quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Ensaio sobre a modernidade



A modernidade é um conceito fugidio. No imaginário das pessoas talvez nem não combine com o adjetivo que usei, que soa ultrapassado. E do jeito que tudo se atualiza nos dias de hoje tenho a impressão de que ela seja algo tão inalcançável quanto a verdade. Perdoe certo ar filosófico. Comprometo-me a dissolvê-lo ao longo das próximas linhas. Mas é por causa desse seu aspecto indomável que nunca me ocupei dela. O que não é o caso do futebol. O jogo e sua entourage vivem deixando claro que é preciso estar sempre em sintonia com as últimas tendências. Mesmo que notadamente alguns conceitos tenham beirado a obsolescência ao serem abraçados pelos que pensam e tratam do jogo. Às vezes, em certas partidas, por exemplo, tenho a impressão de estar vendo o futebol europeu... dos anos noventa! 

Mas esta semana tive a prova cabal de que estamos parados no tempo. Ainda que o tempo não passe de ilusão, possivelmente como a modernidade. E essa descoberta se revestiu de um sentido ainda maior por estarmos às voltas com essa debacle dos torneios estaduais. E olha que o Paulistão ainda têm um fôlego de dar inveja a muita gente. Em nome de preservar elencos para uma temporada que promete não ser páreo nem para o mais bem preparado dos craques os times vão cumprindo a tabela como podem. Escalando garotos, recorrendo a recém chegados emprestados na temporada que se foi. Tudo para tentar reservar aos seus principais protagonistas um número de partidas que a comissão técnica e a ciência sugiram menos danoso.  

A essa hora vocês já devem estar se perguntando: e a prova citada? 

Bem, meus amigos, estava eu dia desses arrumando meus livros em casa quando dei de cara com um exemplar que trazia uma centena de crônicas de João Saldanha. Um entre tantos valiosos títulos já lançados pela editora "Livros de Futebol". Eis que abro a obra numa página qualquer. Segundos depois estou totalmente envolto e seduzido pela visão singular de um dos personagens mais interessantes que o futebol brasileiro já teve. E adivinhem vocês sobre o que versava? Sobre o número excessivo de jogos a que vinham expondo nossos jogadores. Profundo conhecedor do tema e, pelo que pude sentir, sendo ponderado ao estabelecer o que seria aceitável, João Saldanha defendia um máximo de cinquenta e duas partidas por temporada. 

E pensar que nos dias atuais esse número já gira, em situações normais, praticamente cinquenta por cento acima disso. Mas o que me espantou pra valer foi ter visto a data do artigo. De quando acham que seria? Imaginem aí um ano qualquer. Chutem. Há quanto tempo acham que um tema urgente desses poderia ter se colocado tão fortemente a ponto de causar grande indignação? Mil novecentos e sessenta e um, caro leitor. Isso mesmo! Há quase seis décadas e meia - bem mais do que meio século - os entendidos bradam que é jogo demais. Enquanto isso os estaduais tão valorosos no passado vão nos dando a impressão de que são apenas um ensaio de futebol.   

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