quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O sucesso é ofensivo

O craque e o Rei


O conceito de craque é algo que sempre vai dar o que falar. Mas muitos do que desfilam por aí com esse peso sobre os ombros o ganharam sem muito esforço, sem merecer mesmo.  Foi-se o tempo em que se usava o termo com parcimônia e os laureados davam conta do recado. E quando ele se faz fácil o tempo tem tudo pra transformá-lo mais em castigo do que em benção. Craque é reconhecimento complicado de tratar e dar conta. Mas já que é pra falar de craques escalo aqui um de cujo talento não tenho a menor dúvida: Antônio Carlos Jobim. Homem que para além de maestro, viu antes de muitos o que o homem andava a fazer com o planeta e foi, talvez, um dos grandes interpretes desse nosso país ao mesmo tempo tão lindo e tão surreal. 

Dizia Tom Jobim que sucesso no Brasil é ofensa pessoal. E aos que já não aguentam mais ouvir falar de Flamengo sugiro ir se acostumando  porque a incompetência dos outros tem tudo para fazer o reinado do time da Gávea longevo. Mas aqui em terras paulistas é o Palmeiras que verdadeiramente corrobora a frase do maestro, com ajuda imensa do grande tempero do jogo que sempre foi o ato de secar. A lógica que alimenta tudo isso é muito óbvia. O que sobrou do trio de ferro pouco amedronta. E o Santos com a pobreza das últimas temporadas e esse misto de clube que ainda não virou SAF - mas já tem dono  - pouco anda podendo fazer para ajudar a quebrar essa lógica. 

E essa indigência, ou quase, dos grandes rivais só agiganta o sucesso do Palestra. Acho até provocador escrever isso aqui depois do Palmeiras ter sido vice duas vezes, coisa que muitos tentam usar para negar o sucesso do clube alviverde. Logo, quando Flamengo e Palmeiras se colocam frente a frente nos últimos tempos o que se vê por estas bandas é uma imensa torcida para que o triunfo acabe na cidade maravilhosa, o que significa também mandar o incômodo sucesso para bem longe daqui. Afinal, ter de lidar com ele é terrível.  Então, é melhor que se dê longe. Essa realidade, essa constatação, talvez sirva também  para aliviar um pouco a barra de Abel Ferreira. A quem não se pode negar o título de bem sucedido. 

Mas nesse sentido a impressão que tenho é que o português com seu comportamento muitas vezes discutível, seus atos lamentáveis à beira dos gramados, dão certo ar abstrato a humildade que deixa exalar, e fazem do sucesso dele uma, como disse o maestro, ofensa das boas. Por essas e outras tenho claro para mim que Abel, definitivamente, tornou o Palmeiras um time mais antipático para seus oponentes. Só não sei decretar com precisão a dose que o comportamento dele e o sucesso têm nisso. Mas vou avisando aos incomodados que dificilmente a banda tocará de outro jeito na temporada vindoura. 

Por falar nisso, vendo o ano que se vai em perspectiva sou levado a crer que devemos levantar aos mãos e agradecer a contribuição dada pelo Cruzeiro, pelo Mirassol, pelo Fluminense com a assinatura de Zubeldía, e mesmo pelo notável esforço feito por Fortaleza e Vitória na reta final do Brasileirão, pois sem isso tudo o principal torneio de futebol do nosso país teria sido infinitamente mais pobre. O que sob certa ótica mostra que é possível sim se fazer honrado mesmo sem direito a desfrutar do sucesso de modo absoluto. 

Fazendo aqui uma reflexão sociológica arrisco dizer que com todas as armadilhas que o sucesso esconde o Flamengo tem lidado melhor com ele. Fruto, talvez, de ter optado por um elenco mais maduro. Sem contar que quase sempre foi visto como dono de uma excelência maior do que a de seu principal desafiante.  A juventude pode, no entanto, dar ao Palmeiras um horizonte maior sem ter de fazer grandes mudanças no elenco.  Mas é fato também, que dois anos sem um título de grande expressão colocaram o time e Abel na fronteira que separa o sucesso da desconfiança. E aí não há alternativa... só o sucesso em estado puro salva. O que certamente soara como ofensa, aos outros.         

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Uma aposta quase inocente



Aposta já foi coisa inocente. Houve um tempo em que elas, mesmo podendo ter um viés pernicioso, emprestavam certa graça ao cotidiano. E não foi à toa que acabaram infestando o mundo do futebol. Pode-se apostar em tudo. Que vai, ou não vai, chover. Que você, num arroubo de valentia, vai pagar trinta flexões sob o olhar incrédulo de quem topou a parada. Mas o futebol com essa alma de jogo indomável sempre lhe foi terreno fértil.  Nunca me esqueço que certa vez um editor de imagens, muito dado a esse tipo de desafio, fez questão de travar duelo com um outro editor, palmeirense, tendo em vista o derby que o final de semana lhes reservava. 

Mas o que fez desse episódio algo inesquecível foi a trama que se deu tendo a contenda como ponto de partida. O corintiano era falastrão. Não costumava deixar passar batida a mínima gracinha sugerindo que o time dele não seria capaz de lhe ofertar uma vitória em campo e, por tabela, nas apostas, nas quais nunca pensou duas vezes pra aceitar. Ocorre que certa vez o desafiante, não contente em tirar dele umas cervejas, propôs que o perdedor teria de vestir a camisa do rival. Como o desafiado não era de fugir da raia, deram-se as mãos e esperaram com ansiedade o desenlace que o deus do futebol ia perpetrar.  

