quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Pisando em ovos

Ainda que pisando em ovos faço questão de registrar aqui  o que penso a respeito do debate instaurado sobre o uso de grama sintética pelo futebol brasileiro. Olhando como o tema tem sido tratado pelas principais Ligas do planeta já daria pra ter uma ideia de que andamos na contramão do mundo. O que geralmente serve como prova de nosso atraso. E atraso num país como o nosso é coisa que já não deveria espantar ninguém. Imaginar que no estrangeiro o sintético é posto de lado por puro capricho não parece fazer sentido algum. Sei que pode soar oportunista mas há tempos vinha falando que essa se impunha como a grande pauta do futebol brasileiro. Algumas das pessoas que exercem o ofício comigo podem provar.  

Ocorre que o assunto infelizmente só virou pauta pra valer quando os atletas decidiram tomar posição. E seria bom que diante disso eles tomassem consciência da voz que têm, pois o que não falta é boa causa pra ser defendida, dentro e fora dos gramados, diga-se. E confesso que foi além do que imaginava a veia clubística dos torcedores na hora de tratar do tema. Pra falar a verdade me causou espanto a incapacidade de tantos em driblar interesses. Mas o torcedor terá sempre o direito de se apresentar no papo cego pela paixão. E se digo que não é de hoje que tinha pra mim de que se tratava de algo que merecia atenção é porque, por mais que se evidenciem outros detalhes, se trata de um tema ligado à saúde dos atletas. 

Quem acompanha de perto o futebol já tinha sacado que alguns jogadores andavam evitando encontros com o piso sintético. Mau sinal. Não creio que seja preciso grandes conhecimentos de superfícies e materiais para se chegar a conclusão de que o impacto num piso de grama natural seja diferente do que se tem quando se usa um piso sintético. Por mais que a tecnologia nos surpreenda a cada dia. É uma visão minha. E creio que o melhor disso tudo ter vindo à tona é provocar estudos  mais profundos a respeito do tema.  Algo que produza provas de alta patente. 

Tenho dificuldade para entender como cultivar grama num país tropical pôde se tornar um desafio dessa monta. Estariam as Arenas bem projetadas para usar a luz do sol ? Estariam os nossos clubes e cartolas dispostos a gastar com tecnologias que garantiriam a qualidade do gramado e, por tabela, do espetáculo? Por que razão a FIFA avaliza gramados sintéticos pelo mundo afora mas não os quer quando se trata de uma Copa do Mundo? Situação que me leva às declarações importantes que foram dadas uma vez que o descontentamento dos atletas tinha entrado em campo. Falo de afirmações como as feitas por Lucas Moura, atleta do São Paulo, que foi categórico ao afirmar que jogar em um campo sintético é totalmente diferente. É diferente o giro, é diferente o domínio. 

E disse mais, que muda totalmente a qualidade do jogo. Agora que venham os especialistas da tal grama sintética e digam que ele está exagerando, que não é bem assim. O futebol é um exercício motor de uma complexidade espantosa. A mínima mudança na velocidade da bola, no rolar ou quicar dela, altera tudo. Algo tão fino e sensível que talvez ainda não tenha sido criada máquina capaz de detectar.  E aí eu fico me perguntando, então, se o tal sintético também não vem aos poucos contribuindo para a perda de encanto do nosso futebol. Já que ajudar a melhorar, pelo visto, ele definitivamente não ajudou. E estamos cansados de saber que muito ajuda quem não atrapalha. 


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