tive ao acompanhar alguns jogos neste início de temporada. Pra mim é visível a falta de interesse de muitos times para jogar essas partidas. E aí é claro que falo de times que têm horizontes que vão além das fronteiras estaduais. Ainda que para alguns essa condição seja discutível. São muitos os momentos em que fica claro que a vitória deixou de ser prioridade. Se pensa nela até, mas sem estar disposto a correr riscos, a agredir o adversário.
E o resultado desse tipo de escolha sabemos todos é um jogo no estilo "tico-tico" no fubá que não tem tamanho. Entenderia totalmente o torcedor que se levantasse da arquibancada, dando às costas ao time, gritando que lhe avisassem quando estivessem a fim de jogar bola, pois aí quem sabe decidisse voltar. Como afirmei acima, entendo muitas questões, mas as propostas, as ideias de jogo que se apresentam, beiram a covardia. Num tempo em que os entendidos afirmam que a ciência nos deixa saber exatamente quantos minutos um atleta pode atuar, a ausência de intensidade não se justifica. Conclui-se que quem foi a campo estava apto ao embate. Ou, os elencos no início da temporada são mesmo um mar de atletas meia bomba. O Flamengo anda reforçando essa tese.

