O que se deu foi que o corintiano perdeu. E encarecidamente pediu que o pagamento da aposta fosse feito de forma reservada. Ocorre que todo mundo queria, claro, saber como a coisa ia se dar.  E o mais sacana deles fez questão de se esconder perto do lugar marcado e quando o homem vestiu a camisa do Palmeiras saltou na frente dele e fez o clique. Estava registrado para sempre aquele gesto que não durou mais do que uns poucos segundos. Foi colocar e tirar a camisa. Mas o registro ficou durante anos pregado no quadro de fotografias do departamento. O mais legal dessa história é ter visto que na foto o perdedor tinha no rosto um sorriso bonachão, de quem levou a brincadeira na esportiva, como diziam antigamente. 

E olha que o homem é dono de um vozeirão desses que por si só impõe e respeito. E nunca foi um cara de modos suaves, apesar do imenso coração. Essa lembrança me veio depois de eu ter ficado sabendo que o STF decidiu que cartão forçado - a pedido de apostador - não é manipular resultado. E isso quase me fundiu a cuca. Primeiro porque dá uma ideia de como aposta virou coisa séria. Em segundo porque sou capaz de entender que apurar se um cartão foi, ou não foi forçado, é tão difícil quanto decretar que esse ou aquele boleiro deu "migué". E quantos por aí mesmo sem prova viraram sinônimo disso. 

Agora, quem é que pode afirmar que um cartão forçado, feito a pedidos, não manipulou resultado se as casas de apostas topam remunerar quem acerta quantas vezes eles serão vistos em uma partida? Digo a vocês que sou capaz de entender que a sentença queira estabelecer que manipular resultado venha a ser alterar diretamente um placar. Mas discordo. E não me peçam para chegar a alguma conclusão que isso aqui é só um artigo e não um tribunal. De minha parte estou convencido de que isso não vai ficar assim. E digo a razão. Pode-se até dizer que não houve manipulação do resultado, mas manipulação houve, nem que tenha sido a da realidade que cercava o jogo. E vos digo mais. O futebol pode até deixar uma questão dessas  barato, mas as casas de apostas, duvido. É grana que está em jogo. Quer apostar?    

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

É preciso mais do que Fair Play



O futebol brasileiro ensaia um passo de modernidade com a CBF anunciando regras de Fair Play financeiro coisa e tal. Acho louvável, ainda que me esfrie totalmente os ânimos ter ciência de que o que foi proposto irá valer mesmo lá para 2028. E é bom que se diga que estabelecer regras não vem a ser exatamente transformar o futebol em algo limpo. Seria preciso muito mais do que isso. Do ponto de vista da grana tornar o futebol transparente se faz infinitamente mais desafiador do que, por exemplo, fazer com que nossos árbitros ao apitar tenham os mesmos critérios, coisa tão reivindicada nos dias atuais. Vejam. O futebol inglês, tido como o supra sumo desse universo, já se sabia há mais de dez anos tinha mais de quatro bilhões de euros em paraísos fiscais. Foi o que apontou uma investigação feita no Reino Unido e que, na época, não deixou dúvidas de que essa era uma tendência entre os clubes daquele país. Trinta e oito deles estavam usando a tática. Ou seja, um a cada quatro, distribuídos pelas várias Ligas disputadas por lá.

A razão mais óbvia para adotar esse tipo de estratégia é dar um drible no Fisco. Mas diante do que tinha sido apresentado os envolvidos com entidades que tratam da Transparência Internacional não tardaram a avisar que o risco obviamente não era apenas de evasão, mas o de atrair criminosos interessados em usar o futebol para lavar dinheiro. É certo que esse tipo de conduta está longe de ser exclusividade do futebol. Mas, seja como for, é dele que tratamos aqui. E sendo assim, tão importante quanto estabelecer regras de Fair Play financeiro seria fazer com que o futebol se livrasse de todo o dinheiro sujo. Também é interessante notar como é que isso tudo vai se dando por aqui. O futebol brasileiro já teve times históricos, times mais ricos do que a maioria, já teve times bem sucedidos, cujo corpo administrativo era considerado exemplar. Mas o tempo transformou todos eles em pó. 

A realidade atual é de uma hegemonia financeira e administrativa encarnada em dois clubes: Flamengo e Palmeiras. Os dois se fazem notadamente distintos de todos os outros nesses quesitos, ainda que em campo, muitas vezes, essa supremacia se dilua. Diante dessa realidade exemplar que nunca perdurou, se perguntar quanto tempo esse sucesso vai durar é inevitável. Afinal, como está dito, até aqui o jeitão de gerir os clubes de futebol tratou de tornar evidente que todos os projetos tidos como de sucesso escondiam uma base frágil, que mais cedo ou mais tarde acabou minada por interesses outros.  Mas é fato que o que foi construído até aqui por Flamengo e Palmeiras está tendo papel fundamental no que estamos vendo, nessa tentativa de transformação, de avanço. 

Os dois conquistaram a condição de poder agora apontar o dedo para muitos de seus adversários os acusando de práticas financeiras mundanas. E aos acusados resta baixar as orelhas pois sabem todos que têm culpa no cartório. E como têm. Por essas e outras me forço para tentar ver mais além. Digo a vocês que se é assim que a banda toca neste momento, o bem intencionado futebol brasileiro - agora tão disposto a abraçar a modernidade - deve se livrar das dívidas de impostos, dos terremos grandiosos sempre cedidos com a desculpa das contrapartidas, das dívidas trabalhistas. A roupa do bom mocismo social já não lhe cai bem nessa era recém inaugurada em que as histórias que antes soavam como sendo de todos passaram a ter donos, a estar a serviço de interesses próprios. Ir arranjando as coisas é preciso, e dá até para se tomar como algo digno de elogio, mas uma coisa é decretar o Fair Play financeiro, e outra, muito diferente, fazer do futebol algo exemplar.