quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A crença na camisa 10

Foto: Fluminense 


Nos dias atuais em que gols de falta e dribles rareiam é preciso que o torcedor encontre algo em que se amparar. De misérias já chegam essas a que o mundo nos condena para além -  ou aquém - das cifras que guardamos nos bolsos ou nos cofres. Não dá pra residir nesse deserto sem crer que ainda há escondido em algum lugar um oásis para matar essa nossa sede de grande lances sobre os gramados, muitos deles já deixando transparecer aquela morbidez que costuma rondar as samambaias de plástico nos consultórios. Nesse reino do futebol desde sempre tão fértil para superstições, parece estar pra nascer mandiga capaz de fazer ressuscitar o encanto que um dia cercou o jogo. 

A penitência é tamanha que começo a desconfiar que tudo não passa de ilusão. Que teimamos em alimentar essa esperança só porque o tempo foi editando tudo, livrando do desaparecimento fragmentos que mereciam perdurar. O gol iluminado de Falcão certa tarde no Beira-Rio, os dribles de Garrincha, os lances singulares encenados por Pelé, Zico cobrando uma falta com impiedosa precisão. Peço desculpas aos que, mais vividos do que eu, tenham sido testemunhas oculares de que esse futebol dos sonhos um dia foi possível, que existiu. A esses peço que sejam indulgentes. Talvez isso aqui não passe de lamento de um desiludido.  

Pensando bem, é possível que tudo isso seja fruto do tempo que me foi dado viver. Nem aquele em que o futebol se revelava fascinante,  nem esse outro de agora no qual a beleza nele não passa de um vestígio. Insisto nessa versão porque não consigo ignorar que o presente muitas vezes se revela mais pesado do que o passado, de quem ousamos guardar só aquilo que nos interessa. E mais pesado também do que o futuro que, sabemos, moldamos a nosso bel prazer, por mais que as evidências sugiram de modo gritante que não tardará o momento em que passaremos a não ter mais direito a um. 

Mas quero crer que nada estará totalmente perdido se continuarmos a ter um camisa dez por perto. A gente acredita em cada coisa. É fato, no entanto, que a essa altura do campeonato já não parece justo depositar sobre as costas deles este fardo. No fundo, preciso confessar: o que vai aqui é uma reverência a eles. Que se não irão nos salvar da pasmaceira, poderão nos deixar com a sensação de que nem tudo está perdido, que ainda há uma trincheira com uns pouco gatos pingados tentando debelar abstrato inimigo. Elegi o tema levado pela leitura de uma matéria que apontava quais eram os camisas dez nos quais deveríamos ficar de olho nesta temporada. 

Paulo Henrique Ganso estava lá. Acaba de completar 300 jogos pelo Fluminense. O mais clássico dos que temos à disposição. É por causa de caras com a visão de jogo dele que sigo acreditando que se um camisa dez não seria exatamente a salvação poderia funcionar, no mínimo, como um agradável paliativo. Menphis também estava listado. Mas dele me recuso a falar. Nunca tive a ilusão de ser perfeito, ainda que tenha sido acusado por vezes de tentar. Sou do tipo que não engole alguém vestir a camisa dez por contrato. Em outros eu acho que é muita areia pro caminhãozinho. Caso de Gustavo Scarpa, do Atlético Mineiro. E isso nada tem a ver com considerá-lo um mau jogador. É refinado até, mas a dez pra mim exige mais do que refinamento. 

Não sei é um jeito de se portar. De conseguir tratar o jogo de maneira muito original. Como um chef que ao fazer um prato trivial o faz notadamente melhor do que todo mundo. Se encaixa no modelo pra mim mais o futebol de Everton Ribeiro do que o do Scarpa. Refinamento que não consigo enxergar em Luciano, do São Paulo, que talvez tenha alcançado a honra pelo conjunto da obra e pela insistência em se irmanar com a torcida tricolor do que propriamente pelo futebol. No meu entendimento nasceu para ser um nove, ainda que falso, se é que me faço entender. Enfim, atualmente só uma coisa além de um camisa dez de fina estirpe me faz crer que o futebol possa ter salvação, os canhotos. Mas dessa crença falamos outra hora. 

Nenhum comentário: