Não se deixe levar pelo tom pouco sério que o título pode sugerir. O escolhi com a intenção de deixar cair sobre o elegido o véu de certa descontração. E também por acreditar que é assim que gente de tal envergadura é tratada no popular, quando, de repente, o nome do tal surge numa conversa de bar. Não que a descontração combine com ele. Não se trata de um nobre, no que diz respeito a títulos e afins, mas é impossível negar-lhe importância. E se acabei seduzido por este homem foi também porque, de certa forma, ele me permite falar de futebol seguindo uma mesma linha, já que na semana passada o assunto aqui foi o futebol brasileiro, e este personagem me dá a chance agora de um olhar sobre o jogo de bola mas com pretensão mundial. O que esclarece também porque afirmei que a aparição do sujeito em conversas de bar não deve causar surpresa.
Nasceu na era dele, por exemplo, essa coisa de Copa com quarenta e oito seleções, em várias cidades e, como não tarda veremos, até em três continentes. E isso, convenhamos, é coisa que o torcedor tem bons motivos pra cornetar na roda com os amigos. Onde já se viu, não é? Bom, ainda não se viu , mas não demora o homem nos fará testemunhar essa invencionice. E se hoje sabemos muito bem de quem se trata é porque na semana passada ele comemorou uma década no cargo importante que ocupa. E que fez dele alguém que todo mundo que tenha a mínima intimidade com o mundo do futebol conhece. è o cartola-mor. E espero que esta maneira pouco formal de tratá-lo não seja vista como falta de respeito. Se a uso é para reforçar a linguagem descontraída que me esforço aqui para lapidar desde que o título me veio à cabeça.
Mas pra não perder o fio da meada e justificar a razão de ter citado a oportunidade de manter uma linha no tema, é porque se no artigo anterior desta folha disse que pouco pensamos o futebol brasileiro, pensamos muito menos o papel do futebol no mundo. E a biografia recente desse figurão é um bom recorte para tornar claro como o jogo de bola anda sendo cuidado. Ou usado. Tenho dúvidas sobre o termo mais apropriado neste caso. Suíço italiano, de pai nascido na Calábria e a mãe na Lombardia, frequentou manchetes na semana passada em virtude dos dez anos completados onde foi apresentado como alguém que expandiu competições e aproximou a principal entidade do futebol mundial de disputas geopolíticas.
Fato é que andou forçando tanto a tabelinha com a política que acabou investigado pelo Comitê Olímpico Internacional, do qual faz parte também, sob suspeita de violar as regras de neutralidade da entidade. Se viu absolvido defendendo que não fazia mais do que cumprir seu papel ao fomentar esforços de reconstrução em lugares como a Faixa de Gaza. A investigação tinha se dado a partir da presença dele, em Washington, na reunião inaugural do Conselho de Paz, criado por Donald Trump. Esse mesmo que anda colocando o mundo em pé de guerra. O problema desse tipo de parceria, de tabelinha, é precisar uma hora mandar a bola para outro lado.
E não dá pra deixar de citar aqui o fato desse figurão ter sido visto vestindo boné dos USA com inscrições notadamente políticas, o que nos instiga a perguntar que tipo de neutralidade é essa que se tenta preservar. Que o futebol possa e deva ser usado para defender grandes causas é coisa que não se discute. Mas defender o fim da proibição da Rússia em competições internacionais decretada depois da invasão à Ucrânia, como ele fez recentemente, parece não levar em conta, entre outros fatores, a pressão que o futebol pode fazer a favor da tão falada e abstrata paz. Mas quem sou eu para dizer como o futebol deve ser tratado no âmbito global. Só me causa preocupação um figurão desse dando a impressão de já não poder se negar a vestir um boné sob pena de começar uma guerra. Talvez seja o caso de perguntar a Gianni Infantino o que ele acha.

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